O Stade de France, em Saint-Dennis, recebeu uma das semifinais da Copa do Mundo de 1998. Em um lado do ringue havia a dona da casa, buscando o seu primeiro título. No outro, um time que havia surpreendido a todos ao longo da competição. A Croácia, pais recém-formado, seleção novata em Mundiais, eliminou a Romênia e a Alemanha para ganhar a chance de disputar uma decisão. Não conseguiu porque Lilian Thuram marcou duas vezes, cancelando o gol de Davor Suker, que havia aberto o placar, e colocou a França na final contra o Brasil. Vinte anos depois, esses dois países reencontram-se, em Moscou, para definir quem fica com o troféu da Copa do Mundo de 2018.

Aquela partida foi marcante na história de ambos. Para a França, significou a classificação à primeira final de Copa do Mundo e, alguns dias depois, o primeiro título. A Croácia mostrou ao mundo que, mesmo independente da Iugoslávia, tinha capacidade de ser um time relevante. Foi terceira colocada e produziu o artilheiro do torneio, Davor Suker, com seis gols. Foram duas gerações celebradas, cujos resquícios ainda reverberam nas seleções que buscarão a glória no estádio Luzhiniki, no próximo domingo.

Do campo para o banco
Laurent Blanc, ex-técnico da França (Foto: Getty Images)

Depois do título mundial, o técnico Aimé Jacquet aceitou um cargo diretivo na Federação Francesa e abriu espaço para que o seu auxiliar, Roger Lemerre, fosse o comandante. Lemerre conquistou a Eurocopa de 2000, mas foi demitido depois do fracasso na Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. Então detentora de dois canecos, a França viajou à Ásia como favorita. Perdeu a estreia para Senegal e foi eliminada ainda na fase de grupos. Quem assumiu em seguida foi Jacques Santini, o homem que deu início ao domínio nacional do Lyon. Em dois anos à frente da seleção, conquistou a Copa das Confederações e renunciou ao emprego antes mesmo da Euro de 2004, em que a França caiu nas quartas de final.

Começou a era Raymond Domenech, promovido da seleção sub-21. Excêntrico, para usar um termo brando, Domenech ficou seis anos à frente do time nacional, graças à campanha na Copa do Mundo de 2006, que teve a segunda final da história da França e a derrota para a Itália, em Berlim. No entanto, as outras participações internacionais do seu time foram verdadeiros fracassos. Os franceses foram sorteados para um grupo difícil na Eurocopa de 2008, ao lado de Itália, Holanda e Romênia. Mas ficaram em último lugar, atrás até mesmo dos romenos.

Dois anos depois, a decepção foi ainda maior. A França tinha totais condições de chegar às oitavas de final da Copa do Mundo de 2010, depois de cair no grupo que tinha anfitriã África do Sul, o Uruguai e o México. No entanto, foi novamente lanterna, depois de uma campanha conturbada por polêmicas extra-campo: houve uma greve dos jogadores que se recusaram a treinar e, mais notoriamente, Nicolas Anelka, sem meias palavras, teria xingado o técnico. Domenech foi evidentemente demitido.

A essa altura, a maioria do elenco campeão de 1998 estava aposentada, com exceção de alguns nomes que disputaram aquele torneio muito jovens, como Patrick Vieira, Thierry Henry e David Trezeguet. Alguns seguiram carreira no futebol como treinadores, ou, pelo menos, tentaram. E foi uma movimentação natural da Federação Francesa começar a trazê-los de volta para a seleção nacional. O primeiro, na verdade, foi Alain Boghossian, ainda na época de Domenech.

Boghossian passou boa parte da sua carreira na Itália. Foi campeão da Copa da Uefa de 1998/99 pelo Parma, logo depois da campanha vitoriosa na Copa do Mundo. No Mundial, foi titular apenas uma vez, na segunda rodada da fase de grupos, contra a Arábia Saudita, mas saiu do banco de reservas em outras quatro oportunidades, inclusive na final contra o Brasil. Aposentou-se em 2003, pelo Espanyol. O ex-meia não tinha experiência como técnico quando foi nomeado assistente de Domenech, cujos poderes começavam a ser restringidos pela federação depois do fracasso na Eurocopa de 2008. Boghossian ficaria quatro anos no cargo. Auxiliaria também um companheiro de 1998.

Para remendar a seleção francesa, depois das insurgências na África do Sul, a Federação Francesa recorreu a um campeão do mundo. Laurent Blanc fez cinco partidas como titular naquela Copa, e também foi importante no sucesso da Eurocopa, dois anos depois. Aposentou-se em 2003, após uma breve passagem pelo Manchester United, e começou a carreira de técnico no Bordeaux, sucedendo o brasileiro Ricardo Gomes. Ganhou a Ligue 1 de 2008/09 pelos Girondinos antes de aceitar a missão de comandar a França.

Ele conseguiu acalmar os ânimos do vestiário apenas até certo ponto. Classificou a seleção para a Eurocopa de 2012, mas, durante a campanha, houve registro de mal comportamento de quatro jogadores: Samir Nasri, Jérémy Ménez, Hatem Bem Arfa e Yann M’Vila. Blanc, cujo contrato terminaria ao fim da competição, queria renovar seu vínculo antes da bola rolar na Ucrânia e na Polônia. A federação decidiu esperar. Depois da queda nas quartas de final para a Espanha, Blanc anunciou que iria embora porque não havia “encontrado um denominador comum” com os dirigentes a respeito da maneira de administrar o time nos próximos dois anos.

Blanc assumiu o Paris Saint-Germain, pelo qual seria tricampeão francês, antes de abrir espaço para Unai Emery. Para o seu lugar, a França trouxe outro campeão mundial de 1998: Didier Deschamps. A prática seria mais uma vez utilizada com as categorias de base. Bernard Diomède, que jogou três partidas naquela campanha, assumiu a equipe sub-17 em 2015. Passou também pelo sub-18 e o sub-19.

Os feitos de Deschamps
Didier Deschamps (Foto: Getty Images)

Quando a seleção francesa não atinge o potencial que reúne em todos os seus ótimos jogadores, o dedo geralmente é apontado para Didier Deschamps. E não é sem motivo. Ele realmente não está entre os melhores treinadores do mundo e, em seis anos de trabalho, teve dificuldades para fazer a seleção francesa jogar coletivamente à altura das suas qualidades individuais. Na Copa do Mundo de 2018, encontrou uma fórmula: o pragmatismo. A França poucas vezes brilhou, mas, finalmente, é um time. Tem uma defesa muito bem organizada, uma estratégia e um espírito de grupo.

Caso Deschamps conduza a seleção ao título da Copa do Mundo no próximo domingo, entrará para a história. Mas, apesar da fama de técnico mediano, não será o primeiro grande feito da carreira dele com a prancheta. Em clubes, o francês foi responsável por duas campanhas que deixariam qualquer jogador viciado de Football Manager (existe outro tipo?) com inveja: levou o Monaco à final da Champions League e quebrou um longo jejum de títulos franceses com o Olympique Marseille.

Pouco depois de encerrar uma carreira condecorada como jogador, Deschamps substituiu Claude Puel no Monaco. O time do Principado havia sido campeão francês em 1999/2000, mas os resultados começaram a despencar. Deschamps foi contratado para corrigir o rumo e o começo foi complicado. O Monaco quase caiu na primeira temporada sob novo comando, com o 15º lugar da Ligue 1 de 2001/02. O jovem comandante teve dificuldades de relacionamento com alguns nomes mais experientes da equipe, como Christian Panucci e Marco Simone.

Era essencial que resultados começassem a aparecer rapidamente para Deschamps salvar o seu início de carreira como treinador. E eles apareceram. Na temporada seguinte, o Monaco conquistou a Taça da Liga Francesa e foi vice-campeão francês, um ponto atrás do Lyon. Alguns jovens já começavam a aparecer: Patrice Evra e Sébastien Squillaci, ambos com 21 anos. O clube brigou novamente pelo título da Ligue 1 em 2003/04. Liderou a primeira metade do campeonato, mas caiu de rendimento no segundo turno, com um excesso de empates, e acabou em terceiro lugar.

A oscilação na segunda metade da campanha teve a ver com o que o Monaco fazia na Champions League. Passou em primeiro no grupo que tinha Deportivo La Coruña, PSV e AEK Atenas, com direito a uma goleada por 8 a 3 sobre os espanhóis, que chegariam às semifinais daquela competição. Nas oitava, os franceses chegaram a estar perdendo o jogo de ida contra o Lokomotiv Moscou por 2 a 0, mas Morientes marcou o salvador gol fora de casa na metade do segundo tempo. No Principado, a vaga nas quartas de final foi confirmada com vitória por 1 a 0.

O grande desafio apareceu nas quartas. O Monaco enfrentou os galácticos do Real Madrid: Casillas, Zidane, Raúl, Ronaldo, Figo e Beckham. No Santiago Bernabéu, os donos da casa chegaram a abrir 4 a 1, mas, novamente, Morientes minimizou os danos antes do apito final. No Louis II, os homens de Deschamps eliminaram os favoritos graças ao placar de 3 a 1, com dois tentos de Ludovic Giuly. A semifinal foi até mais tranquila: 3 a 1 contra o Chelsea na França e 2 a 2 no Stamford Bridge.

Deschamps classificou sua equipe à decisão da Champions League, em Gelsenkirchen. E, em uma edição estranha para os padrões desequilibrados do campeonato europeu, em que quase sempre os mesmos chegam às fases mais agudas, o adversário era acessível. No entanto, o Porto de José Mourinho não deu chance para o Monaco e venceu por 3 a 0. Ainda assim, foi uma caminhada memorável para uma equipe de pouca tradição em torneios continentais – havia conseguido duas semifinais de Champions nos anos noventa e um vice da Recopa, em 1991/92.

O treinador pediu demissão no começo da temporada 2005/06, depois de uma série ruim de resultados na Ligue 1 e insatisfeito com a falta de reforços. Treinaria a Juventus, no ano em que a Velha Senhora disputou a segunda divisão por causa do escândalo do Calciopoli. Novamente divergindo dos seus chefes, pediu demissão logo depois de conquistar o acesso à elite. E acertou com o Olympique Marseille, na época o segundo maior campeão nacional atrás do Saint-Étienne, mas que não conquistava o título francês desde 1992.

Foi uma temporada mágica para Marselha. Brandão e Niang desandaram a fazer gols. Hatem Bem Arfa e Mathieu Valbuena forneciam bolas pelas pontas. Steve Mandanda foi seguro debaixo das traves. O meio-campo tinha Lucho González, e até Fernando Morientes, já envelhecido e reserva, deixou a sua marca na campanha que terminou com o Olympique Marseille em primeiro lugar no Campeonato Francês, seis pontos à frente do Lyon.

Deschamps também conquistou a Taça da Liga francesa naquela temporada, completando uma incrível dobradinha para o Olympique de Marseille. Repetiria esse título outras duas vezes (2011 e 2012). Também teria uma campanha europeia para se orgulhar. Classificou-se em segundo lugar no grupo do Arsenal, à frente do Borussia Dortmund de Jürgen Klopp, prestes a ser bicampeão alemão, e eliminou a Internazionale nas oitavas de final. O Olympique Marseille foi eliminado apenas nas quartas, para o Bayern de Munique, e perdeu seu treinador logo em seguida: ao fim da temporada 2011/12, Deschamps pediu demissão para treinar a seleção francesa.

Apostas na geração de ouro
Davor Suker, presidente da Federação Croata (Foto: Getty Images)

A geração croata de 1998 foi devidamente reconhecida pelo sucesso naquela Copa do Mundo. Os jogadores colocaram o país recém-formado debaixo dos holofotes, e passaram 20 anos ants que a campanha na França fosse igualada por outra seleção talentosa. E superada: Luka Modric e companhia ultrapassaram a barreira das semifinais e decidirão o título do Mundial no próximo domingo, podendo assumir o lugar dos seus antecessores como os grandes símbolos de sucesso esportivo do país.

No entanto, não farão isso sozinhos. Aquela geração dourada continua presente na seleção croata, começando pelo posto mais alto futebol do país. Davor Suker, artilheiro da Copa do Mundo de 1998, é presidente da Federação Croata desde 2012. Em 2017, foi reeleito para um novo mandato de quatro anos e tem uma postura ativa dentro da concentração.

A comissão técnica de Zlatko Dalic conta com outros dois heróis daquela campanha. Drazen Ladic, goleiro titular no torneio francês, é um dos seus assistentes. O também ex-arqueiro Marjan Mrmic trabalha com Danijel Subasic e seus reservas. O mesmo acontece nas categorias de base. O ex-atacante Petar Krpan, que disputou apenas 14 minutos da Copa de 1998, contra a Romênia, comanda a seleção sub-17 da Croácia. E Robert Jarni, titular em todas as partidas na França, treina o sub-19.

A melhor campanha da Croácia em torneios internacionais, depois daquela, teve um titular da Copa do Mundo de 1998 no comando. O ex-zagueiro Slaven Bilic treinou a seleção entre 2006 e 2012 e foi o técnico na Eurocopa de 2008, quando os croatas venceram os três jogos da fase de grupos, inclusive contra a Alemanha, e foram eliminados nas quartas de final, para a Turquia, nos pênaltis. Bilic havia sido promovido do sub-21 e, quando assumiu, trouxe ex-companheiros da seleção para a sua comissão técnica: o ex-meia Aljosa Asanovic e o craque Robert Prosinecki.

Quando Bilic deixou o comando da seleção, em julho de 2012, o recém-eleito Suker recorreu a mais um antigo colega. Igor Stimac, ex-parceiro de Bilic na zaga, assumiu as rédeas. No começo, foi auxiliado por Krunoslav Jurcic, que jogou três partidas na Copa da França. Jurcic ficou apenas alguns meses na seleção. Saiu para treinar o Dínamo Zagreb, em novembro daquele ano. Mas Stimac também não ficaria muito mais: foi demitido em outubro de 2013, depois de uma derrota para a Escócia, nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Niko Kovac, outro ex-jogador, mas de uma geração mais jovem, levou o país europeu ao Mundial do Brasil.

Quando a chance de fazer história cai do céu 
Zlatko Dalic com Modric (Foto: Getty Images)

Um bom planejamento e um trabalho de longo prazo ainda são as maneiras mais fáceis de ter sucesso no futebol. Mas a Croácia cheio à decisão da Copa do Mundo meio que aos trancos e barrancos na preparação. Houve três treinadores no ciclo. Niko Kovac permaneceu, apesar da campanha fraca no Mundial do Brasil, mas foi demitido em setembro de 2015. Ante Cacic assumiu, levou a equipe à Eurocopa e comandou boa parte das Eliminatórias da Copa da Rússia. Depois de uma sequência ruim de resultados, foi mandado embora, às vésperas do jogo decisivo contra a Ucrânia.

Zlatko Dalic não era um profissional de grande currículo. Havia chegado à final da Copa da Croácia de 2006, no comando do Varteks, mas perdeu para o Rijeka, em um emocionante thriller que terminou 5 a 5 no placar agregado. Treinou o próprio Rijeka, o também croata Slaven Belup e o Dínamo Tirana, da Albânia. Na Arábia Saudita, foi vice-campeão nacional com o Al Hilal. Chegou à decisão da Champions League asiática com Al Ain, dos Emirados Árabes. Assumiu a Croácia de última hora e ganhou a partida contra a Ucrânia que valeu vaga na repescagem. Uma goleada tranquila por 4 a 1 sobre a Grécia e um empate por 0 a 0 valeram vaga na Rússia.

Mesmo sem grande experiência, Dalic conduziu bem a sua equipe na Copa do Mundo. Mostrou variações táticas, do tradicional 4-3-3 para um 4-4-2 que, na prática, tem quatro atacantes – dois pelo lado, dois pelo centro, e apenas Rakitic e Modric no meio-campo. Tomou a difícil decisão de cortar Nikola Kalinic, que havia se recusado a entrar nos minutos finais da partida contra a Nigéria para manter a harmonia do grupo. Realmente, a união e o espírito de luta da Croácia são destaques da atual campanha.

No domingo, Dalic terá o seu grande desafio. Precisa encontrar um jeito de furar a sólida defesa francesa, sem permitir muitos espaços para os contra-ataques de Mbappé e Griezmann. Caso consiga, será marcado como o comandante do primeiro título da história da Croácia. Uma chance de fazer história que praticamente caiu no seu colo.