Há cinco anos, o Lincoln City beirava o precipício. O centenário clube de East Midlands, que construiu sua reputação nas divisões inferiores do Campeonato Inglês, acabara de deixar a Football League. Foi rebaixado à quinta divisão e, dentro das novas perspectivas semiprofissionais, parecia que o futuro só guardava o pior. Em grave crise financeira, os Imps precisaram ser salvos por seu presidente. Bob Dorrian tirou do próprio bolso £500 mil, economizados de uma bem-sucedida carreira na exportação de aves, para evitar o pior. Uma aposta de risco, que demorou a se pagar. Durante as últimas cinco temporadas, os alvirrubros se acostumaram a ser coadjuvantes na Conferente National, ocupando posições medíocres na tabela, sem superar o 13° lugar.

VEJA TAMBÉM: O Lincoln City, da quinta divisão, escreve a história na competição mais antiga do mundo

A realidade se transformou em 2016/17. A volta à Football League parece apenas questão de tempo. O Lincoln City faz campanha firme na liderança da quinta divisão. E o acesso seria fundamental para a restruturação econômica dos Imps. Também está nas semifinais da FA Trophy, copa voltada aos times da non-league, abaixo da quarta divisão. Entretanto, não é por isso que o clube tem chamado atenção de toda a Inglaterra – e também de outras tantas partes do mundo. A cada rodada, os alvirrubros escrevem uma história fantástica na Copa da Inglaterra. Eliminaram Ipswich Town e Brighton. Nas oitavas, derrubaram o Burnley em pleno Turf Moor, um dos estádios mais temidos da Premier League. Superaram um adversário 81 posições acima na pirâmide do Campeonato Inglês. Tornaram-se o primeiro time da quinta divisão na história a alcançar as quartas de final do torneio mais antigo do mundo. O primeiro da non-league em 103 anos.

Mas, afinal, o que mudou em Lincolnshire durante os últimos meses, para tamanha transformação? A revolução atende por um sobrenome: Cowley. Danny e Nicky. Os dois irmãos davam aulas de educação física até o ano passado. Construíram sua reputação em divisões amadoras, treinando equipes nanicas, trabalhando em jogos vistos por algumas dúzias de torcedores, conquistando acessos. Danny, o mais velho, de 38 anos, assumiu o comando do Lincoln City no início da temporada e é quem aparece na linha de frente. Nicky veio como seu assistente, embora ambos dividam os seus salários em partes iguais. Juntos, realizam uma empreitada que acumula elogios em todos os cantos da ilha. E os colocará à beira do campo no Estádio Emirates neste sábado.

cowley

“Eles são fenômenos. Fe-nô-me-nos. Eu nunca vi dois rapazes dirigirem um clube de futebol da maneira como fazem no Lincoln City. Eles são únicos. Sua compreensão da ciência do esporte e de sua aplicação no futebol é inigualável. Ainda assim, a maneira como eles lidam com tudo é algo que eu nunca experimentei. E imagino que outras pessoas não fazem igual”, qualifica o presidente Bob Dorrian, em entrevista ao Guardian. Elogios de boca cheia, complementados por Chris Ashton, ao Telegraph. Torcedor do Lincoln City há 60 anos, ele compara Danny Cowley com Graham Taylor, o maior técnico da história do clube e também um dos maiores da história do futebol inglês: “Desde que Taylor deixou o Watford, eu nunca soube de alguém que trabalhasse tão duro quanto Danny. Ele trabalha 20 horas em um dia. E isso quando está de folga”.

A virtude do esforço permanente, contudo, não é a única similaridade que costuma ser traçada entre Taylor e os Cowley. Em Lincolnshire, muitos ressaltam a maneira como os irmãos aproximaram o clube da comunidade local. Uma postura que o velho treinador, falecido no início deste ano, era entusiasta. Não à toa, a cada avanço na Copa da Inglaterra, o Lincoln City repete a “Impvasion”: milhares de torcedores deixam a cidade para ver o esperado milagre. Contra o Burnley, cerca de 3,2 mil alvirrubros foram a Turf Moor. Já nas quartas de final, diante do Arsenal, são esperados 9 mil visitantes tomando o Emirates. E, diante da empolgação, contrastante com o péssimo momento dos Gunners, não duvide se eles calarem a torcida da casa.

VEJA TAMBÉM: As homenagens a Graham Taylor, um homem que cultivou aquilo que é mais apaixonante no futebol

A capacidade dos Cowley em contagiarem as pessoas ao seu redor é apontada como uma de suas principais qualidades. “Quando Nicky e eu chegamos, muitas pessoas falaram sobre como Graham conectou o time com a cidade. Eu não me importo em admitir que copiamos essa abordagem. Isso funciona em diferentes sentidos. Se os torcedores veem como os jogadores estão trabalhando duro, percebem que eles não são robôs, isso realmente ajuda todos a seguir em frente”, avalia Danny, ao Guardian. “Há 100 mil pessoas na cidade. Em nossa pequenez, esse é um gigante adormecido. Estamos começando a acordá-lo. Agora, vamos fazer cócegas em sua barriga”.

A própria carreira moldou a habilidade de Danny e Nicky Cowley no trato com outras pessoas. Quando o mais velho tinha acabado de deixar a faculdade e o mais novo ainda estudava, eles treinaram uma equipe de garotos refugiados em Essex, na região onde cresceram. Jovens albaneses, que buscavam através do futebol uma maneira de se inserir na nova realidade. “Nosso pai sempre quis que devolvêssemos o que recebemos à comunidade e esses meninos eram excluídos. Havia racismo. Eram crianças adoráveis, muito fortes, muito emocionais. Eles precisavam de disciplina e limites. Tínhamos que gerenciar as emoções, eram apaixonados. Eles discutiam entre si e você precisava canalizar as energias. Mas amávamos aquele time. Eu sempre amei treinar. Nosso pai nos treinou quando pequenos e eu comecei aos 13 anos. Ficava empolgado em ensinar o jogo. Estava curtindo tanto descobrir os detalhes do futebol que eu queria compartilhar isso”, conta Danny.

Já em clubes, a trajetória do Cowley mais velho começou em 2007, à frente do Concord Rangers, time amador de sua região. Na estreia, pela nona divisão, diante de 62 pagantes, goleou por 6 a 1. Foram oito temporadas e três acessos no comando da equipe, atingindo o sexto nível. Depois, foi contratado pelo Braintree Town, também da região de Essex. Por lá, chegou a ser chamado de ‘Ranieri da Non-League’, ao fazer o que pouquíssimos esperavam na temporada passada, a sua única dirigindo o time. Um dos menores clubes da Conference National, 14° colocado no ano anterior, conseguiu chegar aos playoffs da quinta divisão. Por um empate, não disputou a vaga à Football League em Wembley, o que seria um feito inédito. Foi eliminado para o Grimsby Town, acostumado aos níveis profissionais.

cowley2

E mesmo quando causava impacto na non-league, ao lado de Nicky, Danny Cowley continuava lecionando. Era o coordenador de Educação Física no Colégio FitzWimarc de dia, enquanto comandava o Concord Rangers ou o Braintree Town à noite. Conseguiu, inclusive, fazer com que a escola fosse premiada como a melhor do estado por seu desenvolvimento esportivo, batendo outros 3,6 mil colégios. Seus alunos também ganharam o campeonato nacional de atletismo entre secundaristas por cinco anos consecutivos. No mundial da categoria, FitzWimarc ficou na quarta colocação. Segundo Danny, estas são as suas maiores conquistas.

“Lecionar nos deu um conjunto de habilidades. É o que outros professores costumam chamar de habilidades pedagógicas, mas eu simplifico como a capacidade que me permite trabalhar com tantas pessoas diferentes. Você ama ou odeia a Educação Física. Eu tinha que fazer as crianças gostarem e achava realmente desafiador”, declara. Colegas, inclusive, afirmam que os hábitos de professores, falando aos jogadores como se fossem alunos, se mantêm.

No entanto, os Cowley precisaram abandonar a paixão pela escola quando o Lincoln City bateu em sua porta. Pela primeira vez, ganhavam um contrato de dedicação integral ao futebol. Mergulharam de cabeça no novo trabalho. Mas sem esquecer as origens. Às vésperas do Natal, a diretoria dos Imps levou 50 crianças de FitzWimarc ao estádio, para assistirem ao duelo contra o Tranmere Rovers. Motivação extra aos treinadores. A vitória aconteceu apenas nos minutos finais, deixando a garotada extasiada.

“É por isso que eu amo o futebol neste nível em que o Lincoln City está. É sobre os seres humanos com quem você cria uma conexão. Nós podemos não ser um clube da Premier League, mas nós temos torcedores de primeiro nível. É muito genuíno. Eu temo que muito disso esteja se perdendo no topo do futebol. Os jogadores são colocados em pedestais e ganham um dinheiro absurdo. Não há realidade ou conexão humana. O futebol é um mundo de fantasia agora e, para mim, isso perde muito. É uma vergonha verdadeira. Ao menos nós criamos uma ligação real com o povo de Lincoln. Nós devolvemos algo a eles”, pontua.

E não é apenas esses laços humanos que os Cowley trouxeram da vida escolar. Eles também aplicam certo rigor acadêmico ao seu jogo. Um grupo de estudantes universitários de ciências do esporte ajuda os treinadores do Lincoln City nos bastidores. Eles fazem análises detalhadas de inúmeros aspectos. As cargas de treinamento aumentaram, as dietas foram aperfeiçoadas, a capacidade física dos jogadores melhorou. Trabalho que se reflete em campo, onde a ajuda da tecnologia também prevalece. Os universitários levaram aos Imps seu próprio software de avaliação de desempenho, o iCoach4Sports.

Lincoln City
Lincoln City

“Nosso sistema é muito particular. Enquanto outros sistemas fornecem dados brutos para o usuário selecionar, o nosso começa com dados finais através dos quais você pode se aprofundar. O nosso software oferece respostas às perguntas imediatamente, mas também permite que você pergunte mais, se quiser”, explicam Matt Page e Toby Ellis, desenvolvedores do programa, ao blog Stacey West. “Se estamos analisando um jogo inteiro, o processamento das informações pode durar horas. Danny e Nicky geralmente querem olhar cada detalhe, dão uma atenção séria a isso. Já no dia de jogo, as estatísticas são mais superficiais, mas muitas vezes eles passam cinco minutos com a gente no intervalo antes de conversar com os jogadores. A partir dos dados, eles fazem alterações na postura do time”.

Os estudantes conseguem transformar a vida real em um Football Manager, diante da riqueza de informações compostas por seu programa. O software é capaz, por exemplo, de avaliar quais tipos de passes são mais eficazes contra um time; de indicar como tem sido a evolução da postura tática ao longo da temporada; de analisar qual a eficiência do Lincoln City contra diferentes estilos de jogo dos adversários. Segundo Page e Ellis, contudo, o iCoach4Sports não é a finalidade de seu trabalho. Através do sistema, eles desenvolvem outro software, para ser aplicado em aulas de educação física. A análise de dados produzida por eles permite descobrir a aptidão de crianças a diferentes modalidades, assim como sua sociabilidade nas relações coletivas durante as atividades, indo além do mero ponto de vista esportivo.

Obviamente, o planejamento será fundamental durante a preparação do Lincoln City para o duelo contra o Arsenal. É o jogo da vida de todos aqueles envolvidos com o clube. “Vamos fazer nove jogos de 10 minutos contra o Arsenal. Estamos treinando de maneira fracionada, então nos acostumamos com esta mentalidade. Nós podemos fazer o nosso máximo e, ainda assim, terminarmos goleados, mas queremos treinar a mente dos nossos jogadores para o desafio. Podemos tomar três gols nos primeiros 10 minutos, e então renovamos nossa mentalidade para os próximos 10. Quantas vezes conseguiremos ser competitivos? Se ganhar no Emirates é a única definição de sucesso, é provável que não seremos bem-sucedidos. Estamos tentando medir o sucesso de um jeito diferente, usando metas atingíveis. Somos profissionais e estamos preparados. Podemos surpreender algumas pessoas”, analisa Danny Cowley. “Temos chance de bater o Arsenal. Pode ser uma em mil, mas temos. Contra o Burnley, dissemos que era uma em 100. Mas fomos lá acreditando de verdade que poderia ser esse 1%”.

Mesmo que a classificação não venha, a repercussão do confronto com o Arsenal já tem servido para deixar em evidência a qualidade do trabalho desenvolvido no Lincoln City. Quem sabe, para que os irmãos Cowley subam mais alguns degraus nos próximos meses. A sala de aula e a nona divisão, cada vez mais, parecem uma realidade distante para quem ganha o respeito entre os principais treinadores da Inglaterra – e em qualquer divisão. Segundo levantamento da BBC, nenhum treinador da Premier League tem um percentual de vitórias melhor que o dos Cowley nas duas últimas temporadas. Na atual, estão atrás apenas de Antonio Conte.

“Você nunca quer ser visto como arrogante, mas temos a ambição de chegar à Premier League. Acreditamos na ética do nosso trabalho e em nossas habilidades. Muitos questionaram nossa decisão de virar técnicos, quando a carreira de professor é para toda a vida. ‘Vocês estão dando as costas à escola para abraçar o mundo selvagem dos técnicos de futebol?’. Nós não vemos assim. Esperamos ter sucesso. Obviamente, há variáveis que você não pode controlar, mas ainda assim esperamos ser bem-sucedidos. Queremos treinar no nível mais alto que pudermos. Mas, no momento, nossa ambição é na jornada com o Lincoln City. Mostramos muito potencial e vemos onde podemos chegar se trabalharmos duro. Apenas arranhamos no teto aqui”, completa Danny Cowley. Os 60 mil no Emirates estarão entre as testemunhas.

Para conhecer a história do Lincoln City, vale ler este texto, por Vitoria Correa