“Corner contra o Uruguai no último instante da luta! Terminou o tempo pelo meu relógio e vai agora um corner contra o Uruguai! Há descontos ainda!”, narrava a Rádio Nacional, naquele 16 de julho de 1950. O Maracanã, que supostamente se silenciara depois do gol de Ghiggia, entrou em alvoroço para o último lance da partida. Gambetta colocou a bola para fora, dando ao Brasil uma última chance. Friaça correu, então, à bandeirinha de escanteio para não perder tempo. Meteu o cruzamento em direção à área. A esperança de que algum salvador surgisse, para evitar o destino trágico que se desenhava às 200 mil almas nas arquibancadas, a todo o restante do país e à geração de craques.

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“O Brasil todo estava na área: havia gaúchos, mineiros, crioulos, vaqueiros, general, gari, físico nuclear, batedor de carteira, bisavós, recém-nascidos. Todos esperando aquela bola de Friaça que vinha pingando no céu”, escreveu Vicente Marinho, em Anatomia de uma Derrota. E a oportunidade que todo o Brasil esperava caiu sobre Jair Rosa Pinto. O camisa 10 de 29 anos, já consagrado por sua própria história na Seleção. O garoto revelado pelo Madureira, que já tinha ajudado a formar o Expresso da Vitória do Vasco, antes de partir e também ser ídolo no Flamengo. Poderia decidir a Copa de 1950 no último lance, buscando o empate por 2 a 2, que já seria suficiente para que a Seleção terminasse em primeiro no quadrangular final.

“Eu fiz de tudo e a bola raspou, ela raspou na minha cabeça. Sonhei muito com o gol que perdi. Não, sonhei muito com o gol que não fiz de cabeça. Sempre antes de dormir eu penso no gol. Só sonho com o último lance, aos 44 minutos e 50 segundos. Eu sonhava assim: o Brasil com um time daquele não ganha a Copa do Mundo? Isso era o sonho. E então eu acordava espantado. Aí eu olhava assim e o Maracanã estava na minha frente”, contou Jair, anos depois, em entrevista a Geneton Moraes Neto para o livro Dossiê 50. O camisa 10 não conseguiu cabecear em cheio. E, sem o tiro fatal, o árbitro apitou o final do jogo. O Uruguai era campeão.

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Na saída de campo, Jair foi direto agradecer a Nossa Senhora da Vitória. Não por ganhar ou perder, mas pelo fato de que nenhum de seus companheiros tinha se machucado em campo. O camisa 10 também era um dos maiores símbolos da união de um grupo, que recusou a folga dada por Flávio Costa na véspera para seguir junto na concentração. “Saí do vestiário, e uma moça mandou me chamar. Quando ela mandou me chamar, fiquei muito preocupado. Estava no canto, mudando minha roupa. Nem banho nós tomamos. Levantei na hora e fui lá atender. Ela me abraçou, eu comecei a chorar. E aquilo me confortou muito. Você atravessa aquele túnel, chega ao vestiário, tira a roupa, senta. E começa a chorar. Aquela moça me confortou. Ela me deu um abraço, chorando. Foi sensacional”, afirmou.

Jair

Entretanto, o conforto do primeiro camisa 10 do Brasil em Copas durou apenas por aquele instante de dor. O pesadelo de Jair se repetiu muitas e muitas vezes depois. “Vamos supor que o Papai do Céu me ajudasse e eu tivesse feito o gol. O Maracanã ia cair. A bola raspou na minha cabeça. Se ela tivesse entrado, eu seria herói. Eu seria o salvador da pátria. Eu seria o melhor jogador do mundo”, completou Jair. “O Brasil não suporta ser vice-campeão. Quem perdeu o jogo fomos nós. Nós é que perdemos, porque ninguém mais entrou em campo. Somos nós. É a única desgraça que eu levo. Nunca me esqueci da Copa do Mundo. Não me esqueço, nunca! Nem posso, porque foi o único título que me faltou. Eu não tinha filho, mas no ano seguinte eu ganhei um filho. Não ganhei uma Copa, mas ganhei um filho”.

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Em 1951, além do seu primogênito, Jair também se reergueu no Maracanã. Voltou ao estádio com a camisa do Palmeiras. E se fez campeão do mundo na Copa Rio. Esteve em campo em todos os jogos e comandou a conquista alviverde. Eliminou muitos de seus companheiros do Maracanazo, batendo o Vasco nas semifinais. Antes da glória maior nos dois jogos da decisão, diante da Juventus de Boniperti. Jair deixou o Palmeiras em 1955, como unanimidade. Antes de ainda se juntar ao esquadrão que o Santos formava. Então, o camisa 10 de 1950 passou a camisa a um menino que despontava: Pelé, o dono do número e da taça em 1958.

Em eleição feita pela revista Placar, em 2000, Jair figurou entre os 50 maiores ídolos da história de Vasco, Flamengo, Palmeiras e Santos. Uma façanha enorme, que dimensiona a grandeza do craque em seus clubes. Já pela Seleção, foram 41 jogos e 24 gols. Depois do Maracanazo, participou de somente mais duas partidas, pela Copa América 1956. Mesmo arrebentando no Palmeiras e no Santos, acabou deixado de lado. Uma sorte que poderia ser bem diferente se acertasse em cheio aquela bola aos 45 do segundo tempo. O quase que permaneceu na mente de Jair até 28 de julho de 2005, quando faleceu, aos 84 anos. Enfim, livre daquele sonho.