Um dos grandes diferenciais da Copa Libertadores não está em campo, mas sim ao redor. Poucas competições no mundo possuem estádios com tanta identidade, que também parecem jogar ao lado de suas equipes e oferecem desafios reais durante a disputa. Seja pelo estilo das arquibancadas, pela altitude em que o palco está localizado ou mesmo pela viagem para chegar até lá, toda equipe leva em conta o ambiente no nível de dificuldade. E por mais que a Conmebol tente impor medidas cada vez mais esdrúxulas, que limitam as festas, as torcidas ainda impõem muitíssimo respeito. Não é o cerco a sinalizadores ou bandeirões que tem impedido diversas barras, apoiadas pelas diretorias, de peitarem as sanções. A alma da Libertadores vive em seus torcedores.

A lista de estádios presentes na Libertadores 2020, obviamente, reúne canchas míticas e outras que se consagraram nos últimos anos. E muitos clubes brasileiros encararão esses ambientes hostis, que podem causar desconforto de distintas maneiras. Há os estádios que ditam o ritmo de seus próprios times, que os agigantam no recebimento, que oferecem limites ao fôlego dos visitantes. O “fator campo” costuma ser decisivo no certame, além de apresentar um pouco mais a própria cultura de arquibancada em cada um dos países da América do Sul.

Abaixo, preparamos um guia sobre cada uma das 17 praças esportivas que estão no caminho dos representantes do Brasileirão. A lista traz uma pequena ficha dos locais e uma breve descrição. Destaque para os vídeos representando os espetáculos dos torcedores, que tanto a Conmebol renega.

Metropolitano Roberto Meléndez

Inauguração: 1975
Capacidade: 60,8 mil
Altitude: 18 metros
Quem vai jogar lá: Flamengo

Casa da seleção colombiana, o Metropolitano possui um clima geralmente festivo nas arquibancadas – como bem manda a tradição do povo de Barranquilla. Ainda assim, suas dimensões gigantescas impedem o Junior de criar um clima tão intimidador aos adversários, exceto em ocasiões especiais. Além disso, muitas vezes custa aos Tiburones realmente encherem as suas arquibancadas, o que prejudica o ambiente. O aproveitamento nas competições continentais não costuma ser tão bom.

Olímpico Atahualpa

Inauguração: 1948
Capacidade: 35,7 mil
Altitude: 2850 metros
Quem vai jogar lá: Flamengo

Como o Estádio Rumiñahui, em Sangolquí, não atende as demandas da Conmebol, o Independiente del Valle costuma mandar seus jogos no Estádio Olímpico Atahualpa. A casa da seleção aproxima a força ascendente de torcedores de vários clubes. Assim, o Del Valle costuma ser abraçado como um “representante nacional”, sobretudo em partidas decisivas. O time nunca perdeu como mandante na Libertadores. E, mais do que o clima, a preocupação aos rubro-negros será a altitude de Quito.

Monumental Isidro Romero Carbo

Inauguração: 1987
Capacidade: 57,2 mil
Altitude: 4 metros
Quem vai jogar lá: Flamengo

O ambiente mais hostil que o Flamengo enfrentará na fase de grupos da Libertadores, sem dúvidas, acontecerá em sua nova visita a Guayaquil. O Barcelona possui um estádio bem mais suntuoso que o rival Emelec, onde os rubro-negros tanto atuaram nos últimos anos. Ainda assim, as arquibancadas íngremes costumam aumentar a pressão sobre os visitantes e aumentar a força dos Toreros. São quatro vitórias consecutivas como mandante na Libertadores, três delas na atual campanha.

Hernando Siles

Inauguração: 1930
Capacidade: 41,1 mil
Altitude: 3640 metros
Quem vai jogar lá: Palmeiras

Um dos estádios mais famosos do continente, o Hernando Siles está distante de ser um caldeirão. A altitude de La Paz, de qualquer maneira, é armadilha suficiente para qualquer visitante. O Bolívar sabe impor sua força como local e o Palmeiras lidará com um jogo mais veloz, além dos muitos chutes de longe. Quando perderam para o Defensor nas preliminares de 2019, os celestes sustentavam uma invencibilidade de 17 jogos como mandantes na Libertadores.

José Dellagiovanna

Inauguração: 1936
Capacidade: 26,2 mil
Altitude: 11 metros
Quem vai jogar lá: Palmeiras

Próximo de completar seu centenário, o José Dellagiovanna é um estádio relativamente acanhado, que cumpre o seu papel como alçapão – ainda que outras canchas argentinas mereçam mais respeito neste sentido. O principal setor se concentra atrás de um dos gols, com enormes alambrados, onde os torcedores costumam escalar, e um grande anel que se destaca no restante da estrutura. O Palmeiras perdeu lá em sua visita em 2013.

Olla Azulgrana

Inauguração: 1970
Capacidade: 45 mil
Altitude: 43 metros
Quem vai jogar lá: Palmeiras

Se o Cerro Porteño fosse o adversário do Palmeiras, a Olla Azulgrana representaria um desafio maior. Porém, quem mandará o jogo por lá será o Guaraní, que não tem um estádio apto conforme o regulamento da Conmebol. A parca torcida aurinegra não deverá reproduzir uma atmosfera tão intensa assim na visita dos alviverdes. Todavia, o Corinthians já provou o veneno de um adversário que toma mais a iniciativa como mandante e venceu seus três jogos em Assunção pelas preliminares.

Félix Capriles

Inauguração: 1938
Capacidade: 32 mil
Altitude: 2558 metros
Quem vai jogar lá: Athletico Paranaense

A altitude de Cochabamba não é tão preocupante quanto a de La Paz ou a de Potosí. Mesmo assim, pode representar um incômodo ao Furacão. O Félix Capriles passou por reformas recentes para receber os Jogos Sul-Americanos de 2018. É um dos melhores estádios da Bolívia, mas não em relação à experiência do público. O campo é distante das arquibancadas, por causa da pista de atletismo, e raras vezes as tribunas aparecem cheias. O Jorge Wilstermann bateu o Athletico por lá na Libertadores de 2019.

Monumental David Arellano

Inauguração: 1956
Capacidade: 47,3 mil
Altitude: 570 metros
Quem vai jogar lá: Athletico Paranaense

Um dos estádios mais bonitos do Chile, por sua imponência e também pelo ambiente ao redor. Com os Andes ao fundo, o Monumental traz cores e símbolos do Colo-Colo. A utilização do local marca a própria conquista do Cacique na Libertadores de 1991. Só o aproveitamento como mandante na Libertadores não anda dos melhores, com apenas duas vitórias nos últimos oito compromissos – uma delas contra o Corinthians, nas oitavas de final de 2018. Hostilidade maior, neste momento, deverá vir pelo próprio clima político no Chile.

Campeón del Siglo

Inauguração: 2016
Capacidade: 40 mil
Altitude: 43 metros
Quem vai jogar lá: Athletico Paranaense

Um estádio novo com jeitão de antigo, que foi inaugurado para dar mais força ao Peñarol nas competições continentais. Não é o local com arquitetura mais impressionante, mas foi projetado para atender as demandas dos carboneros e criar um clima bem mais caloroso que o geralmente oferecido no gigantesco Centenario. Jogar no Campeón del Siglo costuma ser complicado, bem mais pelo ambiente pouco amistoso imposto pelos torcedores carboneros. Desde a inauguração, apenas o Palmeiras ganhou um jogo de Libertadores entre os visitantes do local – em noite que terminou com pancadaria. Já o Furacão já fez estrago por lá em sua visita na Copa Sul-Americana de 2018, com goleada por 4 a 1.

Monumental de Núñez

Inauguração: 1938
Capacidade: 66,2 mil
Altitude: 25 metros
Quem vai jogar lá: São Paulo

O palco da final da Copa do Mundo de 1978 foge dos padrões dos estádios argentinos, especialmente por sua arquitetura suntuosa. Não à toa, por vezes é difícil criar uma atmosfera incendiária que se equipare com outras canchas do país e a torcida do River Plate costuma ser alvo das brincadeiras dos rivais. Contudo, a Libertadores é o momento perfeito para fervilhar. A casa se enche nos jogos pelo torneio continental e os recebimentos apoteóticos são comuns. O problema é lidar com as punições recentes à torcida. Desde que Marcelo Gallardo assumiu, o River só perdeu três jogos como mandante na Libertadores – e, em dois deles, ainda saiu com a classificação nos mata-matas ao compensar na volta.

Casa Blanca

Inauguração: 1995
Capacidade: 41,5 mil
Altitude: 2850 metros
Quem vai jogar lá: São Paulo

Encarar o ar rarefeito dos Andes costuma ser um problema em qualquer visita a Quito. Porém, a LDU Quito impõe mais obstáculos aos seus adversários dentro do Estádio Rodrigo Paz Delgado, o tradicional Casa Blanca. Inaugurado em 1995, é a segunda maior cancha do país. Se as laterais possuem uma estrutura mais moderna, as tribunas atrás dos gols são no melhor estilo “muralha”. E o detalhe é que o palco tantas vezes lota, especialmente diante da ânsia dos albos na Libertadores. Certamente um dos locais mais difíceis de encarar no continente.

Guillermo Briceño

Inauguração: 1946
Capacidade: 20 mil
Altitude: 3824 metros
Quem vai jogar lá: São Paulo

A maior altitude da Libertadores não estará em La Paz, mas sim em Juliaca, cidade às margens do Lago Titicaca. O Binacional aproveita a altitude e o clima seco como diferenciais dentro do próprio Campeonato Peruano. Deverá ser um dos ambientes mais temidos da Libertadores. O Estádio Guillermo Briceño foi reformado recentemente pela prefeitura, para que pudesse receber os jogos dos celestes. É uma cancha pequena, mas não um caldeirão. É ver qual será a empolgação da torcida local na participação inédita.

Olímpico Pascual Guerrero

Inauguração: 1937
Capacidade: 35,4 mil
Altitude: 1028 metros
Quem vai jogar lá: Grêmio e Inter

Um dos estádios mais tradicionais da Colômbia, mas que passou um longo tempo fora da Libertadores, ante a ausência do América de Cali e a construção da nova casa do Deportivo Cali. Modernizado durante o período de seca dos Diablos Rojos, é uma das praças esportivas mais bem estruturadas do país e abriga parte dos jogos da seleção. Deverá ferver nesta Libertadores, por tudo o que significa ao clube nesta reconstrução, após cinco anos disputando a segunda divisão e outros quatro tentando se colocar na primeira prateleira. Por ser um estádio olímpico, os torcedores permanecem um pouco mais distantes do gramado.

San Carlos de Apoquindo

Inauguração: 1988
Capacidade: 14,1 mil
Altitude: 570 metros
Quem vai jogar lá: Grêmio e Inter

Curiosamente, em grupos diferentes, Grêmio e Internacional também passaram pelo estádio na fase de grupos passada. O San Carlos de Apoquindo é a tradicional cancha da Universidad Católica, mas também costuma ser usado por outros clubes sem estádios aptos – no caso anterior, o Palestino. A praça esportiva de Santiago não é tão grande assim, mas o formato de suas arquibancadas mais abertas evita o “efeito caldeirão”. Destaque à bela vista dos Andes que os jogadores têm em campo.

Manuel Ferreira

Inauguração: 1964
Capacidade: 22 mil
Altitude: 43 metros
Quem vai jogar lá: Santos

Depois que o Cerro Porteño investiu na reforma da Olla Azulgrana, o Olimpia também retoma seu alçapão. O Manuel Ferreira tem um quê de Vila Belmiro, e até foi inaugurado com um amistoso contra o próprio Santos em 1964. “El Bosque Para Uno”, como é conhecido, recebeu algumas modernizações recentes – como a instalação de cadeiras mais próximas do campo. Já vem sendo usado nas partidas franjeadas pelo Campeonato Paraguaio – inclusive nos clássicos ou no duelo que consagrou os olimpistas como tetracampeões nacionais. Tentam recriar seu caldeirão.

Jocay

Inauguração: 1962
Capacidade: 20 mil
Altitude: 6 metros
Quem vai jogar lá: Santos

O Santos não precisará temer a altitude contra o Delfín, embora a viagem ao estádio no interior do Equador possa trazer algum desafio logístico, mesmo com seu aeroporto local. O Estádio Jocay atende as determinações da Conmebol e passou por reformas nesta década, antes mesmo que se tornasse um destino comum nas competições continentais. No entanto, a renovação é mais ampla e um novo setor de arquibancadas esteve entre as obras recentes. Por suas áreas de escape, lembra bastante alguns campos de clubes menores pelo Brasil, mas não intimida muito.

Norberto Tomaghello

Inauguração: 1978
Capacidade: 10 mil
Altitude: 43 metros
Quem vai jogar lá: Santos

Outro estádio que, até mesmo pelo seu tamanho, não representará muita pressão ao Santos. A casa do Defensa y Justicia foi inaugurada em 1978, quando o clube dava os seus primeiros passos rumo ao profissionalismo, ainda nas divisões de acesso do Campeonato Argentino. Possui arquibancadas diminutas, com um pouco mais de lugares disponíveis atrás dos gols, onde existem “muralhas auriverdes” com lances bem íngremes e espaço para as barras. É ver como a torcida da casa tentará se impor neste início de história continental, limitada a participações recentes na Sul-Americana.