Na esteira da reunião realizada pela Uefa nesta quarta-feira, a KNVB publicou um comunicado sobre a continuidade dos campeonatos profissionais nos Países Baixos. Segundo a federação, a Eredivisie terá 3 de agosto como data-limite para o encerramento da atual temporada. Embora a Uefa não tenha discutido o tema, os neerlandeses apontaram o prazo e declararam que, se houver condições, a liga deverá ser retomada até o final de junho. A postura gerou críticas e Marc Overmars, diretor do Ajax, vociferou bastante contra a KNVB. O veterano foi incisivo para apontar como o futebol está longe de ser a prioridade e deveria ser dado como encerrado.

“Estou comparando a postura atual da Uefa e da KNVB com a do presidente Donald Trump até semana passada: acham que a economia é mais importante que o coronavírus. Acordem! Mais de cem pessoas morrem por dia nos Países Baixos em consequência da doença”, afirmou Overmars, em entrevista ao jornal De Telegraaf.

Os registros do coronavírus nos Países Baixos aumentam de maneira exponencial atualmente. Até a noite desta quarta, o país tinha mais de 13,6 mil casos confirmados, com 1.173 vítimas fatais. Foram 1.019 novos testes positivos no dia, com 134 óbitos. São 68 mortos mortos a cada milhão de neerlandeses, uma proporção superior a países como França e Reino Unido.

“Eu esperava que a KNVB tomasse uma decisão independente. Mas, em vez disso, a federação está se escondendo atrás da Uefa. Estou com dificuldades em aceitar isso. Sei que muitos clubes sentem da mesma maneira como nós: apenas queremos clareza e pensamos que a Eredivisie não deveria mais ser disputada”, complementou o dirigente.

O dinheiro relativo aos direitos de transmissão nas grandes ligas europeias, segundo Overmars, seria o maior motivo de pressão: “Não somos tão dependentes do dinheiro da TV na Eredivisie quanto em outras ligas maiores. Acho que os grandes campeonatos pressionaram a Uefa para continuar jogando a todo custo. E a Uefa também se beneficia disso, porque jogar a Champions ou não significa uma diferença de centenas de milhões de euros”.

Para Overmars, seguir com o campeonato cria outros problemas: “A Eredivisie está acabada, não tem mais diversão, diga o que você quiser. Não foi sem razão que o primeiro ministro Mark Rutte declarou que esta é a maior crise desde a Segunda Guerra Mundial. Logicamente, sabemos que existirão uma centena de consequências se encerrarmos a liga agora, mas também acontecerão outros problemas se o campeonato continuar depois de julho. O que ocorrerá com Ziyech, que acertou a transferência ao Chelsea?”.

Além disso, o dirigente demonstra uma clara preocupação com o próximo calendário: “Se você terminar a temporada atual, começará a próxima campanha em outubro, com a Euro 2021 pela frente. Eu prevejo caos de partidas e futebol disputado na pausa de inverno. E se tivermos um inverno severo? Ou tempestades, como nesta temporada? E então, os clubes também liberarão seus jogadores às seleções. Será uma sobrecarga até as Olimpíadas de Tóquio”.

O Ajax liderava a Eredivisie até a paralisação da competição. Os Godenzonen somavam 56 pontos, igualados ao AZ, mas com vantagem no saldo de gols. Overmars defende, apenas, que a tabela seja utilizada como uma das bases para a classificação às competições europeias na próxima temporada. O dirigente se mostrou tranquilo quanto à presença dos Ajacieden na Champions, também pela regularidade costumeira do clube.

Overmars calcula que o Ajax terá prejuízo de “dezenas de milhões de euros” com a suspensão das competições, mas ainda assim respalda a medida. Nos últimos dias, o clube encerrou alguns contratos próximos do fim, incluindo o de Klaas-Jan Huntelaar – com quem discute uma renovação posterior. Já a decisão mais controversa veio com o fim do vínculo de Abdelhak Nouri, que segue em recuperação após ficar em coma. O clube, entretanto, seguirá pagando o salário do jogador até 1° de julho e conversa com sua família sobre o novo acordo.