Outra mudança em vista à Champions para 2024: 36 clubes, mais datas e mais duelos entre as potências

É difícil imaginar que o formato atual da Champions League dure por muito tempo. Há uma pressão crescente dos grandes clubes pela criação de uma Superliga Europeia (agora empurrados por Liverpool e Manchester United), enquanto a Uefa tenta conciliar os demais interesses, sobretudo de ligas e federações, sem perder a sua boquinha. Nesta semana, o vice secretário-geral da confederação, Giorgio Marchetti, falou que há uma possibilidade de que o modelo de Final Eight se repita na Champions e nos demais torneios da entidade a partir de 2024. Além disso, segundo o jornal The Telegraph, existe a chance de ampliar a Liga dos Campeões para 36 equipes.

A mudança não aparenta grandes efeitos se vista superficialmente, com apenas quatro novas equipes incluídas. Contudo, será possível aumentar o número de jogos entre os principais clubes do continente, ao mesmo tempo em que (a princípio) as ligas secundárias podem ganhar mais representantes. Com a ideia de aumentar as datas, conforme a mudança, os embates de peso serão mais frequentes – gerando mais interesse do público e mais receitas. Segundo o Telegraph, os clubes indicam abertura à ideia, inclusive de algumas das principais ligas.

Há uma demanda dos maiores clubes da Europa de se enfrentarem mais vezes. São os jogos que realmente interessam na Champions, mas acabam limitados na fase de grupos. Com esta alteração no formato do torneio, a Uefa poderá aliviar sua pressão neste sentido e tornar os encontros mais corriqueiros – envolvendo Real Madrid, Barcelona, Bayern, Liverpool e os demais gigantes.

Enquanto isso, as ligas nacionais secundárias se veem escanteadas pelo privilégio recente dado aos principais países, com mais vagas diretas na fase de grupos. Através dos quatro clubes adicionados aos 32 atuais, a confederação também agrada o outro lado da história, dando oportunidades a essas ligas periféricas de gerarem dinheiro. Mas não é algo que satisfaz totalmente, com pedidos para uma divisão maior da grana em relação à Liga Europa e mesmo a melhora nos mecanismos de solidariedade aos times ausentes do cenário continental.

Obviamente, a solução pensada pela Uefa parece apenas temporária, considerando a pressão dos grandes clubes por sua Superliga. Mas, desta maneira, a entidade espera segurar a barra até a próxima rodada de venda dos direitos de TV – para o triênio que começa a partir de 2024/25. Será mais um passo em meio às alterações recentes no cenário europeu de clubes, que incluem a formação de um terceiro torneio continental e a valorização da Liga Europa.

Com 36 times, a Champions pode tomar dois caminhos diferentes. Um deles é compor seis grupos de seis times, com dez rodadas na fase de principal. Em 1997/98 e 1998/99, a Liga dos Campeões chegou a contar com seis grupos de quatro times, em que avançavam os líderes e os dois melhores vices às quartas de final. Já outra possibilidade é fazer 10 confrontos aleatórios contra oponentes diferentes nesta fase classificatória, não necessariamente dentro de grupos, levando em consideração a força dos times. Seria um modelo próximo ao que ocorre na NFL. Resta saber como a Uefa determinaria os chaveamentos e os classificados neste formato, muito provavelmente contabilizando pontos totais para os 16 melhores avançarem.

A segunda ideia, inclusive, é a mais forte entre os clubes segundo o Telegraph. Há uma percepção de que os jogos de ida e volta dentro das chaves não geram tanto interesse. Com uma variação maior de oponentes e confrontos de peso pipocando a cada semana, seria mais fácil atrair espectadores e investidores. Seria uma maneira de evitar até mesmo uma redução nos valores pagos pelos direitos de TV, diante da crise gerada pela pandemia e pela própria bolha que se inflou ao longo da última década.

Um ponto em relação ao aumento de datas na Champions seria mudar também o calendário das ligas nacionais – em especial da Premier League, a mais sobrecarregada neste sentido. Assim, uma reformulação precisaria ser acompanhada pelo enxugamento da Copa da Liga ou mesmo da primeira divisão – como constava no rechaçado Projeto Big Picture, elaborado pelas potências do país para concentrar o poder e distribuir um pouco mais o dinheiro. Há ainda outros debates amplos, como a realização de rodadas da Champions nos finais de semana, o que não agrada as ligas nacionais.

O momento de crise gera uma demanda crescente dos clubes que sentem as dificuldades econômicas e veem os abismos em relação às potências aumentarem, pedindo por uma distribuição mais igualitária do dinheiro. A proposta da Uefa ajuda em alguns pontos, mas não é uma solução total. Contudo, dentro de um cabo de guerra que pode acabar com a ruptura dos gigantes em busca de uma Superliga independente e bilionária, a entidade tenta conciliar os interesses – principalmente os seus próprios.