Você já ouviu na televisão, ou leu em algum lugar, que elenco farto é diferencial em um campeonato por pontos corridos. Um clichê com grande fundo de verdade porque ser capaz de remediar a estafa física e mental, natural em todo lugar e aprofundada no Brasil por um calendário desumano, com um rodízio de jogadores que não implique forte oscilação de desempenho produz regularidade, o ingrediente secreto para ser campeão brasileiro. E o Palmeiras finalmente conseguiu colocar isso em campo.

LEIA MAIS: No Brasileirão de Dudu e Willian, foi Deyverson que fez a torcida do Palmeiras liberar o grito de campeão

Desde que dinheiro começou a jorrar na Pompeia, paralelamente com a chegada de Alexandre Mattos, diretor de futebol com a característica de contratar no atacado, o Palmeiras tem um dos melhores elencos do Brasil. Mas esta foi a primeira vez em que isso foi um fator determinante para o sucesso. Cuca comandou a conquista de 2016 com uma equipe titular mais fixada, auxiliado, a contragosto, por eliminações precoces na Libertadores, em abril, ainda na fase de grupos, e Copa do Brasil, em setembro.

Essa derrota na Copa do Brasil, para o Grêmio, foi sintomática porque Cuca decidiu usar uma equipe majoritariamente reserva na partida de volta e até conseguia manter-se vivo na disputa até a expulsão de Allione, aos 20 minutos do segundo tempo. Com um a menos, levou o empate de Everton e foi eliminado. Ano passado, também saiu de competições paralelas cedo, entre julho e agosto. Até conseguiu esboçar uma briga pelo título na reta final, muito em função da qualidade dos seus jogadores, porque o ano foi conturbado, com três treinadores diferentes, mas acabou precisando se contentar com o vice-campeonato.

A história desta temporada foi diferente. O Palmeiras chegou às semifinais das duas competições e, durante alguns meses, contemplou o levantamento de mais do que um troféu. Nesse processo, Luiz Felipe Scolari precisou usar as peças à disposição com sabedoria. Estabeleceu duas equipes diferentes: a do meio de semana e a do fim de semana. Com um estilo competitivo, embora nem sempre agradável aos olhos, emendou 21 rodadas de invencibilidade – uma com Wesley Carvalho – e conquistou o título.

Em 37 rodadas, 22 jogadores entraram em campo pelo menos dez vezes vestindo o verde do Palmeiras, segundo o site Soccerway, e 20 passaram dos 1.000 minutos. No título de 2016, foram 21 atletas com mais de dez partidas e apenas 16 acima dos 1.000 minutos – Yerri Mina somou 987, embora tenha sido titular, por causa de lesões e convocações à seleção colombiana. Os números do ano passado são parecidos, mas não se traduziram em um rendimento capaz de entregar o troféu.

As estatísticas não mostram uma diferença tão gritante, mas isso se explica, primeiro, porque ainda há uma rodada a disputar. Segundo, porque a estratégia de Felipão não foi rodar nomes: foi rodar dois times que geralmente atuavam com os mesmos jogadores em competições diferentes. Terceiro, o Palmeiras passou a implementá-la apenas a partir da 17ª rodada, quando chegou o seu novo-velho treinador.

Curioso que esse tenha sido o caso na temporada em que o Palmeiras não contratou tanto assim, em relação às outras do projeto esportivo liderado por Mattos. Os principais reforços foram para as laterais, com Marcos Rocha e Diogo Barbosa. Victor Luís retornou de empréstimo do Botafogo. Lucas Lima virou outra opção de meio-campo, assim como seria Gustavo Scarpa, que demorou para resolver sua situação com o Fluminense e passou longos períodos fora de ação por questões jurídicas. Weverton completou o pacote, brigando por posição debaixo das metas com Prass e Jaílson.

No meio do ano, surgiu a principal contratação. O paraguaio Gustavo Gómez chegou do Milan. Estreou contra o Vasco, em agosto, e rapidamente parecia defender o Palmeiras há muitos anos, tanto que foi transferido à outra equipe para as semifinais contra o Boca Juniors. Aproveitando a deixa, Lucas Lima foi o atleta alviverde que jogou mais partidas neste Brasileirão, 31 das 35 primeiras rodadas. Com Borja titular nas copas, Deyverson aproveitou para reconstruir sua imagem junto ao torcedor palmeirense, com sete gols e sendo decisivo: fez os tentos dos três pontos contra Vasco, Corinthians e Grêmio, além de deixar sua marca também no São Paulo e no Vitória.

Ao contrário do que fazia seu predecessor Roger Machado, que sempre que possível colocava em campo os onze jogadores que julgava titulares, Felipão teve o mérito de saber usar a qualidade que tinha à disposição para manter pernas frescas e a insatisfação baixa porque todos do grupo tinham a chance de jogar. No início, provavelmente não esperava que daria tão certo quanto deu. Em uma análise individual, os melhores jogadores eram reservados às copas. Mas os “reservas” foram além das expectativas e contribuíram significativamente para mais um título brasileiro do Palmeiras.