A história do antigo Népstadion permanece eternizada no futebol europeu. Casa da seleção húngara, a praça esportiva foi construída justamente durante o ápice dos Mágicos Magiares na década de 1950. O mítico palco serviu a partidas memoráveis da equipe nacional, a diversos compromissos de clubes locais, abrigou dezenas de shows internacionais e foi até cenário ao filme ‘Munique’. Desde 2002, havia sido rebatizado como “Estádio Ferenc Puskás”, homenagem mais do justa ao craque que amplificou a fama do local – e presente na época do tributo, quatro anos antes de seu falecimento. Já em 2017, a enorme construção para 70 mil espectadores foi demolida, para dar lugar a uma arena mais moderna. A inauguração não menos gloriosa ocorreu nesta sexta-feira, quando a imagem de Puskás ressurgiu nas arquibancadas.

O projeto de se construir um “estádio nacional” em Budapeste surgiu ainda no Século XIX, quando havia até mesmo a ideia de se realizar os Jogos Olímpicos de 1896 na Hungria. Os planos demoraram a sair do papel, até que a construção se iniciasse em 1948. O governo pretendia erguer uma praça esportiva que servisse aos grandes eventos nacionais e a própria população se envolveu na construção, com o já aclamado Puskás se juntando aos voluntários nas obras. A inauguração do Népstadion (literalmente, o “Estádio do Povo”) aconteceu em agosto de 1953, com um desfile que envolveu milhares de atletas. E, na primeira partida, o fortíssimo Honvéd derrotou o Spartak Moscou por 3 a 2. Puskás estava em campo, mas a estrela da tarde foi seu melhor amigo, József Bozsik, autor de dois gols – inclusive o primeiro.

O Népstadion chegou a registrar mais de 104 mil presentes naqueles primeiros anos. E seria neste mesmo período que o local abrigou o seu jogo mais famoso. Em novembro de 1953, a Hungria conquistara sua lendária vitória por 6 a 3 dentro de Wembley, contra a Inglaterra. Seis meses depois, os ingleses ganharam a chance de uma “revanche” em Budapeste, mas o que se viu foi um massacre ainda maior. Os Mágicos Magiares golearam por 7 a 1, com dois tentos de Puskás e outros dois de Sándor Kocsis. Seria o ápice de um estádio que receberia outras seleções húngaras marcantes, embora também tenha vivido o ocaso do futebol local. O último duelo internacional antes da demolição aconteceu em 2014. Apenas 10 mil pessoas viram a vitória por 3 a 0 contra o Cazaquistão, em amistoso sem tanta importância.

O antigo Népstadion inaugurou a nova página de sua história nesta sexta, agora chamado de Puskás Arena. O estádio com capacidade para 68,9 mil espectadores teve uma construção estimada em €610 milhões – valor que dobrou as estimativas iniciais e gerou diversas críticas no país. O local será palco de quatro partidas da Euro 2020, incluindo um duelo pelas oitavas de final. A ideia é que a nova praça esportiva reforce a candidatura de Budapeste não só a finais de Champions League no futuro, mas também aos Jogos Olímpicos.

A escolha do primeiro adversário também foi significativa. O Uruguai recebeu o convite ao amistoso, justamente por ser o oponente dos Mágicos Magiares na semifinal da Copa de 1954. A lembrança mais significativa do passado, de qualquer maneira, aconteceu durante a entrada das equipes em campo. Nas arquibancadas, surgiu um imenso mosaico com a bandeira da Hungria. No centro, a imagem do rosto de Puskás. “Dois estádios, uma lenda, o começo de uma nova história”, dizia a faixa que servia de legenda.

Apenas dentro de campo é que as coisas não correram tão bem à Hungria. O Uruguai venceu a partida por 2 a 1. Edinson Cavani teve a honra de repetir Bozsik e anotar o primeiro gol da Puskás Arena, ao completar de carrinho um cruzamento aos 15 minutos. O garoto Brian Rodríguez ampliou com uma bonita jogada individual aos 21. Já o primeiro tento magiar na nova casa aconteceu aos 24, com o centroavante Ádám Szalai. O jogo ainda deveria servir de despedida ao ídolo Zoltán Gera, que se aposentou em 2018, mas ele preferiu não entrar em campo por não estar em suas melhores condições físicas. Já o maestro Óscar Tabárez foi homenageado por completar recentemente 200 partidas à frente da Celeste.

A Hungria ainda tenta garantir sua presença na Euro 2020. A equipe ocupa a segunda colocação do Grupo E, no qual a Croácia já está classificada. Para tanto, os magiares precisam derrotar Gales em Cardiff nesta terça. Em caso de empate, precisam torcer também por um tropeço da Eslováquia, que jogará em casa contra o Azerbaijão. Na pior das hipóteses, os húngaros terão uma segunda chance através da repescagem.