“O futebol é estranho”, disse Gianluigi Buffon, goleiro do Paris Saint-Germain, que tem certa experiência prática nesse campo de conhecimento. “Dois meses atrás, no sorteio, todos pensavam que o PSG avançaria. Dois meses depois, vendo o que aconteceu conosco e o desenvolvimento do Manchester United, estamos, pelo menos, no mesmo nível agora”.

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E ele tem toda razão. Na altura do sorteio das oitavas de final da Champions League, em 17 de dezembro, o Paris Saint-Germain era favorito para passar de fase. Havia sobrevivido a um grupo difícil e pegava embalo na temporada, enquanto o adversário afogava-se na melancolia da reta final da passagem de José Mourinho por Old Trafford.

Em dois meses, tudo mudou, como mostramos a seguir. E o duelo que começa nesta terça-feira, entre Manchester United e Paris Saint-Germain, tornou-se imprevisível. Podendo-se até defender a tese de que os ingleses são favoritos.

O Manchester United reencontrou a felicidade
Marcus Rashford comemora gol pelo Manchester United (Foto: Man Utd/divulgação)

Não era difícil concluir que qualquer técnico minimamente competente conseguiria tirar o Manchester United do buraco em que José Mourinho o deixou. Não porque o trabalho do português tenha sido desastroso em Old Trafford. Teve bons momentos, no começo, e outros muito ruins, na reta final. Mas a mera mudança de atmosfera seria importante. Há vários aspectos no futebol de alto nível. Os jogadores terem prazer de jogar é um deles.

Todos os sinais dos últimos dias de Mourinho no Manchester United indicavam que os atletas preferiam fazer qualquer outra coisa da vida a jogar futebol. As táticas não ajudavam, e as estratégias de motivação do português, em outros tempos seu ponto forte, saíram pela culatra. Nesse sentido, Ole Gunnar Solskjaer era uma escolha perfeita: tinha história no clube e era conhecido por ser um cara gente boa.

O que era difícil de prever é que daria tão certo. O Manchester United chega à primeira partida das oitavas de final da Champions League entre os quatro primeiros colocados do Campeonato Inglês, com dez vitórias em 11 partidas sob o comando do técnico interino. Onde antes havia paranoia e conflitos há confiança, como fica claro, por exemplo, no caso de Anthony Martial.

O francês de 23 anos era um dos alvos favoritos das críticas públicas de Mourinho. Se a diretoria não tivesse vetado a saída do jovem que custou € 60 milhões, sua carreira nos Red Devils teria chegado ao fim. Em números, nesta temporada, Martial contribuiu mais com Mourinho, mas é visível que há um outro discurso em ação.

Em vez de cobrança, apoio. No fim de semana, ele armou a jogada do primeiro gol da vitória por 3 a 0 sobre o Fulham e marcou o segundo, com uma arrancada do meio-campo que o fez ser comparado por Gary Neville a Cristiano Ronaldo. “Se Martial quiser chegar ao nível de Ronaldo, ele sabe o que tem que fazer. Depende dele. Ele tem o talento”, afirmou Solskjaer.

Claro que talvez seja difícil que Martial chegue tão longe. Mas Solskjaer reserva palavras de incentivo aos jogadores com muito mais frequência do que o seu antecessor. A carta Cristiano Ronaldo já foi utilizada anteriormente, com Marcus Rashford, outro que cresceu sob o comando do norueguês. Marcou seis vezes em oito rodadas da Premier League.

Paul Pogba, então, parece outro jogador. Também protagonizou rusgas com Mourinho e chegou a ser colocado no banco de reservas. Desde a chegada de Solskjaer, tem números do craque que sempre se esperou que fosse: oito gols e cinco assistências em nove rodadas do Campeonato Inglês. Esses são os três jogadores que melhor simbolizam o crescimento do United nas últimas semanas, que passa, também, por uma mudança de mentalidade.

“Temos um treinador que tem intenções diferentes e estamos tentando fazer o que ele pede. Talvez seja mais fácil jogar este estilo de futebol do que o estilo que ele (Mourinho) pedia. O treinador está me pedindo para atacar mais. Esse é meu trabalho, no final das contas. Fazer a diferença e ser mais decisivo”, afirmou Martial.

Junto a tudo isso, Solskjaer tem adotado uma postura perfeita nos bastidores. Esta reportagem da BBC mostra alguns pequenos gestos que causam um grande impacto. Quando era jogador, ele tinha o hábito de sempre trazer chocolate para funcionários quando viajava à Noruega. Retomou-o no primeiro dia no novo cargo. Não tem medo de recorrer a Alex Ferguson e se mostra muito mais envolvido em todos os departamentos do clube.

PSG com problemas
Neymar, do PSG (Foto: divulgação/PSG)

Quando as bolinhas balançaram em meados de dezembro, o Paris Saint-Germain ainda não passava total confiança em seu desempenho, mas estava em ascendência e havia perdido apenas uma vez na temporada, para o Liverpool, em Anfield, sem efeitos práticos: no fim das contas, os parisienses lideraram o seu grupo da mesma maneira.

Desde então, tudo degringolou. Os resultados continuaram bons, na frieza dos números, com nove vitórias em 11 jogos. Todos em partidas domésticas e, contra clubes franceses, o Paris Saint-Germain terá um bom aproveitamento mesmo jogando com os olhos vendados. E houve alguns tropeços muito relevantes.

O PSG foi eliminado da Copa da Liga Francesa pelo Guingamp, então lanterna da Ligue 1, com Neymar e Mbappé em campo desde o começo. A primeira derrota do clube em copas francesas em cinco anos. Na Copa da França, contra o Villefranche, da terceira divisão, Tuchel foi obrigado a colocar Mbappé e Cavani no segundo tempo e, mesmo assim, não conseguiu tirar o zero do placar no tempo normal. Deslanchou apenas na prorrogação e ganhou por 3 a 0.

No Campeonato Francês, o Lyon encerrou a invencibilidade do PSG, ao vencer por 2 a 1, de virada, e a última rodada apresentou uma vitória magra por 1 a 0, com gol de pênalti, convertido por Edinson Cavani, que se machucou na cobrança e precisou ser substituído. Junta-se no estaleiro a Neymar, que pelo segundo ano seguido está machucado na altura das oitavas de final da Champions League – grande objetivo dele e do clube.

Enquanto isso, nos bastidores, as feridas seguem abertas entre Thomas Tuchel e o diretor esportivo Antero Henrique. Ficou mais forte a especulação de que ele será substituído por Arsène Wenger, depois de uma janela de inverno decepcionante. O treinador esperava mais reforços, principalmente para o meio-campo, e recebeu apenas Leandro Paredes. Admitiu que não ficou “completamente satisfeito” com os negócios de janeiro.

Sem os reforços que queria, com dois desfalques importantíssimos – e um terceiro também relevante em Thomas Meunier – e com o desempenho oscilante nas últimas semanas, o Paris Saint-Germain não chega embalado para as oitavas de final.