“Apenas as pessoas esquecidas é que estão mortas. Você viverá para sempre.”

No meio das arquibancadas do Hannover 96, tal frase aparecia escrita em um cartaz. Provocava impacto não apenas pela força das palavras, mas pela maneira como o próprio entorno confirmava aquela sentença. A memória de Robert Enke permanece viva, mesmo dez anos depois da morte do goleiro. Ele prevalece na saudade de seus antigos colegas, no carinho da torcida e, sobretudo, no amor da família que preserva o seu nome – por mais que a dor, obviamente, seja irreparável. Todos lutam para que as boas memórias fiquem, e também para que não se esqueça a doença que o matou: a depressão.

O principal legado de Enke não está naquilo que fez dentro de campo. É a instituição que leva o seu nome, conduzida por sua esposa, e auxilia pessoas com depressão, assim como crianças com problemas cardíacos. Dez anos depois daquele fatídico 10 de novembro de 2009, mais gente consegue compreender a dor vivida pelo goleiro e por outras pessoas que enfrentam a doença. Mais gente pode ser apoiada em suas próprias dores.

“Passaram se dez anos e acho que lidei bem com isso. Fica um pouco menos difícil com o passar do tempo. Sou incrivelmente agradecida por Robbi ainda estar na mente das pessoas, que elas ainda o conheçam. Ele não está morto – não para mim. Acredito que você só está realmente morto quando não há mais lembranças de você. Mas Robbi sempre estará na memória das pessoas. Eu me encho de alegria ao ver que ele permanece por aí. As pessoas se importam sobre o que aconteceu com ele. Em cinco ou dez anos, talvez seu nome não seja tão conhecido e nós, na fundação, precisaremos descobrir como conscientizar as pessoas sobre a depressão de uma maneira diferente. Mas talvez já tenhamos feito esse progresso até lá, a ponto de não ser mais necessário”, refletiu Teresa Enke, a esposa, em entrevista à página The Athletic.

A notícia da morte de Enke causou um impacto imenso há dez anos. Mesmo quem não acompanhava sua carreira não pôde ficar impassível diante da tragédia. E a perda causou ainda mais dor para quem o conhecia – um homem descrito como polido e gentil, um profissional empenhado, um familiar amoroso. Mas também um ser humano com seus problemas seríssimos, que lutava contra uma depressão aguda desde 2002, com três crises principais. Apenas pessoas muito próximas sabiam que ele possuía a doença, até a revelação realizada por Teresa horas depois de Robert falecer. O silêncio sufocava o homem de 32 anos.

Ao longo desta década, ficou cada vez mais claro que “não foi Robert quem tirou sua própria vida, mas sim a doença” – como Teresa Enke afirmou recentemente. A conscientização paulatina sobre o assunto permite compreender a dor do alemão e tentar ajudar mais pessoas para que não cometam o ato extremo. Como diz o nome do evento organizado na última semana em Hannover, em tributo a Enke, “até mesmo os heróis têm depressão”.

O início da carreira de Enke

Nascido na antiga Alemanha Oriental, na cidade de Jena, Robert Enke vinha de uma família de esportistas. Seu pai competia nos 400 metros com barreiras, antes de assumir a carreira como psicoterapeuta, e a mãe jogava handebol. Logo o esporte também passou a fazer parte da vida do garoto e, aos oito anos, em 1985, ele passou a fazer parte das categorias de base do Carl Zeiss Jena – o tradicional clube local. O goleiro defendia as equipes infantis na época da queda do Muro de Berlim e permaneceu por lá nos primeiros anos de reunificação da Alemanha. Em 1995/96, disputou as suas primeiras partidas como profissional, então na segunda divisão da Bundesliga. Àquela altura, também acumulava convocações pela seleção alemã sub-18, chamado pelo Nationalelf desde o sub-15.

O talento de Enke sob as traves era evidente e logo o goleiro seria pinçado por um clube da primeira divisão. Assinou com o Borussia Mönchengladbach em 1996 e aguardou sua chance até se tornar titular em 1998/99, após a lesão do veterano Uwe Kamps na pré-temporada. Com 21 anos completados naquela temporada, o arqueiro deixou ótimas impressões sobre as suas virtudes. Apresentava-se como um arqueiro moderno, de muita agilidade, ótimas saídas de gol e também qualidade técnica. Não evitou o inédito rebaixamento dos Potros, algo que já tinha se ensaiado na campanha anterior. Mas acabou valorizado, a ponto de ser convocado como reserva de Jens Lehmann à Copa das Confederações de 1999 e de assinar com o Benfica para a sequência da carreira.

Enke chegou a Lisboa referendado por um antigo ídolo do Gladbach: Jupp Heynckes, que assumira o comando dos encarnados naquela temporada. O treinador, aliás, teria uma grande consideração pelo goleiro. “Treinei centenas de jogadores em minha carreira e, como treinador, você sempre se dá particularmente bem com esse ou aquele membro da equipe. Mas se alguém me perguntar, depois de 30 anos no cargo, quem seria o meu profissional ideal, eu sempre responderei Fernando Redondo e Robert Enke. Eles não eram apenas jogadores especiais, mas também pessoas especiais – respeitosos, sociáveis, inteligentes”, relembrou o técnico, em conversa com Robert Reng, à biografia ‘Uma vida muito curta: A tragédia de Robert Enke’.

Enke conviveu com as incertezas em sua mudança a Portugal – o que já indicava suas dificuldades com a ansiedade. Pela primeira vez viveria fora da Alemanha. Encarando ataques de pânico, pensou em não entrar no avião rumo a Lisboa, minutos antes do embarque. Quem o ajudou a lidar com os entraves neste período foi Teresa, sua namorada desde os 17 anos, quando se conheceram também através do esporte – ela praticava pentatlo moderno no mesmo clube. Permaneceram juntos e, já como sua esposa, tratava de escorar Robert no início de sua carreira.

“O futebol não teve nada a ver com a doença de Robbi. Ele teria sido suscetível a isso em qualquer outro emprego. Mas havia gatilhos. Ele me disse que precisava ter um ambiente familiar. Saíamos com nossos cães de manhã para caminhar num parque em Lisboa. Um deles, chamado Alamo, gostava de fazer cocô debaixo da mesma árvore todas as vezes. Robbi me dizia: ‘Você pode não acreditar em mim, mas vê-lo fazer isso me deixa seguro para o resto do dia. Eu sei que é sua árvore. Ficaria preocupado se não fizesse isso. Fico feliz em saber onde fica o estádio e como o resto do dia será. Sinto como se tivesse chegado’. Entendi o que ele disse apenas depois de um tempo. Ele precisava de uma rotina diária, de um senso de segurança. O apoio dos torcedores e do técnico eram vitais para ele”, contou Teresa, à The Athletic.

Os Enke nunca viveram anos tão felizes quanto em Lisboa. Mesmo em um momento instável do Benfica, o jovem goleiro se erigiu como uma certeza aos torcedores. Tornou-se titular logo na primeira temporada e ganhou a braçadeira de capitão, permanecendo no posto inclusive após a saída de Heynckes. A vida tranquila que experimentava em Portugal se refletia dentro de campo. Apaixonados por animais, Robert e Teresa viviam em um local um pouco mais tranquilo na capital. Gostavam de recolher cães e gatos abandonados, dos quais passavam a cuidar. A ligação umbilical com a região permaneceu, a ponto de manterem uma casa de campo mesmo após a transferência do arqueiro. Além disso, Teresa ainda costuma passar férias no país.

A carreira de Enke também progredia ao passo de seu sucesso com o Benfica. Foram duas temporadas em grande forma pelo clube, O goleiro chegou a recusar uma proposta mais vantajosa financeiramente do Porto, em respeito aos encarnados, mesmo sofrendo atrasos salariais no clube. Também foi sondado por Manchester United e Arsenal. Em 2002, porém, acabou por fechar sua mudança ao Barcelona. Os blaugranas atravessavam um conturbado processo de renovação de seu elenco, sob as ordens de Louis van Gaal. Aos 25 anos, o alemão entraria numa aberta disputa pela titularidade, que incluía o argentino Roberto Bonano e o novato Victor Valdés, recém-promovido à equipe principal.

A primeira crise de depressão

Enke não deslanchou no Barcelona como se esperava. Pelo contrário, a passagem pelo clube iniciou o período mais difícil de sua carreira – e a doença que findaria sua vida. O goleiro perdeu o tal senso de segurança que tinha no Benfica, e logo em sua estreia. A primeira partida do alemão como titular aconteceu em setembro de 2002, contra o Novelda, pela Copa do Rei. Os blaugranas até saíram em vantagem, mas os nanicos viraram, sem que o arqueiro tivesse culpa nos gols. Entretanto, após Juan Román Riquelme deixar tudo igual novamente, Enke falhou no terceiro tento dos desafiantes. A bola arrematada a poucos metros passou por cima de suas mãos e determinou a vitória do Novelda por 3 a 2. Em tempos nos quais as fases iniciais da Copa do Rei eram disputadas em jogo único, o Barça acabou eliminado.

As críticas sobre Enke foram duras. Capitão do Barcelona, Frank de Boer não poupou o goleiro em suas declarações à imprensa, assim como os torcedores e os comentaristas apontavam seu culpado. Enke, que se exigia muito na carreira e também era bastante rigoroso consigo mesmo, foi diagnosticado pela primeira vez com depressão. Não conseguiu emplacar na Catalunha. Ainda naquele semestre, disputaria apenas mais dois jogos, pela fase de grupos da Liga dos Campeões, em vitórias contra Club Brugge e Galatasaray. No entanto, a ascensão de Valdés também minou o seu espaço. Esquentaria o banco durante todo o Campeonato Espanhol, com apenas uma partida disputada – entrando nos minutos finais de um empate contra o Osasuna, em março de 2003.

Tratando sua depressão com um psicólogo alemão, Enke teria a oportunidade de um recomeço em 2003/04. Envolvido na negociação para levar Rüstü Reçber ao Barcelona, ele terminou emprestado ao Fenerbahçe. No novo clube, até poderia trabalhar com outro treinador alemão, Christoph Daum. Mas uma nova estreia ruim minou o espaço de Enke logo cedo. Durante a primeira rodada do Campeonato Turco, o Fener perdeu em casa por 3 a 0 para o Istanbulspor. Enke não falhou nos gols, mas deixou a impressão de que poderia ter feito melhor em dois deles. De qualquer maneira, a torcida não o perdoou. Durante os minutos finais, atirou objetos e sinalizadores contra a meta do novato.

A quem já vinha em condições psicológicas frágeis, Enke não durou mais de um mês em Istambul. Seu contrato foi rescindido semanas depois daquele episódio, no final de agosto. Fora dos planos de Frank Rijkaard, que substituíra Van Gaal no Barcelona, o goleiro via-se isolado na Catalunha. Passou um período apenas treinando, no qual Bonano era um raro amigo. Precisou ter muita força neste momento, mas dava sinais de evolução em sua luta contra a depressão. Em janeiro de 2004, o alemão acertou o seu empréstimo ao Tenerife, então na segunda divisão. Titular apenas ao final da campanha, o arqueiro aproveitou a transferência para recuperar a confiança. Era uma nova fase de sua vida, afinal. Teresa também estava grávida da primeira filha do casal, Lara. Robert começava a retomar o seu sucesso.

“Quando Robert estava no Tenerife, existia uma percepção pública de que aquele era seu fundo do poço, em um pequeno clube, na segunda divisão. Mas, pessoalmente, ele estava muito bem lá. Estava cheio de energia e entusiasmado com a vida, porque acabara de superar a depressão. Eu o visitei por uma semana, ele estava sozinho, Teresa permaneceu morando em Barcelona durante a gravidez. Ele irradiava uma grande alegria de viver, sem precisar de muitas palavras para demonstrar isso”, rememorou Ronald Reng, jornalista que era amigo de Enke, à revista 11 Freunde. Após a morte de Robert, Reng foi convidado por Teresa para escrever a biografia do goleiro.

A outra luta dos Enke

Em agosto de 2004, Robert Enke deixou o Barcelona em definitivo. O goleiro voltaria à Alemanha, ao assinar com o Hannover 96. A opção pelo clube, contudo, não se dava apenas por questões esportivas. Lara nasceu com um problema cardíaco congênito e a cidade possui um renomado hospital infantil. A depressão de Enke havia ficado para trás, enquanto se empenhava nos cuidados com a filha. Além disso, dentro de campo o arqueiro também voltou à sua melhor forma. Titular em todas as 34 partidas da Bundesliga 2004/05, o arqueiro comandou a terceira defesa menos vazada do campeonato e ajudou o Hannover a passar longe do risco de rebaixamento, na décima posição.

Já em 2005/06, Enke se firmou como ídolo do Hannover e como um dos principais goleiros da Bundesliga. Novamente intocável na meta da equipe, assegurou outro ano tranquilo no meio da tabela. E a fase do camisa 1 era tão exuberante que, mesmo com seu time fechando a campanha num modesto 12° lugar, ele foi eleito o melhor jogador de sua posição pela revista Kicker – em votação realizada pelos próprios jogadores da competição. Esportivamente, tudo corria muitíssimo bem com a carreira do arqueiro.

Todavia, em setembro de 2006, Enke precisou lidar com a maior dor que um pai pode encarar. Lara faleceu pouco depois de completar dois anos de idade. Por conta dos medicamentos consumidos para o coração, a garotinha perdeu sua audição. Passou por uma cirurgia bem sucedida no ouvido, mas teve complicações cardíacas durante a recuperação e não resistiu. O goleiro, ainda assim, se apoiou no futebol. Apenas cinco dias após a tragédia, ele estava de volta aos gramados com o Hannover 96. Ajudou a segurar um empate contra o Bayer Leverkusen. E seria exatamente neste período que o arqueiro reapareceu nas convocações para a seleção. Duas semanas depois da morte de Lara, ele foi chamado por Joachim Löw e, no início de outubro, ficaria na reserva de Timo Hildebrand durante uma vitória sobre a Geórgia.

Cabe frisar que, neste momento, a depressão de Enke ainda era um assunto restrito à sua família, aos amigos mais próximos e aos médicos. Nem mesmo os companheiros de clube sabiam de suas condições clínicas. Apesar de seu caráter forte, o goleiro também era descrito como alguém introspectivo e reservado. Tinha receio de se abrir e ser visto como fraco. A volta por cima com o Hannover e a maneira como lidava com a perda de Lara soavam como um exemplo de coragem. Mas a realidade era ainda mais delicada, para quem conhecia de perto as próprias dores e receios do alemão, especialmente Teresa.

Enke não perdeu um minuto de jogo sequer na Bundesliga 2006/07. Foi nome intocável no Hannover que terminou com o 11° lugar e ficou a um ponto da classificação às copas europeias. Nome constante nas listas de Joachim Löw, Enke disputou o seu primeiro jogo como titular da seleção alemã em março de 2007, num amistoso contra a Dinamarca. Durante a Bundesliga 2007/08, além de outra vez jogar todos os minutos, o arqueiro também começou a usar a braçadeira de capitão do Hannover, oitavo colocado no campeonato – naquela que foi a melhor campanha do clube em mais de 40 anos. Possuía propostas de outras equipes maiores, especulado por Bayern e Stuttgart, mas preferia se manter atrelado aos Die Roten. Por lá, havia reencontrado o senso de segurança junto aos treinadores e aos torcedores.

Ao final daquela temporada, Enke fez parte do elenco que disputou a Euro 2008, reserva de Lehmann. E teve uma atitude que demonstra bem o seu caráter. Ao descobrir que Hildebrand, seu concorrente, não iria à fase final do torneio, ele telefonou ao então arqueiro do Valencia. Queria conversar com o colega e motivá-lo para a sequência da carreira. Meses antes, Enke já tinha feito algo parecido com Sven Ulreich, então um iniciante no Stuttgart. O garoto de 19 anos havia falhado durante um jogo contra o Leverkusen e, de repente, recebeu a chamada do goleiro da seleção, que queria ajudá-lo a erguer a cabeça.

A recaída da depressão

Visto como o sucessor de Lehmann na seleção e muitíssimo elogiado por seu trabalho, Enke atingiu o ápice de sua carreira. Mas ainda não havia superado totalmente a sua depressão. E a doença voltou com força na temporada 2008/09. O goleiro sofreu uma fratura na mão em outubro de 2008, durante um treino com o Nationalelf. Passou por uma cirurgia e permaneceu quase quatro meses afastado dos gramados. Além disso, a ausência de Lara também apertou o seu peito durante o período longe da equipe. Enke voltou a se apoiar em Teresa e seguia contando com a ajuda de seu terapeuta. Entre os altos e baixos de seu tratamento, após mais algum tempo, indicou os sinais de melhora.

De volta ao Hannover em janeiro de 2009 e se sentindo mais confiante em relação às próprias cobranças a si mesmo, Enke estava voando no segundo turno da Bundesliga. O momento era tão bom que, ao final da temporada, ele voltou a ganhar o prêmio de melhor goleiro do campeonato, entregue pela Kicker. Apesar da concorrência de René Adler, também sustentou sua titularidade na seleção, recebida logo após a Eurocopa. No primeiro semestre, Enke disputaria mais três partidas com o Nationalelf. E dentro de casa, o arqueiro ganhava outra motivação: ao lado de Teresa, adotou uma garotinha.

Leila tinha dois meses quando passou a viver com o casal. Eles moravam em um sítio na Baixa Saxônia, com vários animais de estimação, principalmente cachorros recuperados de situações críticas. A família costumava participar de ações conjuntas a ONG’s voltadas aos direitos dos animais. Ao lado da PETA, o goleiro e sua esposa apareceram em uma campanha contra o uso de peles na fabricação de roupas. Enquanto isso, os jornais estampavam o bom momento de Enke. “Papai Enke vai à Copa do Mundo”, era uma manchete que marcou Teresa.

A depressão, porém, não precisava necessariamente de algum baque para reaparecer. E ela viria mais forte na sequência de 2009, na terceira crise do goleiro. “Ele me disse que parecia diferente, de alguma forma pior. Não havia gatilho, o que realmente o assustou. Foi a última crise de depressão que tomou conta dele. Acho que ele sentia novos tipos de pressão. A pressão de permanecer no topo, a pressão de ser pai”, contou Teresa, à The Athletic. Uma das maiores dificuldades era compartilhar a dor além de seu círculo mais íntimo.

Enke seguia o tratamento psicológico na Alemanha, mas tinha receio dos efeitos que uma internação poderia causar. O período fora dos gramados prejudicaria sua carreira e a chance de ir à Copa do Mundo, praticamente a última, aos 32 anos. Pensava no exemplo de Sebastian Deisler, que abandonou os gramados aos 27 anos também por questões de saúde mental, e tinha medo de viver algo parecido. Muito pior, Robert temia que a repercussão do caso pudesse fazer a família perder a guarda de Leila. Mantinha a sua doença oculta dos companheiros, mesmo numa fase tão aguda.

“Nunca percebi uma depressão, nunca falei com ele sobre problemas emocionais, nunca, nunca. Sentia-o, às vezes, mais pensativo, talvez um pouco ausente, mas daí a falar-se de depressão…”, declarou Sérgio Pinto, atacante do Hannover, em entrevista ao Mais Futebol. “Era um homem gentil, o nosso capitão. Nunca o ouvi levantar a voz, a falar de forma descontrolada. Impunha respeito em todos pelo estatuto e pela forma equilibrada como se comportava no vestiário e no gramado. Afinal, ele era o titular da Alemanha”.

Outros episódios também custaram a confiança de Enke. Em setembro de 2009, ele perdeu seu lugar na seleção após uma infecção bacteriana. Ficou no banco de Adler durante um amistoso contra a África do Sul e acabou dispensado antes do segundo jogo na Data Fifa, contra o Azerbaijão, pelas Eliminatórias da Copa de 2010. O goleiro permaneceria afastado por mais de um mês, quando o novo problema de saúde também serviu de pretexto para ocultar a batalha árdua contra a depressão. Ele também não estaria no elenco durante a Data Fifa de outubro, que selou a classificação ao Mundial.

Além do mais, Enke completou seis rodadas sem jogar na Bundesliga. Durante o período, o reserva Florian Fromlowitz se tornou um dos destaques do Hannover. Em uma das vitórias, os companheiros colocaram até mesmo a foto do substituto sobre a de Enke nos vestiários. O veterano sentiu a pressão, e não pelo sucesso do amigo, mas pela cobrança de dar a volta por cima. “Eles só queriam aumentar a confiança de Fromlowitz, mas Robbi lidou com isso muito mal. Ele foi aos vestiários e viu todo mundo celebrando, ele sentiu que não era realmente mais parte disso”, contou Teresa, à Athletic.

O breve retorno e o adeus

Recuperado da infecção anteriormente, Enke seguia tomando uma medicação pesada por causa de sua depressão. Apesar do impacto positivo de Fromlowitz, o capitão retornou ao Hannover na última semana de outubro de 2009, numa vitória sobre o Colônia. Durante o aquecimento, inclusive, disse ao reserva que “em breve, ele voltaria a atuar”. Dias depois, em 6 de novembro, Enke ficaria de fora da convocação da seleção. Até pelo tempo parado, Löw optou por chamar René Adler, Manuel Neuer e Tim Wiese. Já em 8 de novembro, na última partida antes da Data Fifa, o Hannover recebeu em casa o Hamburgo.

Robert Enke disputou o seu último jogo naquela tarde de domingo, diante de 49 mil espectadores no Niedersachsenstadion. O Hamburgo por duas vezes ficou na frente, mas por duas vezes o Hannover buscou a igualdade, em empate por 2 a 2. O arqueiro ajudou a segurar o resultado durante o segundo tempo. Treinador de goleiros da seleção, Andreas Köpke declarou à biografia de Enke que, naquele dia, o sentiu “estranhamente fora da partida”. Teresa, por sua vez, relata que em um dos momentos viu o marido olhando fixamente aos céus – o que, dias depois, entendeu como um ato de despedida.

Naquele mesmo domingo, nos vestiários do Hannover, o meia Arnold Bruggink perguntou a Enke como ele se sentia. Ouviu do amigo que estava bem, com o seu contrato em vigor. O holandês insistiu, perguntando como Enke se sentia além da carreira. “Falo com você depois”, respondeu o arqueiro. Um depois que não existiria.

Fora da seleção, Enke seguiu ao Hannover na segunda-feira. Realizou exercícios físicos mais leves, antes de voltar para casa. Ao lado de Teresa e Leila, o goleiro visitou uma exposição e indicou bom apetite. A esposa, que convivia com o momento mais duro de sua depressão, viu aquilo como um sinal de melhora. O mesmo pensava seu psicólogo, Valentin Markser, que o acompanhava desde os tempos de Barcelona e conversou com o paciente, durante a noite, através de um telefonema.

“Como você pode imaginar, era uma situação realmente difícil, mas tivemos a impressão de que ele estava melhorando cada vez mais nos dias anteriores. O jogo contra o Hamburgo não foi o melhor dele, mas isso não foi importante. Ele esteve em campo por 90 minutos, voltou à área VIP depois do jogo, ficamos contentes por ver aquilo. Nós o levamos para casa, tínhamos a impressão de que estava melhorando, era seu ponto de virada. Mas logo depois sabíamos que não era verdade. Quando as pessoas tomam a decisão de tirar a própria vida, ficam mais abertas, podem olhar nos olhos de repente. Mas ele sabia que, nos próximos dias, teria o fim daquela dor”, declarou Jörg Neblung, empresário de Enke, à BBC.

Na manhã de 10 de novembro, Robert falou a Teresa que faria uma sessão dupla de treinamentos e chegaria mais tarde em casa. Porém, ele não tinha nenhuma atividade agendada com o Hannover naquela terça-feira de folga. No início da noite, o carro do goleiro foi encontrado próximo a uma estação de trem, de portas abertas e com a carteira no banco do passageiro. Robert não suportou a depressão e se tornou mais uma vítima da doença, encerrando sua vida a poucos metros dali.

Preocupada com a demora do marido, Teresa encontrou uma carta de despedida em sua cama. Ligou para os serviços de emergência e, pouco depois, a notícia se confirmou. Centenas de torcedores passaram a levar flores e velas ao estádio do Hannover. Já no dia seguinte, a esposa e o empresário participaram de uma coletiva de imprensa, em que Teresa revelou o sofrimento do marido, após sete anos em que a depressão permaneceu oculta. Ela não queria que a doença de Robert fosse vista como uma fraqueza, assim como desejava afastar qualquer rumor sobre o assunto. Um homem bem sucedido como Enke, capitão do Hannover e titular da seleção, também sofria com a depressão.

“Quando ele estava extremamente depressivo, não tinha motivação e esperança. Eu tentei estar lá por ele. Dizia que o futebol não era tudo, que há muitas coisas bonitas na vida, que há esperança. Ele estava com medo de perder Leila se a depressão fosse divulgada. Agora, está vindo à tona de qualquer maneira. Nós pensávamos que poderíamos vencer tudo através do amor, mas você nem sempre consegue”, afirmou Teresa, na época.

Segundo Valentin Markser, o psicólogo de Robert, seu paciente pediu desculpas à família e à equipe que o tratava na carta de despedida. O goleiro afirmava que mentiu deliberadamente para fazê-los acreditarem que estava melhor. “Apesar do tratamento diário, não conseguimos impedir”, afirmou, na época.

“Ainda é difícil para mim acreditar que, no momento em que ele poderia escolher para onde ir – ficar no Hannover, ir para um clube maior, jogar uma Copa pela Alemanha – a depressão tivesse força para voltar e o atingir com uma força descomunal. Não consigo lidar com isso”, refletiu o empresário Jörg Neblung, recentemente, à BBC.

Os dias seguintes

A seleção alemã estava no restaurante do hotel onde se concentrava quando soube da notícia. Segundo o zagueiro Per Mertesacker, amigo de Enke nos tempos de Hannover, ninguém conversou durante 25 minutos. Ninguém podia acreditar. Já em Hannover, os jogadores se dirigiram ao próprio clube naquela mesma noite, onde compartilharam o luto pela perda.

Em 15 de novembro, o funeral de Enke aconteceu dentro do Niedersachsenstadion. Mais de 50 mil pessoas compareceram à despedida, incluindo companheiros de profissão. A seleção alemã cancelou o amistoso que faria contra o Chile, mas voltou a campo no dia 18, em duelo contra a Costa do Marfim em Gelsenkirchen. Os jogadores publicaram uma carta aberta e mantiveram a camisa de Enke no banco de reservas. Todos usaram braçadeiras negras. Já durante a comemoração dos gols no empate por 2 a 2, Lukas Podolski apontou aos céus.

O Hannover voltou a campo em 21 de novembro, pela Bundesliga. A equipe encararia o Schalke 04 fora de casa e, numa partida também repleta de homenagens a Enke, perderia por 2 a 0. “Havia um sentimento especial, como se o Schalke e todos os seus torcedores dissessem que estavam com a gente. Mas a partida não era importante. Jogamos, mas não havia uma motivação real para nós. Quando algo assim acontece em sua vida, a última coisa que você deseja é jogar futebol. Entramos em campo, passamos 90 minutos e depois voltamos para casa”, recontou o zagueiro Karim Haggui, à BBC.

Na rodada seguinte, as homenagens ocorreriam no Niedersachsenstadion, antes da vitória do Bayern de Munique por 3 a 0. Décimo colocado no início de novembro, o Hannover passaria 12 rodadas consecutivas sem vencer após a tragédia, com 11 derrotas no período. O time abriu o segundo turno na zona de rebaixamento. Os efeitos da morte no ânimo dos jogadores eram claros e, por isso mesmo, eles passaram a contar com o apoio de um psicólogo contratado especificamente para ajudá-los naquele momento.

“Tínhamos que tentar impedir a queda livre e garantir que o time se recuperasse. Foi uma fase intensa do processo. Tentar tirar uma questão psicológica como o suicídio da cabeça dos jogadores é difícil, quase uma contradição. Quando você marca um gol, deve comemorar, mas eles estavam diante da morte”, recontou Andreas Marlovitz, o psicólogo contratado pelo Hannover, à Deutsche Welle. “A sensibilidade sobre o problema permaneceu após a morte de Robert. Você percebia que havia uma consciência, como se as pessoas tivessem notado a existência dessa doença e como podia ser perigosa. A psicologia luta para entrar no esporte, porque está sempre sujeita a ser associada com o fracasso. Mas isso vem mudando, passo a passo”.

O Hannover daria sinais de sua reação a dez rodadas do fim, quando derrotou o Freiburg e encerrou o período de seca. A equipe sofreria outros baques, como a goleada por 7 a 0 para o Bayern na visita a Munique. Porém, os resultados melhoraram e os Die Roten chegaram aos seus últimos compromissos com chances de salvação. Na penúltima rodada, deixaram a zona de rebaixamento com a goleada por 6 a 1 sobre o Borussia Mönchengladbach no Niedersachsenstadion. Já a permanência foi garantida fora de casa, no confronto direto contra o Bochum, com o triunfo por 3 a 0.

Diante da vitória do Nürnberg naquela rodada final, uma derrota para o Bochum significaria o descenso automático do Hannover, enquanto um empate ainda forçaria o time aos playoffs contra a queda, pegando o terceiro colocado da segunda divisão. Nem isso aconteceu com a vitória. Ao final da partida, os jogadores realizaram uma grande festa, com faixas e outros tributos relembrando o seu capitão. Já na temporada seguinte, na Bundesliga 2010/11, o clube se reergueu de tal maneira que fez uma campanha histórica. Terminou na quarta colocação e se classificou à Liga Europa após quase duas décadas longe das competições continentais.

“Jogamos um futebol muito bom em 2010/11. O elenco ficou mais próximo e, mesmo após alguns saírem do clube, ainda nos encontramos regularmente na vida privada. É estranho como isso pode soar, mas aqueles foram os melhores meses da minha carreira profissional. De repente, eu percebi que a amizade também é possível neste ritmo maluco do futebol-negócio”, declararia Fromlowitz, em texto publicado pela 11Freunde em 2014, no qual o goleiro demonstra o seu carinho por Enke. Apesar do fardo de ser o substituto na meta do Hannover, ele conseguiu suportar a responsabilidade. Perdeu a posição somente a partir da ascensão de Ron-Robert Zieler – quando, também por motivos pessoais, sua trajetória entrou em declínio.

A Fundação Robert Enke

Teresa Enke demonstrava uma força imensa após a morte de Robert. Afinal, ela passou a trabalhar para “dar um significado à tragédia”, segundo suas próprias palavras. Ainda no final de 2009, a esposa criou a Fundação Robert Enke. A ideia principal era auxiliar pessoas com depressão, embora o instituto também tenha abraçado crianças com problemas cardíacos, como Lara. A instituição teve apoio da DFB (a federação alemã), da DFL (a liga profissional do país) e do próprio Hannover 96.

Independentemente disso, Teresa enfrentou (e enfrenta) as suas próprias dificuldades em lidar com a dor. “Foi bom ver as pessoas se abrindo. Mas, às vezes, eu ficava muito sobrecarregada. Não sou qualificada para lidar com problemas de saúde mental, só posso direcioná-los para que procurem a ajuda adequada. Depois de um tempo, encontrei dificuldades para lidar com as pessoas que vinham até mim e diziam o quanto sentiam a perda de Robbi. Para onde eu ia, as pessoas me olhavam com expressões tristes. Se eu não estivesse desanimada, eu sentia uma certa culpa. As pessoas sussurravam quando eu sorria, não podia me mostrar feliz. Não aguentava mais aquilo”, contou, à Athletic.

Em 2011, Teresa viveu um momento importante. Enquanto caminhava num parque de Hannover, coberto pela neve, ela se sentiu sozinha por não poder compartilhar aquela beleza com outras pessoas. Começou a chorar. “Nunca vou me esquecer, Leila colocou a mão no meu ombro e perguntou por que eu estava chorando. Foi a primeira frase completa dela. Nesse momento, eu percebi que precisava de ajuda para lidar com a perda de Robbi. Não estava deprimida, mas muito para baixo”, relatou. Ela foi encaminhada à clínica onde Robert se tratou e se recuperou semanas depois. Também passou um tempo morando em Colônia, antes de retornar a Hannover e seguir com a fundação.

“Nossa missão é fazer as pessoas entenderem que a depressão não é sobre fraqueza ou falta de força de vontade. É uma doença potencialmente fatal, como o câncer, que pode ser superada se você procurar tratamento. Sempre há uma chance de voltar. Robbi conseguiu duas vezes, para se tornar o titular da seleção. A maior parte das pessoas sobrevivem. Você precisa se manter trabalhando para manter a mente limpa, mas pode conseguir. Quero assegurar que esses que sofrem ou que estão perto de sofrer sejam ouvidos. Se você falar sobre essa doença, as pessoas se sentem menos sozinhas e são melhor compreendidas por seus familiares, por seus amigos. Queremos aguçar seus sentidos, fazê-los sentir que seguem em frente. E também tornar as pessoas ao redor mais empáticas”, resume Teresa.

A intenção da fundação é criar um ambiente mais aberto para que jogadores de futebol discutam seus problemas de depressão e saúde mental. Nos últimos tempos, isso tem se tornado mais comum. Nomes como Andrés Iniesta, Gianluigi Buffon, Danny Rose e André Gomes tomaram a iniciativa de se exporem, sem temer tanto o escrutínio público. Para o empresário Jörg Neblung, o maior legado de Enke está em colocar a saúde mental em foco, para que os atletas se cuidem mais e para que o público não os veja como super-heróis. Teresa, aliás, acredita que esse tipo de abertura poderia ter salvado Robert.

“Acho que ele teria chance de sobreviver se decidisse se abrir com todos. Mas era uma época diferente, há dez anos, e posso entender que ele não tinha confiança para isso. Deveria ser permitido a jogadores e treinadores mostrarem mais as suas emoções nos vestiários, e dizerem que não estão se sentindo bem sem temer por seu lugar no time. É um esporte incrível, mas é difícil de mudar. E nunca mudará por completo, porque simplesmente há muito dinheiro, muita emoção e muita coisa para se colocar em jogo”, declarou a viúva.

Além das iniciativas com jogadores que precisam de apoio psicológico, a Fundação Robert Enke também realiza trabalhos em escolas, para aumentar a conscientização sobre a depressão, e possui um aplicativo sobre o assunto. Há também uma ala da entidade dedicada a auxiliar crianças com problemas cardíacos, encaminhando ao tratamento pertinente. Desta maneira, a memória de Lara Enke também permanece presente.

Já neste ano, a fundação lançou um ambiente de realidade virtual chamado “Impressão / Depressão”. As pessoas podem entender melhor as angústias vividas por Enke, a partir daquilo que ele relatava a Teresa. Em 15 minutos, o usuário entra no ambiente de realidade virtual e experimenta os desafios da carreira de Enke, ao mesmo tempo em que precisa lidar com os próprios pensamentos e as dificuldades do goleiro. As dúvidas e os medos seguem presentes, narrados por áudios e exibidos em imagens. Recém-lançada, a experiência irá rodar a Alemanha.

As lembranças

Constantemente, Robert Enke recebe homenagens na Alemanha. Uma das mais belas aconteceu há dois anos, quando Per Mertesacker escreveu uma carta dedicada ao antigo companheiro. O zagueiro revelou que chegou a cogitar o fim de sua carreira na época da morte do amigo. A despedida de Mertesacker dos gramados, inclusive, marcou o retorno de Teresa Enke a um estádio de futebol. Em setembro de 2018, ela esteve no Niedersachsenstadion para o último jogo do defensor. “Pensei muito sobre como seria se Robert estivesse lá também, chutando uma bola sem pressão, com seus antigos companheiros e amigos. Ele poderia ser um treinador de goleiros hoje em dia, talvez comentarista. Poderia ter visto Leila crescendo. É triste que ele tenha tirado tudo isso de si mesmo”, lamenta Teresa, ainda hoje.

Já nos últimos dias, as lembranças a Robert Enke eram inerentes, com os dez anos de sua morte. Em nome da fundação, Teresa participou de um evento em Hannover para relembrar o goleiro e discutir como a relação da população com a depressão tem evoluído. “Foi um grande tributo e algo muito emocionante, mas para mim também é bastante difícil. Não sei o que deveria dizer. Eu me sinto bem, mas também com um pouco de dor. No geral, o evento foi bonito e valeu a pena”, contou à BBC.

A viúva não esconde como evita o dia da morte, geralmente preferindo aproveitar os aniversários de Robert para homenageá-lo. “Não vamos pensar nisso como o dia de sua morte. Vamos celebrar a vida dele e contar histórias engraçadas sobre ele. E eu gostaria de pensar que Robbi estará olhando lá de cima, sentindo orgulho de mim. Pode ser um pensamento infantil, mas é nisso que gostaria de acreditar”, afirmou. Nesta mistura de emoções, entre a dor e a saudade, é ela quem encabeça o legado. Tem o desafio não apenas de comandar a fundação, mas também de contar a Leila, agora com dez anos, quem foi seu pai. Outro obstáculo difícil após a perda, em que a lacuna deixada por Robert é irreparável.

Na rodada do último final de semana, todos os jogos da Bundesliga respeitaram um minuto de silêncio a Enke. Sua imagem apareceu no telão dos estádios e Teresa transmitiu uma mensagem sobre a depressão. O Hannover preferiu guardar um minuto de aplausos, em todos os seus jogos, incluindo nas categorias de base. A equipe profissional entrou em campo para a partida contra o Heidenheim, na segunda divisão, com uma camisa trazendo a imagem do ídolo. Fora de casa, a torcida levou uma grande faixa com a imagem de Enke. Já o goleiro Ron-Robert Zieler usou luvas do mesmo modelo que Enke vestia. Foram produzidos 300 pares especiais, para que as verbas sejam revertidas à Fundação Robert Enke.

Dezenas de clubes ao redor da Alemanha também prestaram suas homenagens a Enke e utilizaram suas redes sociais para falar sobre a depressão. A própria seleção deve prestar o seu tributo neste sábado, quando enfrenta Belarus. Entre as pessoas que foram levar flores ao túmulo do arqueiro, o técnico Joachim Löw esteve pessoalmente, ao lado de Teresa. As dores que a morte de Enke provoca são indeléveis. Mas criou-se uma rede de ajuda para conscientizar e combater a doença que o levou ao ato extremo. Outras pessoas que vivem um desespero parecido ao do goleiro podem encontrar um caminho, diante de um debate mais franco e aberto.

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A história de Enke liga um sinal de alerta e nos permite estender a mão. Caso você sofra de depressão ou possui algum entrave ligado à saúde mental, procure ajuda. Também o faça se você se sentir depreciado, com a autoestima baixa, desesperançoso com a vida e/ou se isolar das relações sociais. Não hesite em buscar auxílio ou o atendimento com um profissional – por exemplo, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de sua cidade ou região, ligado ao SUS, ou mesmo na Unidade Básica de Saúde mais próxima.

Você também pode procurar o CVV, o Centro de Valorização da Vida. O canal realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio. Através do número 188, atende gratuitamente pessoas que desejam conversar, sob total sigilo. O contato também pode ser feito pelo site oficial, por e-mail ou mesmo por Skype. Quando você pede ajuda, você: “é respeitado e levado a sério; tem o seu sofrimento levado em consideração; fala em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação; é escutado; é encorajado a se recuperar”.

E se você conhece alguém em uma situação de risco, não deixe de procurar essa pessoa e de oferecer ajuda. O Ministério da Saúde também possui uma página em que orienta como identificar, agir e prevenir o suicídio.

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* Este texto foi escrito seguindo orientações da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Ministério da Saúde à imprensa, apoiado também em reportagem da BBC. Os colegas jornalistas também podem se informar sobre a maneira de noticiar um suicídio através dos links.