A CBF colocou em ação, no Campeonato Brasileiro do ano passado, o projeto que ela chama de “Cruzada pelo Respeito”. Significa tolerância zero contra reclamações “acintosas, ostensivas ou insistentes”, termos geralmente utilizados para justificar as expulsões de jogadores ou técnicos. Ou mesmo qualquer tipo de contestação, como disse o presidente da comissão de arbitragem ano passado. Os resultados, segundo a entidade, foram positivos. O tempo médio de bola rolando subiu 1min39s. Em troca, as advertências por reclamação quase dobraram: de 184, em 2014, para 337 na temporada seguinte.

LEIA MAIS: Grêmio vence o clássico e escancara o mau momento do Inter no Brasileirão

Pode-se argumentar que esses 627 minutos de bola rolando a mais também tenham relação com mudanças táticas e técnicas nos times brasileiros, que ano passado tentaram se aproximar de conceitos mais modernos. Ou que são um prêmio pobre demais em nome do autoritarismo que impera nos campos brasileiros. Mas, solidificada com os “resultados positivos” de 2015, a “Cruzada pelo Respeito” segue de vento em popa.

Apenas na rodada do final de semana, dois treinadores foram vítimas dessa tentativa de impor respeito por meio da força e da ameaça. No jogo entre São Paulo e Ponte Preta, o árbitro Vinicius Forlan deu cartão amarelo para Matheus Reis por uma falta em Matheus Jesus. Dois minutos depois, com o jogo já reiniciado, checou a perna do ponte-pretano, voltou atrás e expulsou o lateral são-paulino, o que é irregular. Os visitantes ficaram bravos com a decisão do apitador, que baseou o rigor da sua punição nos resultados do lance.

O jogo ficou paralisado para as reclamações dos jogadores do São Paulo. Edgardo Bauza fez coro a elas e acabou expulso por “invadir o campo com gestos e palavras (não compreendidas)”. Não importa o que disse o técnico são-paulino, desde que tenha sido dito no contexto de uma “contestação” à autoridade do árbitro. Em Itaquera, a postura de Heber Roberto Lopes foi ainda pior.

Zé Ricardo nem invadiu o campo, nem balbuciou palavras incompreensíveis. Mas “desaprovou com gestos persistentemente” as decisões do árbitro que apitou a final da última Copa América. Isso depois que Heber ignorou uma tesoura de Fagner em Ederson.

 

O técnico do Flamengo foi um monge budista perto da “desaprovação” que merecia um lance que poderia ter sérias consequências para o seu jogador, mas passou totalmente impune.

Gestos bastam. Palavrões ou ofensas são dispensáveis. Basta olhar para algumas súmulas deste Campeonato Brasileiro:

– Pachequinho foi expulso aos 10 minutos do segundo tempo do jogo do Coritiba contra o Figueirense por pedir “acintosamente” que o árbitro desse cartões amarelos aos jogadores adversários.

– Lugano foi embora mais cedo do clássico contra o Santos por apontar uma incoerência no critério do árbitro e concluir que ele estava mal-intencionado.

– Gatito Fernandez desfalcou a Ponte Preta por bater palmas em protesto e apontar “agressivamente” para o escudo da sua camisa, “proferindo” (outra palavra favorita da arbitragem) as seguintes palavras: “Dá para nós, só dá para eles. Só apita para eles. Dá para nós”.

– Paulo Bento reclamou dos, na sua opinião, insuficientes quatro minutos de acréscimo contra o América Mineiro, disse ao quarto árbitro que o apitador principal estava “louco” e foi expulso.

– O massagista do Coritiba, Vanderlei Belarmino, foi expulso contra o Corinthians por abrir os braços e dizer “esse juiz está roubando a gente”.

– Alex recebeu cartão vermelho direto contra o São Paulo por dizer: “Acidente de trabalho o caralho. Você quer me foder. Não fode”.

Tudo bem. Alex “proferiu” palavrões. Mas todas as outras reclamações não seriam punidas nem no campeonato da igreja. A postura que a comissão de arbitragem exige vai contra a natureza do ser humano. Muitas infrações do futebol são interpretativas. Vale a do árbitro, mas não é natural que, vira e mexe, jogadores ou técnicos discordem? E, diante da quantidade assustadora de erros que já tivemos em apenas 13 rodadas, haja remédio para gastrite para conseguir internalizar todas essas discordâncias.

O exagero tem que ser coibido, mas o número tão grande de advertências por reclamações – 337 contra 184, lembram? – indica que não é isso que está acontecendo na prática, mas uma sistemática supressão do direito de se manifestar em protesto às autoridades do futebol em qualquer tom que não seja a educação diplomática, incompatível com o calor do jogo e a adrenalina da competição.

O árbitro, por sua vez, vê o seu direito a exercer o bom senso podado. Não seguir a orientação da chefia, na maioria dos casos, representa uma geladeira. E cumpri-la sempre à risca pode ser a gasolina na fogueira. Às vezes, o melhor jeito de colocar panos quentes é ignorar o que aconteceu. Segundo a súmula do árbitro Dawnson Freitas, Paulo Bento foi expulso por reclamar dos poucos minutos de acréscimos e, sem mais nada a perder, foi bater boca com Givanildo de Oliveira, técnico do América, que também acabou levando cartão vermelho. O resultado foi isso aqui:

Desrespeitar o árbitro, ofendê-lo, jogá-lo contra a torcida são uma coisa. Censurar críticas, reprimir o contraditório e obrigar jogadores e técnicos a aceitaram qualquer decisão como cordeirinhos resultam em surtos de autoritarismo que já estão insuportáveis. E olha que ainda estamos na 13ª rodada do Campeonato Brasileiro. 

TRIVELA FC: Conheça nosso clube de relacionamento, ganhe benefícios e marque um golaço pelo jornalismo independente!