Palmeiras só demorou tanto para demitir Marcelo Oliveira porque confundiu acaso com bom trabalho

A derrota para o Nacional na última quarta-feira resultou na demissão - tardia e natural - do técnico do Palmeiras

Curioso como o Palmeiras subverteu um hábito do futebol brasileiro ao mesmo tempo em que manteve a sua essência. O comum costuma ser a demissão precoce de um treinador, mesmo que o trabalho aponte para um bom caminho, por causa de uma sequência de maus resultados. O que a diretoria comandada por Paulo Nobre e Alexandre Mattos fez foi esticar um trabalho ruim e sem perspectiva de melhora até romper o elástico, respaldando-se em alguns bons resultados pontuais. As duas situações expõem a mesma coisa: a avaliação é resultadista, para o bem ou para o mal.

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Marcelo Oliveira deveria ter sido demitido no final do ano passado, o momento da temporada mais propício para um ajuste de percurso. Começou com seis vitórias e um empate que deixaram o Palmeiras na terceira posição, a quatro pontos da liderança, e com a impressão de que trocar Oswaldo por Marcelo havia sido uma decisão brilhante. O clima era de otimismo. Mas essa era apenas a 15ª rodada do Campeonato Brasileiro.

O time foi se deteriorando, jogando pior a cada semana. Venceria somente mais sete jogos até o fim do torneio: três contra equipes que foram rebaixadas (Joinville e Avaí) ou quase (Figueirense), três contra Flamengo e Fluminense (o que dificilmente pode ser considerado um feito, considerando que cada um perdeu 19 jogos no Brasileirão, um turno inteiro) e uma contra o Grêmio, no Pacaembu, a última atuação realmente boa do Palmeiras. O terceiro lugar virou a nona posição.

Marcelo Oliveira pulou sete ondinhas no Reveillón empregado por causa da Copa do Brasil, e é aqui que a irracionalidade dessa decisão se torna mais evidente. Teria sido demitido se Andrei Girotto não marcasse o terceiro gol contra o Internacional logo depois do empate; teria sido demitido se Fernando Prass não defendesse o chute de Fred no último segundo da semifinal; teria sido demitido se Nilson não tivesse perdido uma chance absurda de matar o primeiro jogo da decisão. Da mesma maneira, não continuaria se perdesse uma das duas decisões de pênaltis que levaram ao título.

O Palmeiras foi em frente confundido acaso com mérito. E não digo que não teve nenhum: conquistou a Copa do Brasil misturando lapsos de individualidade dos jogadores de linha, apoio maciço da torcida, uma dose cavalar de sorte e um goleiro excepcional. Em qual desses aspectos você consegue ver o dedo do treinador? O futebol movimenta milhões de reais, adota um discurso profissional/empresarial e toma decisões cruciais de acordo com a capacidade de o Nilson se equilibrar diante de um gol vazio.

A situação foi idêntica neste ano. A derrota para a Ferroviária, em casa, sendo dominado por um time de baixo orçamento, parece ter sido a gota d’água. O Palmeiras já havia perdido no Allianz Parque para o Linense, empatado com o São Bento no Pacaembu e desperdiçado a chance de vencer o River Plate, do Uruguai, fora de casa, um jogo que controlou. Havia mais Micos-Leões-Dourados  do que pessoas que acreditavam que aquele trabalho ainda poderia dar certo. Mas era semana de Libertadores.

E voltamos à irracionalidade. O Palmeiras venceu o Rosário Central porque choveu muito no primeiro tempo. Ponto. Quando o gramado secou, e os argentinos começaram a tocar a bola, começou uma das maiores pressões que um time campeão da Libertadores já sofreu em casa na história da competição. O esgotamento era claro e a maioria dos resultados era ruim, mas uma boa vitória, com outra dose fenomenal de sorte, manteve tudo como estava.

A demissão pairava sobre a cabeça de Marcelo Oliveira como a nuvem negra de uma tempestade, e o Palmeiras apenas esperava a bomba explodir. E era óbvio que explodiria. No Allianz Parque, novamente lotado, o Nacional abriu 2 a 0 e teve um jogador expulso no final do primeiro tempo. O Palmeiras ainda conseguiu descontar antes do intervalo, mas passou os últimos 45 minutos demonstrando uma constrangedora incapacidade de encurralar um adversário em inferioridade numérica.

Foi o ápice da estratégia ruim que Marcelo Oliveira aplicou no Palmeiras. Não existe nenhum problema em basear o jogo de um time em cruzamentos e lançamentos. Mas você precisa acertá-los. Quando o time adversário inteiro está dentro da área esperando que a bola seja cruzada, talvez seja uma boa ideia buscar uma alternativa. Com um a mais, por que não rodar a bola para cansá-los? Porque, mal posicionado, toda tentativa de passar a bola é infrutífera. Estáticos, os jogadores não criam espaços. A última triangulação do Palmeiras perdeu-se no tempo. A insistência em uma única maneira de jogar, sem variações táticas, soma-se à desorganização defensiva e à péssima saída de bola para compor o quadro de um time que jogou mal frequentemente nos últimos sete meses.

A pressão piorou sobre Marcelo Oliveira por causa do momento do Palmeiras. O investimento é alto desde o começo do ano passado. Ele tem em mãos uns dos melhores elencos do Brasil. O estádio está sempre cheio, os salários estão em dia, nenhum jogador importante foi vendido, e o time foi reforçado. Espera-se e cobra-se muito do Palmeiras neste momento. Marcelo teve oito meses, um tempo relativamente grande no futebol brasileiro, para apresentar as suas ideias e desenvolvê-las. Não conseguiu. Falhou. O time não evoluiu. Ao contrário, encolheu. O que não significa que ele seja um treinador deplorável. Apenas não funcionou no Palmeiras.

Diante desse contexto, a demissão de Marcelo Oliveira não é apenas natural como tardia. Mas fico imaginando o que teria acontecido se aquele chute na trave do Lucas nos acréscimos da derrota para o Nacional tivesse ido um pouquinho para o lado.