Quando demitiu, de uma vez só, Alexandre Mattos e Mano Menezes, o Palmeiras teve a oportunidade de mudar de rumo, com uma cúpula de futebol que não necessariamente contasse com nomes grandes, mas que fosse mais alinhada com o que está acontecendo e menos com o que aconteceu. E realmente parecia que era isso que faria. O presidente Mauricio Galiotte chegou a dizer que “o futebol está passando por mudanças e precisamos acompanhar essas mudanças”. Só que, quando a negociação com Jorge Sampaoli foi finalizada, o escolhido do dirigente foi justamente o treinador cujo feito mais notório nos últimos anos foi rodar programas esportivos dizendo que o futebol não mudou. Parece um esquete de comédia.

Não há explicação para contratar Vanderlei Luxemburgo, além do bom e velho sebastianismo que parece ser a religião do Palmeiras. O mesmo que o levou a contratar Cuca menos de um ano depois de ele ser trocado por Eduardo Batista. O mesmo que o levou a buscar Luiz Felipe Scolari para o lugar de Roger Machado. Goste ou não do retorno do treinador que encerrou a fila em 1993, não há nada de novo ou diferente nele. É a repetição da mesma estratégia que deu mais errado do que certo nos últimos cinco anos, com alguns títulos importantes, sim, mas poucos momentos em que o potencial do elenco foi plenamente atingido.

Deveríamos estar acostumados à loucura do futebol brasileiro, mas ainda impressiona como tudo muda muito rápido. Na noite de sexta-feira, parecia certo que Sampaoli seria o novo técnico do Palmeiras. No domingo à noite, Luxemburgo foi anunciado. Em maio, Luxa estava há quase dois anos desempregado e lançando uma marca de cachaça. Em dezembro, assume um dos dois melhores elencos do país, de volta ao primeiro patamar de técnicos do futebol, pelo menos na qualidade do seu emprego.

E para isso, bastou um 12º lugar com o Vasco, somando 49 pontos. Quem também somou 49 pontos no último Campeonato Brasileiro foi Roger Machado, que ano passado, na opinião da cúpula do futebol alviverde, não servia mais para comandar o Palmeiras. A questão quando Luxemburgo anunciou que sairia do Vasco era o quanto a percepção do mercado teria mudado em relação a ele graças ao trabalho em São Januário. Parece que mudou significativamente, embora seja bom pontuar que internamente sempre houve muita gente no Palmeiras querendo o retorno de Luxa e era apenas uma questão de encontrar a desculpa e o momento adequado.

Foi longe de ser ruim a passagem de Luxemburgo pelo Vasco. Escapou do rebaixamento com folgas e forneceu um raro ano tranquilo aos vascaínos. Mas também não chegou muito próximo de ser realmente boa. Em uma análise fria, foi média, bem representada pela posição na tabela, mas parece melhor em comparação com os trabalhos anteriores do veterano treinador. Provavelmente o melhor desde que ele conseguiu levar o Grêmio à Libertadores com um terceiro lugar em 2012. Poderia ser um sinal de recuperação. Poderia não ser. Mas certamente não era o que o Palmeiras indicou que estava procurando.

É estranho que o clube que gastou tanto e muitas vezes tão mal nos últimos anos tenha desistido do seu principal alvo, que sob muitos pontos de vistas era o candidato ideal, pela falta de um acordo financeiro. Mas digamos que realmente fosse impossível pagar o que Sampaoli estava pedindo. A opção seguinte não pode ser Luxemburgo, a menos que Galiotte não tenha nenhuma preocupação em ser coerente. A questão não é tanto a filosofia de jogo, mas um giro de 180 graus no conceito por trás do nome.

A terceira opção, o jovem espanhol Miguel Ángel Ramírez, treinador do Independiente del Valle, manteria um pouco a linha do que se estava buscando, embora dificilmente também fosse o nome ideal pela sua falta de experiência. Mas, pelo menos, seria a tentativa de buscar um caminho diferente e oferecer algum tipo de novidade que empolgasse o torcedor. E, também, há mais do que três treinadores disponíveis no mundo e, por mais que seja importante definir logo o novo comandante para tocar o planejamento da próxima temporada, estranha tanta pressa no momento em que o futebol brasileiro acabou de entrar em férias.

A parte da empolgação funciona para quem se apega às memórias do que Luxemburgo fez no Palmeiras. O já citado título paulista que encerrou fila, o bicampeonato nacional, o incrível time de 1996 e até mesmo o estadual de 2008, quando o clube amargava outro longo jejum de títulos. Mas esse já foi um trabalho no geral mediano e, desde então, passaram-se mais de dez anos nos quais a sua decadência ficou mais visível a cada temporada, sem nenhum trabalho realmente excepcional nesse período.

Para não dizer que há zero chance de Luxemburgo dar certo no Palmeiras, pelo menos ele é um treinador que nunca foi defensivista e pode, animado por mais uma vez ter um grande elenco em mãos, tentar montar um time que joga com a bola e para frente – demanda atual de boa parte da arquibancada. Não houve questões graves de relacionamento no Vasco, o que vinha sendo um problema nos seus últimos trabalhos, e inclusive uma das partes mais elogiadas da sua passagem foi a maneira como administrou um vestiário com jogadores com salários atrasados. E é, claro, identificado com o clube e adorado por parte da torcida.

Entre 1976, com o ex-volante Dudu no comando, e 2015, com Marcelo Oliveira, apenas Felipão e Luxemburgo conquistaram títulos de primeira divisão pelo Palmeiras, com exceção da Copa dos Campeões sob o comando de Murtosa, auxiliar de Scolari que esquentava o banco antes de se juntar ao chefe no Cruzeiro.  É uma mística que leva torcedores e dirigentes do clube a acreditarem que sempre vale a pena dar uma chance à dupla. E até rendeu frutos com Felipão quando o nível técnico do Brasileirão foi baixíssimo. Mas, agora, o desafio é outro, e seria surpreendente se a peça que faltava ao Palmeiras para alcançar o exuberante futebol do Flamengo de Jorge Jesus fosse Luxemburgo.