O futebol vive um momento especial nos Estados Unidos. A forma como os americanos se mobilizaram para assistir à seleção na Copa do Mundo foi contagiante. A empolgação se seguiu com o anúncio da chegada de craques do calibre de Kaká, David Villa e Lampard à Major League Soccer. E tem o seu ápice nas arquibancadas do país neste sábado. Real Madrid e Manchester United fazem amistoso para 109 mil pessoas no Michigan Stadium. A “Big House”, maior estádio dos EUA e terceiro maior do mundo na atualidade, esgotou os ingressos para o jogo. O maior público para o “soccer” na história dos EUA, superando os 101,8 mil presentes no Brasil 0x2 França, final dos Jogos Olímpicos de 1984.

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A história recente dos grandes públicos nos Estados Unidos passa pelo Seattle Sounders, com média superior a 44 mil torcedores em suas partidas em casa. Um número antes só alcançado pelo New York Cosmos em seu auge, no final da década de 1970 – com o ápice de 47 mil pessoas por partida em 1978. E marcas que remetem a um público que permaneceu imbatível nos EUA por décadas, em jogo que pode ser considerado um divisor de águas do esporte no país: os 46 mil torcedores que encheram o Polo Grounds, em Nova York, em 1926.

O recorde estabelecido em 1º de maio daquele ano só seria superado justamente pelo Cosmos, nos anos 1970. Foi alcançado no duelo entre a seleção dos jogadores de Nova York que disputava a American Soccer League (campeonato amador do país da época) contra um adversário que vinha em excursão da Europa. Mas nada de Manchester United, Real Madrid ou outra camisa que hoje continue pesada no futebol internacional. O responsável por essa proeza é o Hakoah Viena, um clube que merece respeito por tudo o que representou.

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O Hakoah foi fundado em 1909 pela comunidade judaica de Viena. Era uma resposta poliesportiva às teorias que afirmavam a inferioridade física dos judeus. O próprio nome do clube, que reunia diversas modalidades, significava “força” ou “poder” em hebreu. E foi no futebol que a equipe vienense tornou essas qualidades mais evidentes. A partir da década seguinte, o Hakoah começou a encher as arquibancadas, apoiado até mesmo por Franz Kafka entre os seus fãs ilustres. Nos anos 1920 vieram os resultados mais notáveis, incluindo a conquista do Campeonato Austríaco de 1924/25 em circunstâncias épicas. Na partida decisiva, o goleiro Alexander Frei quebrou o braço e, sem substituições, precisou ir para a linha. Pois foi dele o gol do título.

hakoah

Em 1925/26, o Hakoah Viena conquistou o bicampeonato nacional. Com a fama de uma equipe vitoriosa e de futebol vistoso é que os austríacos partiram em viagem, tornando-se o primeiro clube da história do futebol em turnê mundial. A equipe passou por Europa, América do Sul, Europa e Estados Unidos levantando a questão judaica, em meio a uma época de antissemitismo crescente. E, nos EUA, o time acabou abraçado pela comunidade de judeus, assim como por muitos curiosos.

Nos três primeiros amistosos, os forasteiros levaram pelo menos 25 mil pessoas ao estádio. Já na grande partida do Hakoah contra a seleção de Nova York, os americanos surpreenderam: os 46 mil presentes comemoraram a vitória por 3 a 0 dos locais, com três gols de contra-ataque. Ao todo, o Hakoah disputou 12 jogos em solo americano, com sete vitórias e duas derrotas.

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O problema é que, sem se aproveitar das bilheterias, o clube acabou tendo prejuízo na turnê. E, com o antissemitismo assombrando a Europa, nove jogadores preferiram se estabelecer nos Estados Unidos. Entre eles, o lendário Béla Guttmann, que era defensor da equipe e voltou a Viena apenas para encerrar carreira, assim como para se iniciar como técnico. Depois, outros atletas seguiram para o futuro território de Israel, utilizando o futebol para a afirmação nacional com a criação do Hakoah Tel-Aviv – e, não à toa, o primeiro jogo da seleção israelense aconteceu justamente no Polo Grounds, contra os EUA, em 1948.

De uma maneira geral, a passagem do Hakoah teve influência para o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos. Enquanto isso, o clube austríaco entrou em declínio com a debandada, extinto a partir da invasão da Áustria pelos nazistas em 1938 – sete jogadores acabaram mortos durante a perseguição aos judeus. O legado do Hakoah, no entanto, permanece até hoje, e em vários aspectos. Na luta contra a discriminação aos semitas; no exemplo de como os israelenses poderiam defender sua causa através do futebol, sem violência; no início das turnês mundiais dos clubes; e no gosto que os americanos pegaram pelo futebol.