No último mês de outubro, lançamos aqui na Trivela o nosso novo projeto de financiamento coletivo, na plataforma Padrim. A ideia é trazermos recursos para, primeiro de tudo, nos mantermos em pé. Mas também queremos fazer mais. Mais matérias especiais, mais vídeos, mais podcasts. Assim, para apresentar um pouco de nossa história e resgatar o tipo de conteúdo que pretendemos privilegiar no site, iremos republicar semanalmente reportagens e outros artigos fundamentais na trajetória da Trivela – seja no site ou na nossa antiga revista.

O texto escolhido para esta quinta foi publicado originalmente no site, em 24 de novembro de 2016. Foi o último artigo a ser redigido sobre a Chapecoense antes do desastre aéreo que aconteceu em 29 de novembro. Falava sobre o orgulho deixado pela campanha até a decisão da Copa Sul-Americana, após eliminar o San Lorenzo, e a maneira como o Verdão do Oeste servia de exemplo a outros clubes do interior do Brasil. A cobertura da tragédia, sem dúvidas, foi a mais intensa (em fluxo de trabalho e em desgaste emocional) que vivemos aqui na Trivela. Neste dia em que se completam dois anos do acidente, fica nossa lembrança sobre os momentos felizes dos heróis. Leia e apoie o nosso Padrim:

O feito da Chapecoense é o sonho que todo torcedor de time do interior compartilha

Por Leandro Stein

Quem torce para um clube do interior conhece a dor e a delícia de ser o que é – principalmente a delícia. Você pode até ter um “time grande” de infância, lidar com as acusações de “ser misto”, manter pelo menos um elo como o “futebol de primeiro nível”. Mas quem torce para um clube do interior (e nem precisa ser o interior do estado propriamente dito, mas também as capitais que são vistas como “interior do país” ou nas próprias periferias das grandes metrópoles) sabe que não existe meio termo. Se você torce, vive aquilo intensamente. Veste as cores, vai ao estádio, apoia, sofre. E o objetivo ali não está nem nos títulos, às vezes nem na vitória. É um ato de abnegação. É entregar-se nas arquibancadas a serviço do time, num nível mais intenso do que o transmitido todas as quartas e domingos pela TV. É simplesmente exercer o papel de torcedor, e quase sempre só isso: aquele que, mais do que o resultado, vive a paixão. Nem é necessário cobrar, não se precisa disso. A vida é modesta, mas feliz.

Torcer para um clube do interior geralmente é questão de identidade. Você não precisa obrigatoriamente ter a influência de um pai, de um tio, de um irmão. Nem que um time inesquecível te cative a ponto de frequentar a arquibancada. É ser. O altruísmo está a serviço da cidade que você ama. Da gente em quem você se reconhece. Do ato de estar lá e conviver, quando o futebol se torna apenas um pretexto. Mas não é por ser pretexto que ele deixa de ter sua importância. Também é o objetivo de todos que estão lá. Dar seu grito sem querer receber nada em troca, embora se receba sempre de quem está lá contigo, compartilhando os mesmos momentos.

O desejo de qualquer torcedor do interior é modesto. Geralmente, está no mesmo patamar que muitos “grandes” consideram como tragédia. É batalhar por um acesso. Às vezes, não precisa nem conquistar que a gente fica satisfeito. Basta lutar. Mas quando a conquista vem, ah, tenha certeza que não se apagará nunca das lembranças. O jogo cardíaco, o golaço deslumbrante, as arquibancadas cheias. Podem até ser eventos raros, mas de gosto ainda mais especial quando acontecem no Brasil profundo. A sensação de que você fez parte daquilo e ajudou a empurrar além dos limites se torna muito maior.

Eu imagino o que o torcedor da Chapecoense está vivendo desde a noite desta quarta. E bem antes disso, quando o time sequer disputava as divisões nacionais ou corria riscos no estadual. Torço para que o momento se amplie. Que eles aproveitem ao máximo. Afinal, o que o Verdão experimente em sua epopeia no Brasileirão e agora também na Copa Sul-Americana é aquilo que todo torcedor do interior sonha em aproveitar com seu próprio clube. Das penúrias à glória. À façanha que marque o nome do time além dos limites do município. Que, quando estiver visitando outra cidade com a camisa do time, alguém a reconheça e o admire – e isso, acredite, já faz seu dia valer. Que as histórias sejam contadas aos quatro cantos. Que a comunhão entre os torcedores tome as arquibancadas, transborde pelas ruas, exale pelo resto do país. Agora, também do continente. O próprio orgulho faz o sorriso fácil, por ser torcedor daquele time abençoado, se transformar em troféu.

A trajetória inacreditável aconteceu no oeste de Santa Catarina. Mas, no próprio âmago, quem torce para um clube do interior espera que ela se reproduza em outros cantos, em outros estados. O sucesso da Chape não precisou de grandes loucuras. Foi, sim, meteórico, mas permitiu que se desfrutasse cada degrau alcançado. Vem mais pela sobriedade que se nota fora de campo e a seriedade que não se perde a cada dividida no gramado. E, tão importante quanto, mobilizou uma cidade inteira. Não é porque há o auxílio de empresários que se perde o caráter local, de apego às raízes. Chapecó agora reluz no mapa. Não importa se muitos lá têm seu “time grande”, se são mistos. Todo mundo é genuinamente alviverde. Questão de identidade. Questão de compromisso com as próprias origens, os próprios princípios, as próprias relações.

Quem é da Chapecoense tem consciência que esse transe todo pode não durar tanto tempo. Afinal, é torcedor de interior e, assim sendo, sempre mantém os pés no chão. Eles querem que o êxtase se prolongue ao máximo, claro. Mas se o futebol começar a murchar, o peito não murcha da felicidade inerente ao clube. O laço não depende do ouro das taças. A motivação está em viver, em conviver, em compartilhar. Em ter histórias para contar. E que bom é viver o hoje sabendo que ele será História, com agá maiúsculo. Uma sensação única, ainda mais para quem sabe como ela é rara para a imensa maioria dos clubes que militam pelo país. O principal é desfrutar cada momento.

Nas próximas semanas, a Chapecoense será observada com um carinho ainda maior pelo Brasil. Difícil encontrar quem não torcerá pelo sucesso do Verdão na Copa Sul-Americana – talvez, só parte dos rivais de Santa Catarina, e mesmo assim nem todos. Terá apoio de muitos daqueles que torcem pelos ditos “time grandes”, acostumados a esperar o triunfo continental. Mas também contará com uma fé especial vinda daqueles apegados ao que acontece no futebol longe dos holofotes. A Chape é o sonho em comum que se materializa. Que, quem sabe um dia, não se repita também com a nossa modesta equipe do interior. A esperança de que, ao lado da nossa gente, possamos ver aquele nosso apego com a própria identidade se destacar através do futebol. Bem-aventurados sejam os chapecoenses. Todo mundo que torce para um clube do interior se vê um pouco neles, e deseja que o antes impensável agora se torne concreto no oeste de Santa Catarina.

*****

Outros textos sobre a ascensão da Chapecoense prévios ao acidente:

Novembro de 2016

Danilo fez-se monumento à imensa valentia da Chape: O epicentro do continente é a Arena Condá

Novembro de 2016

A Chape encarou o San Lorenzo de igual e volta com um excelente empate do Nuevo Gasómetro

Outubro de 2016

A façanha da Chapecoense nesta quarta começou a partir da inflamada recepção de sua torcida

Outubro de 2016

O delírio é verde: Em meio ao dilúvio, a Chape se garante na semifinal da Copa Sul-Americana

Setembro de 2016

Danilo foi o paredão que barrou o ‘Rey de Copas’ e fez a Chape reavivar seu sonho de América

Outubro de 2015

Mesmo sem a classificação, a Chape conquistou a vitória e a honra ao aterrorizar o River

Outubro de 2015

O orgulho da Chape em encarar o River Plate transcendeu qualquer resultado no Monumental

Outubro de 2015

A Chape segue viva em seu sonho de América e escreverá um épico contra o River Plate

Novembro de 2014

Não importa a classificação final, a Chapecoense já ganhou o Brasileirão

Dezembro de 2013

A ascensão de Santa Catarina: austeridade, paixão e apoio local