Antes da maior secada de todos os tempos – “ele bate muito bem” -, José Silvério foi preciso. “Para o palmeirense, se o Marcelinho perder, o gosto será especial, porque é do Marcelinho que a torcida queria arrancar o sangue”. Marcelinho, então, tomou distância, foi autorizado, foi para a bola, bateu e Marcos defendeu. Ou melhor, defendeu Marcos. Neste sábado, faz 20 anos que defendeu Marcos na vitória do Palmeiras por 3 a 2 sobre o Corinthians nas semifinais da Libertadores de 2000.

Marcelinho perdeu, ou melhor, defendeu Marcos, e o gosto ao palmeirense realmente foi especial. O status de ídolo de Marcos ainda era fresco. Havia estreado em 1996, mas ganhara a posição no meio da Libertadores do ano anterior, após a lesão de Velloso. Pegou pênalti contra o Corinthians nas quartas de final e foi enorme contra o River Plate na fase seguinte. O bastante para ser perdoado pela falha na final do Mundial de Clubes, mas era uma lenda em construção.

Um dos maiores e mais firmes tijolos foi barrar a cobrança do ídolo do maior rival, daqueles cujo perfil inspira raiva e omitida admiração quase no mesmo nível, ao fim de um duelo eletrizante e histórico no qual o Palmeiras não era favorito. Pelo segundo ano seguido, porém, saiu vencedor. Pelo segundo ano seguido, graças a Marcos.

O Palmeiras poderia até perder a final, como acabou acontecendo, para o Boca Juniors, mas, com o título conquistado em 1999, o Corinthians era o único grande paulista sem o carimbo sul-americano em seu currículo, e Marcos assegurou que continuaria sendo assim por mais um ano. Acabou sendo por mais 12. Claro que por mais 12.

Em 1999, Marcos foi canonizado. Em 2000, Marcos foi eternizado, mas aquela partida serviu para consagrar mais de um Marcos.

“O meu nome é Marcos Aurélio Galeano e sou palmeirense desde criança”, contou ao site do Palmeiras o ex-jogador que, para as arquibancadas do Palestra Itália, era apenas Galeano. “Herdei essa paixão do meu avô por parte de mãe. Todos os presentes que ele me dava tinham a ver com o Palmeiras: camisa, estojo, bola. Meu ídolo era o Leão. Adorava aquela camisa listrada que ele usava. Quando eu jogava com os meus amigos, pedia para pegar no gol. A cada defesa que fazia, gritava ‘Leãoooo!’.”

A trajetória de Galeano foi parecida com a do seu xará mais famoso. Acabou lançado por ninguém menos do que o próprio Leão, em 1989, e teve que esperar por uma chance. Foi emprestado ao Rio Branco Paulista e ao Juventude. Voltou a pedido de Luxemburgo, naquele time marcante de 1996, quando quase se transferiu ao Grêmio. Felipão havia pedido sua contratação e naturalmente deu mais oportunidades ao volante quando assumiu o clube paulista.

Era um volante raçudo, carregador de pianos, cão de guarda, com a responsabilidade de fechar a casinha, todos esses clichês que fazem parte do vocabulário do futebol, e teria sido suficiente para se tornar um ídolo cult, de nicho, presença marcante em um período extraordinariamente vencedor do Palmeiras. Faltava alguma coisa para ser massificado.

A rivalidade entre Palmeiras e Corinthians naquela época estava em seu ápice. Eram épocas douradas para ambos, talvez a melhor do Corinthians e entre as cinco do Palmeiras. Havia craques para todos os lados, o histórico recente de duelos pela Libertadores e aquele pelo Campeonato Paulista em que Edílson fez embaixadinhas.

O dinheiro da Parmalat, porém, começou a ir embora naquela virada de ano em que o Corinthians foi ao Rio de Janeiro, deu rolinho no Real Madrid e conquistou o título Mundial. Consequência imediata e simbólica foi a separação da dupla Oséas, agora no Cruzeiro, e Paulo Nunes, de volta ao Grêmio. O início de um processo de enfraquecimento do Palmeiras, que, porém, se manteve forte em jogos decisivos.

Quatro dérbis haviam sido realizados em 2000 antes daquela semifinal, com duas vitórias do Corinthians, um empate e uma do Palmeiras, por 3 a 1, todos os gols de Alex, outro que foi gigante no Morumbi. O triunfo pelo Rio São-Paulo embalou o Palmeiras rumo ao título, atropelando o Vasco por 4 a 0 na decisão. O quinto clássico de 2000 havia sido uma loucura, com o Corinthians abrindo 3 a 1 no começo do segundo tempo, o Palmeiras buscando o empate com Alex e Euller, a oito minutos do fim, e Vampeta garantindo a vitória corintiana com um chute do meio da rua que desviou e enganou Marcos. Gol sem querer vale tanto quanto gol de propósito, e o Palmeiras precisava vencer o jogo de volta por pelo menos um de diferença para levar a disputa aos pênaltis.

O Palmeiras começou bem. Júnior, em excelente partida, soltou da esquerda e encontrou Euller no outro lado da área. Matou a bola, cruzou e fez 1 a 0. Luizão, porém, apareceria livre em cobrança de escanteio para empatar, e, no começo do segundo tempo, completou de canhota a jogada de Edílson, vencendo tanto Roque Júnior, em cima da linha sem conseguir o corte, quanto Marcos.

O Corinthians havia virado. Faltavam 40 minutos. O Palmeiras precisava de dois gols. Euller, o filho do vento, tornou inócuo qualquer teste de paternidade ao disparar pela ponta esquerda e rolar para trás. Alex chegou batendo de chapa e colocou a bola no ângulo. Ainda faltava um gol.

O relógio marcava 25 do segundo tempo, e o Palmeiras tinha falta a partir da intermediária. Felipão treinava bola parada com exaustão. Era uma jogada forte do time alviverde, e a grande ironia é que ela deu certo mesmo sem ter sido bem executada.

“Eu costumava ficar no primeiro pau, mas, naquele dia, estava muito marcado. O Adílson (Batista) não parava de me segurar, então fui para o outro lado, no segundo pau”, contou Galeano, ao site do Palmeiras. “Já faz 20 anos, mas consigo me lembrar de cada detalhe: antes de o Alex correr para a bola, dei dois passos para trás, mantendo distância do Adílson. Só que o Alex bateu mal, o cruzamento saiu fraco, à meia altura”.

“Comecei a correr em direção à bola e peguei o Adílson de surpresa. Achando que eu tinha desistido do lance, ele fez um movimento para deixar a bola sair pela linha de fundo. Mas desistir nunca foi uma opção para mim. Quando o Adílson e o Dida perceberam que eu estava ali, do lado da trave, já era tarde demais”, acrescentou.

Havia umas oito pessoas no miolo da área. A bola passou por todo mundo. Qual a chance de a bola passar por todo mundo? Ela pingou centímetros antes da entrada da pequena área, e Galeano se jogou em sua direção. Se cada pedaço do seu corpo era verde e branco, ele o utilizaria inteiro em nome do Palmeiras. Acabou marcando da maneira mais mundana possível, com a cabeça, embora todos saibam que as imagens são enganosas. Galeano, na verdade, marcou com o coração.

“Ainda me lembro da cara de desespero do Dida quando ele me viu ao lado da trave, entre o Adílson e a linha de fundo. O pessoal brinca que até me ajoelhei para fazer o gol. A verdade é que estava no lugar certo na hora certa”, disse. “Aquele gol foi um presente de Deus.  Precisava de um gol como aquele para ser reconhecido como ídolo do clube. Aquele gol me consagrou. Fez com que o torcedor do Palmeiras tivesse, até hoje, um carinho especial por mim”.

Aquele gol levou o Palmeiras à disputa de pênaltis. Todo mundo acertou. Marcelo Ramos, Ricardinho, Roque Júnior, Fábio Luciano, Alex, Edu, Asprilla, Índio e Júnior. Quase todo mundo. Porque, na décima cobrança, Marcelinho, de quem a torcida do Palmeiras queria arrancar o sangue, tomou distância foi autorizado, foi para a bola, bateu.

E defendeu Marcos. O outro Marcos. Quer dizer, o primeiro Marcos, o Marcos mais famoso do jogo que consagrou mais de um Marcos.

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