Patrick de Paula tomou muita distância. E parou. Parou por mais tempo do que o normal em uma cobrança de pênalti. Alguns segundos em que provavelmente passou pela sua cabeça o filme de como, em três anos, foi da Taça das Favelas e a um chute de encerrar o jejum de títulos paulistas do Palmeiras contra o seu maior rival. Bateu um pênalti impecável, como tem que ser para reduzir a chance de defesa de um goleiro do tamanho de Cássio. Além de garantir a vitória nos pênaltis, após o empate por 1 a 1 no tempo normal, e salvar a pele de Gustavo Gómez, protagonizou um momento simbólico ao que o Palmeiras projeta para o futuro: um time comandado pela garotada.

A utilização escassa das categorias de base, em um momento raro na história do Palmeiras em que muito jogador de qualidade estava sendo formado, foi a principal crítica à administração de Alexandre Mattos. Tirando Gabriel Jesus, excepcionalmente talentoso, impossível ser ignorado, qualquer reforço meia-boca estava à frente na hierarquia, e valores como Luan Cândido e Fernando foram embora após receberam pouca ou nenhuma chance no time principal. Estratégia que, além de economicamente falha, reduzia o potencial de identificação da torcida com o time.

O Palmeiras, porém, está em outro momento. Mattos, para começar, agora comanda o futebol do Atlético Mineiro. As movimentações no mercado foram tímidas, desde antes do início da pandemia que tende a danificar ainda mais as contas que seguem corretas, mas já viram dias melhores. A fuga de Dudu ao Catar abriu um vácuo de protagonismo que começa a ser preenchido não por um craque, mas por uma entidade: os meninos. Foi mais que acaso que o pênalti decisivo tenha caído nos pés de Patrick de Paula.

Agora que não há mais Dudu, e medalhões como Lucas Lima e Gustavo Scarpa não chamam a responsabilidade, quem mais aparece como destaque do Palmeiras, junto com alguns jogadores experientes mais regulares como Gómez, apesar do pênalti inexplicável que cometeu em Jô aos 50 minutos do segundo tempo, Felipe Melo e Luiz Adriano são garotos como Patrick de Paula, Gabriel Menino e outras promessas, como Gabriel Verón.

O destaque dos garotos do Palmeiras foi a melhor nota de 180 minutos de final do Campeonato Paulista que nunca chegaram a empolgar pelo nível de futebol. O jogo de volta foi ligeiramente melhor que o de ida porque, também, para ser pior teriam que ter esquecido de levar a bola. O Palmeiras imprimiu um bom ritmo desde o começo e obrigou Cássio a fazer uma grande defesa em chute à queima-roupa de Willian. O início promissor não se confirmou até o fim do primeiro tempo.

Pouco depois do intervalo, o Palmeiras abriu o placar com uma cabeçada precisa de Luiz Adriano, em centro perfeito de Matías Viña. Outro lance que representa um novo momento ao clube. Após anos revezando entre a menos pior opção dependendo da semana, Adriano assumiu a posição e, embora oscile, mostrou mais de uma vez a capacidade de decidir quando tem a oportunidade.

Pode ser pontuado que o Palmeiras esforçou-se pouco para matar a partida, mas também ficou extremamente confortável contra um Corinthians que pouca coisa produziu, e não apenas na partida deste sábado, como também nos três dérbis desde a retomada do futebol paulista, com exceção de algumas defesas de Weverton no primeiro tempo do jogo da última quarta-feira.

E não estava completamente errado. Um bloqueio crucial de Felipe Melo nos acréscimos foi o mais próximo que o Corinthians chegou de esboçar o empate antes de Gómez ter uma pane mental. Jô dominou a bola um passo para dentro da grande área e abriu para chutar com sua letal perna esquerda. O zagueiro paraguaio tentou pará-lo com um carrinho e cometeu um dos dez pênaltis mais claros da história. Faltavam dez segundos para o Palmeiras ser campeão. Jô bateu cruzado, e Weverton chegou a tocar na bola, mas não impediu o empate.

Os dois primeiros batedores desperdiçaram suas cobranças, Michel Macedo parando em Weverton, e Bruno Henrique, em Cássio. Danilo Avelar e Raphael Veiga converteram. O momento decisivo foi a quinta batida, desperdiçada por Cantillo. Scarpa quase devolveu a gentileza com um chute bem ruim que passou por baixo de Cássio. Sidcley, Lucas Lima e Jô balançaram as redes. E, então, retornamos a Patrick de Paula. Bateu forte, alto, cruzado, um pênalti indefensável.

O trabalho de Vanderlei Luxemburgo não é dos melhores. Como não tem sido há muito tempo. Ele tem, porém, o mérito de dar confiança aos garotos, mesmo que obrigado pelas circunstâncias. E o prêmio foi mais uma linha em um currículo lendário. Foi o nono título paulista da sua carreira, superando Lula, o comandante de Pelé, no topo da lista dos maiores campeões de São Paulo, e o 14º estadual.

E tem mais uma: desde 1976, e não é um erro de digitação, é 1976, apenas um treinador foi campeão paulista pelo Palmeiras: 1993, 1994, 1996, 2008 e agora 2020.

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