Mesut Özil é um caso muito curioso. Quando seu contrato estava chegando ao fim, o Arsenal estava desesperado para renová-lo porque não queria perder Alexis Sánchez e ele, dois dos seus principais jogadores, quase ao mesmo tempo. Agora, menos de dois anos depois, com o alemão sacando um salário vultuoso quase sem entrar em campo, parece bem dispostos a deixá-lo ir embora, mas Özil, em entrevista ao site The Athletic, disse que isso não está nos planos.

O treinador da assinatura de contrato de Özil, com salário de £ 350 mil por semana, foi Arsène Wenger. Meses depois, o francês deixou o Arsenal e foi substituído por Unai Emery. Ele tem encontrado menos espaço com o novo treinador. Com alguns problemas físicos, não foi titular absoluto na temporada passada e, nesta, fez apenas dois jogos, um na Premier League, um na Copa da Liga, e nem foi ao banco de reserva nos últimos três.

No começo do mês, Emery disse que Özil não vinha sendo escolhido porque “outros merecem mais”, o que naturalmente o decepcionou, mas o meia pretende dar a volta por cima e cumprir o seu contrato até 2021. “Quando assinei o novo contrato, pensei sobre tudo cuidadosamente e disse que era uma das decisões mais importantes da minha carreira no futebol. Eu não queria ficar apenas um ou dois anos, queria comprometer meu futuro ao Arsenal e o clube queria que eu fizesse o mesmo”, disse. “Você pode passar por momentos difíceis, como este, mas não é motivo para fugir e não farei isso. Ficarei aqui até pelo menos 2021”.

“Eu disse que Arsène Wenger foi um grande fator na minha vinda ao Arsenal – e ele foi -, mas, no fim das contas, eu assinei pelo clube. Mesmo quando Arsène anunciou que estava saindo, eu quis ficar porque eu amo jogar pelo Arsenal e é por isso que estou aqui há seis anos. Quando cheguei do Real Madrid, era um momento difícil para o Arsenal, mas sempre acreditei no que poderíamos fazer e, juntos, entregamos”.

“Mais recentemente, as coisas estão difíceis e muita coisa mudou. Mas estou orgulhoso de ser um jogador do Arsenal, um fã e estou feliz aqui. Sempre que as pessoas me veem nas ruas, sempre digo: ‘esta é minha casa’. Eu não vou a lugar nenhum”, completou.

Afirmou que não acredita que Emery nunca mais o escalará, mas, se ficar, precisa dar um jeito de voltar ao time. “Respeito a decisão do treinador. Não estar envolvido, ver de casa, faz com que me sinta impotente. Quero fazer parte do time. Quero apoiar meus companheiros. Não estou treinando o tempo inteiro apenas por treinar, estou pronto para jogar. Não deveria ser sobre mim ou o treinador, apenas sobre o clube. Tenho que dar tudo, estar em forma e focado, e estou treinando duro para estar pronto”, disse.

“A pré-temporada foi muito boa e, embora as coisas tenham sido interrompidas pelo ataque (ele e Kolasinac sofreram uma tentativa de roubo de carro), desde então eu estive totalmente disponível e, quando o treinador me escolheu, estive pronto, joguei e sempre tentei dar o meu melhor. Treinei no mesmo nível minha carreira inteira, mas, porque não tive muitos minutos recentemente, estou fazendo um trabalho extra com o preparador físico e na academia para estar ainda mais em forma do que o normal. Sei o que é necessário e acredito em mim”.

Özil rechaçou a noção de que parou de se esforçar depois de renovar contrato. “Se isso fosse verdade, por que trabalhei tanto durante a última pré-temporada? E porque, depois da Copa do Mundo ano passado, eu voltei de férias mais cedo pela primeira vez na minha carreira para começar a treinar três dias antes do que me esperavam? Eu fiz isso pelo novo treinador, pelo time e pelo clube. Talvez as pessoas não gostem que eu tenha um bom contrato? Não sei e não me importo”, afirmou.

Özil é muito criticado por não aparecer nos grandes jogos e ele também discorda dessa avaliação. “Sempre acontece que um ex-jogador aparece na televisão e me critica. Outros continuam no tema e entra na cabeça de todo mundo”, explicou. “Se não jogamos bem nos ‘grandes jogos’, é sempre minha culpa. Se isso fosse verdade, como explicar nossos resultados nos ‘grandes jogos’ em que não estive envolvido? Não há um diferença de verdade. Eu sei que as pessoas esperam mais de mim, que eu dite o jogo e faça a diferença, eu também espero, mas não é assim tão simples”.

“Não sou o único jogador do time e, não vamos esquecer, alguns dos nossos adversários são simplesmente melhores que nós. E, também, o que é um jogo ‘grande’ ou ‘pequeno’? Na Premier League, qualquer um pode vencer qualquer um. Veja o Wolverhampton e o Norwich contra o Manchester City, ou o Newcastle e o West Ham vencendo o Manchester United. Você não pode dizer que meus bons jogos são apenas em jogos ‘pequenos’ porque esses jogos não existem de verdade. A intensidade existe em todos os jogos e frequentemente os times ‘menores’ sobem de rendimento contra os times ‘maiores'”.

“Eu passei por momentos difíceis quando era mais jovem e isso me ajuda em períodos como este porque eu sou mentalmente forte e posso lidar com isso. Tenho o apoio da minha família e dos meus amigos e, sempre que não jogo ou as coisas não parecem boas, vejo como os torcedores do Arsenal reagem. Eles fazem com que eu me sinta incrível. Quando saio nas ruas, quando estou no estádio, quando olho as redes sociais, os torcedores me dizem ‘estamos com você’, ‘você é um de nós’, ‘mantenha-se forte’, ‘você terá sua chance’. ”

“Agradeço muito. Fico feliz, focado e paciente pela minha chance. Eu lembro em 2014, quando machuquei meu joelho – a primeira lesão séria da minha carreira – os torcedores nunca pararam de me apoiar. Mesmo nas músicas que escreveram, eu não tive isso em nenhum outro lugar e esse apoio foi importante para mim”.

“Tenho fé em mim mesmo e sei da minha qualidade, assim como o clube e os companheiros. É por isso que, há quase 14 anos, estou no futebol e em um nível alto. Se e quando eu tiver minha oportunidade, mostrarei isso novamente”, encerrou.

Aposentadoria da seleção 

Gundogan e Özil com Erdogan

Özil anunciou aposentadoria da seleção alemã após a Copa do Mundo da Rússia. O fracasso alemão foi um dos fatores, mas, principalmente, a reação do país à foto que ele tirou ao lado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, considerada pelo meia como racista.

“Erdogan é o atual presidente da Turquia e eu mostraria respeito a essa pessoa, quem quer que ela seja. Embora eu tenha nascido e sido criado na Alemanha, a Turquia faz parte da minha herança. Se o presidente da Alemanha ou (a chanceler) Angela Merkel estiverem em Londres e quiserem me ver, falar comigo, claro que eu faria isso também. É sobre mostrar respeito à posição mais alta de um país”, iniciou.

“Com tempo para refletir, sei que (se aposentar) foi a decisão certa. Foi um período muito difícil para mim porque joguei nove anos pela seleção alemã e fui um dos seus jogadores de maior sucesso. Eu ganhei a Copa do Mundo e mais, joguei várias vezes – muitas delas muito bem – e dei tudo. Não digo que as pessoas precisam me amar, mas apenas mostrar respeito pelo que fiz pela Alemanha. O time sempre foi competitivo, mas queriam que jogasse de um jeito mais atraente, todos grupos de idade usando melhor a bola. Um pouco como a Espanha. Minha geração mudou o futebol alemão. Ficou mais divertido de ver”.

“Mas, depois da foto, eu me senti desrespeitado e desprotegido. Eu recebia ofensas racistas – mesmo de políticos e figuras públicas – e ninguém da seleção interveio na época e disse: ‘ei, parem, ele é nosso jogador, você não pode insultá-lo assim’. Todos ficaram quietos e deixaram acontecer. Senti que esperavam que eu pedisse desculpas pela reunião, admitisse que cometi um erro e tudo ficaria bem; do contrário, não seria bem-vindo ao time e deveria ir embora. Eu nunca faria isso”.

“O racismo sempre esteve lá, mas as pessoas usaram essa situação como uma desculpa para expressá-lo. Eles são livres para terem uma visão pessoal, para não gostarem da foto que tirei. Assim como eu sou livre para tomar a decisão pessoal de tirar a foto. Mas o que aconteceu depois expôs o racismo para que todos vissem. Há grandes problemas na Alemanha. Apenas veja o que aconteceu em Halle semana passada, outro ataque anti-semita. Infelizmente, o racismo não é mais um problema da extrema-direita do país. Moveu-se ao meio da sociedade”.

“Quando saímos da Copa do Mundo e eu sai de campo, alemães estavam me dizendo ‘volte ao seu país’, ‘vai se foder’, ‘porco turco’ e coisas assim. Antes do torneio, houve um amistoso em Leverkusen e, quando a bola chegava a Ilkay Gündogan (também fotografado com Erdogan), a maioria do estádio o vaiava. Eu os ouvi gritando insultos, como ‘maldito garoto turco’ e outros que não posso repetir”.

“Antes da Copa do Mundo, eu faria alguns acordos comerciais, mas, de repente, eles foram cancelados e me removeram das campanhas. Algumas instituições de caridade da Alemanha me retiraram como embaixador e me aconselharam a me distanciar da foto. Mas o que mais me chateou foi a reação da escola que frequentei em Gelsenkirchen. Eu sempre a apoiei e decidimos fazer um programa de um ano juntos. No fim, eu iria a uma cerimônia e conheceria todos os funcionários e as crianças, muitas com herança imigrante”.

“Tudo estava planejado, mas o diretor da escola disse à minha equipe que eu não deveria ir por causa da atenção da mídia e o crescimento do partido de extrema-direita AfD na cidade. Eu não conseguia acreditar. Minha cidade natal, minha escola. Eu lhes dei minha mão e eles não me deram a deles de volta. Nunca me senti tão rejeitado”.

“Eu não precisava fazer nada disso e as coisa seriam mais fáceis para mim, mas eu sou forte o suficiente para manter meus princípios e minhas decisões. Não sou um oportunista. Nenhuma oportunidade de carreira ou fama mudará isso. Ainda tenho fortes laços na Alemanha. Ainda tenho uma empresa de marketing lá que significa que eu emprego pessoas e pago milhões de euros em impostos. Eu poderia ter movido meus interesses a outros lugares, mas eu queria retribuir e continuo fazendo isso”.

“Estou orgulhoso de ainda trabalhar com uma instituição de caridade, que oferece cirurgias a crianças ao redor do mundo, e eles me apoiaram. Mas o capítulo da seleção está encerrado”.

Tentativa de assalto 

Kola

Özil também ofereceu um relato detalhado da tentativa de assalto que ele, sua esposa e o companheiro Sead Kolasinac sofreram no final de julho. “Eu dirigi da minha casa para a de Sead. Ele estava no lado de fora e conversávamos. Minha esposa estava sentada ao meu lado. E os caras chegaram. Nos olhamos por 10 ou 15 segundos. Estávamos pensando que talvez eles quisessem uma foto ou algo assim – isso acontece. Mas notamos que tinham uma arma e que alguma coisa estava errada”.

“Eles obviamente viram o carro grande e, porque Sead havia me dado alguma coisa, devem ter notado que ele usava um relógio caro. Disseram-nos: ‘nos dê o relógio!’. A reação de Sead foi realmente muito, muito corajosa, porque ele atacou um dos agressores. O segundo estava na frente do carro e eu não conseguia dirigir. Havíamos acabado de casar e estava com medo pela minha esposa. Estava com medo por Sead. Não estava pensando em mim mesmo. Estava preocupado que eles abrissem a porta da minha esposa, e eles tentaram, então eu me estiquei para mantê-la fechada”.

“Eu vi uma chance de dirigir. Se eles chegassem à minha esposa, algo terrível poderia ter acontecido com ela. Tudo acontecia tão rapidamente que você não consegue pensar direito. Eu dirigi um pouco para frente e para trás para tentar me livrar. Eu disse a Sead: ‘pule! pule!’ e felizmente ele pulou. O segundo cara tentou entrar de novo. Sead fechou a porta e eu dei a volta. Havia um sítio de construção e eles pegaram tijolos e pedras para jogar em nós”.

“Eu comecei a dirigir, mas eles seguiram. Eu dirigia muito rápido, mas eles continuavam a se aproximar. Tentei mexer o carro, bloqueá-los, escapar, mas cada vez eles estavam lá. Minha esposa estava extremamente apavorada. Nada aconteceu conosco. Isso é o mais importante. Estávamos preocupados que esses caras estavam atrás de nós especificamente, mas a polícia disse que os encontraram e, algumas horas antes, eles haviam tentado roubar outras pessoas de uma maneira similar”.

“Minha mulher queria ir embora imediatamente. Ela não se sentia segura. Mesmo quando eu deixo meus cachorros saírem no gramado e saio com eles, ela diz ‘entre, entre, fique em casa’. Ela estava muito preocupada. Algo parecido nunca havia acontecido conosco. Ela me disse – e a esposa de Sead disse a ele – para voltarmos às nossas famílias, para ficarmos seguros e deixar tudo se acalmar. Foram algumas semanas ruins, mas nunca me fizeram querer sair de Londres permanentemente. Agora, até para minha esposa, está tudo ok”.