Ao longo de sua história, a Copa Libertadores já coroou 52 campeões. Nem todos desempenharam um futebol tão vistoso para chegar ao topo do pódio – afinal, talvez em nenhuma outra competição do planeta o estilo “copero y peleador” funcione tão bem. Por outro lado, é possível também listar aqueles esquadrões que, independente da qualidade de seu jogo, não chegaram ao topo das Américas.

Nas últimas cinco décadas são notáveis os casos como o do Ballet Azul da Universidad de Chile, arrasador no terreno doméstico e presa fácil diante de outros adversários do continente. Ou do América de Cali dos anos 1980, que mesmo com todo o renome de seu elenco parecia não ter sorte suficiente para se consagrar. Nas linhas abaixo, confira 15 times que tinham tudo para levar a Libertadores e que, caprichoso destino, não entraram no hall dos campeões.

Millonarios 1960-64

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1960)
Conquistas domésticas no período: 5 Colombianos
Principais jogadores: Francisco Zuluaga, Delio Gamboa, Julio Cozzi, Rodolfo Micheli, Efraín Sánchez
Técnicos notáveis: Gabriel Ochoa Uribe

Mesmo sem um título que referende isso, o Millonarios pode ser considerado o último grande time da América do Sul antes da criação da Libertadores. O El Dorado financeiro vivido pelo futebol colombiano atraiu os melhores jogadores do continente ao país e ninguém montou um time melhor que o dos azules. Quando a Libertadores surgiu, a equipe não contava mais com jogadores do porte de Adolfo Pedernera e Alfredo Di Stéfano, mas ainda vivia os resquícios da era de ouro. Goleiro na década de 1950, Gabriel Ochoa Uribe assumiu o cargo de técnico e ainda comandava ex-companheiros, como o capitão Francisco Zuluaga. No entanto, apesar do domínio doméstico, o time quase sempre naufragou no torneio continental. O melhor desempenho foi ainda na estreia, quando o Millo caiu goleado pelo Olimpia na semifinal.

Universidad de Chile 1960-68

Melhor campanha na Libertadores no período: Primeira fase (1960, 1963, 1965, 1966, 1968)
Conquistas domésticas no período: 5 Chilenos
Principais jogadores: Leonel Sánchez, Carlos Campos, Rubén Marcos, Luis Eyzaguirre
Técnicos notáveis:Luis Álamos, Washington Urrutia e Alejandro Scopelli

Considerado um dos maiores times de futebol da história do Chile, o Ballet Azul de La U não teve o mesmo sucesso na Libertadores. Pelo contrário: na mesma medida que quebrava recordes no campeonato nacional, o time acumulou vexames continentais ao longo do período. Em sua primeira participação, os chilenos sofreram derrota por 6 a 0 para o Millonarios em pleno estádio Nacional de Santiago. Outra humilhação retumbante em casa veio em 1965: 5 a 1 para o Santos de Pelé. Em cinco participações, os azules sempre ficaram na lanterna da primeira fase. O único sucesso internacional veio em 1962. Oito jogadores do clube, entre eles Leonel Sánchez, ajudaram a seleção chilena a ficar com o terceiro lugar na Copa do Mundo.

Botafogo 1963-68

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1963)
Conquistas domésticas no período: 1 Taça Brasil, 3 Rio São-Paulo, 4 Cariocas
Principais jogadores: Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Zagallo, Manga
Técnicos notáveis: Danilo

Base da seleção brasileira ao lado do Santos durante a conquista das Copas de 1958 e 1962, o Botafogo disputou apenas uma Libertadores em seu período glorioso. Vice-campeões da Taça Brasil, os alvinegros entraram na disputa pelo fato de o Santos já ter vaga garantida, por ser o campeão continental da época. Porém, depois de passar por Millonarios e Alianza Lima na primeira fase, a equipe cruzou justamente com o Peixe nas semifinais. Em São Paulo, empate por 1 a 1. E nem a volta de Garrincha, parado por vários meses por conta de uma lesão no joelho, segurou Pelé no Rio de Janeiro, autor de três gols na vitória santista por 4 a 0. Os botafoguenses ainda deveriam disputar a Libertadores de 1969, mas o conflito de datas com o calendário nacional fez com que a CBD cancelasse a participação brasileira no torneio.

Palmeiras 1968-74

Melhor campanha na Libertadores no período: Vice-campeão (1968)
Conquistas domésticas no período: 2 Brasileiros, 2 Roberto Gomes Pedrosa, 1 Taça Brasil,
Principais jogadores: Ademir da Guia, Dudu, Valdir de Moraes, Luis Pereira, Leão
Técnicos notáveis: Filpo Núñez, Rubens Minelli e Osvaldo Brandão

Vivendo já o fim da transição entre a primeira e a segunda geração da Academia, o Palmeiras teve em 1968 a sua melhor participação na Libertadores até o título de 1999. Com Ademir e Tupãzinho decidindo boa parte dos jogos, o time perdeu apenas uma partida entre as duas primeiras fases, alcançando a decisão contra o Estudiantes. Depois de derrota em La Plata e vitória no Pacaembu, porém, os alviverdes não seguraram os argentinos no desempate, realizado em Montevidéu. O retorno ao torneio continental aconteceu em 1971, mas, depois de passarem pelo Fluminense de Rivellino na primeira fase, os palmeirenses pararam nas semifinais. Já em 1973 e 1974, o time não foi além nem mesmo da primeira fase.

San Lorenzo 1968-74

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1973)
Conquistas domésticas no período: 4 Argentinos (2 Nacionais, 2 Metropolitanos)
Principais jogadores: Rodolfo Fischer, Héctor Scotta, Carlos Veglio, Sergio Villar, Roberto Telch
Técnicos notáveis: Tim, Juan Carlos Lorenzo e Osvaldo Zubeldía

O San Lorenzo é uma espécie de Corinthians na Argentina: dentre os maiores clubes do país, é o único que nunca levantou a Libertadores. Nem mesmo em sua ‘Época Dorada’, entre o fim da década de 1960 e o início da década de 1970, o clube chegou lá. Em sua única participação no torneio continental neste período, em 1973, o Ciclón começou arrasador, deixando para trás River Plate, Jorge Wilstermann e Oriente Petrolero na primeira fase. Nas semifinais, entretanto dependendo de apenas um empate para chegar à decisão, a equipe foi derrotada pelo Independiente em Avellaneda. Para piorar, mesmo levando o nacional em 1974, os Matadores não conseguiram nem mesmo a vaga para a Libertadores do ano seguinte, eliminados por Rosario Central e Newell’s Old Boys em uma seletiva.

Universitario 1969-75

Melhor campanha na Libertadores no período: Vice-campeão (1972)
Conquistas domésticas no período: 3 Peruanos
Principais jogadores: Héctor Chumpitaz, Percy Rojas, Oswaldo Ramírez, Roberto Challe, Juan José Oré
Técnicos notáveis: Roberto Scarone e Juan Eduardo Hohberg

Incontestavelmente, o Peru teve uma das melhores seleções do continente ao longo da década de 1970. E, com base formada por jogadores três times do país, cabia ao Universitario registrar sucesso parecido entre os clubes. Hegemônicos no terreno nacional, os merengues quase sempre chegavam entre os favoritos para o título da Libertadores, mas o deixavam escapar por detalhes. Foi assim em 1971 e 1975, quando a equipe caiu apenas nas semifinais. Já em 1972, depois de deixar para trás Peñarol, Nacional e Universidad do Chile, o Universitario acabou batido na decisão pelo Independiente. O vazio da geração liderada por Héctor Chumpitaz só foi sanado em 1975, com a conquista da Copa América.

Cerro Porteño 1970-78

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1973, 1978)
Conquistas domésticas no período: 5 Paraguaios
Principais jogadores: Roberto ‘Gato’ Fernández, Aldo Florentín, Roberto Cabañas, Saturnino Arrúa
Técnicos notáveis: Marcos Pavlovsky e Salvador Breglia

O Cerro Porteño possui um recorde nada honroso na Libertadores. Dentre aqueles que nunca levantaram a taça, é o time que soma mais participações, 34 ao todo. Ao longo das últimas cinco décadas, foi nos anos 70 que o Ciclón mais se aproximou da conquista. O poderio dentro do Paraguai era evidente, assim como a falta de sorte fora dele. Entre os seguidos insucessos, o clube foi pouco beneficiado pelos chaveamentos, cruzando com brasileiros, argentinos e uruguaios ainda na primeira fase. Quando deixou da sina, chegou às semifinais, mas nada além disso. Em 1973, a derrota para o Botafogo tirou o time da decisão, enquanto cinco anos depois o Cerro foi superado pelo Deportivo Cali. Ao menos o desfecho do período foi feliz para a seleção paraguaia, que levou a Copa América de 1979 com sete jogadores do clube.

Huracán 1971-76

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinalista (1974)
Conquistas domésticas no período: 1 Argentino (Metropolitano)
Principais jogadores: Miguel Brindisi, Carlos Babington, Alfio Basile, René Houseman, Osvaldo Ardiles
Técnicos notáveis: César Luis Menotti e Mario Imbelloni

Mesmo sem ter acumulado muitas taças, o elenco do Huracán teve papel fundamental no desenvolvimento da equipe argentina que conquistaria a Copa do Mundo de 1978. A começar pelo técnico César Luis Menotti, que ascendeu diretamente do Globo para a albiceleste, além de jogadores como Ardiles e Houseman. Assim como o San Lorenzo, o time não teve vida longa na Libertadores por conta das seletivas realizadas na Argentina.  Ainda assim, o Huracán deu trabalho na única chance que teve, em 1974. Melhores que o Rosario Central apenas no saldo de gols ao fim da primeira fase, os quemeros não suportaram Peñarol e Independiente nas semifinais.

Rosario Central 1971-75

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1975)
Conquistas domésticas no período: 2 Argentinos (2 Nacionais)
Principais jogadores: Mario Kempes, Jorge González, Aurelio José Pascuttini, Aldo Pedro Poy
Técnicos notáveis: Ángel Labruna e Carlos Griguol

O auge histórico do Rosario Central tinha um estilo de jogo favorável ao título da Libertadores. O time conhecido pelo futebol aguerrido e pelo empenho dentro de campo, entretanto, acabou de certa forma prejudicado pelo regulamento da época, que previa que apenas uma equipe avançasse na primeira fase. O Canalla ficou no quase nas edições de 1971, 1972 e 1974, não se classificando por detalhes. Já com Mario Kempes despontando no ataque, a vaga nas semifinais enfim veio em 1975. Mas o acaso outra vez não foi bondoso com os rosarinos: com os mesmos quatro pontos de Independiente e Cruzeiro, a equipe perdeu a chance de disputar a decisão por somente um gol de saldo.

Internacional 1975-80

Melhor campanha na Libertadores no período: Vice-campeão (1980)
Conquistas domésticas no período: 3 Brasileiros, 3 Gaúchos
Principais jogadores: Falcão, Figueroa, Carpegiani, Batista, Manga
Técnicos notáveis: Rubens Minelli e Ênio Andrade

Bicampeão nacional, o Internacional teve seu destino selado em suas duas primeiras Libertadores pelo mesmo rival. Derrotado na final do Brasileiro em 1975, o Cruzeiro pôde se vingar na primeira fase do continental no ano seguinte – com direito a uma épica vitória por 5 a 4 no Mineirão. Já em 1977, os colorados avançaram até as semifinais, mas não resistiram novamente à equipe celeste. Muitas peças já tinham mudado para a Libertadores de 1980 e, depois de enfrentarem Vasco, Vélez e América de Cali, os gaúchos finalmente chegaram à decisão. Depois do 0 a 0 mantido no Beira-Rio, o Nacional chegou ao triunfo por 1 a 0 em Montevidéu, fechando de forma melancólica a despedida de Paulo Roberto Falcão.

Atlético Mineiro 1977-81

Melhor campanha na Libertadores no período:  Semifinal (1978)
Conquistas domésticas no período: 4 Mineiros
Principais jogadores: Reinaldo, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro, Luizinho, Éder
Técnicos notáveis:  Procópio Cardoso e Carlos Alberto Silva

Candidato recorrente ao título do Campeonato Brasileiro no final da década de 1970, o Atlético Mineiro perdeu o nacional em decisões memoráveis tanto em 1977 quanto em 1980. Da mesma forma, o esquadrão liderado por Reinaldo não encontrou o caminho para o pódio nas Américas. Em 1978, depois de deixar o São Paulo na primeira fase, os alvinegros não foram páreos para Boca Juniors e River Plate nas semifinais. Três anos depois, o Galo fechou a primeira fase empatado em pontos com o Flamengo, forçando um jogo extra em Goiânia. Diante da polêmica arbitragem de José Roberto Wright, que expulsou cinco atleticanos somente no primeiro tempo, a luta pela classificação teve um fim ainda hoje intragável.

América de Cali 1983-88

Melhor campanha na Libertadores no período: Vice-campeão (1985, 1986, 1987)
Conquistas domésticas no período: 6 Colombianos
Principais jogadores: Ántony de Ávila, Julio César Falcioni, Juan Manuel Battaglia, Roberto Cabañas, Ricardo Gareca
Técnicos notáveis:  Gabriel Ochoa Uribe

O início da história vitoriosa do América de Cali no futebol colombiano se iniciou em 1979, com a contratação do técnico Gabriel Ochoa Uribe, então dono de sete títulos nacionais. Logo em seu primeiro ano o técnico já levantou a primeira taça, iniciando um domínio que se estenderia pela década de 1980. Com poderio econômico potencializado pelo narcotráfico, o clube buscou reforços de peso em outros países da América do Sul, montando o time conhecido como La Mechita. O esquadrão internacional, porém, não foi o suficiente para a conquista da Libertadores. Foram três anos consecutivos caindo na decisão – perdendo nos pênaltis para o Argentinos Juniors em 1985 e no último minuto da prorrogação para o Peñarol, dois anos depois.

Newell’s Old Boys 1988-92

Melhor campanha na Libertadores no período: Vice-campeão (1988, 1992)
Conquistas domésticas no período: 3 Argentinos (2 Primera División, 1 Apertura)
Principais jogadores: Gerardo Martino, Gabriel Batistuta, Roberto Sensini, Norberto Scoponi, Victor Ramos
Técnicos notáveis: José Yudica e Marcelo Bielsa

O Newell’s Old Boys está longe de ser uma das grandes forças do futebol argentino, mas contou com um time forte na transição entre as décadas de 1980 e 1990. Lapidando talentos nas categorias de base, o técnico José Yudica montou o time campeão nacional em 1988 – entre eles Gabriel Batistuta e Gerardo Martino. No mesmo ano, a Lepra ainda chegou à final da Libertadores, derrotada pelo Nacional-URU. Frequentando as primeiras posições na competição nacional, os rosarinos ainda viram ascender Marcelo Bielsa em 1990, até então treinador das equipes inferiores do clube. Sob as ordens de El Loco, a equipe repetiu a decisão continental, mas perdeu a taça nos pênaltis para o São Paulo.

River Plate 1998-00

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (1998, 1999)
Conquistas domésticas no período: 4 Argentinos
Principais jogadores: Marcelo Salas, Javier Saviola, Pablo Aimar, Juan Pablo Sorín, Marcelo Gallardo
Técnicos notáveis: Ramón Díaz

Após garantir a Libertadores de 1996, o River Plate participou de uma renovação intensa. Jogadores como Crespo, Francescoli, Almeyda e Ortega deixaram Núñez logo na sequência da conquista. Mesmo assim, o técnico Ramón Díaz soube reconstruir a equipe, combinando a contratação de estrelas com a promoção de talentos da base. Entre os nomes que tomavam para si o protagonismo estavam Marcelo Salas, Javier Saviola e Pablo Aimar. Depois de levarem o Clausura e o Apertura em 1997, os millonarios chegaram como francos favoritos ao título continental. Após passearem pelas fases anteriores, contudo, caíram para o Vasco e o histórico gol de falta de Juninho Pernambucano nas semifinais. Menos arrasador no ano seguinte, o time voltou a ficar entre os quatro melhores, mas foi derrubado pelo Palmeiras, enquanto em 2000 o algoz foi o Boca Juniors, nas quartas de final.

Corinthians 1999-00

Melhor campanha na Libertadores no período: Semifinal (2000)
Conquistas domésticas no período: 2 Brasileiros, 1 Paulista
Principais jogadores: Marcelinho Carioca, Gamarra, Rincón, Edílson, Dida
Técnicos notáveis: Oswaldo de Oliveira

Não houve época mais propícia para que o Corinthians desse fim às piadas dos rivais do que no biênio de 1999/2000. Em ambas as oportunidades, no entanto, os pênaltis foram duros demais para os alvinegros, dando os louros justamente para o rival Palmeiras. Em 1999, o Timão se deu melhor contra os alviverdes, terminando na primeira posição do Grupo 3. Mas, depois de uma vitória para cada lado nas quartas de final, Marcos e o travessão apareceram para parar as penalidades cobradas por Vampeta e Dinei. Credenciado pelo título do Mundial da Fifa no ano seguinte, o time de Parque São Jorge reencontraria os palmeirenses mais uma vez, agora nas semifinais. No primeiro jogo, Vampeta marcou no fim e deu a vitória por 4 a 3 ao Corinthians. Duas viradas no placar e triunfo do Palmeiras por 3 a 2 na volta, a decisão foi para os pênaltis. E o que Marcos fez com a batida derradeira de Marcelinho todos já sabem.