No futebol brasileiro, Pablo Daniel Escobar será lembrado como um atacante mediano, que rodou por clubes do interior. As lembranças mais vivas serão aos torcedores de Ipatinga, Santo André, Mirassol, Ponte Preta e Botafogo de Ribeirão Preto, por onde o camisa 10 acumulou suas fugazes passagens. O jogador modesto por aqui, todavia, também pode ser deificado em outros cantos do mundo. Foi assim, chamando de “dios”, que a torcida do Strongest se despediu do seu grande ídolo. Aos 40 anos, o ‘Patrón del Gol’ pendurou as chuteiras nesta quarta-feira, ao disputar a última rodada do Campeonato Boliviano. E justificou toda a veneração: anotou quatro gols na vitória por 8 a 0 sobre o Blooming, dentro do pulsante Estádio Hernando Siles, em La Paz.

Nascido em Assunção, Escobar começou no Olimpia e passou pelo Gimnasia de Jujuy, mas logo se tornaria boliviano de coração. Sua entrada no país ocorreu por meio do San José de Oruro e, em 2005, registraria a primeira de suas três passagens pelo Strongest. A primeira chance de acumular seus gols e conquistar o carinho da torcida, artilheiro do Bolivianão. O sucesso o levou ao Cerro Porteño, onde não emplacou, logo retornando ao Tigre. Mais gols, mais adoração com a camisa aurinegra. E depois de rodar o Brasil, sua volta definitiva a La Paz aconteceu em 2011. A partir de então, o veterano desfrutaria o melhor momento da carreira. Atravessaria a fronteira entre ser ídolo e se tornar uma lenda.

Afinal, as grandes façanhas do Strongest nestes últimos oito anos, invariavelmente, passaram pelos pés de Escobar. El Patrón virou a referência de times competitivos dos aurinegros. Não apenas dominaram o Campeonato Boliviano, como também registraram algumas dignas campanhas nas competições continentais, sobretudo na Libertadores. Ao lado de Alejandro Chumacero, o camisa 10 virou protagonista de uma equipe que se permitia sonhar. Que peitou gigantes além das fronteiras e acumulou cinco títulos nacionais desde o Apertura 2011. Que não fosse exatamente um craque, o medalhão sabia anotar os seus gols – inclusive vários golaços. Mereceu tamanha reputação que construiu, herói do Tigre, recordista absoluto do clube em jogos e gols.

O sucesso de Escobar, afinal, não se limitou ao Strongest. Em 2008, ele aceitara a proposta para defender a seleção boliviana. O ápice com La Verde aconteceu também nesta década, assinalando seus gols pelas Eliminatórias e participando da Copa América de 2015. Que não tenha sido destaque absoluto com a equipe nacional, recebeu o respeito das demais torcidas. E era aclamado por seu caráter. Reconhecido pela generosidade, o atacante chegou mesmo a organizar uma vaquinha para bancar salários atrasados de funcionários de seu clube.

Nos últimos anos, o Strongest não repetiu as mesmas glórias no Campeonato Boliviano. São quatro edições consecutivas da liga terminando com o vice. E diante da idade que pesava sobre os ombros, Pablo Escobar resolveu oferecer o seu adeus nesta quarta-feira. Durante o dia, foi recebido no palácio do governo pelo presidente Evo Morales. Já à noite, seu compromisso era em amarelo e preto. Sem mais chances de título, o Tigre entrou em campo apenas para honrar o seu ídolo. Para isso é que a torcida encheu as arquibancadas do Hernando Siles, com faixas e músicas especiais. Pela última vez, assistiram ao Patrón em seu esplendor. Talvez nem em seu maior sonho o camisa 10 esperava uma despedida dessas. Teve uma noite de Kobe Bryant, em que assinalou quatro gols nos 8 a 0 sobre o Blooming. Sua canhota funcionou, maltratando a débil defesa adversária.

Na saída de campo, mais emoção. Escobar se dirigiu à torcida do Strongest e dedicou sua últimas palavras, se dizendo mais um deles a partir de agora. “Agradeço a todos de coração. Quero dizer que, se caminharmos juntos, podemos enfrentar qualquer um. Estaremos juntos sempre. Peço desculpas por meus erros, pênaltis ou gols perdidos. Dei tudo de mim por esta camisa”, afirmou. Depois, puxaria os cânticos tradicionais, fazendo as arquibancadas do Hernando Siles tremerem. Um final grandioso a quem pode estar no “lado b” da história do futebol continental, mas termina com seu nome lembrado por aquilo que conquistou com o Strongest. A idolatria construída pelo paraguaio em La Paz é legado maior que o de muitos craques.