Os jogadores acima de 23 anos que fizeram a diferença nos Jogos Olímpicos

De Michael Phelps a Missy Franklin, de Serena Williams a Novak Djokovic, de Usain Bolt a Marta, os melhores atletas do mundo estarão na Olimpíada, que começa, oficialmente, nesta sexta-feira. O futebol masculino, apesar das limitações de idade e de não ser data Fifa, também terá uma grande estrela. Com a braçadeira de capitão no braço e muita pressão nas costas, Neymar terá a missão de liderar o Brasil na busca da inédita medalha de ouro.

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Ele foi convocado como um dos três jogadores acima de 23 anos permitidos, regra que foi incluída nos Jogos de Atlanta, em 1996. Ao seu lado, estão Renato Augusto e o goleiro Weverton. Outras seleções também aproveitaram para dar uma pouco de experiência ao seu time. A Colômbia trouxe Téo Gutiérrez, e a Alemanha, os irmãos Sven e Lars Bender. Também há o sul-coreano Son Heung-Min, o mexicano Oribe Peralta e outros veteranos, prontos para tentarem concretizar o sonho olímpico.

Mas, em cinco edições que tiveram essa regra, quantos jogadores acima dos 23 anos conseguiram, de fato, fazer a diferença, de acordo com as ambições dos seus times? Que levaram zebras além das expectativas ou ajudaram a confirmar o favoritismo das grandes seleções? Olimpíada por Olimpíada, avaliamos o que os veteranos conseguiram fazer. E o que deixaram de fazer.

Atlanta – 1996

Acima de 23: José Chamot, Roberto Sensini e Diego Simeone (Argentina); Rui Bento, Capucho e Paulo Alves (Portugal); Chokri El Ouaer, Zoubeir Baya e Adel Sellimi (Tunísia); Kasey Keller e Alexi Lalas (EUA); Steve Horvat e Aurelio Vidmar (Austrália); Mohammed Al-Khilaiwi (Arábia Saudita); Joseph Addo (Gana); Gianluca Pagliuca, Massimo Crippa e Marco Branca (Itália); Lee Lim-Saeng, Ha Seok-Ju e Hwang Sun-Hong (Coreia do Sul); Claudio Suárez, Jorge Campos e Luis García (México); Aldair, Bebeto e Rivaldo (Brasil); Zoltán Molnár (Hungria); Uche Okechukwu, Daniel Amokachi e Emmanuel Amuneke (Nigéria).

Depois de duas medalhas de prata, nas Olimpíadas de 1984 e 1988, a seleção brasileira não economizou na busca do inédito ouro. Zagallo, técnico do time principal, também comandou os garotos em Atlanta, com os reforços de Aldair, Rivaldo e Bebeto. Não que eles precisassem de muita ajuda dos experientes, pois a geração era fantástica e tinha, entre outros, Flávio Conceição, Dida, Roberto Carlos, Juninho Paulista, Sávio, Luizão e Ronaldo.

Bebeto tinha 32 anos na época e não fez feio. Foi o artilheiro da competição, com seis gols, ao lado de Hernán Crespo. Marcou nos dois primeiros jogos do mata-mata, contra Gana e Nigéria. E ainda anotou uma tripleta contra Portugal, na goleada por 5 a 0 que valeu uma medalha de bronze para a delegação do Brasil – o time de futebol recebeu as medalhas sozinho e se mandou de Atlanta um dia antes da entrega oficial.

Diego Simeone havia acabado de conquistar a dobradinha com o Atlético de Madrid e chegou aos Jogos como uma das estrelas.  Foi titular nos três primeiros jogos, até marcou um raro gol contra os Estados Unidos, mas perdeu espaço no mata-mata. Embora tenha disputado as três partidas decisivas que levaram a Argentina à medalha de prata, não foi titular em nenhuma delas.

Jorge Campos, por sua vez, foi convocado pela seleção mexicana e não fez feio. Foi vazado uma única vez na primeira fase, mas o time latino-americano caiu nas quartas de final. Todos os quatro gols da seleção italiana foram feitos por Marco Branca, atacante que se transferia da Roma para a Internazionale naquela época. Mas a Itália, que também tinha Gianluca Pagliuca no elenco, foi eliminada como lanterna do seu grupo.

A Nigéria levou Emmanuel Amuneke, que estava entre o Sporting e o Barcelona, e ele fez apenas um gol. Mas, considerando que este gol foi marcado aos 45 minutos do segundo tempo da decisão contra a Argentina e garantiu aos nigerianos uma histórica medalha de ouro, até que valeu a pena pagar sua passagem para os Estados Unidos.

Sydney 2000
Zamorano e Maldonado (Foto: AP)

Zamorano e Maldonado (Foto: AP)

Acima de 23: Mark Viduka, Stan Lazaridis e Josip Skoko (Austrália); Garba Lawal e Godwin Okpara (Nigéria); Nelson Tapia, Pedro Reyes e Iván Zamorano (Chile); El Houssaine Ouchla, Adel Chbouki e Salaheddine Bassir (Marrocos); Kim Do-Hoon e Kang Chul (Coreia do Sul); Serge Mimpo e Patrick M’Boma (Marrocos); Jamal Mubarak, Abdullah Wabran e Esam Al-Kandari (Kuwait); Brad Friedel, Jeff Agoos e Frankie Hejduk (EUA); Seigo Narazaki, Ryuzo Morioka e Atsuhiro Miura (Japão); Martin Lipcak, Michal Pancik e Radoslav Král (Eslováquia); Dumisa Ngobe e Brian Baloyi (África do Sul).

As seleções mais badaladas do torneio olímpico – Brasil, Itália e Espanha – decidiram não levar jogadores veteranos. Por isso, a grande estrela dessa categoria na Austrália foi o atacante Zamorano, já com 33 anos e próximo da aposentadoria. Se sua fase pela Internazionale não era das melhores, na Olimpíada ele não decepcionou. Foi o artilheiro do torneio, com seis gols, e dois deles saíram na vitória sobre os EUA que valeu uma medalha de bronze para o Chile.

Campeão olímpico em Atlanta, Garba Lawal foi convocado como veterano, mas não conseguiu evitar que a Nigéria fosse goleada pelo Chile nas quartas de final. A Austrália levou um jovem Mark Viduka, de 24 anos, mas perdeu todos os jogos e só fez dois gols, nenhum do atacante que jogaria pelo Leeds e pelo Middlesbrough no futuro.

Repetindo o feito da Nigéria quatro anos antes, Camarões foi a grande surpresa do torneio olímpico de futebol masculino, ao derrotar a Espanha e ficar com a medalha de ouro. Impossível minimizar a influência de Patrick M’Boma, que já tinha 30 anos naquela época. O então atacante do Cagliari marcou duas vezes na fase de grupos e abriu o placar contra o Brasil nas quartas de final. Sua participação mais decisiva foi na partida seguinte, contra o Chile: empatou, aos 39 da etapa final, e sofreu o pênalti convertido por Lauren, que valeu a vaga na decisão.

Atenas 2004
Killy González e Tevez (Foto: AP)

Kily González e Tevez (Foto: AP)

Acima de 23: Ieroklis Stoltidis, Konstantinos Nebegleras e Mitiadis Sapanis (Grécia); Fousseiny Tangara (Mali); Israel López, Sinha e Omar Bravo (México); Yoo Sang-chul e Chung Kyung-ho (Coreia do Sul); Baffour Gyan, Stephen Appiah e William Tiero (Gana); Matteo Ferrari, Andrea Pirlo e Ivan Pelizzoli (Itália); Hitoshi Sogahata e Shinji Ono (Japão); Gamarra, Julio Cesar Enciso e José Cardozo (Paraguai); Roberto Ayala, Gabriel Heinze e Kily González (Argentina); Craig Moore, John Aloisi e Tim Cahill (Austrália); Khaled Fadhel, Jose Clayton e Mohamed Jedidi (Tunísia); Whayne Wilson (Costa Rica); Haidar Abdul-Jabar, Abdul-Wahab Abu Al-Hail e Razzaq Farhan (Iraque); Bouchaib El Moubarki, Otmane El Assas e Nadir Lamyaghri (Marrocos); Fernando Meira, Nuno Frechaut e Luís Boa Morte (Portugal).

Quem comeu a bola para a campeã foi Carlos Tevez, que tinha apenas 20 anos. Mas a versatilidade da dupla Heinze e Ayala caiu bem no esquema de Marcelo Bielsa. Os dois jogaram todas as seis partidas da campanha medalha de ouro, e a Argentina não sofreu nenhum gol. O outro veterano do país sul-americano foi Kily González, mais discreto e autor de um dos gols da goleada por 6 a 0 sobre a Sérvia.

A derrotada na decisão e portadora da medalha de prata foi o Paraguai, cujo capitão era Carlos Gamarra. Sua liderança e experiência foram importantes na campanha história do país, mas não dá para dizer que ele liderou uma defesa impenetrável. O time paraguaio sofreu três gols do Japão, dois de Gana e outros dois da Coreia do Sul. E Tevez, na final, estava sozinho dentro da área para fazer o gol da vitória.

Vale destacar a participação do capitão da seleção iraquiana Abdul Wahab Abu Al-Hail, que esteve em campo durante todos os minutos da boa campanha do Iraque, que chegou à disputa da medalha de bronze. Mas quem ficou com o terceiro lugar foi a Itália, de Andrea Pirlo, que avançou meio aos trancos e barrancos, com campanha idêntica à de Gana na fase de grupos: uma vitória, um empate, uma derrota e zero de saldo de gols.

Os italianos passaram nos gols marcados (5 a 4). Nas quartas, superaram Mali com um gol contra. Pirlo era capitão e camisa 10, mas não orquestrou um ataque que pode ser chamado de fulminante.

Depois de duas quedas seguidas na fase de grupos, inclusive na Olimpíada disputada em casa, a Austrália avançou às quartas de final e os gols de John Aloisi, então com 28 anos, atuando pelo Osasuna, foram muito importantes. Marcou no empate com a Tunísia e fez dois na goleada sobre a Sérvia – que apanhou de todo mundo.

Pequim – 2008
Riquelme, da Argentina (Foto: AP)

Riquelme, da Argentina (Foto: AP)

Acima de 23: Riquelme, Nicolás Pareja e Mascherano (Argentina); Archie Thompson, David Carney e Jade North (Austrália); Vladimir Stojkovic, Aleksandar Zivkovic e Mijan Mrdakovic (Sérvia); Kew Jaliens, Roy Makaay e Gerald Sibon (Holanda); Peter Odwemwingie (Nigéria); Michael Parkhurst, Brian McBride e Brad Guzan (EUA); Sepp de Roover e Maarten Martens (Bélgica); Ronaldinho Gaúcho e Thiago Silva (Brasil); Li Weifeng, Zheng Zhi e Han Peng (China); Ryan Nelsen, Simon Elliott e Chris Killen (Nova Zelândia); Antonio Ghomsi e Gustavo Bebbe (Camarões); Samuel Caballero, Emil Martínez e Carlos Pavón (Honduras); Tommaso Rocchi (Itália); Kim Dong-jin e Kim Jung-woo (Coreia do Sul).

De volta à Olimpíada, a seleção brasileira levou dois veteranos para Pequim. Thiago Silva tinha quase a idade certa para não ter que entrar como exceção e foi bem liderando a defesa que sofreu gol em apenas um jogo: a semifinal contra a Argentina, que venceu por 3 a 0. O outro foi Ronaldinho Gaúcho, forçado ao técnico Dunga pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira. No começo da sua decadência física e técnica, o craque não foi um terror, mas não conseguiu ser decisivo como se esperava dele.

A Nigéria, que chegou à final para disputar a medalha de ouro contra a Argentina, levou apenas Peter Odemwingie como veterano, e ele só desencantou nas quartas de final. Mas um dos craques da competição tinha mais de 23 anos: Juan Román Riquelme comandou o meio-campo como o maestro que sempre foi, distribuindo as bolas para que os jovens Lavezzi, Di María, Agüero e Messi decidissem.

Londres – 2012
Peralta (Foto: AP)

Peralta (Foto: AP)

Acima de 23: Micah Richards, Ryan Giggs e Craig Bellamy (Reino Unido); Papa Gueye (Senegal); Ali Khasif, Ismail Al Hammadi e Ismail Matar (Emirados Árabes Unidos); Edinson Cavani, Luis Suárez e Arévalo Rios (Uruguai); Didier Ovono e Bruno Manga (Gabão); José Corona, Carlos Salcido e Oribe Peralta (México); Jung Sung-Ryong, Park Chu-Young e Kim Chang-Soo (Coreia do Sul); Diego Benaglio, Xavier Hochstrasser e Timm Klose (Suíça); Stanislaw Drahun, Sergei Kornilenko e Renan Bressan (Belarus); Thiago Silva, Marcelo e Hulk (Brasil); Mohamed Aboutrika, Ahmed Fathy e Emad Motaeb (Egito); Ryan Nelsen, Michael McGlinchey e Shane Smeltz (Nova Zelândia); Maynor Figueroa, Jerry Bengtson e Roger Espinoza (Honduras); Yuhei Tokunaga e Maya Yoshida (Japão); Nordin Amrabat e Houssine Kharja (Marrocos); Javi Martínez, Adrián López e Juan Mata (Espanha);

Muitos que acompanham futebol internacional sempre imaginaram como seria uma seleção britânica, que juntasse jogadores da Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Pudemos ver na edição de Londres dos Jogos Olímpicos. E Ryan Giggs, finalmente, ganhou a chance de disputar uma competição importante de seleções.

O ex-jogador do Manchester United foi convocado como veterano ao lado de Craig Bellamy, outro galês – o terceiro britânico acima de 23 anos foi o inglês Micah Richards, apenas um pouquinho mais velho que o resto do time. A união com as outras nações não serviu para anular a maldição inglesa em competições internacionais. Em casa, o Reino Unido passou bem pela fase de grupos, com direito à vitória pelo Uruguai, mas parou na Coreia do Sul, nas quartas de final, na disputa de pênaltis. Os experientes não foram mal, nem conseguiram reverter a lógica do time.

O Brasil, comandado por Mano Menezes, levou novamente Thiago Silva, que ganhou a braçadeira de capitão e manteve sua alta média de desempenho, e Marcelo, que supriu uma carência na lateral esquerda. O inexplicável foi convocar Hulk, que acabou virando reserva da seleção brasileira. Até entrou na decisão, contra o México, e descontou depois que Oribe Peralta já havia aberto 2 a 0.

Peralta, sim, foi uma convocação acima de 23 anos que valeu a pena. Não apenas por acabar com o Brasil na disputa da medalha de ouro, mas também pelos seus outros gols importantes na campanha, contra Japão e Suíça.

Voltando aos casos de fracasso, Suárez e Cavani foram chamados pela seleção uruguaia, não fizeram nenhum gol e o time acabou eliminado na primeira fase.


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