Copa do Mundo é um troço louco. É uma competição tão especial e que deixa tantas marcas emocionais no torcedor que dá vontade de absorver tudo, cada momento, cada evento, cada fato novo. O sorteio dos grupos na próxima sexta nos dá uma garantia de ter um assunto para falar até a virada do ano (e depois vai seguir até junho, claro). Só os gremistas que podem fugir à regra caso seu time chegue ao Mundial de Clubes.

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Enquanto o sorteio não vem, a última novidade da Copa de 2018 é o cartaz oficial, anunciado nesta terça. Aí, não basta apenas ver o desenho e comentar. É preciso olhar os antigos, comparar, dizer o que é legal e o que não é tão legal. E não faltam elementos para isso. Os pôsteres não são apenas uma imagem para estampar campanhas promocionais: são obras de design que podem ser olhadas como tal.

Por isso, fiz um ranking dos dez cartazes que acho mais bonitos (entre parênteses, o artista responsável pelo design). Como critério, considerei relação com estética de sua época, conexão com o país-sede do Mundial, relevância em longo prazo e beleza geral. Que fique claro que é uma lista puramente subjetiva, e você tem todo o direito de discordar. Aliás, seria legal se cada um fizesse seu próprio ranking e postasse no espaço de comentários.

Obs.: para ver os cartazes de todas as Copas, inclusive as que ficaram de fora desse ranking, clique aqui.

10º: Brasil-2014 (Karen Haidinger)

Em relação a design, a Copa do Mundo do Brasil é bastante lembrada por seu emblema oficial, que virou piada merecidamente (convenhamos, era bem ruinzinho). Mas houve pontos positivos nem sempre lembrados, como o bom desenho da Brazuca (a bola), o carisma do Fuleco, a vinheta (“Oea… Oea…”) e o cartaz oficial. Nada espetacular, mas coloca vários clichês do Brasil que os estrangeiros esperam (Carnaval, fauna, flora, calçada de Copacabana) e uma dividida (uma premonição do David Luiz querendo pisar na bola para dar uma de craque enquanto um meia alemão vem rápido no desarme?) formando um contorno orgânico e solar do mapa do país. Dá para colocar em décimo lugar.

9º: Estados Unidos-1994 (Peter Max)

O desenho não tem tanta imaginação: é simplesmente um jogador no espaço chutando a bola com força para o infinito. Esse conceito já havia sido usado em alguns cartazes bem sem graça, como os das Copas da Suécia (1958) e da Inglaterra (1966). Mas a versão norte-americana ficou bem à frente dessas outras duas porque a concepção artística compensou. Dá para perder uns bons minutos admirando os traços e as formas que criaram o jogador. Um resultado bastante festivo e extravagante, compatível com a forma como os norte-americanos tratam esporte como show. Poderia estar algumas posições acima no ranking, mas deixou a sensação de que dava para ser ainda melhor considerando o que o designer Peter Max era capaz de fazer. Basta ver os cartazes de Super Bowl que ele criou na mesma época, como os de 1993, 1994 e 1995, que têm o mesmo estilo, mas passam mais energia e movimento.

8º: Suíça-1954

Simples e funcional. O desenho tem personalidade em seus traços econômicos e mensagem direta, com um goleiro olhando a bola passar por ele e chegar às redes. Uma situação bastante comum na Copa que teve a maior média de gols da história.

Obs.: não achei o nome do artista responsável por esse cartaz

7º: Itália-1990 (Alberto Burri)

A Itália tem uma importante escola de design, inclusive na arte de criar cartazes promocionais e publicitários. O estilo é normalmente marcado por traços mais modernos e pouco rebuscamento, mas a escolha de Alberto Burri indicava um resultado bem diferente. Misturando linguagens, ele usou uma foto distorcida e em negativo do Coliseu e colocou em seu interior um gramado de futebol e bandeiras de países participantes da Copa. Foi um jeito interessante de unir o antigo e clássico com o moderno, expondo todo o apelo turístico e histórico da Itália, uma linguagem que se manteve nos pôsteres das cidades-sede (também feitos por Burri) e nas vinhetas de abertura das transmissões de TV (havia uma diferente para cada cidade).

6º: França-1998 (Natalie le Gall)

É o único cartaz que retrata um estádio durante uma partida, com tudo o que envolve (dos jogadores no gramado à energia da torcida). As cores passam a sensação de vibração e êxtase que se tem durante uma partida da Copa. Não está entre os cartazes mais lembrados, mas o resultado final é bastante interessante.

5º: África do Sul-2010 (Gaby De Abreu e Paul Dale)

Para uma Copa do Mundo que se colocou como sendo um evento de todos os africanos, e não apenas da África do Sul, era difícil um cartaz melhor. Simples e simbólico, passa a relação dos africanos com seu continente, com sua terra, e como eles se misturam para cabecear uma bola. Tudo com as cores amarela, vermelha e verde (símbolos do pan-africanismo) e o marrom que marca o povo africano.

4º: México-1970 (Lance Wyman)

Simples e clássico, ressalta o design da Telstar (bola usada naquele Mundial e, desde então, o desenho tradicional de bola de futebol) dentro de um estilo retrofuturista meio Epcot Center. Transpira o seu momento histórico, com a chegada à Lua inspirando uma estética mais tecnológica e exata, com menos rebuscamentos. O fato de ter sido a melhor Copa do Mundo de todas também ajudou a eternizar esse desenho. Um alívio depois de três Mundiais seguidos (1958, 62 e 66) com cartazes tão sem graça.

3º: Rússia-2018 (Igor Gurovich)

Pode ser efeito da empolgação, de uma primeira impressão que ainda pode mudar ao longo do tempo, mas os russos acertaram em cheio. Colocaram elementos de futebol, design e tecnologia fortemente russos (ou soviéticos), mas sem levar a uma interpretação política que poderia ofuscar o resultado final em um momento de tanta polarização nas discussões. Yashin é a escolha futebolística perfeita, pois foi um craque aceito por todos e de imagem muito característica. O fundo em estilo pós-construtivista lembra os cartazes de propaganda política soviética, mas há cuidado na leveza da imagem (e na ausência de vermelho) para deixar claro que a mensagem é estética, não política. E a bola na mão de Yashin soltam raios e lembra o Sputnik, primeiro satélite feito pelo homem. Já chegou chegando e ocupando o pódio.

2º: Espanha-1982 (Joan Miró)

Esse ranking é completamente informal e pessoal, então não deve ser levado a sério. Se houvesse uma competição real e séria, provavelmente os espanhóis seriam desclassificados. Por quê? Ora, chamar um dos maiores artistas modernistas do mundo para fazer o cartaz da Copa do Mundo é o equivalente a doping, tamanha a covardia. A Espanha pegou pesado, chamando um gênio da pintura para fazer o desenho de um jogador chutando para o gol em um estilo que exala cultura espanhola e é visualmente bastante agradável e marcante. Podia estar em qualquer museu de arte moderna do mundo.

1º: Uruguai-1930 (Guillermo Laborde)

Um ícone uruguaio e do futebol. Tudo é estiloso: o goleiro se alongando para a defesa (aliás, esse cartaz e o da Copa de 2018 são os únicos que celebram goleiros fazendo defesa), as cores, as fontes estilizadas que soariam exageradas hoje, mas eram típicas da primeira metade do século passado. Hoje, o cartaz da Copa de 1930 é motivo de tanto orgulho dos uruguaios que é uma das imagens mais comuns em souvenires para turistas que vão a Montevidéu.


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