Piélago, Fidel, Diego, Ignacio e Pasín. Esta era a linha de frente que o Colégio de Belén, vez ou outra, escalava nos torneios escolares de Havana, durante meados da década de 1940. Do quinteto de ataque da escola jesuíta, apenas o interior direito ganhou fama internacional. E em outros campos. Figura controversa que é, entre quem o execre e quem o admire, Fidel Castro inegavelmente foi um dos personagens mais importantes da geopolítica mundial na segunda metade do Século XX. Colocou a pequena ilha de Cuba no centro da Guerra Fria. Manteve o poder centralizado em suas mãos por mais de seis décadas. Falece aos 90 anos, em meio a um turbilhão de opiniões sobre sua biografia e suas atitudes, mas agora limitado apenas a seu lugar na História.

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O futuro guerrilheiro já aprendia estratégia enquanto estava no colégio. Na verdade, nada mais era do que o 2-3-5, a pirâmide que ditava os padrões táticos do futebol naquela época. Administrador da escola, o sacerdote catalão Pedro Ferré também ensinava aos alunos as bases do esporte. Quebrava um galho como árbitro e técnico. Introduzia os conceitos tentando prezar pela coletividade e a disciplina que permeiam o futebol.

Fidel já havia entrado em contato com o futebol quando vivia em Santiago de Cuba. Mudou-se para Havana a fim de estudar no colégio jesuíta, exclusivo aos filhos das famílias mais abastadas do país. A instituição estava encravada nas redondezas do bairro de Puentes Grandes, famoso reduto boleiro na Havana dos anos 1940. A febre de bola também contagiava os estudantes. Ferré montou um time para disputar competições interescolares. Escalou o jovem Castro no ataque.

“Fidel era um futebolista de qualidade regular. Mas era corpulento, musculoso, um jogador muito forte. E, sobretudo, muito bravo. Jogava ocasionalmente. Não era um jogador titular em campo, mas gostava de futebol”, relembra Armando Montes de Oca Arce, colega do estudante, em entrevista ao jornal El País. Em um dos jogos nos quais Castro foi escalado, Belén enfrentou a Casa de Beneficência e Maternidade. Seu time goleou por 4 a 0, embora os companheiros não se recordem de gols do interior direito.

A carreira de Fidel Castro nos gramados não durou muito. Ao menos, deixou memórias: “Eu era atacante, corria bastante. Comecei na quinta série, no Colégio Dolores de Santiago de Cuba, em um pátio de cimento. A bola não era como agora. O futebol me ajudou a ter vontade, a exercer minha capacidade de resistência física, me deu prazer, satisfação, espírito de luta e competência”. O adolescente, de qualquer forma, era um verdadeiro ‘fominha’. Também praticava basquete, vôlei e beisebol – este, realmente o seu predileto.

Mesmo declarando seu apreço pelo futebol mais de uma vez, Fidel Castro nunca deu tanta atenção à modalidade enquanto esteve no poder. Há algumas fotos em que chuta uma bola, em meras formalidades (como a que abre o texto, dando o pontapé inicial do Campeonato Centro-Americano de 1960), além de outras ao lado do amigo Diego Maradona. A ilha seguiu tratando o beisebol como sua principal paixão, enquanto o regime investiu pesadamente em modalidades que poderiam render medalhas nos Jogos Olímpicos, projeto este que se manteve bem-sucedido por anos. Sucateado, o futebol cubano se enraizou mesmo com pés descalços e na rua. Para, agora, com a abertura gradual da nação para o resto do mundo, finalmente ter a chance de se desenvolver.

Fidel, com o time de Belén, é o segundo da esquerda para a direita
Fidel, com o time de Belén, é o segundo da esquerda para a direita

Você deve ter percebido que eu tentei tratar o texto de uma maneira mais neutra possível, por ser um assunto que costuma levantar muito ranço. A ideia é contar uma história interessante relacionada ao futebol, dentro de uma notícia bastante relevante no noticiário internacional – como já fizemos outras tantas vezes. O espaço dos comentários poderia ser fechado, mas eu prefiro prezar pelo debate saudável. Peço encarecidamente, portanto que mantenham o respeito e a racionalidade ao exporem as suas ideias. Conto com a colaboração de vocês. Muito obrigado.