O confronto entre Emirados Árabes Unidos e Catar, pela semifinal da Copa da Ásia, tinha um pano de fundo extenso – e tenso. Os dois países estão no meio de um imbróglio diplomático que se arrasta desde 2017, trazendo consequências diretas aos catarianos na competição continental. Jornalistas tiveram seus vistos negados, torcedores não puderam comparecer aos estádios emiratenses e mesmo exibir a bandeira do Catar pode ser motivo à prisão nos EAU. Apesar de tudo isso, encarando as vaias dos anfitriões, a seleção catariana avançou fase a fase na melhor campanha de sua história. Até que, em pleno confronto direto, sapecou a goleada por 4 a 0 em cima dos emiratenses. Uma chuva de sandálias e garrafas tomou o campo em Abu Dhabi e estava claro que o duelo não terminaria em 90 minutos. Pois bem: apenas duas horas após a derrota, os Emirados Árabes entraram com um recurso na AFC (a Confederação Asiática de Futebol) para tentar impugnar a classificação dos rivais à decisão.

A alegação dos Emirados Árabes é que o Catar usou dois jogadores inelegíveis na partida – e também no restante do campeonato. Segundo os anfitriões, o atacante Almoez Ali e o defensor Bassam Al Rawi não estão aptos para defender a seleção catariana. Ali nasceu no Sudão e se mudou a Doha na infância, enquanto Al Rawi é iraquiano de nascimento e seguiu à península justamente para desenvolver seu futebol na Academia Aspire – projeto bancado pelo governo local para a formação de jogadores. O detalhe é que ambos são nomes fundamentais na caminhada dos Annabi à final. Autor de um dos gols contra EAU, Ali é o artilheiro da competição com oito gols, igualando o recorde histórico da Copa da Ásia. Al Rawi, por sua vez, anotou o tento solitário que permitiu ao país despachar justamente o seu Iraque natal nas quartas de final. Os dois são convocados desde as seleções de base.

Os Emirados Árabes Unidos apontam que os parâmetros da Fifa não foram respeitados por ambos os jogadores. Segundo o regulamento acionado pela federação emiratense, um jogador só pode mudar de seleção se, após os 18 anos, tiver morado por cinco anos continuamente no território da nova equipe. De fato, os dois não atendem esta regra – sequer chegaram aos 22 anos de idade. O Catar, por sua vez, afirma que as mães dos jogadores são catarianas – o que seria válido à Fifa, mas os EAU refutam, declarando ter provas de que a mãe de Al Rawi nasceu em Bagdá. A AFC acolheu o protesto e afirmou que está analisando a situação. Enquanto isso, a federação emiratense terá 48 horas para apresentar as evidências da irregularidade.

O técnico Félix Sánchez, em compensação, tratou de colocar panos quentes sobre a discussão. O espanhol prefere focar seu trabalho na preparação à decisão, que acontece já nesta sexta-feira. A partir das 14 horas (Horário de Brasília), o Catar encara o Japão em Abu Dhabi, buscando a inédita conquista. “Não estamos preocupados com isso. Temos um dia a mais, amanhã vamos jogar mais uma partida e estamos focados nela. Qualquer outra coisa não relacionada ao futebol não está em nossa mente no momento”, apontou o treinador.

O mais curioso é notar como os Emirados Árabes Unidos se mexeram rapidamente para protestar contra o Catar. Pela velocidade no requerimento, a carta estava na manga dos emiratenses há tempos – e mesmo sendo os organizadores da competição, deixaram que outros times se prejudicassem com a possível irregularidade. A derrota, no entanto, foi motivo suficiente para usar o artifício. Soa mais como uma tentativa de tumultuar o ambiente dos rivais antes da decisão. De fato, os catarianos tiveram diferentes questionamentos relacionados à naturalização de atletas nos últimos anos, não só no futebol. Mas este parece ser um caso até menor, embora realmente possa haver brechas à impugnação.