Quando se conta a história de Boca Juniors x River Plate pela Copa Libertadores, a memória não costuma ser longa. As lendárias quartas de final protagonizadas por Riquelme e Palermo em 2000 estão na ponta da língua de qualquer xeneize, assim como as semifinais de 2004. Os millonarios, do outro lado, se deleitam com as oitavas de 2015 e com a insuperável decisão de 2018. No entanto, a lista de batalhas entre os rivais atravessa todas as décadas da competição e inclui alguns confrontos igualmente pesados, mesmo em tempos nos quais não existiam mata-matas. Vencer o Superclássico já significou, a ambos os gigantes, abrir o caminho a conquistas continentais também em outras épocas.

Os primeiros embates pela Libertadores aconteceram em 1966. Foram quatro, ao todo, por duas fases diferentes. Ainda que o Boca Juniors tenha se dado melhor nos confrontos diretos, foi o River Plate quem conseguiu desbancar o Independiente e avançar à final contra o Peñarol – aquela mesmo que marcaria o apelido de galinhas. Num intervalo de 16 anos, até 1982, seriam 14 partidas continentais entre os rivais. As mais marcantes penderam aos xeneizes, no biênio de 1977 e 1978, que valeu o primeiro bicampeonato do clube na Libertadores. Durante a segunda conquista, houve até mesmo confronto que determinou o classificado à decisão, durante o triangular semifinal.

Ao River Plate, seria necessário esperar um pouco mais para comemorar. Em 1986, em compensação, os millonarios trataram de ir à forra. Despacharam os conterrâneos logo na primeira fase, em arrancada pelo aguardado e inédito troféu sul-americano. Depois disso, os embates minguaram. O jejum de títulos do Boca tornou o clube menos frequente na Libertadores, limitando as vezes em que o Superclássico superou as fronteiras. De 1987 a 1999, as únicas partidas ocorreram na fase de grupos de 1991, em tempos de Óscar Tabárez contra Daniel Passarella. E o Maestro se deu melhor, com direito a um eletrizante 4×3 aos boquenses, numa campanha que alcançaria as semifinais. A seca continental, de qualquer maneira, só seria rompida pela agremiação em 2000 – com novo clássico nas quartas.

Aproveitando o gancho da semifinal desta terça, contamos brevemente a história de duas partidas menos lembradas, mas não menos importantes a Boca e River. Clássicos que moldaram a mentalidade campeã de ambos os rivais.

A Libertadores de 1978

Boca Juniors e River Plate possuem diferenças não apenas nos escudos ou nas cores das camisas. A cisão entre os rivais está na própria identidade, por mais que tenham origens parecidas na região do porto de Buenos Aires. E os anos 1970 se tornaram fundamentais para distanciar algumas destas características: enquanto os xeneizes abraçaram seu estilo lutador para instituir uma alma copeira, o futebol mais refinado dos millonarios rendia o domínio no Campeonato Argentino. Algo que se percebeu ao final daquela década.

Sob as ordens de Ángel Labruna, o River Plate experimentou um dos períodos mais exitosos no Campeonato Argentino. De 1975 a 1981, os millonarios ergueram a taça do Nacional ou do Metropolitano em sete oportunidades. O Boca Juniors até faturou o título em cima dos próprios rivais em 1976, mas não passou de três troféus no mesmo período. Se os millonarios aproveitaram aquela série para tirar a diferença histórica e se emparelhar aos xeneizes como maiores campeões argentinos, La Bombonera via novos horizontes e expandia suas fronteiras.

Após a final de 1976, Boca Juniors e River Plate avançaram à Libertadores de 1977. A hegemonia xeneize no Superclássico se repetiu na fase de grupos. A vitória por 1 a 0 ainda na estreia, gol de Roberto Mouzo, permitiria a classificação antecipada ao triangular semifinal e acabou por tirar o peso decisivo do reencontro semanas depois, quando os millonarios já estavam eliminados. Ao conquistar o título inédito em 1977, o Boca se confirmou automaticamente no triangular semifinal da Libertadores de 1978. Reencontraria-se com um River babando pela revanche, na tentativa de mostrar que sua força não se limitava à liga nacional.

O empate por 0 a 0 na abertura do triangular semifinal de 1978, dentro da Bombonera, deixava o cenário aberto. Boca e River precisavam encarar o Atlético Mineiro, outro componente da chave, antes do segundo clássico no Monumental. Os xeneizes deram um passo à frente neste momento. Venceram o Galo em ambos os encontros, enquanto os millonarios sucumbiram na viagem ao Mineirão. Com dois pontos a mais, o Boca tinha a vantagem do empate em Núñez, mas uma vitória do River na última rodada poderia forçar um jogo extra, que determinaria o classificado à decisão.

O River Plate possuía as suas armas para acreditar na vitória. Parte da espinha dorsal treinada por Labruna havia conquistado a Copa do Mundo com a seleção meses antes. Ubaldo Fillol, Daniel Passarella e Leopoldo Luque encabeçavam o time, que ainda contava com Roberto Perfumo. O Boca Juniors não havia cedido um atleta sequer ao elenco de César Luis Menotti. Em contrapartida, contava com jogadores tarimbados na Libertadores e no Superclássico, em esquadrão que incluía Hugo Gatti, Francisco Sá e Rubén Suñé. Seriam eles a brilhar outra vez, sob as ordens de Juan Carlos Lorenzo.

Como há de se esperar em um clássico desta magnitude, River Plate e Boca Juniors fizeram um jogo tenso. Os millonarios sentiam a pressão por ter que buscar o resultado e abusavam das faltas. Melhor aos xeneizes, senhores do jogo, que mandaram no meio-campo e se portaram muito bem taticamente. Raros foram os lampejos do clube de Núñez, mesmo apoiado pela torcida no Monumental. Luque desperdiçaria a melhor chance no fim do primeiro tempo, mas também seria anulado pela grande atuação de Mouzo no miolo da zaga.

Embora o empate bastasse, o Boca Juniors construiu a vitória por 2 a 0 nos 30 minutos finais, entre seu talento e o descontrole do River Plate. O primeiro tento veio aos 19 minutos, em passe de Hugo Perotti para Ernesto Mastrángelo dar um leve toque na saída de Fillol. Já o pesadelo dos millonarios se consumou entre os 30 e os 33. Neste curto intervalo, Reinaldo Merlo e Eduardo Saporiti foram expulsos após entradas duras em Perotti, enquanto Carlos Salinas ampliou após erro de Passarella. A vitória deixou os boquenses com quatro pontos de vantagem sobre os rivais no triangular semifinal e os confirmou na finalíssima.

“O triunfo do Boca foi, neste caso, algo mais que o mero registro estatístico. Foi melhor no jogo, em individualidades, no sentido tático, no equilíbrio temperamental, na força, na técnica, no gol. E assim os triunfos, além de serem mais justos, são mais lindos”, escreveu a revista El Gráfico, após a partida que valeu a segunda final consecutiva ao Boca Juniors. Nada interromperia a caminhada do time de Carrasco rumo ao topo do continente. Na decisão, golearam o Deportivo Cali de Carlos Bilardo e, pela segunda vez, pintaram a América do Sul de azul y oro.

A Libertadores de 1986

O River Plate precisou esperar oito anos até conseguir sua verdadeira revanche contra o Boca Juniors na Copa Libertadores, ainda que sem o mesmo peso. Em 1982, os millonarios até se deram melhor na primeira fase, em que os xeneizes sequer ficaram na segunda posição, mas o sonho do clube de Núñez seria interrompido pelo Peñarol no triangular semifinal. A chance de se reerguer surgiu em 1986. Para, enfim, o clube aproveitar o momento e dominar o continente pela primeira vez.

A própria fase recente favorecia o River Plate em sua caminhada à Libertadores. O clube vencera o Campeonato Argentino com uma campanha arrasadora, capaz de acumular dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Newell’s Old Boys. A volta olímpica, inclusive, aconteceu dentro da Bombonera. Após confirmar o título na rodada anterior, os millonarios resolveram celebrar a conquista na casa dos rivais, antes do clássico. Terminaram alvejados por uma chuva de objetos, mas venceram a partida.

Enquanto isso, o Boca Juniors atravessava uma crise financeira e (por consequência) esportiva. As fontes secaram após a saída de Diego Maradona. O jejum no Campeonato Argentino, que chegaria a 11 anos até a reconquista em 1992, completava sua quinta temporada em 1986. Mas, apesar do modesto quinto lugar na liga, os xeneizes pegariam um atalho rumo à Libertadores. Aquela edição do torneio contou com uma Liguilla. Os boquenses se impuseram nos mata-matas e derrotaram o próprio Newell’s para carimbar o seu passaporte.

Os argentinos compartilharam a primeira fase contra os representantes uruguaios da vez, Peñarol e Montevideo Wanderers. De novo, a primeira rodada pouco ajudou as equipes. O clássico na Bombonera terminou com o empate por 1 a 1. Alfredo Graciani abriu o placar aos xeneizes cobrando pênalti, aos 33 minutos. Porém, com uma base bem mais forte, os millonarios recobraram o prejuízo. Numa enorme bobeira da zaga boquense na hora de fazer a linha de impedimento, Roque Alfaro apareceu livre para completar à meta escancarada, decretando a igualdade.

Em crise, o Peñarol ficaria cedo pelo caminho. O Montevideo Wanderers se colocou como o principal adversário dos argentinos. Entretanto, o River Plate se deu melhor na sequência do grupo. Enquanto os millonarios venceram todos os seus jogos ante os orientais, o Boca Juniors perdeu na visita aos alvinegros e só empatou com os aurinegros na Bombonera. Assim, o segundo clássico já contava com a situação resolvida quando aconteceu. O River não poderia ser mais alcançado pelo Boca, três pontos atrás. O duelo no Monumental valia apenas a honra, com apenas o primeiro colocado passando de fase.

No próprio papel, as diferenças se evidenciavam. O River Plate de Héctor Veira contava com um elenco bem mais forte. Nery Pumpido, Héctor Enrique e Oscar Ruggeri haviam conquistado a Copa de 1986 com a seleção argentina, enquanto Antonio Alzamendi compunha o elenco uruguaio no Mundial. Carlos Tapia e Julio Olarticoechea foram os representantes xeneizes no México, mas terminaram poupados no mistão escalado pelo agora técnico Mário Zanabria ao reencontro no Monumental. Nem mesmo Hugo Gatti, único remanescente de 1978 ao lado de Zanabria, estava na meta. Dentre os nomes escalados pelos boquenses, o mais curioso era o de Lalo Maradona, irmão mais novo de Diego que entrou no segundo tempo.

A partida em Núñez parecia propensa à confusão, mas o River Plate tirou o pé do acelerador e ainda assim desfrutou da vitória. Depois de um primeiro tempo morno, o gol no triunfo por 1 a 0 saiu aos 16 minutos da segunda etapa. Enrique arrancou pela direita e descolou um cruzamento fabuloso, direto na cabeça de Alzamendi. Desmarcado, o uruguaio só cumprimentou a bola rumo às redes. O Boca ainda tentou descontar no final, mas teria um gol anulado por impedimento. Nem o gosto de esfriar a empolgação dos rivais os xeneizes conseguiriam.

O River Plate terminou a fase de grupos com 11 pontos em 12 possíveis. Avançou ao triangular semifinal, onde encontrou mais dificuldades. Os millonarios dependeram de um jogo extra contra o Argentinos Juniors para despachar os então donos da taça. Por fim, a consagração aconteceu contra o América de Cali. A equipe de Bambino Veira ganhou as duas partidas da finalíssima contra os colombianos, com a aparição decisiva do ídolo Beto Alonso. Depois de tantas tentativas frustradas, o clube de Núñez se proclamava como o mais forte do continente.