Era diferente naquela época. Ser rebaixado não significava necessariamente jogar a segunda divisão, por mais estúpida que essa frase possa soar. Na tentativa de evitar o vexame, dava-se um jeitinho que servia apenas para aumentá-lo: viradas de mesa, novas fórmulas, campeonatos mais inchados. O Palmeiras acreditou nisso por muito tempo. Nos bastidores, havia aquela arrogância que funciona como uma nuvem tapando a realidade. Mas desta vez foi diferente. Mesmo sem um time tão ruim, e com ídolos no elenco, o clube de Palestra Itália terminou o Campeonato Brasileiro de 2002 na zona de rebaixamento e disputou a Série B sem choro nem vela.

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Sacramentou o fracasso da estratégia do “bom e barato” de Mustafá Contursi, presidente palmeirense desde o início da Era Parmalat, em 1992, até 2005. Não soube criar a estrutura e as condições para o Palmeiras caminhar com suas próprias pernas durante o período em que a empresa italiana pagava as contas do futebol. Investiu errado e o elenco que chegou a duas finais consecutivas da Libertadores foi pouco a pouco se desmontando.

Dois anos antes da fatídica partida contra o Vitória, a derrota por 4 a 3 no Barradão que decretou o rebaixamento, o Palmeiras de lutas e de glórias da década de 1990 dava o seu canto do cisne. Perdeu a final do principal torneio sul-americano para o Boca Juniors nos pênaltis, conquistou a Copa dos Campeões e chegou às quartas de final da Copa João Havelange. Um pouco longe dos que a equipe montada pela Parmalat conseguiu nos anos anteriores, mas uma temporada digna para o clube com mais títulos nacionais do Brasil.

Após um ano de 2001 medíocre, com campanha ruim no Paulistão e apenas média no Brasileirão, o Palmeiras parecia ter voltado com tudo no ano da Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul. Vanderlei Luxemburgo, o comandante dos títulos do início da década de 1990, estava de volta depois de uma passagem também vitoriosa pelo rival Corinthians e tinha a missão de tocar a renovação do elenco. Fábio Júnior, Donizete, Edmílson, Tuta e Basílio saíram em janeiro. Foram seguidos por Galeano, Claudecir e Fernando no meio do ano. O atacante Christian, emprestado pelo Bordeaux, foi repassado ao Galatasaray. Alex voltou do Cruzeiro apenas para fazer aquele golaço com direito a chapéu em Rogério Ceni antes de ser negociado com o Parma.

Jogadores experientes foram apresentados à porta, e jovens, ao time titular. Luxemburgo promoveu sete jogadores da equipe B: Pedro, Juninho, Chu, Reinaldo, Célio, Anselmo e Jorginho. Quem são esses? Pois é. A aposta nas categorias de base sempre é válida, mas a safra não era muito boa. Nenhum deles se tornou grande coisa no futuro. E quando é esse o caso, o resto do time precisa de experiência e casca para segurar a bronca. Isso foi feito pelo menos até o meio do ano. O Palmeiras fez ótima campanha no Rio São-Paulo, no qual foi eliminado nas semifinais pelo São Paulo por causa do do número de cartões amarelos que recebeu. Também ficou entre os quatro melhores da Copa dos Campeões, derrotado pelo Paysandu.

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E em pouco tempo muita coisa mudou. A eliminação na Copa do Brasil para o ASA de Arapiraca, uma derrota que nunca foi esquecida pelos torcedores palmeirenses e principalmente pelos seus rivais, pesava. Luxemburgo trocou o discurso da renovação pela exigência de nomes fortes para reforçar o elenco, desentendeu-se com o diretor de futebol Sebastião Lapola e com o presidente Mustafá Contursi. Pediu aumento salarial que foi negado. Começou o Campeonato Brasileiro, empatou com o Grêmio na primeira rodada e pulou fora. Foi para Minas Gerais montar o Cruzeiro, primeiro campeão da era dos pontos corridos.

Muitos torcedores palmeirenses ainda colocam Luxemburgo, senão no centro da responsabilidade, como um dos principais culpados pela queda. Culpam-no por ter liberado jogadores que poderiam ter ajudado na campanha e principalmente se sentem traído por terem sido abandonados pelo treinador quando mais precisavam dele. Em questão de resultados, realmente não dá para crucificá-lo. Saiu a 24 rodadas do final da primeira fase do Brasileiro. Havia tempo para se salvar do rebaixamento várias vezes. “Tive um jogo e fui embora porque as coisas não estavam caminhando muito bem, pelos acertos que a gente tinha feito. Aí faltavam 40 rodadas, me parece, tinham 26 equipes, me parece, tinha quantas rodadas? Aí eu levei a culpa”, argumentou o projetista, evidentemente sem uma calculadora ao lado para ajudar com a matemática.

Vanderlei Luxemburgo e seu pacote inflacionaram o mercado de técnicos no Brasil (Foto: AP)
Vanderlei Luxemburgo e seu pacote inflacionaram o mercado de técnicos no Brasil (Foto: AP)

Assumiu Paulo César Gusmão interinamente até o substituto oficial de Luxemburgo ser anunciado. O outro técnico ídolo recente da torcida estava indisponível – havia acabado de ser campeão mundial com a seleção brasileira -, então o Palmeiras contratou o mais próximo de Luiz Felipe Scolari que conseguiu encontrar: Flávio Murtosa, o eterno escudeiro, vencedor da Copa dos Campeões de 2000 com o time alviverde. Desta vez, não teve o efeito esperado. Murtosa durou apenas quatro jogos, perdeu três deles e voltou ao lado de Felipão. Karmino Colombini foi outro interino antes da chegada de Levir Culpi, responsável pelo resto do torneio.

Havia algum material para trabalhar. No gol, Marcos, o pentacampeão, e Sérgio, sempre um reserva confiável. Para as laterais, contava com Leonardo Moura e o ídolo Arce na direita e o cumpridor, embora longe de ser craque, Rubens Cardoso na esquerda. Tinha Fabiano Eller para a defesa, Zinho na articulação do meio-campo e alguns talentos: Nenê, aquele que conquistou a França pelo Paris Saint-Germain, Lopes “Tigrão”, Dodô, o dos gols bonitos, e Pedrinho, o das lesões intermináveis. Além de um jovem atacante chamado Vágner, pego em flagrante com uma mulher na concentração no ano seguinte e apelidado de Love para o resto da vida.

Não estava à altura dos times da Parmalat, mas deveria ser o suficiente para pelo menos outra campanha medíocre, como em 2001, no meio da tabela. O problema é que quando uma camisa como a do Palmeiras começa a afundar, fica mais pesada que outras na hora em que é necessário levantá-la. A fórmula da época ainda era o mata-mata, e a primeira fase do Brasileirão era disputada apenas em turno. Nas primeiras 12 das 25 rodadas previstas, venceu apenas um jogo, contra o São Caetano, ainda sob o comando de Murtosa. Jogadores importantes como Marcos, Arce e Dodô machucaram-se e ainda havia problemas internos.

Os jogadores daquela época não gostam de falar muito disso. O zagueiro Alexandre chegou até a dizer que “mora na roça (interior de Minas Gerais) para não encherem o saco”, em entrevista à Folha de S. Paulo, mas vários relatos apontavam para um grupo pouco unido. Quem deu nome aos bois foi Sérgio, dez anos depois, quando o segundo rebaixamento se avizinhava. “O Nenê era um jogador de muito potencial, tanto que hoje está brilhando na França, mas em 2002 ele destoava do resto do grupo. Tínhamos jogadores experientes, mas o Nenê não tinha a dimensão do que representa o Palmeiras”, explicou ao Esporte Interativo.

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Alexandre foi um dos rostos do rebaixamento porque falhou muito feio na penúltima rodada, empate por 1 a 1 com o Flamengo no Palestra Itália. Esse resultado foi o último de uma sequência honesta do Palmeiras de apenas duas derrotas em 12 partidas. A recuperação foi suficiente para que o time dependesse das próprias forças para escapar. Bastaria vencer o Vitória, sem mais pretensões no Campeonato Brasileiro. Mas não era tão fácil assim.

Levir Culpi mandou a campo Sérgio; Arce, Alexandre, César e Rubens Cardoso; Paulo Assunção, Flávio, Juliano e Zinho; Muñoz e Itamar. Em quatro minutos, o coração alviverde ficou apertado com o gol de Allan Dellon, cabeceando entre os zagueiros do Palmeiras. Flávio empatou, mas Aristizábal voltou a colocar os baianos à frente, de pênalti. Nenê fez 2 a 2.

A zaga já havia falhado nos primeiros gols, mas foi ridícula nos dois seguintes: Alexandre tentou cortar a bola com uma cabeçada nas costas de Zé Roberto, que recolheu e marcou o terceiro dos donos da casa. Dez minutos depois, o mesmo Zé contou com a gentileza de dois defensores do Palmeiras para entrar na área, chutou para defesa de Sérgio e André Neles pegou o rebote. Arce descontou de pênalti.

As falhas da defesa, a pior do campeonato junto com a do Paysandu, nas últimas duas rodadas foram fundamentais para a queda. O ataque, nada robusto, dependia demais das bolas paradas de Arce. Os problemas internos, a falta de planejamento, as lesões e as trocas de treinadores colocaram o Palmeiras em uma situação complicada. Eram problemas demais para um time que não chegava a ser tão ruim, era no mínimo melhor que o de 2012 ou que o atual, mas não tinha quase nenhuma margem para errar. E errou. Muitas vezes.

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