Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Lenda em Portugal, mentor da maior campanha da seleção lusa em Copas do Mundo e também técnico de um título histórico no Brasil, Oto Glória completaria 100 anos nesta segunda-feira. O homem do rosto largo e bigodinho fino era rígido, correto e paternalista. Mas também um grande estudioso do futebol, estrategista e revelador de talentos. Hoje, quando se comenta com pesar uma suposta defasagem dos treinadores brasileiros em relação não só aos europeus como a seus pares sul-americanos, vale lembrar a trajetória de um nome daqui que foi detentor de reputação internacional em seu tempo.

Neto de comerciantes portugueses, o carioca Otaviano Martins Glória nasceu, segundo diversas fontes, em 9 de janeiro de 1917 (embora tenha afirmado que nascera em 5 de outubro do mesmo ano, em entrevista à Revista do Esporte nos anos 60). Formou-se inicialmente em direito e não tinha o futebol, mas o basquete, como esporte de predileção. Tentara, no entanto, carreira como jogador de futebol, mas sem chegar a se destacar. Logo se matricularia na Escola Nacional de Educação Física, também no Rio de Janeiro. Diplomado treinador, foi convidado na segunda metade dos anos 1940 pela diretoria do Vasco para treinar os juvenis do clube.

Responsável por revelar muitos dos jogadores que viriam a brilhar no time de cima do Vasco na década seguinte, passou à função de auxiliar do técnico Flávio Costa, tanto no Cruzmaltino quanto na Seleção Brasileira campeã sul-americana em 1949 e vice-campeã da Copa do Mundo no ano seguinte. Com a saída de Flávio, que retornara ao Flamengo, Oto assumiu a direção do time principal do Vasco durante todo o ano de 1951 e até o fim do Torneio Rio-São Paulo do ano seguinte.

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Entretanto, a diretoria vascaína preferiu deixar o time em mãos mais experientes, e contratou Gentil Cardoso para o Carioca de 1952. Oto passaria a exercer funções administrativas dentro do clube, até ser escolhido, em outubro daquele ano, como o novo técnico do America. O bom desempenho na reta final daquele campeonato manteria Oto no comando do time rubro para a temporada seguinte, que incluía uma longa excursão à Europa. Nesta bem-sucedida viagem, a última parada foi em Lisboa, onde o America derrotou o Benfica por 3 a 1 – e a partir dali o trabalho do treinador passaria a ser atentamente acompanhado em terras lusas.

As perspectivas para o Campeonato Carioca de 1953 eram boas: o America começava a reunir um dos grandes times de sua história (o goleiro Osni, Hélio, Ivan, Romeiro, Leônidas “da Selva”, Ferreira) e chegara a golear o Vasco, que vinha do título no ano anterior e de longa invencibilidade, por 4 a 0 logo nas primeiras rodadas, mas aos poucos foi deixando pontos escaparem, terminando apenas na quinta colocação. Em fevereiro do ano seguinte, a participação muito fraca no octogonal Copa Montevidéu logo em seguida ao Carioca provocaria a queda do treinador.

O mentor da revolução encarnada

No meio do ano, Oto embarcou por conta própria para a Suíça, onde assistiria in loco à Copa do Mundo e ao fabuloso escrete húngaro de Gusztáv Sebes, que colocava em prática um estilo de jogo já há muito na ideia do treinador: um futebol com grande senso coletivo, baseado em posse de bola, deslocamentos rápidos e triangulações – influenciado pelo basquete. Suas ideias, no entanto, só receberiam o devido apoio nas terras d’além mar. No fim de agosto de 1954 embarcaria para Lisboa, com a missão de reerguer o Benfica, que vinha de assistir ao rival Sporting levantar sete dos últimos oito títulos da liga.

No clube encarnado, foi o principal responsável pela implantação definitiva do profissionalismo no futebol luso. Estabeleceu uma rígida rotina de treinos e concentrações, demandou a construção de um centro de treinamentos para o clube (o Lar do Jogador) e repeliu o máximo que pôde a interferência de dirigentes no elenco (o próprio presidente do clube era proibido de frequentar os vestiários). E também trabalhou como olheiro e manteve um grupo de observadores de jogadores nas colônias portuguesas na África, de onde sairia a joia maior Eusébio.

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Mas foi ao implementar seus conceitos táticos que o grande Benfica começou a tomar forma. Aliás, não só no futebol: por vezes, Oto também acumulou o cargo de treinador da equipe de basquete do clube. Apesar de extremamente disciplinador, tinha a confiança e o carinho dos jogadores. Nas derrotas, sempre assumia para si toda a responsabilidade. Assim, logo vieram os resultados. Na primeira temporada, 1954/55, levaria o Benfica à dobradinha: campeão da liga superando o Belenenses no saldo de gols – graças a goleadas como os 11 a 0 diante do Boavista – e vencedor da Taça de Portugal, batendo o Sporting por 2 a 1. Brilhavam ali a classe de Mário Coluna no meio-campo e o faro de gols de José Águas no ataque.

Dois anos depois, Oto faria mais uma dobradinha de liga (superando o Porto por um ponto) e taça (derrotando a zebra Sporting Covilhã) no Benfica. Deixaria o clube após a temporada 1958/59, depois de perder a liga numa última rodada dramática – novamente decidida no saldo, mas a favor do Porto (e desta vez por apenas um gol) – conquistando, no entanto, mais uma Taça de Portugal sobre os mesmos tripeiros, vencidos por 1 a 0. Ficaria ali a base da equipe a qual o húngaro Béla Guttmann levaria ao topo da Europa, bicampeã da Copa dos Campeões em 1961 e 1962.

Oto não deixou, no entanto, a capital portuguesa: apenas trocou a Luz (inaugurada, aliás, em sua primeira temporada no Benfica) pelo Restelo, assumindo o comando do Belenenses. Em sua primeira temporada, levaria o clube ao título surpreendente da Taça de Portugal, batendo o Sporting por 2 a 1 na decisão. Era apenas a segunda conquista dos Azuis no torneio, 18 anos depois da primeira. Nas duas temporadas em que dirigiu a equipe Oto também levantou a Taça de Honra, troféu disputado em sistema mata-mata no início da temporada entre os clubes lisboetas da primeira divisão. Na primeira conquista, derrotou Benfica e Sporting, ambos por 1 a 0. Já a segunda teve placares mais elásticos: um contundente 5 a 0 sobre os Encarnados de Béla Guttmann nas semifinais, seguido por um 2 a 0 diante do Atlético na decisão.

Em março de 1961 era trazido pelo Sporting para tentar salvar o fim de temporada dos Leões, em grande desvantagem na briga pelo título contra o Benfica. Apesar de terminar mesmo na segunda colocação, o trabalho mereceu elogios, e o treinador foi convidado a continuar. No entanto, pedia reforços para brigar em igualdade de condições com os Águias. Os dirigentes ignoravam os pedidos. Grande frasista, Oto lançou mão então de uma justificativa que se tornaria uma espécie de provérbio do futebol: “Não se faz omelete sem ovos”. Na primeira rodada, empate sem gols contra o modesto Lusitano de Évora em pleno Alvalade, sob vaias dos sportinguistas – que nunca chegaram a aceitar plenamente o passado benfiquista do técnico. E Oto acabou demitido. Ironicamente, naquela temporada, seu substituto Juca levaria o Sporting a um surpreendente título da liga.

Enquanto isso, em 1º de fevereiro de 1962, Oto assumia o Olympique de Marselha em passagem rápida, levando o clube de volta à primeira divisão francesa depois de três temporadas na segundona. Em junho, voltaria ao Brasil para trabalhar pela primeira vez no futebol paulista, comandando a Portuguesa. Na Lusa, que tinha acabado de negociar o ponta Jair da Costa com a Inter de Milão, Oto promoveu grande reformulação no elenco, trazendo inclusive vários jogadores do futebol carioca (como Pampolini, Nair, Cacá e Neivaldo), além de promover a estreia do garoto Ivair, um dos maiores ídolos da história da Lusa, então com apenas 17 anos. O treinador ficou pouco mais de um ano no clube, antes de brigar com dirigentes e sair em agosto de 1963, retornando ao Vasco logo em seguida, ficando até o fim daquele ano em São Januário.

O auge na Copa da Inglaterra

De volta a Portugal, comandava o Porto quando, em novembro de 1964, foi convidado para integrar a nova comissão técnica da seleção lusa. Seria o treinador de campo, trabalhando ao lado de Manuel da Luz Afonso, então chefe do departamento de futebol do Benfica, que exerceria a função de “selecionador”. O objetivo era classificar Portugal para a Copa do Mundo de 1966, acabando com o jejum de competições internacionais da equipe lusa. Na fase de classificação, estendida ao longo do ano de 1965, a equipe superou a Tchecoslováquia, envelhecida em relação ao time vice-campeão mundial quatro anos antes, além de Romênia e Turquia.

Enquanto comandava a seleção lusa, continuava seu trabalho em clubes – primeiro no Porto, sem muito sucesso, e em seguida em mais um período no Sporting, desta vez vitorioso, superando por um ponto o Benfica de Béla Guttmann, que vinha de um tricampeonato nacional. Surpreendentemente, porém, acabaria demitido logo após a conquista. Melhor para a seleção.

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No Mundial da Inglaterra, Oto teria definitivamente seu nome colocado entre os grandes treinadores do mundo. Sorteado num grupo considerado muito difícil, que tinha ainda o Brasil bicampeão mundial, a forte e renovada seleção da Hungria e uma Bulgária candidata a atrapalhar os favoritos, o time português tinha talento de sobra, mas que cuja experiência em grandes competições se resumia às taças europeias de clubes. Era estreante em Copas, mas logo passaria a sensação. Superaria a primeira fase com três vitórias categóricas: 3 a 1 sobre a Hungria, 3 a 0 na Bulgária e 3 a 1 contra o Brasil. Nas quartas, diante da igualmente surpreendente Coreia do Norte, contaria com atuação de gala de Eusébio: perdendo por 3 a 0 antes dos 25 minutos de jogo, já estaria na frente aos 14 da etapa final graças a quatro gols do Pantera Negra, antes de José Augusto completar o placar.

Aquela seleção lusa, porém, não vivia de um jogador só: seu fabuloso quinteto ofensivo, formado inteiramente por jogadores do Benfica – muitos deles lançados por Oto em sua passagem pela Luz –, tinha o já veterano Coluna como meia-armador. Eusébio, em forma fenomenal, deslocava-se por todo o ataque. Pelas pontas, José Augusto e Simões criavam as jogadas de triangulação em velocidade. E havia ainda o grandalhão Torres no centro do ataque.

O sonho luso pararia diante da dona da casa Inglaterra num estádio de Wembley lotado. Com Bobby Charlton marcando duas vezes em momentos cruciais do jogo, e Eusébio acossado por um carrapato chamado Nobby Stiles, restou ao moçambicano descontar a vantagem inglesa cobrando pênalti no fim da partida. Mas a vitória sobre a União Soviética por 2 a 1 na decisão do terceiro lugar confirmaria a boa impressão de futebol técnico, ofensivo e moderno deixada por aquela equipe em gramados ingleses.

Após 1966, mais história no Benfica

Após o Mundial, Oto foi contratado pelo Atlético de Madrid com a responsabilidade de substituir Domingo Balmanya, que levara os colchoneros ao título da temporada anterior, mas havia saído para assumir o posto de José Villalonga na seleção espanhola. Oto não teve, no entanto, o mesmo sucesso: terminou a primeira temporada em quarto lugar e na segunda acabou saindo do clube a cinco rodadas do fim da liga, após derrota em casa para o Zaragoza, resultado que deixou o Atlético numa modesta sexta colocação.

De Madri, retornou direto a Lisboa, atendendo a mais um chamado do Benfica. Substituindo Fernando Cabrita, chegou nas cinco rodadas finais e conquistou mais uma liga portuguesa, somando quatro pontos a mais que o Sporting e cinco a mais que o Porto. Ao receber do clube sua parte na premiação pelo título (uma quantia generosa para a época), preferiu que o dinheiro fosse dividido entre os jogadores: “Eles é que merecem”, justificou.

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Oto levou os encarnados também a mais uma final europeia: depois de estrear nas semifinais da Copa dos Campeões eliminando a Juventus com duas vitórias (2 a 0 em Lisboa e 1 a 0 em Turim), Oto veria-se de novo em Wembley enfrentando ingleses, no caso o Manchester United de Matt Busby. Novamente Eusébio receberia marcação implacável de Nobby Stiles. Os Red Devils abriram o placar com Bobby Charlton e os Águias empataram com Jaime Graça. A decisão foi para a prorrogação, e aí os lusos não resistiram: em seis minutos sofreram três gols (de George Best, Brian Kidd e outro de Bobby Charlton), totalizando o placar de 4 a 1. O título maior dos clubes europeus novamente escaparia ao treinador.

Na temporada seguinte, levantaria seus últimos troféus em terras lusas, fazendo a dobradinha ao faturar a liga e a Taça de Portugal (esta, derrotando na prorrogação a Académica de Coimbra). Mas na posterior, sua última no país, passaria em branco, saindo antes da conquista de mais uma Taça de Portugal (o Benfica, já dirigido por José Augusto, venceria o Sporting na decisão).

De volta ao Brasil em 1970, recusaria o convite para ser supervisor da seleção brasileira que iria ao México – à qual criticava, antes do torneio, do ponto de vista tático. Retornaria então ao America, onde ensaiou montar um time praticando um futebol vistoso, moderno e solidário, mas que acabaria prejudicado pela fragilidade física do elenco, minado por lesões.

No ano seguinte, no Grêmio, realizou seu único trabalho no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo. Com uma equipe firme na defesa e rápida e objetiva nos contra-ataques, chegou a fazer boa campanha no Campeonato Brasileiro, mas como não conseguiu impedir (por duas vezes) a sequência de títulos gaúchos do Internacional, acabou saindo em julho de 1972, em meio à reta final do Gauchão. Voltaria mais uma vez ao America, como supervisor (passando a treinador no início de 1973), ajudando a trazer de seu ex-clube dois jogadores que fariam história com a camisa rubra, Ivo e Flecha.

Na Portuguesa, o único título no Brasil

No começo de abril de 1973, deixaria o clube do Andaraí para assinar com a Portuguesa, no lugar do demitido Cilinho e recomendado pelo volante Badeco, seu ex-comandado no America. Chegou com o Paulistão já em andamento, e a sensação até ali era o Guarani. A Lusa patinava num torneio que não vinha atraindo o público. Mas de saída, o treinador já deu a receita de como motivaria time e torcida: “Vamos partir para o futebol ofensivo. Nós que somos profissionais do futebol temos que nos preocupar com isso. As torcidas querem gols. A falta deles está fazendo com que o público fuja dos estádios”.

No restante do primeiro turno, enquanto afiava seu desenho tático, a equipe não colheu resultados empolgantes. Mas haveria uma pausa no calendário dos estaduais durante o mês de junho, enquanto a Seleção Brasileira excursionava pela Europa e Norte da África. Neste tempo, a Federação Paulista organizou um torneio extra, a Taça São Paulo. Incluída no grupo da capital, a Lusa se classificou em primeiro, vencendo São Paulo e Corinthians e empatando com Palmeiras e Juventus. Nas semifinais, despachou a Ferroviária com duas vitórias. E na decisão, atropelou o Palmeiras, com Ademir da Guia e tudo, por 3 a 0 no Pacaembu (e ainda desperdiçando um pênalti).

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Oto aplicava no time do Canindé o estilo que tentara implementar nos dois trabalhos anteriores: a equipe jogava formando duas linhas de quatro. Na defesa firme, com o gigante Pescuma e Calegari pelo centro, os laterais Cardoso e Isidoro quase não apoiavam. No meio, Xaxá e Wilsinho atuavam como armadores abertos pelo lado direito e esquerdo, respectivamente, enquanto Badeco e Basílio faziam o bloqueio pelo centro do setor. Na frente, Cabinho e Enéas se movimentavam com inteligência, abrindo espaços, fazendo triangulações com os meias pelos lados e finalizando. Era tão difícil entrar na defesa da Lusa – campeã da Taça São Paulo sem sofrer nenhum gol – quanto conter seus rápidos e bem engendrados contra-ataques.

De volta ao Paulistão, a Lusa embalou no returno: com sete vitórias e quatro empates nas 11 partidas, e sem ter a defesa vazada nos últimos oito jogos, a equipe conquistou o título da fase por antecipação, classificando-se para a decisão do campeonato contra o Santos, o mesmo time de quem havia quebrado a invencibilidade na competição, menos de 20 dias antes. Na final, em 26 de agosto no Morumbi, o confronto equilibrado terminou num empate sem gols, após tempo normal e prorrogação, resultado que levaria a decisão para os pênaltis.

Absolutamente tranquilo durante toda a partida – antes do jogo havia afirmado à imprensa que sua equipe estava preparada para ganhar ou perder –, Oto viu a Lusa suportar a pressão do Santos no primeiro tempo e cozinhar o jogo no segundo e na prorrogação. Na decisão por pênaltis, viu ainda a folclórica confusão de Armando Marques, que deu o jogo por encerrado com vitória santista, errando nas contas: as duas equipes haviam cobrado três penalidades cada uma, com o Peixe vencendo por 2 a 0. O árbitro entendeu que não havia mais chance de a Portuguesa igualar a série. Oto percebeu o erro e mandou seus jogadores se trocarem rápido para deixar imediatamente o estádio. Quando Armandinho caiu em si, o time da Lusa já estava no ônibus. E a Federação Paulista se viu obrigada a dividir o título.

Seria a primeira e única conquista de peso de Oto no Brasil. Dois anos depois, o treinador quase repetiu o feito. Manteve a Portuguesa invicta por 15 jogos durante o Paulistão (aplicando um 5 a 1 sobre o Corinthians e um 3 a 0 sobre o Palmeiras no caminho), levantou o título do segundo turno e decidiu o campeonato em duas partidas contra o São Paulo. Perdeu a primeira por 1 a 0, venceu a segunda pelo mesmo placar, mas viu a taça escapar nos pênaltis.

Campeão também na África

Depois de encerrar seu ciclo na Portuguesa em abril de 1977, teve passagens rápidas e sem brilho pelo Comercial de Ribeirão Preto e pelo Santos. Esteve também no México dirigindo o Monterrey antes de voltar ao Rio de Janeiro no fim de junho de 1979 para assumir o comando do Vasco pela terceira vez. Na Colina conseguiu formar um time competitivo, mas acabou perdendo o Campeonato Estadual (o segundo realizado naquele ano) para o Flamengo e o Brasileiro para o Internacional. Em vez de continuar em São Januário para a disputa da Taça Libertadores da América no ano seguinte, preferiu aceitar o convite para comandar a seleção da Nigéria, país-sede da Copa Africana de Nações que seria realizada em março de 1980. Com os Super Águias levantaria a taça continental, seu último título, com vitória categórica sobre a Argélia por 3 a 0 na decisão.

Em seus dois últimos trabalhos, porém, não seria tão feliz. Em setembro de 1982 foi chamado de volta à seleção de Portugal – que desde a campanha no Mundial da Inglaterra não se classificava para as grandes competições –, mas não durou no cargo. Após sete partidas e três duras derrotas (3 a 0 para a França e 4 a 0 para o Brasil em amistosos em território luso, além de um 5 a 0 para a União Soviética em Moscou pelas Eliminatórias da Eurocopa), pediria demissão do cargo em junho do ano seguinte, reclamando da falta de colaboração dos grandes clubes portugueses, que muitas vezes restringiam a liberação de seus jogadores.

Ainda naquele ano de 1983, teria sua quarta e última passagem pelo Vasco, procurado para tentar salvar um time à deriva no Campeonato Carioca, ameaçado de perder a vaga por critério técnico no Brasileiro do ano seguinte, com elenco rachado e seu principal jogador, Roberto Dinamite, desmotivado. Não só não conseguiu extinguir as “panelinhas” de jogadores como acabou agravando os problemas de relacionamento. Já não era mais o mesmo no trato com os atletas. Centralizador, não admitiu a concentração dos treinamentos em um só período. “Sou ditador, sim, e os treinos vão continuar em tempo integral”, disse à imprensa.

Com o Vasco apenas em sétimo na classificação final, acabou deixando o cargo após a competição. E aproveitou para encerrar de vez a carreira de treinador. Não sem antes lançar mão de mais uma de suas grandes frases: “Por aqui, se o treinador vence é bestial. Se perde, é uma besta”. Em 4 de setembro de 1986, aos 69 anos de idade, não resistiria a uma insuficiência renal aguda. Mas seu lugar entre os grandes estrategistas, estudiosos e – por que não? – frasistas do futebol brasileiro e mundial já estava reservado.