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A Bundesliga, assim como a maior parte dos campeonatos pela Europa, adotará o regime de portões fechados durante a próxima rodada. A precaução com o surto de coronavírus é necessária e tende até mesmo a suspender a competição, diante dos primeiros movimentos que se notam dentro dos clubes. E, de certa maneira, as arquibancadas vazias atenuam a outra guerra fria que se desdobra nos estádios do país: a queda de braço entre torcedores e dirigentes, desde a punição dada ao Borussia Dortmund pelos recorrentes ataques a Dietmar Hopp, o controverso dono do Hoffenheim.

Durante o último final de semana, os torcedores de diferentes clubes puderam se posicionar sobre a paralisação do jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique, quando faixas chamando Hopp de “filho da puta” provocaram o protesto dos jogadores dentro de campo. E foram vários os grupos de ultras que não se calaram ante a disputa, em diferentes divisões do Campeonato Alemão e também na Copa da Alemanha. Questionaram a proteção especial conferida a Hopp e, sobretudo, voltaram suas miras à hipocrisia da DFB – a federação alemã.

Algumas torcidas protestaram por meio da ironia. Os ultras do Stuttgart, por exemplo, compararam Dietmar Hopp com Timo Werner – visto dentro do clube como um mercenário. Na famosa Südtribune do Borussia Dortmund, dirigentes apareceram em caricaturas, usando nariz de palhaço. Entre eles, obviamente Hopp estava retratado. Já a ação mais criativa ocorreu no Eintracht Frankfurt x Werder Bremen, pela Copa da Alemanha. A certa altura do jogo, houve um momento de tensão.  A torcida das Águias estendeu uma faixa que, novamente, parecia pronta a insultar o dono do Hoffenheim. “Dietmar Hopp, filho de uma…”, dizia a mensagem exibida parcialmente. Até que, quando desenrolada por completo, a frase deixava clara a sagaz provocação: “Dietmar Hopp, filho de uma mãe :-)”. Xingamentos, mesmo, apenas direcionados à própria federação alemã, que não provocaram a paralisação.

Outras tantas torcidas mantiveram a mão pesada e a seriedade nos questionamentos. Desta maneira, o novo protesto do Bayern de Munique se tornou emblemático. Os bávaros voltaram as indagações à sua própria diretoria, pelas relações com o governo catariano, notório violador dos direitos humanos. Também rebateram a DFB, perguntando se a renda tem a ver com a paralisação da partida. A bronca geral, também na Alemanha, é a noção de “dois pesos e duas medidas”. A reação vista com as ofensas a Hopp não se notam em relação a outros assuntos mais sérios, como as próprias manifestações racistas – que ocorrem em menor número nos estádios alemães, mas têm seus episódios recentes.

Assim, o futebol alemão deverá continuar vivendo uma guerra de palavras nas arquibancadas, por mais que o coronavírus possa interromper o calor do embate no momento. As disputas entre autoridades e ultras nos estádios não é nova, dentro de um país onde os torcedores têm voz ativa e costumam brigar por seus interesses. Os últimos incidentes indicam as falhas na construção de um diálogo e os valores diferentes defendidos por cada parte. Reforçam a necessidade de uma reabertura, ante outros desafios que encara a sociedade alemã, justo quando as reações parecem ou insuficientes ou exageradas. É ver como a poeira mais baixa das próximas semanas será aproveitada para restabelecer os laços.

Entendendo o contexto: por que Hopp?

Dietmar Hopp é alvo das torcidas na Alemanha faz tempo. As faixas achincalhando o dono do Hoffenheim não são exatamente novas e muito menos inéditas. E a questão não se concentra necessariamente na paixão do empresário pelo clube. Pouco importa se ele nasceu na cidade, se atuou pelas categorias de base ou se ele possui uma relação arraigada com a agremiação. Também não são os vários (e louváveis) projetos filantrópicos de Hopp que estão em debate. O problema está na injeção financeira que o magnata fez em uma equipe irrisória, limitada à insignificância até os anos 1990. À maioria dos ultras alemães, este é um processo injusto. Descaracteriza a estrutura de um futebol que, conforme sua legislação principal do 50+1, não deveria se submeter às vontades de poucos indivíduos. Em teoria, o futebol é da maioria.

Neste sentido, Hopp se tornou uma figura central e tratada de maneira tão contrastante dentro do futebol alemão. A quem olha apenas para o “projeto do Hoffenheim” de maneira isolada, o empresário não parece fazer nada de errado. Pelo contrário, soa até mesmo como um “benfeitor”, capaz de criar um time estável e competitivo em uma cidade que nunca teve forças suficientes no esporte. Seria até mesmo um exemplo a quem deseja ver uma abertura comercial maior nos clubes do país, para que ele se torne mais competitivo em relação a outras ligas da Europa. A ideia de um campeonato mais endinheirado, porém, não é o que muitos torcedores veem como ideal.

Uma estrutura mais orgânica dos clubes de futebol na Alemanha ainda é essencial. O interesse não está necessariamente em ter os principais jogadores ou as melhores condições comerciais, mas sim um ambiente favorável nas arquibancadas. Até por isso, a ideia de se manter o poder nas mãos dos associados se faz tão importante. E a quebra que Hopp representa, assim como o próprio RB Leipzig, desnatura os regulamentos internos e sempre gerou temores quanto a uma mudança de direção que tirasse o protagonismo das mãos dos torcedores. Por seus investimentos contínuos ao longo de 20 anos, o dono da SAP já possui 96% do Hoffe.

Desta maneira, quando uma torcida reclama de Dietmar Hopp, não há necessariamente o temor do Hoffenheim se tornar uma superpotência e suplantar a posição de um Borussia Dortmund ou de um Bayern. O entrave é pensar num futebol alheio às suas raízes nas comunidades, mais sujeito ao capital financeiro e mais determinado pelas iniciativas isoladas. Hopp pode até possuir os seus laços com Sinsheim, mas não dá para imaginar que todos os potenciais investidores na Alemanha atenderão a esse tipo de exceção. O magnata vira inimigo em comum contra uma descaracterização geral. Quantos clubes mais poderiam ascender artificialmente desta maneira? E quais os reflexos mais amplos de um poder menos vinculado aos torcedores?

Também há uma sensação de artificialidade nas partidas do Hoffenheim. Uma das acusações costumeiras do Borussia Dortmund veio no início da década, quando os alviazuis tentaram usar as caixas de som na Rhein-Neckar Arena para abafar o barulho dos aurinegros no setor visitante e tentar criar uma atmosfera favorável ao time da casa. Da mesma maneira, os ultras do BVB acusam Hopp de direcionar microfones na transmissão para captar insultos e facilitar as punições.

Aos torcedores, a guerra contra Dietmar Hopp sempre foi contra os privilégios. Sempre foi por se posicionar contra um dirigente que, seja por seu sucesso empresarial ou por sua conta bancária, ocupou uma posição única dentro do futebol alemão. Muitas vezes citam Bayer Leverkusen e Wolfsburg como processos similares, mas há diferenças básicas pela relação histórica com os funcionários de Bayer e Volkswagen – o que não torna os dois clubes mais queridos entre os ultras da Bundesliga, pelo contrário. Ainda assim, Hopp e a Red Bull, por se inserirem no contexto quando as regras do 50+1 já estavam determinadas, soam a muitos torcedores como um jeitinho para burlá-las.

Se não é algo novo, por que essa reação agora?

A sensação de privilégio a Dietmar Hopp aumentou no fim de fevereiro, quando a federação alemã puniu a torcida do Borussia Dortmund por seus recorrentes protestos contra o dono do Hoffenheim. A DFB anunciou que, nas próximas duas temporadas, os aurinegros não contarão com torcedores no setor visitante de Sinsheim. E o problema não está apenas na sanção imposta pelos dirigentes. Há alguns anos, a federação havia prometido que não aplicaria proibições coletivas às torcidas, e sim priorizaria ações individuais. Não foi o que aconteceu com tal anúncio, gerando uma reação ampla.

A punição aparentou ser justamente mais um mecanismo de proteção a Hopp dentro da DFB, ao custo do próprio direito de expressão dos torcedores na Alemanha. Até por isso, a ação transcendeu a torcida aurinegra. Vários outros grupos de ultras, mesmo rivais, entraram no debate e passaram a exercer uma pressão maior sobre a federação – se voltando novamente a Hopp como símbolo. Após o anúncio da sanção, os seguidores do Borussia Mönchengladbach foram os primeiros a se solidarizar, com manifestações na partida contra o Hoffenheim dentro do Borussia Park – durante a rodada anterior ao polêmico Hoffe x Bayern.

Por ser uma partida com menor repercussão e visibilidade, o impacto dos protestos se tornou mínimo fora da Alemanha. Porém, igualmente houve paralisação do jogo. E o nível de intolerância das autoridades com mensagens nas arquibancadas se inseria em outro contexto: o atentado terrorista ocorrido na cidade alemã de Hanau, em que dez pessoas com origem estrangeira (sobretudo árabe) foram mortas por um extremista. O ataque gerou atos de solidariedade contra a discriminação e a violência em toda a Alemanha, inclusive com a participação de diversos grupos de ultras. Em contrapartida, gerou um sinal de alerta maior a qualquer tipo de manifestação pública.

Dois dias antes do Gladbach x Hoffenheim no Borussia Park, o Eintracht Frankfurt recebeu o Red Bull Salzburg pela Liga Europa. Alguns presentes desrespeitaram o minuto de silêncio às vítimas de Hanau para expressar sua xenofobia, rechaçados por vaias e gritos de “fora, nazistas” da maioria em Frankfurt. Com isso, a situação ficou mais aflorada em Mönchengladbach. E, ante os protestos dos ultras locais contra Dietmar Hopp em apoio ao Borussia Dortmund, a repressão das autoridades se tornou maior. O jogo também permaneceu interrompido durante alguns minutos, enquanto não se retirassem as faixas. O problema estava em uma imagem do rosto de Hopp dentro de uma mira, vista como incitação à violência.

Depois da partida, dirigentes e jogadores do próprio Borussia Mönchengladbach repudiaram o ato, especialmente pelo tom da mensagem após o atentado de Hanau. Também muitos “torcedores comuns” dos Potros refutaram os ultras e os vaiaram durante a paralisação. O Hoffenheim, por sua vez, prometia não tolerar novos ataques ao seu dono. E, dentro de todo esse pano de fundo, veio o estopim ocorrido durante a visita do Bayern de Munique à Rhein-Neckar Arena.

Autoridades e clubes viram uma agressividade excessiva nas faixas chamando de “filho da puta” o dono do Hoffenheim, como se estivessem pregando o ódio gratuito e até mesmo fomentando um atentado. Já os ultras culpam não só dirigentes, mas também a imprensa, por inserir as críticas a Hopp e ao modelo empresarial de gestão na Bundesliga dentro da intolerância crescente na Alemanha. Para eles, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aos ultras, eles sofreram uma tentativa de se sensacionalizar o conteúdo, quando as mensagens contra Hopp nunca culminaram em violência e a maioria das torcidas adotam visões progressistas contra a discriminação.

Assim, um reles “filho da puta” se transformou em bomba atômica nas arquibancadas de Sinsheim. De novo, as autoridades incluíram a faixa dentro da tolerância zero aplicada desde o atentado de Hanau. A federação enquadrou a menção a Hopp como uma ofensa pessoal e, portanto, aplicável dentro do protocolo de racismo. Some-se a isso a promessa do Hoffenheim, de que não aceitaria mais situações do tipo, após o episódio em Mönchengladbach.

Muitos torcedores do Hoffenheim reclamaram quando os times voltaram a campo depois da segunda paralisação. Todavia, por sugestão de Manuel Neuer, os jogadores apenas gastaram o tempo, em protesto reverso contra os ultras do Bayern – situação ajudada pelo placar de 6 a 0. Ao final, a imagem que terminou marcada, com os jogadores aplaudindo Hopp dentro de campo e Karl-Heinz Rummenigge, chefe-executivo dos bávaros, erguendo os braços do colega para que fosse exaltado pelos demais presentes.

As trocas de acusações

Desde o episódio entre Hoffenheim e Bayern de Munique, a principal paralisação nos jogos da Bundesliga aconteceu logo no dia seguinte, durante a visita do Wolfsburg ao Union Berlim. Os berlinenses mantiveram as manifestações no mesmo tom contra Dietmar Hopp e, pelo cunho pessoal das faixas (de novo usando o termo “filho da puta”), a partida também foi interrompida. Adotou-se o protocolo contra o racismo sugerido pela Uefa, com avisos sonoros e a retirada dos times de campo, embora não tenha sido necessário o terceiro passo, a suspensão do embate. De qualquer maneira, o clube da capital seguia demarcando território.

Durante as quartas de final da Copa da Alemanha e também durante a rodada passada da Bundesliga, os torcedores foram bem mais cuidadosos nas palavras escolhidas. Não chamaram Dietmar Hopp diretamente de “filho da puta”, ante todas as orientações, mas estava claro que o pensamento não mudou – pelo contrário, a sensação de privilegio se espalhou mais. O tom irônico e bem-humorado para questionar o protecionismo aumentou. Da mesma forma, os ultras estiveram mais propensos a xingar a DFB (uma entidade, não indivíduo, então livre do protocolo de racismo) e a indagar as motivações dos dirigentes dentro de tal cenário.

Em Gelsenkirchen, por exemplo, a diretoria do Schalke 04 preferiu se precaver à visita do Bayern pela Copa da Alemanha e avisar que “não aceitaria qualquer ofensa no mesmo sentido das observadas em Hoffenheim”. Pois foram os seus próprios torcedores que ajudaram a fazer coro contra Hopp. A brincadeira, inclusive, se concentrava em perguntar se os possíveis xingamentos poderiam levar o jogo diretamente aos pênaltis e, assim, aumentar as chances de classificação do Schalke. Chamaram de “filho da puta” apenas Manuel Neuer, seu antigo ídolo, o que não deu em nada. Os ultras azuis reais, além do mais, também lembraram que tal postura incisiva do clube não se notou quando um dirigente deu declarações abertamente racistas na última temporada, mas tomou uma curta suspensão e ficou por isso mesmo.

Obviamente, uma série de questionamentos aos ultras também é passível. O tom agressivo dos protestos iniciais tirou o peso das críticas e levou a discussão a outro lado. O ódio presente nas faixas ficou muito mais evidente que o contexto amplo e, ainda mais depois do atentado em Hanau, fez a razão dos torcedores se perder. Na Alemanha, ofensa à honra e à dignidade de uma pessoa em público também pode ser enquadrada como crime, o que naturalmente amplia o repúdio público ao tom adotado nas faixas contra Dietmar Hopp.

De qualquer maneira, as pautas levantadas pelos próprios ultras parecem tão ou mais importantes neste momento. O privilégio a Dietmar Hopp pareceu óbvio, quando outros tantos personagens dentro do futebol são ofendidos no mesmo teor e não se faz nada – a exemplo do que aconteceu com Neuer. Parece haver um regime especial ao dono do Hoffenheim, que também patrocina a DFB através de suas empresas. Enquanto isso, a energia empregada a casos de racismo, discriminação, xenofobia ou outras violências do tipo não se aproxima ao que se notou em Sinsheim, mesmo entre os próprios jogadores.

O caso de Jordan Torunarigha, alvo de racismo e menosprezado durante o Schalke x Hertha pela Copa da Alemanha, é cabal dentro do contexto de “dois pesos e duas medidas” ao que ocorreu com Hopp. O termo usado por muitas cartas publicadas por ultras depois do que ocorreu em Sinsheim é “hipocrisia”. Soa como se nada antes importasse, até que o ataque a alguém dentro do círculo de poder permitisse à DFB julgar os torcedores. Como se medidas anteriores de combate ao racismo ou a outros tipos de discriminação dentro de campo não tivessem sido insuficientes e, agora, repentinamente, as autoridades quisessem se julgar como exemplares a partir de uma menção ao termo “filho da puta”.

Enquanto as autoridades na Alemanha tentam puxar o cabo de guerra dentro de uma questão mais ampla, incluindo as ofensas a Hopp num contexto de intolerância, os ultras acusam o exagero sobre problemas aos quais os dirigentes nunca estiveram realmente preocupados e que tais acusações ignoram o real valor das críticas presentes nas faixas. Dentro de cada visão particular, os dois lados se veem com sua razão. E o consenso não é nada simples, ante as relações estremecidas e a sensação de falta de diálogo que não vem de hoje.

As linhas tênues e o diálogo

Determinar o que é permitido e o que não é, dentro da liberdade de expressão, sempre pode gerar debates longuíssimos. Há quem veja que os ultras ultrapassaram um limite com o “filho da puta” ou com a “mira apontada” a Dietmar Hopp e há quem não veja, o que é normal. Os diferentes lados nesta disputa irão defender os seus próprios interesses. E está claro que os termos utilizados são a superfície de entraves bem mais amplos, bem mais arraigados.

Que os ultras admitam, como primeiro passo, que as referências a Dietmar Hopp não são apropriadas ao momento e se esvaziam pela agressividade, a DFB também precisa concordar que não dá para colocar no mesmo pote o que aconteceu com o dono do Hoffenheim ao lado de episódios de racismo e outros tipos de discriminação. É necessária mais objetividade dentro do diálogo, menos histeria. Além do mais, os torcedores certamente não admitirão a unilateralidade de querer pintá-los como os únicos culpados sempre. A eles, o estádio é um local de liberdades e por isso continuarão lutando.

As torcidas da Alemanha historicamente estão entre as mais ativas do planeta. Algumas ações e protestos já provocaram mudanças, como a suspensão dos jogos às segundas-feiras na primeira divisão da Bundesliga. Entretanto, há uma sensação de que são ouvidos cada vez menos e que algumas ações realizadas pela DFB servem apenas como jogo de cena, sem realmente escutar os interesses de quem frequenta as arquibancadas. Se não houver um movimento pelo real diálogo, a tendência é que o atrito aumente.

Os ultras continuarão lutando por aquilo que entendem como liberdade de expressão. Se protestos criativos ou mais brandos não adiantam, as paralisações podem se tornar mais frequentes e a rispidez será uma maneira de fazerem barulho. E que a promessa de punições coletivas caia, a DFB precisa recuperar sua credibilidade, agindo de maneira mais aberta em relação às torcidas. Hopp é apenas o ponto de fricção, e longe de ser a maior vítima. Se não ajuda colocar um alvo no rosto do magnata, também atravanca qualquer razoabilidade tratá-lo como o principal prejudicado pela radicalização da sociedade.

O conflito aponta para uma disputa mais ampla de poder, entre os torcedores de um lado e os organizadores do outro. Falar sobre “termos ofensivos” é apenas algo pequeno, numa briga que compreende a liberdade nas tribunas, o uso de pirotecnia, a realização dos jogos em horários razoáveis a quem frequenta o estádio e outros temas recorrentes na cultura de arquibancada. Ainda mais intrincada é a discussão sobre divisão de ações (50+1), organização dos clubes, origem do dinheiro e abertura a investidores. Se a DFB e muitos dos dirigentes dos clubes não veem problemas com Hopp, o interesse dos ultras sempre foi manter o epicentro do futebol alemão dentro do que acontece nas arquibancadas. Por isso o empresário é alvo.

E se tudo isso coloca autoridades e torcedores de lados opostos, também existe um interesse em comum em combater a intolerância e o extremismo nos estádios alemães. Quando há uma clara escalada da intolerância no país, os grupos de ultras são fundamentais pelas discussões que propõem, enquanto os clubes servem de ferramenta poderosa pela maneira como atingem diferentes camadas da população. O próprio poder público incentiva o engajamento dos ultras para promover um cenário plural, quando isso já combateu o extremismo nos estádios em outros momentos históricos. Existe uma necessidade de cooperação, mas a sintonia dos discursos precisa ser maior.

O caminho de tudo isso? Um conflito mais longo, talvez mudanças mais drásticas no futebol alemão, o imperativo diálogo, o reconhecimento de que há um inimigo em comum na intolerância. Os portões fechados por causa do coronavírus também se tornam importantes neste contexto, por indicarem como o futebol pode seguir em frente para cumprir seus contratos e deixar as arquibancadas de lado. De qualquer maneira, os dirigentes sabem como a ponderação é vital. Como declarou Michael Zorc, diretor esportivo do Dortmund, “guerras inteiras são prevenidas pelo diálogo”.

Num ambiente teoricamente democrático, as disputas pelos próprios direitos são parte natural do processo. Resta esse diálogo maior. Agora, a tomada da abertura está mais nas mãos das autoridades, ante o que são claras reivindicações. Os dirigentes alemães sabem, por mais que queiram afrouxar os nós, como a força do que acontece nas arquibancadas é fundamental dentro das estruturas do futebol local. Futebol não se constrói sem torcedores e a Alemanha, acima de qualquer outro país, escancara como essa afirmativa é verdadeira. Isso também precisa ter consequências positivas e contundentes à sociedade, num contexto mais preocupante que a polidez no tratamento a Hopp.