Campeão brasileiro deste ano que entra em seu mês final. Antes, ainda, outros dois Brasileiros, em 2011 e 2015. Mais três títulos paulistas, em 2009, 2013 e neste 2017. Finalmente, a sonhada Copa Libertadores da América, conquistada em 2012 – e meses depois, o êxtase maior, com o título mundial. Nesses dez anos, o Corinthians aumentou o amor-próprio e o orgulho de sua torcida, com títulos e mais títulos. Talvez, para chegar a um momento tão alto de sua história, o clube do Parque São Jorge tenha precisado alcançar o ponto mais baixo, que completa dez anos neste 2 de dezembro: o rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro.

Curiosamente, os resultados no início daquela edição da Série A não faziam crer que o final seria tão aflitivo e depressivo para o clube alvinegro. Foram seis rodadas sem perder, com três empates e três vitórias – o que já era alentador, diante da campanha turbulenta no Campeonato Paulista (que incluíra a demissão de Emerson Leão e a chegada de Paulo César Carpegiani). Talvez fosse possível acreditar que aquele time pudesse fazer uma trajetória tranquila. Afinal, Felipe já chegava para se mostrar um goleiro relativamente confiável; a esperança em Willian, Dentinho – por um tempo, Bruno Bonfim – e Lulinha, egressos da base, era gigantesca. Havia ainda os remanescentes do time campeão brasileiro de 2005 (sim, havia), Rosinei e Marcelo Mattos. E se faltava técnica, sobrava dedicação em Finazzi e Clodoaldo. Pelo menos até aquele momento, a incendiária situação política do clube estava mantida fora das quatro linhas.

 

Não duraria muito. Na sétima rodada, a invencibilidade seria perdida do pior jeito possível: com derrota em clássico (1 a 0 para o Palmeiras). Era o início da torturante série negativa que jogaria o Corinthians nas catacumbas da disputa para não sair: nove partidas sem vitória, com três derrotas e seis empates, incluindo reveses como um 3 a 0 para o Náutico, no Morumbi. Àquela altura, as apostas corintianas já se miravam em todo o possível, dentro de campo. Contratações como Aílton, Ricardinho – o volante, ex-Cruzeiro -, Moradei. Reabilitações impensáveis em outro tempo, como as voltas de Vampeta e Gustavo Nery. Apostas da base, como Marcelo Oliveira, Wilson e Nilton. Retornos graduais, como Bruno Octávio e Eduardo Ratinho. E começava a se consolidar a polêmica zaga que, para muitos, simboliza aquela campanha aziaga: Zelão, Betão e Fábio Ferreira.

Mas talvez o símbolo maior daquela campanha seja o ocorrido fora de campo. A parceria com a MSI, de tantas confusões, chegava ao fim, de um modo traumático: por pressão de uma oposição cada vez maior (com Andrés Sanchez como líder), foi aprovado o processo de impeachment que apeou da presidência do clube Alberto Dualib, 14 anos depois de sua posse – além de outro personagem conhecido da política corintiana, Nesi Curi, vice de Dualib. Até as eleições presidenciais, em outubro, assumiu interinamente Clodomil Orsi – que se assumiu até palmeirense na infância, como que acrescentando um pouco de comédia àquela tragédia. Em outubro, montado na imagem que ganhara como líder da oposição, Andrés Sanchez conseguiu ser eleito presidente.

Mas àquela altura, a situação corintiana dentro de campo estava cada vez mais dramática. Outra derrota em casa – 3 a 0 para o Cruzeiro, no Pacaembu, na 21ª rodada – causava a demissão de Paulo César Carpegiani. Após a sequência irregular sob o interino José Augusto (seis jogos, que incluíram tanto um 2 a 0 no futuro vice-campeão Santos quanto derrotas para Palmeiras e Paraná), chegou Nelsinho Baptista, o técnico do título brasileiro de 1990. Talvez vindo para evocar uma mística – a única coisa à qual o corintiano podia se apegar, naquela fase final de campeonato.

Resultados como o 1 a 0 sobre o campeão São Paulo, na 30ª rodada, com gol de Betão – corintiano assumido e contestado -, faziam crer que, no fim, daria certo. Mas outros, como o 1 a 0 do Náutico nos Aflitos, graças a pênalti cometido por Aílton nos acréscimos do segundo tempo, diminuíam a esperança. A corda-bamba seguiu nas rodadas finais. O empate em 2 a 2 contra o Atlético Paranaense, com Finazzi salvando o time nos acréscimos em pleno Pacaembu, na 35ª rodada. Outro empate, o 1 a 1 contra o Goiás na 36ª rodada, quando Felipe foi o salvador, defendendo um pênalti e dando a impressão de que, no Pacaembu, o Corinthians se salvaria. Impressão encerrada na 37ª e penúltima rodada, com o 1 a 0 de Alan Kardec para o Vasco, diante de uma torcida aterrorizada e um time traumatizado (com direito ao “histórico” gol perdido por Juan Carlos Arce, motivando narração, digamos, empolgada demais do locutor Hugo Botelho).

Finalmente, o 1 a 1 contra o Grêmio. Comemorado por muitas torcidas, Brasil afora – a do próprio Grêmio, a do Internacional (que não se importou muito com a derrota para o Goiás, salvo em detrimento do Corinthians), a do São Paulo já campeão então, até a do Palmeiras, que também lamentava ficar fora da zona de classificação para a Copa Libertadores da América na última rodada. O pior momento da história corintiana, que dava a impressão de não poder sair dali nunca mais, em meio à depressão.

Dez anos depois, hoje se sabe: o Corinthians saiu da depressão para a altivez. Atualmente, a autoestima corintiana é o completo inverso da de 2007: extremamente alta. Todavia, é justo que se diga que a gestão de Andrés Sanchez, apontada como revolucionária, foi controversa, com acertos claros (as vindas de Ronaldo, dentro de campo, e Luis Paulo Rosenberg, fora) mas posturas dúbias (como na polêmica construção da Arena Corinthians, que rendeu e ainda renderá problemas ao clube). Mesmo com tudo bem, o Corinthians parece ter perigos à espreita.

Ainda assim, a sensação é de que o rebaixamento foi um pesadelo profundamente vivido. Uma lembrança hoje distante, mas marcante. Um pesadelo do qual o corintiano acordou – e o qual não quer mais viver.


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