Há oito anos, quem entrava na agência bancária da Caja Círculo em Quincoces de Yuso, um povoado de 200 habitantes no norte da Espanha, poderia se deparar com um herói da Copa do Rei. Pablo Infante transformou-se em símbolo cult do futebol espanhol em 2012. O ponta de 32 anos encabeçou a campanha do Mirandés rumo às semifinais do torneio nacional. O bancário conciliava a rotina como funcionário da Caja Círculo e os compromissos com os Rojillos, então militando na terceira divisão. Viajava 100 quilômetros apenas para treinar, entre ida e volta todas as noites. E o esforço se pagou com a jornada histórica, na qual ele anotou seis gols, todos para eliminar adversários da elite. O camisa 14 ainda foi artilheiro daquela Copa do Rei.

Oito anos depois, Infante não trabalha mais na Caja Círculo e não atua no Mirandés. Mesmo com a repercussão da campanha, o atacante permaneceu no clube até 2014, antes de defender a igualmente modesta Ponferradina nas duas últimas temporadas de sua carreira. Após pendurar as chuteiras, foi o primeiro colocado entre os 560 candidatos em um concurso à Secretaria de Transportes da Prefeitura de Burgos e retornou à sua cidade natal. Porém, sua história no futebol continua marcada. Sobre um armário em seu escritório, aparecem as fotos dos tempos como jogador. Em uma delas, celebra a classificação às semifinais da Copa do Rei em 2011/12. Na outra, há a festa pelo acesso inédito à segunda divisão espanhola, conquistada pelos Rojillos ao final da mesma temporada.

Nestas semanas em que o Mirandés voltou a ganhar as manchetes na Espanha, por repetir a incrível campanha até as semifinais da Copa do Rei, Infante passou a ser requisitado pela imprensa. E segue falando com carinho do clube ao qual dedicou nove anos de sua vida, de 2005 a 2014. Foram mais de 300 partidas pelo Campeonato Espanhol com os Rojillos, inicialmente na quarta divisão, até alcançar a segundona. E também centenas de milhares de quilômetros rodados, de Quincoces de Yuso até Miranda de Ebro, para alimentar a sua paixão.

“Quando você está lá, não se dá conta da magnitude do que está conseguindo. Não é consciente do que está conseguindo. Mas, à medida que passam os anos, sobretudo quando você deixa o futebol, um dia pensa: bom, jogamos as semifinais da Copa do Rei, o que não é nada fácil”, contou Infante, em entrevista à ótima Revista Panenka. “Foi um momento de loucura. De loucura. Subimos às nuvens. O que sentimos foi algo superior à felicidade. Era algo mais que felicidade. Era um grau maior, de êxtase. Não sei como definir. Foi uma loucura. Coisa de filme”.

Após enfrentar outros adversários das divisões de acesso nas fases iniciais da Copa do Rei 2011/12, o Mirandés passou a desafiar os times da primeira divisão a partir dos 16-avos de final. Em jogos de ida e volta, eliminou Villarreal e Racing de Santander. Já a vaga nas semifinais veio em cima do Espanyol de Mauricio Pochettino. Os catalães ganharam a ida por 3 a 2 no Cornellà-El Prat. Mas na volta, dentro do Estádio Municipal de Anduva, os Rojillos buscaram a virada por 2 a 1. Infante anotou o tento de empate. Já o triunfo saiu aos 47 do segundo tempo, num milagre garantido por César Caneda. Pelos gols fora, a classificação se tornou real.

“Foi uma sensação incrível. Impossível de descrever. O futebol tem algo de mágico, que te faz sentir coisas que não pode sentir com outras coisas da vida. Quando alguém faz um gol, quando alguém realiza um feito como o nosso, você sente coisas que, ao menos para mim, nada além do futebol poderia dar”, relembrou, sobre aquela vitória contra o Espanyol.

Ainda melhor seria a recepção que Infante teve na cidadezinha onde trabalhava e morava, Quincoces de Yuso: “Cheguei em casa às duas da manhã. Quase nem me lembro da viagem, tenho muitas lacunas na memória sobre aquele dia. Parecia que eu levitava. Que eu estava a dois ou três metros acima do chão. ‘O que fizemos! O que fizemos! Minha mãe!’, eu me dizia. Foi uma coisa de louco. As pessoas sabiam que eu jogava futebol. Porque, além do mais, era um povoado pequeno, de nem 200 pessoas. Aquela gente era maravilhosa. Estavam felizes por ver o que havia conseguido um de seus vizinhos”.

Inescapavelmente, Infante compara o que acontece em 2020 e o que ocorreu em 2012. Sem querer puxar sardinha para o seu lado, reconhece como a caminhada foi mais longa daquela vez. Os grandes eliminados tinham 180 minutos para tentar sobreviver, mas ainda assim caíram: “Para chegar às semifinais, jogamos nove partidas. Era muito mais difícil. Jogávamos ida e volta desde os 16-avos. Agora o Mirandés é um clube da segunda divisão, além do mais. Nós vínhamos de um planeta ainda mais distante. Não vínhamos de Júpiter, como agora. Vínhamos de Netuno”.

E, antes que a Real Sociedad entre em campo a partir desta quinta, como próximo desafio ao Mirandés, Infante ressalta como o horizonte dos pequeninos mostra algo além desde já: “Quando uma equipe está nas semifinais, e ainda mais quando chega até aí merecidamente, o que vê, o que quer, o que deseja é a final. Já está lá. Você tem a final ao alcance da mão. Já sonha grande. Já não pensa que jogará contra a Real Sociedad, contra Oyarzabal, contra Odegaard. Pensa em como ganhar da Real Sociedad, de Oyarzabal, de Odegaard”.

Se Infante vai torcer por uma nova façanha do Mirandés? Não há dúvidas, é claro. O atual funcionário da prefeitura de Burgos continua ligado em alma com os torcedores que frequentam o Estádio Municipal de Anduva. Os sentimentos ainda o povoam:  “A melhor lembrança que tenho do futebol é ver como os torcedores de Anduva desfrutavam tudo o que conseguíamos. Isso é o mais bonito de ser jogador. Ver as pessoas felizes. Vê-los saltar. Poder fazê-los felizes. Poder fazê-los saltar. Este é o maior presente que o futebol te dá, o maior prêmio. É o maior, ao menos para mim. ‘Como nos fazem felizes’, nos diziam. E logo em campo você via que era verdade, que era assim”.

Mais do que ninguém, Infante consegue traduzir o que a nova campanha corresponde ao povo de Miranda de Ebro, uma cidade de 35 mil habitantes que vive o seu amor pelo clube ao máximo: “Em Miranda existe um vínculo, um orgulho, um sentimento de pertencimento brutal para com o Mirandés. Aqui, em Burgos, as crianças são do Barcelona ou do Real Madrid. Em Miranda, todos são Mirandés. O primeiro é o Mirandés, para todos. Era um sentimento de pertencimento que passava de geração em geração. E isso é precioso. É o que faz ser incrível jogar em Anduva. Ali você se sente futebolista”.

Para o antigo artilheiro, a essência do futebol se preserva no Mirandés: “Lá foi onde eu me senti melhor em minha carreira. Quando entrava em campo em Anduva, eu me sentia bem. Eu me sentia feliz. Agora, a entidade administra umas cifras totalmente diferentes da minha época. A realidade é que o clube mudou, melhorou com o passar do tempo, mas mantém a essência. A essência do futebol humilde. Do futebol de antes, puro, daquele que conhecemos quando crianças. Dos campos de terra cheios de lama por causa da chuva, daquele que jogávamos no colégio, do futebol de rua. Do bairro”.

“A vida é isso. Não mais que isso. Sempre disse: eu não era torcedor do Mirandés de berço, mas agora sou. O vínculo que tenho com o clube, o sentimento que tenho com o clube, a gratidão, tudo isso é enorme”, pontua. Por aquilo que Infante transmite e pelo sentimento do qual ele se tornou um porta-bandeira, certamente mais gente torcerá para que a epopeia dos Rojillos se amplie um pouco mais. A história continuará sendo escrita nesta quinta, com o jogo de ida contra a Real Sociedad no Estádio de Anoeta. Anduva aguarda seu ardor para o início de março.