Cada estado brasileiro, por mais ou menos falado que seja, tem os seus narradores de rádio mais falados. E eles fazem por quê serem falados: criam imagens, dão emoção, ajudam até na criação de um imaginário por parte do torcedor. Um dos maiores exemplos dessa importância que o locutor de rádio assumiu no modo de se acompanhar uma partida de futebol completa 70 anos neste domingo. Claro que há outros nomes tão grandes quanto ele: só para ficar em São Paulo, seu estado natal e no qual fez história, há quem prefira José Silvério ou Fiori Gigliotti (1928-2006), narradores tão estelares e históricos quanto ele. Entretanto, é plenamente justificável que os 70 anos de idade que Osmar Aparecido Santos comemora neste domingo sejam mencionados aqui e ali na imprensa esportiva. Afinal de contas, Osmar Santos foi, acima de tudo, um narrador criativo e determinado. Por isso segue lembrado, mesmo depois do acidente que o forçou a encerrar a carreira.

Essas características já eram naturais do nativo de Osvaldo Cruz, o mais velho de quatro irmãos (dois deles serão citados no final desta história). Aliás, já se manifestavam antes mesmo dele começar a trabalhar no rádio. Osmar – que tivera problemas para falar nos primeiros anos de vida – se fascinou com o veículo ao ouvir as narrações de Pedro Luiz (1919-1998) e Edson Leite (1926-1983), na cobertura da Rádio Bandeirantes paulista para a Copa de 1958.  A partir delas, acabava criando as próprias narrações, no seu dia-a-dia, imitando os que ouvia no rádio. A determinação se mostrava em dois campos: na vontade que tinha de estudar, para obter um diploma, e no desejo de entrar no mundo do rádio que curtia, enquanto trabalhava nas plantações de algodão de Osvaldo Cruz – ajudando o pai, Romeu, enquanto a mãe Clarice cuidava da casa.

Osmar afinal conseguiu: tanto fez que recebeu uma chance da Rádio Clube de Osvaldo Cruz, em 1963. Ali começava uma rotina: desconfiança de quem o contratava antes, certeza de que era um nome diferenciado depois. Foi assim na Clube osvaldo-cruzense, com o diretor Belmiro Borini. E depois, em Marília, cidade para a qual a família Santos se foi em 1965: como narrador na Rádio Clube e na Rádio Dirceu do município paulista (com rápida passagem pela Rádio Cultura, de Campinas – onde conheceu um futuro colega e amigo, Fausto Silva), Osmar já demonstrava o carisma que faria dele um mito no rádio esportivo paulistano. Era um ídolo mariliense na virada da década de 1960 para a de 1970.

Foi exatamente aí que a criatividade voltou a aparecer. No fim da década de 1960, Osmar era considerado por nomes das rádios maiores um locutor altamente promissor, mas ainda um tanto quanto… linear. Paralelamente, ao ouvir a Jovem Pan paulistana, o ainda jovem narrador se encantava com os bordões engraçados de Joseval Peixoto, então a voz do esporte na Pan. Somando isso à inspiração que ganhava de outro locutor, Haroldo Fernandes, um dos que mais admirou, Osmar começou a criar. Mantinha a linearidade, mas começava a criar bordões e mais bordões. Um dos mais famosos surgiu ainda na Clube de Marília: num jogo entre Votuporanga e Marília, o MAC atacava, e Osmar perdeu a atenção justamente na conclusão da jogada. Para ganhar tempo, repetiu “e… e…”. Quando viu a bola na rede, emendou como sempre narraria os gols dali por diante: “Eeee… queeee… goooool!”.

Em 1970, contratado para a Rádio Vera Cruz, ainda em Marília, Osmar começou a dar passos decisivos na carreira. Motivado pelo diretor da Vera Cruz, Marcelino Medeiros, não só continuava narrando: buscava oportunidades nas emissoras da capital. Na Tupi, na Bandeirantes, na Jovem Pan. Em 1971, mais um salto: passou a ser diretor de esportes da Vera Cruz. Sempre que mostrava seu trabalho às emissoras paulistanas, o que se dizia era que se tratava de um futuro grande nome. Só faltava a oportunidade aparecer.

Apareceu na Jovem Pan, em 1972: após a transferência de Joseval Peixoto para a Rádio Bandeirantes, um novo nome foi necessário. Bento de Oliveira, operador de som da Pan, recomendou o nome de Osmar à poderosa dupla que comandava a emissora: Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta, diretor artístico, e Fernando Vieira de Mello (1929-2001), diretor de jornalismo e esportes. Osmar veio de Marília para São Paulo. Fez o teste. Foi aprovado. Voltou ao interior para as despedidas – afinal, era um ídolo lá. Mudou-se de vez para a capital paulista – e para ser um dos nomes que mudou o rádio esportivo paulista.

Mudanças em todos os sentidos

Osmar chegou à Pan como segundo locutor – o titular era Willy Gonser (1936-2017) -, e estreou narrando um Juventus x Portuguesa. Já começou a mudar o cenário no primeiro ano de emissora: em 1973, após uma excursão da Seleção Brasileira à Europa em que narrou as partidas junto a Willy na cobertura da emissora paulistana do bairro do Aeroporto, Osmar foi tão elogiado que voltou da Europa já considerado o “número 1” da Pan.

Pessoalmente, Osmar aproveitava cada oportunidade que São Paulo lhe abria. O narrador buscava o diploma com que tanto sonhava quando ainda era criança: formou-se em Educação Física, e iniciou o curso em Administração de Empresas, na Fundação Getúlio Vargas. O ambiente universitário o fez começar a acompanhar mais o cenário social brasileiro. Com professores como Eduardo Suplicy e Fernando Henrique Cardoso, o antes alheio à política Osmar passou a se postar ao lado de oposição ao governo militar. Profissionalmente, havia sido abraçado por Tuta: o diretor artístico da Jovem Pan lhe dava conselhos, lhe fazia refletir sobre seu trabalho, lhe elogiava quando merecido.

Tal combinação potencializou o trabalho Osmar. Em contato com um amigo de então, Luís Casadei, pensava em várias expressões e bordões para cativar quem ouvia as transmissões da Pan. Nascia ali o “garotinho” como chamava qualquer pessoa no ar – jogador ou não -, os “É fogo no boné do guarda” e “chirulirulá, chiruliruli” (para quando uma jogada perigosa chegava perto da definição), o “um pra lá, dois pra cá” (numa sequência de dribles), o “curtindo amor em terra estranha” (para um impedimento), o “a torcida lhe ofende, mas você dá motivo” (para um jogador vaiado), “na rede pelo lado de dentro” (para chamar a atenção a um gol). E foi da atenção afinada e da vida social cada vez mais ativa que Osmar tinha – e ainda tem – que surgiu um de seus principais bordões. Numa discoteca, durante aquela década, o locutor viu um sujeito. Este, ao mesmo tempo em que dançava, falava “ripa na chulipa”. A expressão ficou em sua cabeça. Ao pensar no “pimba na gorduchinha” para um chute na bola, Osmar criava aquela que talvez seja sua principal marca: “ripa na chulipa, pimba na gorduchinha”.

Se fosse só aquilo, já seria sinônimo de criatividade. Mas Osmar começava a buscar novos nomes para incrementar a transmissão na Pan. Nomes como Fausto Silva, que conhecera em Campinas, que já estava na Pan quando ele chegou e que virou o principal repórter de sua equipe. Nomes como Milton Neves: durante uma conversa com Osmar enquanto este registrava seu carro novo no DETRAN paulista, Milton impressionou tanto Osmar pelo conhecimento de futebol e de rádio que foi chamado para ser o “plantão esportivo das transmissões”, em 1973, impulsionando decisivamente a carreira do mineiro de Muzambinho. Osmar também começava a atrair audiência, a atrair anunciantes – com sacadas como citar o nome de famosos, conhecesse eles ou não, durante as transmissões, de acordo com o time para o qual torciam.

Na cobertura da Jovem Pan para a Copa de 1974, Osmar Santos se consolidou como grande nome do rádio em São Paulo. Prêmio dos prêmios, naquele ano passou a dividir a locução dos jogos com um de seus influenciadores: Joseval Peixoto, que voltara da Bandeirantes (e que já admirava aquele pupilo). Num momento em que o rádio pedia mudanças no estilo de transmissão de esportes, Osmar era o símbolo de mudanças. E era só o começo.


(Narração de Osmar Santos para Palmeiras 1×0 Corinthians, final do Campeonato Paulista de 1974, na transmissão da Jovem Pan)

Um nome que valorizava todo o rádio

Osmar Santos era a voz do esporte na Jovem Pan. E foi exatamente por isso que chamou a atenção de uma concorrente que desejava se valorizar: a Rádio Globo, e suas subsidiárias Nacional e Excelsior. Todas elas tinham audiência menor em São Paulo – não pequena, mas insuficiente para desbancar as campeãs de audiência Pan e Bandeirantes. E aí, Osmar seria a grande aposta – por interferência de um nome grande na TV Globo: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, vice-presidente de operações do braço televisivo global. Conforme Boni declarou a Paulo Mattiussi na biografia Osmar Santos: o milagre da vida (Sapienza, 2004), “o Osmar pôs fogo no que era frio e superado. Aqueceu o rádio. Sem gritos, caricaturas ou apelações”.

Houve alguma discordância interna nas Organizações Globo (diretor das rádios em São Paulo, Jair Abreu preferia a contratação de Joseval Peixoto), mas outros nomes contratados para aquela remodelação, como o diretor de jornalismo Sérgio de Souza (1934-2008), apoiaram decisivamente a vinda. E foi feita a proposta decisiva por Osmar: salário aumentado – de 25 mil para 300 mil cruzeiros, somado o salário às gratificações comerciais -, cargo de diretor de esportes do Sistema Globo de Rádio, liberdade para montar os esquemas de transmissões do zero: com quais contratados quisesse, com quais iniciativas quisesse.

O narrador sofreu, pensou muito, chegou a desistir… mas no fim, aceitou a transferência da Pan para a Globo, em 1977. Foi uma das mais badaladas transferências da história do rádio esportivo paulista – quase como se fosse um jogador que mudasse de um time para um rival. Até pelas consequências que gerou a partir daquilo. Irritada, a Jovem Pan iniciou uma onda de renovação de contratos, com aumento de salários para vários nomes – como Milton Neves, o repórter Flávio Adauto (sim, o mesmo que chegou a ser diretor de futebol do Corinthians) e o locutor José Silvério, que chegara à Pan em 1975. Os aumentos de salários acabaram se espraiando para os profissionais das demais emissoras, na época. Silvério, que sempre teve relação amistosa com Osmar, celebrou na biografia: “Por isso eu digo que o Osmar sempre me ajudou. Até sem saber. Quando a Pan me propôs aquele salário, nós dois chegamos à conclusão de que eu não deveria sair mesmo. Nós nos separamos, mas continuamos amigos”.

Além do mais, a Pan divulgou dias a fio no ar um editorial magoado, se queixando da ofensiva das Organizações Globo. Basta citar o final para se ter uma ideia do teor: “O cartel Globo, na sua tentacular ofensiva ‘global’, usou da pressão mais perturbadora que se pode imaginar – 300 mil cruzeiros mensais. Foi assim que contratou um. Apenas um. A Jovem Pan continua intacta”.

Para Osmar, o capítulo “Rádio Globo” não poderia ter melhor começo. Muitas vinhetas criadas, muitos nomes contratados, um esquema de promoção invejável – na campanha publicitária pensada por Washington Olivetto, Fausto Silva pedia a jogadores (Sócrates, Leivinha, Serginho Chulapa) que imitassem Osmar. Tudo culminando na histórica estreia: Osmar narrou na Rádio Globo as três partidas entre Corinthians e Ponte Preta que decidiram o Campeonato Paulista de 1977. E a narração para o gol de Basílio que terminou com o jejum corintiano de títulos estaduais virou mais um momento eterno da carreira do narrador:


(Narração de Osmar Santos para o gol de Basílio, em Corinthians 1×0 Ponte Preta, jogo que decidiu o Campeonato Paulista de 1977)

Na Rádio Globo e na subsidiária Excelsior (atual CBN), Osmar Santos aumentou sua influência já gigante no público de São Paulo. Era o narrador principal, atraía inúmeros anunciantes. Sua equipe também se notabilizava pela criatividade – de repórteres (Fausto Silva, Henrique Guilherme, Roberto Carmona, Márcio Bernardes, Castilho de Andrade) a nomes como Juarez Soares (1941-2019), passando pelos colegas de narração Braga Júnior, Jorge de Souza e Oswaldo Maciel, transmitia inúmeros esportes, de futebol a Fórmula 1. De quebra, Osmar ainda abria espaço para um irmão que começava a carreira no rádio: Oscar Ulisses, que começara na Pan em 1976 e foi com ele para a Globo. Outros nomes também tiveram o caminho do esporte aberto por Osmar. Como Cléber Machado, que começou na editoria como repórter da Rádio Globo, no começo dos anos 1980. E como outro irmão de Osmar: Odinei Edson, o mais novo, que também começou a carreira como repórter global de rádio.

Contando com braços-direitos como o jornalista Edison Scatamachia, Osmar buscava mudar algumas coisas: por exemplo, defendia que os comentaristas acompanhassem mais o dia-a-dia dos clubes, sem ficarem apenas “comentando”. A Globo se tornava uma opção que desafiava Pan e Bandeirantes na audiência, como era o desejo com a contratação de Osmar.

Não bastasse isso, uma de suas iniciativas foi além do esporte. Em 1980, a equipe de Osmar criou o programa Balancê. Que até abordava o que ocorria no âmbito esportivo, mas pretendia falar de tudo, tendo artes e política como principais eixos. O programa diário, na hora do almoço (das 12h às 13h30), às vezes apresentado em auditórios, fez história no rádio de São Paulo, ganhando sucessivos prêmios. E até rendeu o início de uma trajetória de sucesso. Afinal, foi ao tomar contato com o que ia ao ar no Balancê que Fausto Silva criou bordões como “quem sabe faz ao vivo”, foi lá que conheceu a produtora Lucimara Parise, foi no programa que começou a ser experimentado como apresentador, faceta que aprimorou na televisão (na TV Record, com outro programa marcante, o Perdidos na Noite; na TV Bandeirantes, para onde trouxe o Perdidos na Noite e ainda fez o Safenados & Safadinhos; e na TV Globo, claro, onde segue até hoje com o Domingão do Faustão). Enfim: entre tantos outros frutos, o Balancê foi o início da “conversão” de Fausto Silva em Faustão.


(Trecho do programa “Balancê”, em 20 de agosto de 1981, na Rádio Excelsior)

No rádio, o respeito de Osmar estava garantido. Isso só se comprovava, com o êxito de audiência em coberturas como a da Copa de 1982. Mas o auge de Osmar estava apenas começando.

O auge. E a televisão – uma experiência controversa

Acumulando os trabalhos na Rádio Globo, Osmar começou a ganhar espaço na televisão, paulatinamente, também na Globo. Primeiro, apresentava o bloco esportivo do Jornal da Globo; depois, começou a narrar VTs esporádicos de jogos de futebol; depois ainda, a partir de 1983, recebeu a oportunidade de narrar a Corrida de São Silvestre. Pois foi justamente no último evento esportivo de 1983 que o locutor paulista começou a se tornar uma das pessoas mais conhecidas do Brasil.

Porque foi com sua narração da vitória do brasileiro João da Mata, na São Silvestre, que Osmar chamou a atenção do então deputado federal paranaense Álvaro Dias, um dos organizadores de um comício, em Curitiba, em 12 de janeiro de 1984, defendendo a aprovação da emenda constitucional proposta por outro deputado, Dante de Oliveira (PMDB-MS), inserindo a volta das eleições diretas para a Presidência da República.

Veio a proposta de Álvaro Dias. Osmar aceitou. E se tornou mestre de cerimônias dos comícios da campanha que ficou conhecida como “Diretas Já”, a grande mobilização pública brasileira no primeiro semestre de 1984. No comício em São Paulo, em 25 de janeiro daquele ano, na Praça da Sé, Osmar chegou a falar para 1 milhão de pessoas. A “Emenda Dante de Oliveira”, como ficou conhecida, foi recusada no Congresso Nacional, em 25 de abril de 1984. Mas o radialista já se tornara uma das pessoas mais conhecidas do Brasil em 1984. Até porque sua fama continuou – a ponto de ter sido cogitado para ser candidato a vice-prefeito na chapa de Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB à Prefeitura de São Paulo em 1985.

No rádio, Osmar continuava absoluto como chefe da equipe da Rádio Globo; na televisão, com Boni apostando nele dentro da TV Globo, ele foi um dos narradores na cobertura da emissora nos Jogos Olímpicos de 1984. Passou a apresentar o Globo Esporte para a região metropolitana de São Paulo. Recebeu um programa de auditório para apresentar: o Guerra dos Sexos, gincana entre casais exibida aos domingos. Finalmente, foi escolhido como o narrador principal da Globo para a Copa de 1986.


(Narração de Osmar Santos para o gol de Serginho em Santos 1×0 Corinthians, jogo decisivo da última rodada do Campeonato Paulista de 1984, na transmissão da Rádio Globo)

O que não quer dizer que Osmar também agradava na televisão. O “Guerra dos Sexos” saiu rapidamente do ar. E mesmo em suas participações esportivas, o narrador paulista parecia não se encaixar no ritmo televisivo, como indicava o redator e crítico de cinema Inácio Araújo, na “Folha de S. Paulo” de 4 de junho de 1986, já durante a Copa do Mundo: “Três anos de experiência teriam sido o bastante para a Globo notar que, em vez do locutor cheio de ânimo do rádio, teria um burocrata que indica o nome dos jogadores e descreve vagamente o que se passa em campo. A Globo não pensou assim e mandou Osmar ao México como locutor encarregado de transmitir as principais partidas. Acostumado a criar imagens para suprir a ausência de imagens, na televisão Osmar Santos parece achar sua função francamente enfadonha, de tal modo que permanece em silêncio durante boa parte do tempo. Quando entra com as expressões que fizeram sua fama no rádio, é sem convicção (…)”.


(Os gols de Brasil 3×0 Irlanda do Norte, pela fase de grupos da Copa de 1986, na transmissão da TV Globo, com a narração de Osmar Santos)

Após a experiência controversa, Osmar deixou a TV Globo. Em 1987, estreou na TV Manchete. Lá, tanto teve espaço para outro programa de auditório – o “Osmar Santos Show” -, e também participou como narrador, nos Jogos Olímpicos de 1988 e na Copa de 1990. Mas no rádio é que seu nome seguia em alta. Mesmo mudando de emissora.

Mudam emissoras, mas o destaque segue

Osmar também passou por grandes mudanças no rádio: em 1988, após 11 anos vitoriosos de Rádio Globo, recebeu a aposta da Rádio Record, e para lá se foi com muitos nomes de sua equipe. Se alguns já haviam ganho luz própria e tomado outro caminho, como o supracitado Fausto Silva, outros recebiam apostas – como um narrador, paulista de Araras, chamado Paulo Soares, que passou a trabalhar com Osmar justamente na Rádio Record.

Paralelamente, diversificava seus investimentos: criara a produtora Nada (de nome logo mudado para TVN), que auxiliava na transmissão de eventos esportivos, era dono de pequenas propriedades em Osvaldo Cruz. Mas nada disso tirava Osmar do foco principal: seu trabalho no rádio. Que, na Record, duraria até pouco: em dezembro de 1991, ele retornou à Rádio Globo, reestreando na final do Campeonato Paulista, entre São Paulo e Corinthians. Na volta, seria o narrador principal, tendo um conhecido íntimo como “segundo locutor”: seu irmão, Oscar Ulisses, que àquela altura já tinha outra carreira consolidada e conhecida no rádio. De quebra, abria espaço para novos talentos: como Luís Roberto, contratado para a Rádio Globo pelo trabalho desenvolvido na Rádio Cultura de Santos. E Osmar ainda mantinha vários de seus fiéis escudeiros na equipe, como Márcio Bernardes e Roberto Carmona.


(Narração de Osmar Santos para o segundo gol de Raí em São Paulo 2×1 Barcelona, decisão do Mundial Interclubes de 1992, na transmissão da Rádio Globo paulista)

Na televisão, o caminho de Osmar foi mais turbulento. Após a Copa de 1990 na TV Manchete, ele se aliou à TV Record, por meio de sua produtora. Lá, também passou a apresentar um programa dominical, o Sport Shopping Show, durante o ano de 1991. Mas em 1992, já estava de volta à Manchete, na qual seria o principal narrador em campeonatos exibidos pela emissora, como o Paulista de futebol e a Copa do Brasil.

Por sinal, as transmissões do título paulista do Palmeiras em 1993, intercaladas entre Rádio Globo e TV Manchete, potencializaram outra grande criação de Osmar. Esta foi gestada ainda nos tempos de TV Record: Osmar perguntou ao jornalista Luciano Borges (hoje na ESPN), então habituado ao mundo do surfe, qual era a gíria mais usada para elogiar um surfista. Luciano respondeu: “Animal”. A ideia ficou parada, até que em 1993, num jantar com Edison Scatamachia e os filhos deste, o assunto era a grande fase vivida por Michael Jordan. Interessado, Osmar perguntou a Julian e Jean, os filhos de Edison, se “Air Jordan” era bom mesmo. Ambos foram unânimes: “É um animal”. Bastou: na jornada do fim de semana seguinte na Rádio Globo, Osmar usou “animal” para qualificar a atuação de Cafu, então no São Paulo.

Quase não deu certo: nas entrevistas pós-jogo, nos vestiários, ouvido por Roberto Carmona, Cafu se queixou a Osmar Santos: ouvira falar que fora “xingado”. O radialista explicou que o “animal” era elogioso, mas o lateral/meio-campista pediu: “Pode até ser, mas eu não queria que você me chamasse mais assim”. Se o domingo terminou com a nova expressão prestes a ser abandonada, ela foi reabilitada na segunda: entrevistando Neto, então no Corinthians, para o Globo Esportivo (noticioso esportivo diário da Rádio Globo), o meio-campista avisou: prometia uma grande atuação no domingo, e queria ser chamado de “animal”.

Neto até foi chamado disso. Mas como se sabe, quem virou o dono definitivo da expressão foi outro. Na reta final do Campeonato Paulista, Edmundo brilhou no estelar Palmeiras que seria campeão, encerrando jejum de 17 anos. Narrando pela TV Manchete o 1 a 0 palmeirense na Ferroviária, num dos quadrangulares semifinais daquele Paulista, Osmar falou que Edmundo era “animal” com o belo gol do atacante que decidira o jogo. A torcida palmeirense comprou a ideia: espontaneamente, adotou o “au, au, au/Edmundo é animal” naquelas partidas decisivas. Para sempre Edmundo tinha um apelido. E até hoje o atual comentarista da FOX Sports elogia: Osmar Santos foi o “cupido” de sua eterna relação com o Palmeiras.


(Narração de Osmar Santos para Palmeiras 1×0 Ferroviária, quadrangular semifinal do Campeonato Paulista de 1993, na transmissão da TV Manchete)

E Osmar viveu assim entre 1993 e 1994. Na TV Manchete, narrava os jogos dos torneios de futebol que o canal carioca exibia, como a Copa do Brasil de 1994 e o Campeonato Italiano (também em 1994). Na Rádio Globo, foi a voz do tetracampeonato da Seleção Brasileira. Entre seus vários investimentos, Osmar já era uma lenda viva do rádio esportivo. Continuava criando bordões. Na televisão, chamava a câmera para si durante as partidas de futebol, fazia um comentário e emendava: “Zuum, meu garotinho! Vamos pro jogo!”. No rádio, se despedia das transmissões com um “fui” que se tornaria popular.

E Osmar continuaria assim. De um jeito diferente. Por causa de um tristíssimo acontecimento.

O narrador parou. O homem continuou

O caminho de Osmar na narração continuava normal. Em 18 de dezembro de 1994, foi dele a narração na Rádio Globo paulista para o 1 a 1 entre Palmeiras e Corinthians, jogo de volta da final do Campeonato Brasileiro, que fez do time alviverde ao mesmo tempo bicampeão – afinal, vencera o Brasileiro em 1993 – e tetra/octacampeão nacional. Foi sua última transmissão naquele ano. Seria sua última transmissão na carreira.

Porque, quatro dias depois, Osmar já estava em Marília, para passar as festividades do fim de ano com sua família e os pais, que lá moravam. Ao mesmo tempo, tinha eventos para ir nas redondezas. Como uma festa de fim de ano de uma concessionária de automóveis que administrava, na cidade de Birigui. Na noite de 22 de dezembro, com chuva, Osmar decidiu: “Eu vou pra Birigui agora”.

Foi. Porém, na rodovia Transbrasileira, na região da cidade paulista de Getulina, na noite chuvosa de 22 de dezembro de 1994, o BMW que Osmar guiava encontrou um caminhão manobrando para retornar no meio da estrada, sem pegar o retorno, em manobra proibida. O carro que vinha à frente lhe deu sinal de luz, mas a quina da traseira do caminhão atingiu a porta do motorista. A haste que prendia o vidro do parabrisa virou um aríete, atingindo a Área de Broca, a região do cérebro responsável pela fala. Pior: o buraco aberto (7 por 2 cm) causou o rompimento da artéria temporal – consequentemente, a perda de sangue, 3 litros – e a perda de 15 centímetros de massa encefálica de Osmar Santos.

Osmar foi pego pelo motorista que vinha à frente, e foi levado à Santa Casa de Lins. Lá foi atendido. A essa hora, a Rádio Globo já divulgava o acidente, num boletim extraordinário – e a família já se mobilizava. Horas mais tarde, Osmar foi transportado de avião para o aeroporto de Congonhas – e de lá para o hospital Albert Einstein. Bastou a chegada lá para a internação. Ao verificarem as condições, os líderes da equipe médica, Jorge Pagura e Almir Sérgio Ferraz, entenderam: Osmar tinha chances de sobreviver, mas ficaria com sequelas.

A cirurgia estancou o sangramento, retirou as partes necrosadas do cérebro, minorou os coágulos… mas Osmar perdia ali a capacidade de falar com fluência. Estava forçosamente encerrada a carreira de um dos grandes narradores da história do rádio brasileiro. Ainda assim, a vida seguiu. Osmar ficou em coma até 5 de janeiro de 1995. Teve alta em 27 de fevereiro. E logo se revelou que as sequelas (fala prejudicada e o lado direito do corpo paralisado) não impediriam Osmar de viver.

Foi o que aconteceu. Tempos depois, Osmar se reabilitou a ponto de circular socialmente desenvolto. Frequenta teatros, cinemas, eventos sociais, como sempre gostou. Achou um novo hábito que lhe atraiu muito: a pintura – já teve até exposições com suas obras. E segue como “patrono vitalício” da equipe de esportes da Rádio Globo paulista. A família segue bem representada no rádio – tanto por Oscar Ulisses, a principal voz e o diretor de esportes da Rádio Globo/CBN em São Paulo, quanto por Odinei Edson, há muito tempo o narrador das transmissões do Campeonato Mundial de Fórmula 1 para as emissoras do Grupo Bandeirantes (sem contar Ulisses Costa, primo dos três, também narrador, também no Grupo Bandeirantes – rádio e televisão).

Finalmente, Osmar Santos gosta de resumir sua vida desde aquele 22 de dezembro de 1994 numa frase costumeiramente repetida pelos próximos a ele: “Vivo o que restou e não choro o que perdi”. Até porque o que fez como narrador possibilita dizer que foi um dos felizes privilegiados a ser o homem certo, na hora certa. E narrando certo.