A sorte está lançada: o Brasil terá que passar por Sérvia, Suíça e Costa Rica para chegar às oitavas de final da Copa do Mundo. Nenhuma novidade para a equipe pentacampeã mundial. Ao longo da história, são sete duelos contra esses times no grande palco do futebol de seleções – quatro com a Iugoslávia, da qual a Sérvia é herdeira. A seguir, relembramos esses desafios por meio dos registros feitos pelos jornais da época.

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Iugoslávia

14/07/1930 – Iugoslávia 2 x 1 Brasil – Folha da Manhã

Nada menos do que a estreia da seleção brasileira em Copas do Mundo. Era 14 de julho, e o sol “brilhava por vezes”, embora o céu estivesse nublado, de acordo com a descrição da Folha da Manhã. O jornal apontava que o Brasil era “considerado candidato às provas mais decisivas do importante certame organizado pela primeira vez pela Federação Internacional de Futebol ‘Association'”. Joel, Brilhante, Itália, Hermogenes, Fausto, Fernando, Polly, Nilo, Araken, Preguinho e Theophilo entraram em campo “envergando a tradicional camisa branca, de punhos e golas azuis, com o escudo da CBD no peito”.

O relato afirma que o Brasil começou exigindo duas “belíssimas” defesas do goleiro iugoslavo Yakovitch, que “se revelou em magnífica forma”. Melhor que o arqueiro brasileiro Joel: os europeus marcaram com com Aleksandr Tirnanic, que desferiu “um tiro relativamente fraco, mas que Joel deixou escapar”. Ivica Bek ampliou, aos 30 minutos do primeiro tempo. Os brasileiros sofreram com o frio e a “falta de pontaria”, e apenas Preguinho conseguiu colocar a bola nas redes, já na etapa final.

A análise do jornal afirma que os sul-americanos mereciam pelo menos o empate. “No quadro brasileiro, as linhas da retaguarda mostraram-se indecisas e fracas. Nos últimos minutos, principalmente, a pressão dos brasileiros foi intensa e a queda da cidadela eslava era esperada a todo instante”. Mas ela nunca caiu. O Brasil goleou a Bolívia, na segunda rodada, mas ficou fora da “disputa da Taça Mundial”, como dizia a manchete da Folha da Manhã.

01/07/1950 – Brasil 2 x 0 Iugoslávia – O Estado de S. Paulo

O Estado de S. Paulo relatou 150 mil pessoas no “Estádio Municipal do Maracanã” presenciando a última rodada da primeira fase da Copa do Mundo de 1950. Houve uma “estrondosa ovação” quando o meia Jair da Rosa Pinto pisou o gramado, impedindo que “o locutor fosse ouvido quando dava a escalação iugoslava”. A equipe adversária mal foi notada. Entrou em campo “disfarçadamente, um a um, misturando-se com a multidão de fotógrafos. Não saudaram a torcida, não quiseram posar para os fotógrafos”.

A Iugoslávia teve um problema inesperado. O meia-direita Mitich se feriu ao deixar o túnel e só conseguiu entrar em campo aos 10 minutos. Com um a menos, os visitantes sofreram o primeiro gol brasileiro, marcado por Ademir de Menezes. “Chico escapou pela extrema entregando a bola a Zizinho, perto da área. O ‘meia’ desvencilhou-se do zagueiro Stakonovich, foi até perto da linha de fundo e centrou ligeiramente para trás, entrando rapidamente Ademir para marcar com violento tiro rasteiro o primeiro ponto”, escreveu o Estadão.

Quando o número de jogadores em campo se igualou, a Iugoslávia assumiu o controle. Um “predomínio de 25 minutos”. A zaga estava “claudicante” e a linha média não se acertava, “com exceção de Bauer, que desde os primeiros lances se mostrou seguro”. A Iugoslávia não conseguiu marcar porque “encontraram pela frente um arqueiro excepcional”. Este arqueiro: Barbosa. “Foi com um suspiro de alívio que a multidão viu esgotarem-se os primeiros 45 minutos”.

O Brasil melhorou no segundo tempo. A defesa adquiriu mais segurança. Zizinho, Ademir e Jair dominavam o campo de ataque. Aos 24 minutos do segundo tempo, Zizinho, que havia tido um gol anulado, concluiu “belo passe de Ademir, numa investida fulminante contra o arco de Mirkuchitch”. E os donos da casa passaram às semifinais: “Coroando essa apoteose esportiva, quando a contagem era de 2 a 0 a nosso favor, faltando 10 minutos para o término do encontro, milhares de lenços brancos foram acenados, dando ao Estádio um aspecto jamais visto: era o adeus à Iugoslávia, que fôra eliminada do grande certame”.

19/06/1954 – Brasil 1 x 1 Iugoslávia – Jornal do Brasil

“Mais uma vez defrontaram-se as seleções do Brasil e da Iugoslávia em uma disputa do Campeonato Mundial de Football” lembrava o serviço telegráfico do Jornal do Brasil. A impressão naquela época deveria ser a mesma que temos hoje em dia em relação a Argentina x Nigéria: afinal, era o terceiro confronto em cinco edições da Copa do Mundo entre brasileiros e iugoslavos. E o Brasil não seria derrotado.

Mas a Iugoslávia também não: “Em sensacional e emocionante peleja, empataram por 1 x 1 – Marcaram Zebek e Didi – Regular a arbitragem – Prorrogação sem decisão – Castilho, Pinheiro e (Djalma) Santos o Triângulo de Ferro”. Foi um resultado particularmente importante para o Brasil porque, de acordo com o Jornal do Brasil, Rodrigues foi “violentamente atingido” pelo adversário, aos 15 minutos de jogo, “e mais nada pode fazer, permanecendo em campo capengando sem poder correr”. Destaca-se, porém, a falta de sorte: “Nada menos que três bolas os brasileiros perderam na trave”.

Todos os gols foram marcados no segundo tempo, o iugoslavo logo aos três minutos. “Pressionam fortemente os iugoslavos. A pelota vai para a esquerda, onde o excelente ponteiro Zebec, com muita categoria, assinala o primeiro gol da tarde em favor da Iugoslávia”. Didi empatou, em jogada “inteira” de Nilton Santos: “Atravessa o meio do campo, aproxima-se da área e deixa magnificamente para Didi, que atirou indefensavelmente, assinalando o gol do empate para o Brasil, aos 25 minutos”.

A partida foi para a prorrogação, uma “terceira etapa, assim podemos dizer”. E o cansaço era “patente nos homens que combatem vigorosamente, às vezes rudemente”. Os brasileiros estavam “mais entusiasmados” nos primeiros 15 minutos, buscando o gol. Nos minutos finais, Castilho e Pinheiro executaram um trabalho “exaustivo” para segurar a pressão iugoslava. E a prorrogação terminou “sem decisão”: 1 a 1.

13/06/1974 – Brasil 0 x 0 Iugoslávia

Era a estreia do tricampeão mundial, em sua primeira partida de Copa do Mundo após a conquista no México. “O empate foi um milagre” manchetava a Folha, em cobertura que contava, entre outros repórteres, com Flavio Adauto, atual diretor de futebol do Corinthians. “Com um triste zero a zero, que teve o amargo sabor de derrota para o Brasil e de vitória para a Iugoslávia, começou ontem o X Campeonato Mundial de Futebol. O jogo de ontem, na maior parte do tempo disputado longe das áreas, mostrou um Brasil confuso e uma Iugoslávia a princípio temerosa, mas depois confiante a ponto de obrigar a defesa brasileira a desesperadas tentativas para evitar a derrota”.

O texto de abertura destaca que Leivinha havia dito antes da partida que tentaria jogar como Tostão, com consequências insatisfatórias. “Depois do jogo, não se viu nem o jogo de Leivinha, muito menos o estilo de Tostão”. Zagallo, ao contrário do jornal, comentou que houve um “sentimento de vitória” e foi chamado de “mecânico, otimista e quase auto-suficiente” na sua análise do empate sem gols contra a Iugoslávia que abriu a Copa da Alemanha para o Brasil.

O único jogador “digno de suas tradições” foi Leão. “Eles estiveram mais próximos ao gol. E não por uma ou duas vezes, foram várias, todos viram. Mas podem acreditar, em momento algum deixei de ter confiança em mim e nos meus companheiros. Além do resultado, que para nós não deixa de ser bom, acho que tivemos acima de tudo muita sorte, pois os iugoslavos se adaptaram melhor às características do campo”, analisou o goleirão.

Suíça

28/06/1950 – Brasil 2 x 2 Suíça – O Estado de S. Paulo

O Estadão desceu a lenha no técnico da seleção brasileira, Flávio Costa, com muito gosto. A manchete do empate, pela segunda rodada da Copa do Mundo de 1950, era: “A comprovada incapacidade do técnico brasileiro compromete o prestígio do esporte nacional”. Logo abaixo, a metralhadora seguia: “Mandando a campo um quadro sem sombra de orientação, nem de organização para enfrentar a turma suíça, Flávio Costa fez que a seleção sofresse seu primeiro revés na disputa da taça Jules Rimet – O empate por 2 pontos foi o resultado da péssima atuação do conglomerado dito nacional (…) – Malogro de quase totalidade dos futebolistas brasileiros – Bauer a única figura em campo”.

O texto de abertura do jogo, ou, para ser mais preciso, o desabafo desencantado e acalorado do jornalista do Estadão, é tão estupendo que vou me limitar a reproduzir alguns trechos. O cara fez uma sopinha com a ditadura Vargas, a insatisfação com Eurico Gaspar Dutra a corrupção, as críticas ao trabalho de Flávio Costa, a bagunça tática e a postura inadequada dos jogadores.

“Um verdadeiro amante do futebol já não pode assistir, sem sentir-se deprimido, a certos prélios como o que ontem se feriu no Pacaembu entre os quadros do Brasil e da Suíça, em disputa do Campeonato Mundial de Futebol. Mais do que nos campeonatos nacionais, os jogadores representantes das cores brasileiras deveriam exibir, nos embates que ora se travam, fibra esportiva, técnica irrepreensível, vontade de vencer. O que se viu, entretanto, constituiu para as cinquenta mil pessoas no estádio paulista, à perspectiva de um grande jogo, um espetáculo que lhes deu a nítida impressão de que reina no futebol brasileiro a indisciplina, o desrespeito ao público, a mais absoluta falta de noção do dever para com a coletividade”.

“Pelos valores que, do ponto de vista técnico, se compunha, o combinado nacional tinha garantida sua vitória sobre o quadro visitante. Mas tal foi a indiferença dos nossos jogadores, a displicência com que defenderam nossas cores, seu incrível pouco caso pela assistência, que a seleção suíça, fortalecida apenas pelo seu espírito esportivo, pelo seu senso de responsabilidade, suplantou em campo adverso a representação brasileira”.

“Não tenham dúvidas os leitores de que, ainda aqui, estamos presenciando um dos reflexos da ditadura em que por tantos anos nos afundamos. Todos os dias sentimos, em todos os ramos da vida, os efeitos deletérios do regime de exceção. O doloroso fenômeno representado pelo fato de um aventureiro, só por ser aventureiro, julgar-se com direito de elevar-se às culminâncias do poder público, sendo admirado por não poucos por ter alcançado êxito numa negociata, tem, no fundo, a mesma origem da irresponsabilidade que domina a vida esportiva nacional, ou melhor, o profissionalismo esportivo. A irresponsabilidade que a ditadura erigiu como princípio de governo tudo invadiu, desde a política até o futebol”.

“Não creiam os leitores que estejamos a exagerar: as trapaças administrativas a que diariamente assistimos, principalmente em São Paulo, e o logro que os pupilos do senhor Flávio Costa pregaram ontem no Pacaembu, aos cinquenta mil espectadores atraídos pela importância do embate que ali iria se travar, tudo se explica pelos três pilares de imoralidade e irresponsabilidade que a ditadura impôs ao Brasil”.

“A incapacidade dos organizadores da nossa seleção, deslocando os diversos elementos das posições em que eles têm conseguido revelar melhores qualidades, correspondeu à má vontade dos jogadores que se portaram como nos seus piores dias, com péssima atuação individual e ainda pior jogo de conjunto, fraco, descombinado, incoerente, desastroso. Chegamos ao cúmulo de ver peritos da defesa atuando no ataque, e elementos geralmente bons na esquerda figurando na ala direita, imprecisos, portanto, desnorteados, ineficientes”.

“Para a mocidade, o futebol representa mais que tudo, mais que o Parlamento, mais que os governos municipais, estaduais e federal. Muitas vezes passam despercebidas a um jovem problemas do mais alto interesse nacional; entretanto, ele se acha perfeitamente a par da posição dos clubes, de suas possibilidades futuras, dos negócios que se processam em torno de jogadores. Uma juventude que, dessa forma, se fanatiza por um futebol que não está longe de constituir uma amoralidade não poderá, evidentemente, cumprir à altura do que dela espera a Pátria, o dever dos verdadeiros cidadãos”.

“Ou o marcador estava errado, e onde se via o número 2 para o Brasil devia se ver 8 ou 10, ou um milagre se operou em campo fazendo que Davis se transformassem em Golias e vice-versa. Mas nada disso houve. O que houve foi apenas uma irretorquível demonstração da completa incapacidade técnica de Flávio Costa. Mandou a campo jogadores como que apanhados aqui ou ali (…) Aqueles elementos que participaram da peleja se conheceram pouco antes do início da luta. Não podiam ter estado reunidos em uma concentração ou treinado juntos”.

Corneta nota dez. E olha que o Brasil havia apenas empatado em casa com a Suíça. Imagina se tivesse levado 7 a 1 da Alemanha em uma semifinal?

Costa Rica

16/06/1990 – Brasil 1 x 0 Costa Rica – Jornal do Brasil

Não que Sebastião Lazaroni tenha sido poupado pelo Jornal do Brasil, depois da vitória por 1 a 0 sobre a Costa Rica, na segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 1990, resultado que classificou a Seleção às oitavas de final: “Em nenhum momento, o técnico Sebastião Lazaroni se afastou da sua filosofia defensivista e medrosa. ‘O que vale para mim é o 1 a 0, o resto é o resto’, declarou, após o jogo, o treinador, que foi xingado pela torcida”. Lazaroni, em outra frase, não se ajudou muito: “O Brasil vem jogando bonito há muitas Copas, principalmente em 1982. Em 1986, quando estava crescendo, foi eliminado Agora, vai jogar feio até o fim, mas vamos ser campeões, se continuarmos ganhando por 1 a 0, como contra a Costa Rica”. Um plano impecável, que surpreendentemente não deu certo.

No relato do jogo, o jornal chamou Lazaroni de “teimoso” por insistir em uma formação com apenas dois atacantes, mesmo “contra uma equipe que passou 90 minutos sem sequer chegar à área do goleiro Taffarel”. Contou 25 ocasiões de gol para a seleção brasileira, mas o único da peleja saiu em um chute de Müller, que foi desviado no zagueiro Montero.

Os jogadores admitiram que precisavam treinar mais finalizações, e o jornal pediu mais trabalho de fundamento do que “peladas” nas sessões de treinamento. E não resistiu a uma sutil ironia com o lateral Jorginho ao escolher o verbo “ensinou” para a seguinte declaração: “Para ganhar, é preciso fazer gol. Para fazer gol, é necessário saber chutar”. Brilhante.

13/06/2002 – Brasil 5 x 2 Costa Rica – A Folha de S. Paulo

Cornetar o treinador da seleção é, de fato, o esporte favorito dos jornais durante a Copa do Mundo. Depois da goleada sobre a Costa Rica, na rodada final da fase de grupos do Mundial de 2002, a Folha de S. Paulo estava muito surpresa que a equipe brasileira não estava desempenhando o futebol feio que a publicação esperava de um time treinador por Luiz Felipe Scolari. “É um time que comete poucas faltas, faz muitos gols, dribla à beça, cruza pouco e no qual a defesa não é lá essas coisas. Na Ásia, a equipe de Scolari aproxima-se da seleção brasileira que a história dos Mundiais consagrou para ficar cada vez mais distante da de seu treinador”.

O Brasil, de calções brancos, camisa amarela e meia azul, atropelou a Costa Rica, mas o sistema defensivo preocupou muito os articulistas. Tostão escreveu: “Gostei muito da partida. Por causa dos gols, das chances perdidas e das belíssimas jogadas individuais. O placar mais justo seria 7 a 7. Os dois ataques deram um baile nas defesas. A diferença é que nossos atacantes são muito melhores. (…) Nunca vi uma seleção brasileira com sistema defensivo tão fraco. Os que acham que futebol é só ataque devem ter gostado. Não era o que queriam?”.

Marcos, de um jeito bem Marcos, pediu mais marcação para as partidas seguintes. “A culpa não foi dos zagueiros. Na verdade, só tínhamos quatro jogadores marcando, que foram o Lúcio, o Edmílson, o Anderson Polga e o Gilberto Silva. Os demais só queriam atacar. Se continuar assim, não há zagueiro que resista”, analisou.


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