Romelu Lukaku começou com o pé direito a sua história na Internazionale. Depois do adeus amargo ao Manchester United, recuperou logo nos primeiros meses o seu bom futebol, ocupando atualmente o 3º lugar na artilharia da Serie A. Vendo o que o atacante diz de seu técnico, Antonio Conte, não é difícil entender o seu reencontro com o bom futebol.

Em entrevista à Sky Sports, em que pese as dificuldades circunstanciais, o belga admitiu que não estava jogando bem no Manchester United e que precisava buscar a resposta à má fase dentro de si. O que encontrou foi a necessidade de deixar o clube.

“Tomei minha decisão por volta de março e fui até o escritório do técnico e disse a ele que era hora de eu encontrar outra coisa. Acho que foi melhor para ambos os lados seguir caminhos separados. Acho que tomei a decisão certa”, avalia Lukaku.

Seu destino foi a Internazionale, onde Antonio Conte havia chegado pouco tempo antes. O técnico já havia tentado contratá-lo quando estava no Chelsea, mas Lukaku acabou optando por deixar o Everton para ir ao United. Recentemente, Conte revelou que queria o atacante até mesmo quando esteve na Juventus.

A admiração do treinador pelo jogador, portanto, não é segredo algum. E, desde que começaram a trabalhar juntos, o sentimento se tornou recíproco.

“Lembro que, nas duas primeiras semanas depois que cheguei, falei com o meu empresário e disse: ‘Estou sofrendo muito no treinamento, porque nunca fiz esse tipo de trabalho’. Mas o Conte está sempre na beirada, incentivando cada jogador a fazer o trabalho. Quando olhava à minha volta, ninguém estava se queixando, todo mundo estava seguindo em frente. Por isso, para mim foi algo especial, porque às vezes os treinadores ficam nas laterais fazendo piadas porque você não consegue fazer o exercício. Mas ele (Conte) fica lá na lateral, querendo que você faça mais, incentivando você a fazer mais. Pode ser o quão difícil for, mas nenhum jogador desiste, porque ele te dá a energia pra você continuar. Isso transparece na intensidade em campo.”

De fato, a Internazionale é a equipe que mais corre na Serie A, com uma média de 112,4 quilômetros por jogo, contra 110,2 quilômetros do Parma e 109,8 quilômetros da Juventus, que completam o pódio.

A abordagem direta de Antonio Conte com seus comandados também agrada Lukaku, que conta uma anedota reveladora sobre como o técnico influencia diretamente o seu futebol.

“O treinador diz na sua cara se você está indo bem ou se está fazendo algo errado. Lembro de uma das minhas primeiras partidas na Champions League, contra o Slavia Praga, quando eu joguei muito mal, fui um lixo naquele dia. E eu ouvi bastante dele na frente do time inteiro. Isso nunca tinha acontecido comigo na minha carreira. Nós então jogamos o dérbi de Milão logo depois, e tive uma das minhas melhores partidas na temporada. Ele (Conte) me deu isso: pisou na minha confiança, mas isso me despertou ao mesmo tempo. Ele faz isso com todo mundo, não importa quem você é. Todos são iguais.”

O resultado de tudo isso é um time que respondeu rápido à mudança de técnico, apresentando um futebol interessante e brigando pelo topo do Campeonato Italiano. “Criamos muitas oportunidades e temos uma grande defesa, porque não desistimos até o fim. É ótimo de assistir e para mim foi como se todo meu potencial pudesse finalmente aparecer”, comemora Lukaku.

O belga realmente vive grande momento, com 14 gols marcados em 20 jogos de Serie A (ou 18 em 26 partidas por todas as competições). Na construção das jogadas, seu bom entendimento com Lautaro Martínez também transparece, com o belga aparecendo em quarto lugar como jogador com mais passes-chave em toda a liga.

Posicionamento contundente contra o racismo

Vítima de racismo logo no começo de sua aventura na Itália, Romelu Lukaku falou também sobre discriminação em sua entrevista à Sky Sports. Inteligente, ponderado, ciente de seu papel na luta e em busca de alternativas para o que claramente não está funcionando.

“Não acho que deveríamos deixar para as federações. A Holanda fez um ótimo trabalho, um trabalho fantástico com todos seus jogadores. Às vezes, nós, jogadores, temos que fazer as coisas com as nossas próprias mãos”, opinou.

A educação e o convívio entre os diferentes são o caminho a ser buscado, defende o atacante, com base em sua própria experiência de vida.

“O ano passado foi triste para o mundo em geral, com muitos incidentes desnecessários, especialmente no futebol, onde vejo mais atentamente o que está acontecendo.“Neste ano, precisamos melhorar e agir. Precisamos educar as pessoas. Educação é chave. Tenho sorte de ter frequentado a escola, uma em que tínhamos mais de 50 nacionalidades diferentes.”

Lukaku deixou claro sua felicidade de estar na Itália e na Serie A, mas vê ainda potencial para que a liga reconquiste plenamente sua grandeza de outrora. O primeiro passo é, segundo ele, “trabalhar juntos para manter essas pessoas ignorantes fora do estádio”.