O Estádio do Pacaembu chega aos 80 anos em meio ao compromisso mais importante de sua história. A transformação do campo em hospital de campanha reforça o simbolismo do Municipal à cidade de São Paulo e ao próprio cotidiano paulistano nas últimas oito décadas. Ponto de encontro obrigatório na capital, o estádio suscita lembranças e emoções a praticamente todos que passam pelos arredores da Praça Charles Miller – sobretudo por causa do futebol, mas não apenas por ele. E, neste momento, o espaço que já celebrou algumas das maiores alegrias do povo paulista oferece seu alento na luta contra a pandemia.

A construção do Pacaembu ocorreu num vale que parece perfeitamente moldado para abrigar um estádio de futebol. Os morros nas laterais sustentam as arquibancadas e abraçam o campo. Já a Praça Charles Miller serve de epicentro a uma região que conflui àquele local, marcada pela imponente entrada do estádio – tombada como patrimônio histórico. A fachada, inspirada no Estádio Olímpico de Berlim, combina simetricamente colunas e janelas. No alto, duas torres, bem como o relógio como adorno central. No centro, o nome do Estádio Municipal. Uma visão que remete a outros tempos de São Paulo.

(Allegra Pacaembu)

Construído em estilo art déco, o Pacaembu se combina com tantos cartões-postais da cidade. Não é coincidência tal impressão, já que o estádio faz parte das obras assinadas pelo Escritório Ramos de Azevedo – que, entre as contribuições à capital paulista, também arquitetou a Pinacoteca, o Teatro Municipal, o Mercado Municipal e outros ícones da metrópole em franco crescimento. Financiado pelo poder público, o Estádio Municipal era mais uma maneira de representar a riqueza de São Paulo. O maior estádio da América Latina atendia aos interesses dos governantes, sobretudo em tempos nos quais a prática esportiva também se tornava um projeto político para representar a força de uma região e disciplinar a população.

Embora a idealização do Pacaembu tenha se iniciado na década de 1920, quando os tempos de amadorismo permitiam pensar num estádio até mesmo sem portões, sua construção e sua inauguração já se inseriam no contexto do Estado Novo. A influência de outros regimes totalitários seria traçada desde as obras, como a própria inspiração no principal estádio da Alemanha e também nas dimensões de um local para reunir grandes massas. Já a abertura do Estádio Municipal não abrigaria apenas eventos esportivos. Seria ocasião para um ato político de Getúlio Vargas na cidade de São Paulo, diante de mais de 50 mil pessoas, também com as presenças do interventor Adhemar de Barros e do prefeito Prestes Maia.

Em 27 de abril de 1940, a inauguração do Pacaembu aconteceu muito mais como um “evento cívico-esportivo”. Com Vargas assistindo a tudo na tribuna de honra, o gramado seria palco de desfiles de atletas e cerimônias patrióticas. Até mesmo uma pira olímpica seria acesa no novo Estádio Municipal. No entanto, a tarde também contaria com certa insurgência do público presente nas arquibancadas contra o presidente. Vargas, que rompeu a hegemonia do ‘café com leite’ no poder e suprimiu o levante paulista durante a Revolução Constitucionalista, foi recebido com vaias no Pacaembu. Além disso, em tempos nos quais os símbolos estaduais eram proibidos, a torcida ovacionou a delegação do São Paulo como sinal de seu orgulho regional.

“A inauguração oficial do Estádio Municipal de São Paulo, que se realizou na tarde morna e luminosa de ontem, constituiu um sadio entusiasmo, enchendo de alegria e legítimo orgulho os olhos e o espírito de toda uma multidão ali presente às cerimônias de abertura da majestosa praça, que lhe dá a primazia na América do Sul em mais esse setor. Poucas vezes, acreditamos, nos será dado presenciar uma festa como essa”, destacou o jornal O Estado de S. Paulo, em seu relato do primeiro evento.

(Arquivo Histórico de São Paulo)

A bola só rolou, de fato, em 28 de abril. Para marcar a inauguração do Pacaembu, um mini-torneio aconteceu no estádio. Corinthians e Palestra Itália seriam os representantes de São Paulo no Municipal. Forças dominantes no recém-estabelecido profissionalismo e já entre os clubes mais populares da cidade, a dupla havia terminado nas duas primeiras colocações do Campeonato Paulista de 1939 – com o terceiro título consecutivo dos alvinegros. Até houve uma tentativa de reunir campeão e vice do Rio de Janeiro, mas Flamengo e Botafogo já tinham começado suas campanhas no Carioca de 1940. Assim, os paulistanos enfrentariam Coritiba e Atlético Mineiro – também campeões em seus estados no ano anterior.

A primeira partida, reunindo Palestra Itália e Coritiba, teve vitória dos anfitriões por 6 a 2. Ainda assim, coube ao visitante Zequinha anotar o primeiro gol da história do Pacaembu: num cruzamento limpo de Pivo, o coxa-branca dominou e soltou a bomba rasteira para vencer o goleiro Gijo, antes que os palestrinos iniciassem sua virada. Naquele mesmo domingo, o Corinthians também fez sua parte e derrotou o Atlético Mineiro por 4 a 2. Cerca de 50 mil pessoas compareceram às arquibancadas – em público prejudicado pela chuva, segundo a Folha da Noite. No final de semana seguinte, para definir o campeão, ocorreria o primeiro Dérbi da história do Municipal: deu Palestra, por 2 a 1.

Echevarrieta abriu o placar aos alviverdes durante o primeiro tempo e o goleiro Gijo também figurava entre os destaques do Palestra Itália, ao conter o poderoso ataque corintiano estrelado por Teleco e Servílio. No início da etapa complementar, porém, um gol contra de Begliomini permitiu o empate do Corinthians. Já a vitória palestrina seria selada a 15 minutos do fim, numa falta cobrada por Del Nero que Luizinho concluiu de cabeça dentro da área. O ponta garantiu ao Palestra a conquista da inédita (e única) Taça Pacaembu.

Conforme a Folha da Noite, o “público recorde” chegou a estimados 60 mil presentes – muito embora parte dos torcedores tenha até mesmo entrado nas arquibancadas sem apresentar o ingresso. “Tão grande foi a afluência de esportistas no Estádio do Pacaembu que a polícia, mesmo dispondo de um contingente numeroso de guardas, não logrou impedir que grande parte dos assistentes invadisse o recinto da primeira classe e os lugares numerados”, descrevia o jornal, na época.

(Werner Haberkorn/Fotolabor/Museu Paulista da USP)

Cabe frisar que a inauguração do Estádio Municipal não seria marcada apenas pelo futebol. O Pacaembu também abriga uma ampla estrutura poliesportiva, localizada atrás da antiga Concha Acústica – e do atual Tobogã. A semana inicial também incluiria uma competição sul-americana de natação, com homenagem à lendária Maria Lenk; partidas de basquete, com direito ao duelo entre o campeão paulista e a seleção uruguaia; lutas de boxe entre Brasil e Argentina, bem como jogos de tênis; e até mesmo um torneio internacional de esgrima. Já em 12 de maio, ampliando um pouco mais as festividades, também foi inaugurado o Autódromo de Interlagos.

Getúlio Vargas, todavia, não compareceu aos jogos esportivos no Estádio Municipal. Sua visita a São Paulo teria outros compromissos. O presidente estava presente em um desfile militar realizado na Avenida São João, com 15 mil oficiais. O evento se tornava ainda mais significativo dentro do contexto, em tempos nos quais a Europa via os avanços das tropas nazistas durante os primeiros meses da Segunda Guerra Mundial. Neste sentido, a grandiosidade da inauguração do Pacaembu também possuía seu peso. Mas, se o uso político do estádio foi frequente em seus primeiros anos, muito mais preponderante seria o impulso que ele permitiu à popularização do futebol nos anos 1940.

Desde então, o Pacaembu sofreu algumas modificações. A mais importante delas foi o fim da Concha Acústica. A construção fazia parte de uma ideia mais ampla do uso do complexo, prevendo também apresentações artísticas e eventos cívicos no local. Ali seria erguido em 1969 o Tobogã: um trecho de arquibancadas bastante simplório do ponto de vista arquitetônico, ainda que emblemático a muitas torcidas. Sua abertura, aliás, ocorreu com o Corinthians x Cruzeiro no qual Tostão sofreu sua primeira lesão na retina – que quase o tirou da Copa e, posteriormente, abreviaria o fim de sua carreira.

E a quantidade de partidas históricas no Pacaembu é enorme, mesmo com a concorrência do Morumbi a partir de 1960. O Estádio Municipal recebeu 72 mil para ver a estreia de Leônidas da Silva no São Paulo 3×3 Corinthians, recorde que prevalece desde 1942, e teve a honra de abrigar a Copa do Mundo em 1950. Todos os grandes clubes paulistas conquistaram títulos memoráveis no local, dos tempos em que o estadual tinha um peso enorme às mais recentes Libertadores enfileiradas na capital. Além do mais, o número de ídolos que desfilaram suas habilidades nos gramados do Pacaembu é infindável – a começar por Pelé, que até de goleiro jogou no Municipal, e outros tantos que se colocam no Olimpo do futebol brasileiro.

(José Rosael/Hélio Nobre/Museu Paulista da USP)

Nos últimos anos, o grande acréscimo do Pacaembu foi o Museu do Futebol – um espaço dedicado não apenas a recontar o passado do estádio, mas que também ajuda a valorizar a história da modalidade no país e destaca o conhecimento ao redor de tudo o que representa, em diversos campos da sociedade. Com a inauguração das novas “arenas” ao redor da cidade, o Municipal tornou-se um palco menos frequente aos jogos da capital. Ainda assim, são raros os estádios no Brasil que possuem tantas memórias, tanto significado e tanta beleza em si.

O Pacaembu é a imagem idealizada a muitos paulistas sobre o que deveria ser verdadeiramente um estádio de futebol, do ambiente na Praça Charles Miller ao calor que se sente nas arquibancadas. Continua sendo assim, mesmo nas raras visitas dos quatro grandes. E continuará mesmo com o passar das décadas, mesmo com um novo projeto comercial que derrubará o Tobogã. Mesmo agora, em meio à pandemia, substituindo o riso inerente pela acolhida de sua gente. Ser “acolhedor” sempre foi uma virtude do velho Municipal, de todas as torcidas e todas as gentes.

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(Werner Haberkorn/Fotolabor/Museu Paulista da USP)

Para celebrar os 80 anos do Pacaembu, separamos uma coleção de recortes dos jornais e revistas da época – falando sobre o projeto, sobre a inauguração e também sobre aquele primeiro Palestra Itália x Corinthians. Vale lembrar que os veículos de imprensa precisavam agir conforme as diretrizes do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, que impunha censura e forçava o tom de exclamação patriótica. As páginas são de Folha, Estado, Correio Paulistano, Revista Careta, Sport Illustrado, Globo Sportivo e Jornal do Brasil. Para ampliar, clique no recorte com o botão direito do cursor e selecione ‘abrir imagem em nova guia’.

Outra dica preciosa é conferir as fotografias de Thomaz Farkas sobre o Pacaembu, presentes nos arquivos do Instituto Moreira Salles. Nascido na Hungria, Farkas emigrou com a família para São Paulo em 1930 e cresceu na região do estádio. Um dos mais importantes fotógrafos da história do Brasil, ele realizou registros incríveis do Municipal, sobretudo em seus primeiros meses após a inauguração. Mais importantes que o esporte, entretanto, são as pessoas que enchem as tribunas e o entorno. O material é fantástico e rendeu o livro “Pacaembu”, com prefácio assinado por Juca Kfouri.