Os Jogos Olímpicos também não sorriram para a geração do Sarriá

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast. 

Incensada como uma das gerações mais espetaculares do futebol mundial a não ganhar a Copa do Mundo, ao lado da Hungria de 1954 ou da Holanda de vinte anos depois, a seleção brasileira da década de 1980 teve alguns de seus jogadores em ação nos Jogos Olímpicos em Munique-1972 e Montreal-1976, mas os resultados também acabaram sendo frustrantes, com, respectivamente, uma eliminação vexatória e um quarto lugar – que acabou sendo a melhor colocação da Seleção Canarinho no período em que vigorou a regra do “amadorismo”.

As aspas aí em cima são porque esse amadorismo era bem fajuto. O esporte como símbolo de pureza e saúde sempre foi uma posição inflexível do barão Pierre de Coubertin, o chamado pai do movimento olímpico. Foi ele que idealizou o retorno da competição, por volta de 1890, até a realização da primeira edição, em 1896, em Atenas. E desde o começo fez questão de deixar claro que a Olimpíada não só não ofereceria nenhum tipo de recompensa financeira como não aceitaria a participação de atletas que recebessem qualquer coisa além de cumprimentos e prêmios simbólicos. Contamos um pouco dessa história no nosso episódio 1.

Isso acarretou em injustiças históricas, como a cassação das medalhas conquistadas em Estocolmo-1912 por Jim Thorpe, o descendente de indígenas que voou nas pistas e foi punido por ter recebido alguns trocados em jogos de beisebol. Em esportes sem seus principais atletas, como os tenistas, que só voltaram aos Jogos em Seul-1988, ou os jogadores da NBA, liberados apenas a partir de Barcelona-1992 (como se os atletas do basquete europeu ou sul-americano já não fosse pagos há décadas). E na aposentadoria precoce de outras estrelas, como o nadador Mark Spitz, que pendurou a sunga e a touca depois de ganhar sete medalhas de ouro em Munique porque ganharia mais dinheiro como garoto-propaganda.

No futebol, o custo dessa postura, especialmente a partir da década de 1930, com a profissionalização do futebol e sua transformação no esporte mais popular e midiático do mundo, foi um torneio esvaziado de grandes estrelas e com domínio absoluto durante três décadas, justamente o auge da Guerra Fria, das seleções do bloco socialista, que viviam sob influência da União Soviética.

Isso porque nessa região não havia esporte profissional. Sim, os atletas eram pagos, mas oficialmente eles eram operários, militares ou professores, contratados pelo Estado, que comandava os principais clubes. Nas oito edições olímpicas entre Helsinque-1952 e Moscou-1980, todas as medalhas de ouro foram para países escondidos na chamada Cortina de Ferro, e só duas medalhas saíram dessa “turminha”: a Dinamarca, batida na final de Roma-1960 pela Iugoslávia, e o Japão, bronze na Cidade do México-1968. Nos dois casos, países onde o futebol de fato ainda não era profissional.

Uma dose de política

O Brasil fez campanhas discretas desde sua estreia, em Helsinque, eventualmente contando com um ou outro jogador que faria sucesso no futuro – Vavá em 1952, Gerson em 1960, Roberto Miranda em 1964, todos futuros campeões do mundo.  No final de 1971, em um duro torneio seletivo disputado na Colômbia, o Brasil se classificou graças a grandes atuações de um jovem meia do Flamengo, magrelo e atrevido, chamado Zico. Foi dele o gol solitário na decisiva vitória por 1 a 0 sobre a Argentina. Outros nomes daquele time também ganhariam destaque no futuro, como Eneas, atacante da Portuguesa, Rubens Galaxie, volante do Fluminense, e Nilson Dias, ponta do Botafogo.

No começo de 1972, quando convocou o time que faria a preparação para ir a Munique, o técnico Antoninho buscou no próprio Fluminense um zagueiro chamado Abel Braga; no Internacional, um volante de nome Paulo Roberto Falcão; e, no Coritiba, o meia Dirceu. Mas deixou Zico de fora, numa decisão jamais explicada a contento.

Zico já disse em entrevistas que, por achar que a questão fosse meramente técnica, ficou tão frustrado que chegou a pensar em parar de jogar. Houve gente, no entanto, que apontasse pressão do próprio Flamengo, disposto a contar logo com seu jovem craque – de fato, ele estrearia no time profissional naquele ano, fazendo duas partidas pelo Campeonato Carioca.

Mas havia também um componente político na ausência de Zico. O país vivia naquele momento a fase mais dura da ditadura militar instalada em 1964, e Nando, irmão mais velho do Galinho, era um militante de movimentos populares perseguido pelo regime que chegou até a ser preso. Para a família Antunes, a pressão dos generais foi decisiva para que o jovem talento do Flamengo não fosse aos Jogos de Munique.

Lá na Alemanha, o time não vingou. Estreou perdendo para a Dinamarca por 3 a 2, empatou por 2 a 2 com a Hungria e, na última partida, ainda com chances mínimas de classificação, foi derrotado por 1 a 0 pelo Irã. Dirceu jogou as três Copas seguintes – só ficou de fora em 1986, no México, por causa de uma lesão de ultima hora. Falcão ganhou três Brasileiros pelo Inter, virou unanimidade nacional e Rei de Roma. Mas o sonho olímpico virou pó rapidamente.

Confusão e troca às pressas

Três anos depois, um novo time olímpico foi montado para a disputa dos Jogos Pan-Americanos, em outubro de 1975, na Cidade do México. O antigo craque Zizinho foi escolhido como treinador e chamou nomes como o goleiro Carlos, da Ponte Preta, o zagueiro Edinho, do Fluminense, o volante Batista, do Internacional, e o centroavante Claudio Adão, do Flamengo. O time conseguiu uma vitória incrível de 14 a 0 sobre a Nicarágua e acabou dividindo a medalha de ouro com o México após empate por 1 a 1, num jogo que foi interrompido na prorrogação por falta de energia no Estádio Azteca. A Fifa mandou repetir o jogo dois dias depois, mas os brasileiros já haviam ido embora.

Em janeiro, o time se reencontrou para o Pré-Olímpico, em Recife, conquistando a vaga sem muito trabalho. E se juntou novamente em maio para a preparação final, sem Adão, mas com o lateral Júnior, do Flamengo, e o atacante Marinho, do Atlético-MG, o mesmo que morreu recentemente. Mas os maus resultados numa excursão pela África e pela Europa Oriental aumentaram o volume dos questionamentos dos cartolas.

O Mestre Ziza então se encheu. Saiu disparando contra os organizadores da excursão, acusando-os de terem hospedado os jogadores em hotéis ruins e com alimentação precária. Criticou ainda o então técnico da Seleção principal, Oswaldo Brandão, por “falta de coragem” de assumir o time olímpico e, ao mesmo tempo, de tentar interferir nas escalações. Depois do desabafo, a dois dias do embarque para o Canadá, Zizinho foi demitido e Claudio Coutinho, que era o diretor técnico e chefe da preparação física, assumiu a bucha na última hora (coincidentemente, no ano seguinte Coutinho assumiu o time principal no meio das Eliminatórias para a Copa, após maus resultados sob Brandão).

O Brasil caiu num grupo complicado, com Alemanha Oriental, que tinha boa parte do elenco que havia ido à Copa do Mundo de 1974, e Espanha, que tinha uma boa geração liderada pelo goleiro Arconada. A Nigéria, que completaria a chave, desistiu na última hora, sob protesto pela presença em Montreal da Nova Zelândia, que fazia uma excursão com sua seleção de rúgbi pela África do Sul, então sob embargo do esporte internacional por causa do apartheid (contamos essa história no nosso episódio 22).

O time começou bem: segurou o 0 a 0 com os alemães e venceu os espanhóis por 2 a 1. Nas quartas de final, passou fácil por Israel, 4 a 1. Mas, nas semifinais, não resistiu à forte Polônia, que, liderada por Deyna e Lato, remanescentes do time terceiro colocado no Mundial, dois anos antes, aplicou 2 a 0, gols de Andrzej Szarmach (artilheiro dos Jogos, com 6 gols). Campeões em Munique, os poloneses perderam o bi para a Alemanha Oriental, que venceu a decisão por 3 a 1. Havia ainda a consolação, a decisão do bronze, mas o Brasil caiu para a União Soviética, novo 2 a 0, gols de Onyshchenko e Nazarenko. Carlos, Edinho, Batista e Júnior seriam figuras constantes da Seleção pelos dez anos seguintes, mas lá também seriam perseguidos pela sombra da falta de títulos e por não repetirem de amarelo o sucesso que fizeram nos clubes.

Em Moscou-1980, o Brasil não participou: ficou pelo caminho no Pré-Olímpico, disputado na Colômbia. E, a partir de Los Angeles-1984, novas regras para a escolha dos jogadores passaram a permitir a presença de profissionais, desde que não tivessem disputado Copa do Mundo. Isso abriu espaço para outras histórias, que contaremos nos próximos capítulos desta coluna.

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