Dizer que foram dois massacres é falar o óbvio. E às vezes não dá para fugir mesmo do óbvio, porque esse óbvio é tão forte, tão evidente que querer sair dele remete à velha piada da melancia no pescoço. Bayern Munique e Borussia Dortmund atropelaram Barcelona e Real Madrid. Passaram o cerol sem pena e estão a um passo da final. Ou a meio passo, talvez ainda mais próximo. Enfim, só uma catástrofe impedirá que seja feita a final alemã. Ou um dia inesquecível de Messi ou Cristiano Ronaldo. Independente disso, podem ser tiradas algumas lições dos dois jogos.

A primeira delas? Posse de bola é quase um engodo. É muito bonitinho o jogo do Barcelona, de valorizar a bola, mas se não houver infiltração no ataque e ocupação de espaços na defesa, as coisas ficam muito mais difíceis. E sem intensidade, ficam impossíveis. Foi aí, na intensidade, que os alemães ganharam o jogo, correndo cerca de 5 km a mais que os espanhóis na partida. Numa conta grosseira, significa que cada jogador de Bayern e Dortmund deu 20 piques a mais do que os de Barcelona e Real Madrid.

Mas também é óbvio que o que interessa é bola na rede. E que por mais que os românticos de Cuba reclamem e peçam a bola no chão, o jogo aéreo faz parte da partida. O Bayern entendeu isso. O Barcelona, não. E o Borussia Dortmund tem Lewandowski, um centroavante que custou € 4 milhões aos cofres do clube. Três vezes menos do que Higuaín, cuja maior participação no jogo foi cortar uma jogada de Blaszczykowski como autêntico lateral esquerdo. Assim, fica claro também uma coisa: no futebol, dinheiro não é tudo. O negócio é trabalho, como já diria o filósofo Muricy Ramalho.

Muricy, no entanto, não foi capaz ainda de montar um time com tão pouco, como fez Jürgen Klopp, e enfrentar alguém com poderio econômico muito maior. Um time absolutamente entrosado, formado há quatro anos com as devidas reposições para as perdas. Saiu Kagawa? Veio Reus. Saiu Sahin? Veio Gündogan. Sairão Götze e Lewandowski? Podem ter a certeza de que a reposição será à altura e virão uns jogadores desconhecidos, mas bons de bola. Assim, o time saiu da pasmaceira do meio da tabela, foi bicampeão alemão e pode ganhar a Europa agora.

No Bayern as coisas são muito mais fáceis, pois além do trabalho, há dinheiro suficiente para, por exemplo, tirar Götze e Lewandowski do Dortmund, e ainda sobra um pra cachaça. Antes que os sinais de Pep Guardiola comecem a ser vistos, no entanto, Jupp Heynckes quer conquistar sua segunda Liga dos Campeões e montou um timaço, capaz de tocar bem a bola, ser extremamente intenso e defender bem, apesar dos solavancos de Boateng, ou Van Buyten, ou qualquer um que jogue ao lado de Dante. Robben voltou a jogar bola, Ribéry faz uma temporada espetacular, Thomas Müller também, e o troglodita Mario Gomez tem muita estrela. É o cenário ideal para o quinto título.

Ainda assim, há mais uma coisa óbvia: nenhum dos dois times está classificado. Simplesmente porque do outro lado estão Barcelona e Real Madrid, dois dos melhores times do mundo. Será necessário comer grama na Espanha para manter a vantagem e passar à final sem gritos e ranger de dentes. Mas está claro que o recado está dado, e muito bem dado: o futebol alemão precisa ser mais levado a sério, e não é com injeção de dinheiro público do governo espanhol ou privado dos sheiks que investem no futebol inglês que ele será combatido.