Quem foi ao estádio internacional Faisal Al-Husseini, em Al-Ram, na Cisjordânia, presenciou algo muito raro, e não tem nada a ver com a bola rolando. O empate sem gols com os Emirados Árabes foi apenas a terceira vez que a seleção palestina recebeu um jogo de Eliminatórias da Copa do Mundo nos seus territórios. A primeira pela fase de grupos. A primeira contra uma nação árabe. A primeira partida oficial ou amistosa desde 2011.

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O último jogo chancelado pela Fifa da sua seleção que a torcida palestina teve a chance de ver em seus domínios foi o empate por 2 a 2 com a Tailândia, em 28 de julho de 2011, pela segunda rodada das Eliminatórias Asiáticas para o Mundial do Brasil. Antes, em 3 de julho, o time havia empatado com o Afeganistão por 1 a 1, também no Faisal Al-Husseini. Foram partidas de exceção na história do país, que nas eliminatórias anteriores da Copa do Mundo teve que usar Catar e Hong Kong como sedes.

Os amistosos em que a Palestina atuou como mandante nos últimos anos também foram realizados fora de casa, no sempre amigo Catar e na Jordânia. Com a exceção desses jogos, a seleção disputou apenas torneio em campos neutros. Havia a dúvida sobre a postura de Israel, que restringe a circulação de palestinos da Faixa de Gaza à Cisjordânia ou vice-versa por questões de segurança, quando fosse necessário organizar um jogo de Eliminatória nos territórios. Ainda mais contra um país como os Emirados Árabes, com quem os israelenses não têm relações diplomáticas.

A partida aconteceu nesta terça-feira. De acordo com a AFP, cinco jogadores chegaram da Faixa de Gaza no dia partida, mas nenhum outro grande problema foi registrado (exceto a falta de gols). O trânsito de jogadores palestinos entre os territórios e a entrada de uma outra seleção árabe para jogar contra o time da casa representam mais uma vitória da Palestina sobre Israel nos bastidores do futebol mundial.

Em maio, na assembleia geral da Fifa, o presidente da Federação de Futebol da Palestina, Jibril Rajoub, ameaçou propor uma votação para excluir Israel da entidade mundial do esporte porque as restrições impostas por esse país prejudicavam o desenvolvimento do futebol palestino. O dirigente retirou o pedido de última hora, e Blatter viajou até a região para se sentar com o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente palestino Mahmoud Abbas. Diante da pressão, Israel prometeu aliviar as restrições e foi criada uma comissão independente para verificar se ele cumprirá sua palavra.

No começo de agosto, pela primeira vez em 15 anos um time da Cisjordânia enfrentou um de Gaza. Foi a final da Copa da Palestina, entre o Shejaia e o Al Ahly, com um jogo em cada território. A partida de volta da decisão teve que ser adiada porque Israel bloqueou a passagem de quatro jogadores do Shejaia, que tentavam deixar Gaza em direção a Hebron, na Cisjordânia. De qualquer maneira, os jogos foram realizados, o que já carrega grande importância simbólica.

Depois de disputar a primeira Copa da Ásia da sua história, em janeiro, a Palestina busca ser a surpresa do Grupo A, que tem os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita como favoritos às duas vagas da chave para a terceira rodada das Eliminatórias, além do Timor-Leste e da Malásia. Soma quatro pontos em três rodadas, mas ainda tem muita bola para rolar. Restam cinco jogos, e a Palestina disputa três deles em casa. Se tudo der certo, realmente na sua própria casa.