Quando o Real Madrid desembarcou em Glasgow em maio de 1960, mesmo se aquela viagem não cumprisse o resultado esperado pelos merengues, seria muito difícil alguém dizer que aquele não era o melhor time da Europa na época. O esquadrão liderado por Alfredo Di Stéfano conquistara as quatro edições inaugurais da Copa dos Campeões e vinha de vitórias inapeláveis sobre o rival Barcelona, bicampeão espanhol, nas semifinais. Que o Eintracht Frankfurt fizesse uma grande campanha até aquele momento, disposto a destronar a força hegemônica, não seria uma derrota na final de 1959/60 que diminuiria o cartaz dos madridistas. No entanto, o desfecho desta história seria o mais épico possível: o pentacampeonato europeu do Real Madrid acabou selado com uma das maiores atuações do futebol em todos os tempos. A goleada por 7 a 3 sobre os alemães-ocidentais não deixava quaisquer dúvidas sobre a dinastia. Eternizaria a lenda ao redor do timaço, diante de 135 mil testemunhas nas arquibancadas do Hampden Park.

O Real Madrid derrotou grandes adversários nas campanhas anteriores para atingir aquela aura em maio de 1960. O primeiro título da Champions, em 1955/56, seria marcado pela virada por 4 a 3 sobre o Stade de Reims na decisão. O bicampeonato, em 1956/57, guardaria a vitória por 2 a 0 sobre uma não menos poderosa Fiorentina na finalíssima dentro do Estádio Santiago Bernabéu. O tri colocaria no caminho mais um italiano, o Milan, em 3 a 2 que só foi definido na prorrogação – depois que os rossoneri haviam ficado em vantagem por duas vezes no placar. E o tetra negaria a chance de revanche ao Stade de Reims, com novo triunfo merengue por 2 a 0. Vários craques sucumbiram: Raymond Kopa, Julinho Botelho, Juan Alberto Schiaffino, Just Fontaine – só para ficar em um de cada ano.

O Real Madrid dominava a Europa sobretudo por méritos esportivos, com uma legião de craques e um futebol exuberante, em ascensão construída pelo lendário presidente Santiago Bernabéu. Paralelamente, o clube também contava com um inegável apoio da ditadura franquista, que chegava a usar suas embaixadas no exterior para fornecer informações sobre os adversários, além de outras acusações de favorecimento estatal, como na contratação de jogadores. Ainda assim, as dificuldades além das fronteiras para alcançar o tetra seriam inúmeras. O esquadrão enfrentara suas provações no caminho, incluindo intimidações e pressões nas viagens a outros países, algo recorrente em tempos mais duros do esporte e da geopolítica.

Olhando estritamente ao que ocorreu dentro de campo, foram algumas vezes em que a sequência do Real Madrid ficou por um triz. Em 1955/56, o Partizan perdeu em Madri por 4 a 0 (com dois gols dos iugoslavos estranhamente anulados) e quase virou a situação nos 3 a 0 de Belgrado. A maior ameaça ao bi foi o Rapid Viena, só derrubado num jogo-desempate dentro do Bernabéu, quando teria passado se a regra dos gols fora existisse na época. O tri seria a única campanha sem maiores dores de cabeça, até a penosa decisão contra o Milan. Já no tetra, quase o Atlético de Madrid barrou os rivais nas semifinais, batido somente num terceiro jogo realizado em Zaragoza.

Ao Real Madrid, manter o domínio também significava mudar, com o desgaste natural gerado pelo passar dos anos. Da equipe titular na final de 1956, apenas quatro jogadores seguiram no 11 inicial para a decisão de 1960. Muitos nomes importantes até continuavam no elenco, como o goleiro Juan Alonso e o atacante Héctor Rial, mas já convivendo com o declínio e acumulando parcos minutos em campo. Raymond Kopa se limitou a um ciclo de três anos em Madri, antes de voltar a Reims. O capitão Miguel Múñoz havia pendurado as chuteiras. Mas, por outro lado, o elenco ganhara novas referências – a exemplo do zagueiro Pepe Santamaría, trazido do Nacional de Montevidéu em 1957, ou de Ferenc Puskás, acerto bombástico de 1958 após fugir da Hungria em meio à invasão soviética.

A hegemonia do Real Madrid na Champions durante o quinquênio não se repetiu dentro do Campeonato Espanhol. Em 1956, o Athletic Bilbao ficou com a taça, antes do bicampeonato merengue. Todavia, o Barcelona montaria uma equipe tão forte quanto a dos rivais, sob as ordens de Helenio Herrera, e despontou no cenário doméstico a partir do título de 1958/59. Até por isso, também em um ambiente cheio de personalidades fortes, sequer havia estabilidade entre os treinadores madridistas durante a dinastia continental. José Villalonga esteve à frente nos dois primeiros títulos, até sair de cena em 1957, quando a direção minou seus poderes e ele preferiu se demitir. O substituto seria Luis Carniglia, antigo comandante do Nice, que faturou outras duas taças da Champions com o Real. Após o título de 1959, o argentino anunciou que não renovaria seu contrato e que se mudaria à Fiorentina. A opção por não escalar Puskás na final continental teria pesado para seu relacionamento piorar em Chamartín.

Assim, o Real Madrid iniciou a temporada de 1959/60 com um novo técnico. Manuel Fleitas Solich era reconhecido por seu trabalho à frente do Flamengo, com o qual conquistou o tricampeonato carioca e registrou outros resultados expressivos, a exemplo das vitórias sobre o Honvéd durante a turnê do esquadrão húngaro pelo Brasil. Mais do que isso, “El Brujo” também possuía a fama de prezar por um jogo ofensivo e inovador taticamente, importante na implementação do 4-2-4 dentro do futebol brasileiro. Além disso, havia uma certa resposta simbólica ao rival Barcelona, então sob as ordens do “Mago” Helenio Herrera. Era a tentativa do presidente Santiago Bernabéu em responder à altura, na mesma vanguarda.

Fleitas Solich não chegou sozinho ao Real Madrid. Bernabéu resolveu adicionar um pouco de talento brasileiro em seu elenco e fez contratações notáveis. À armação, Didi vinha aclamado como o melhor jogador da Copa do Mundo de 1958, vendido com grande pesar pelo Botafogo. Além dele, se os jornais espanhóis especulavam Julinho Botelho ou Garrincha no elenco merengue, Canário não deixava de ser um ótimo reforço à ponta direita. O jovem surgiu com destaque no America, onde foi adversário de Fleitas Solich até em decisão do Carioca, e motivou o investimento, ocupando a lacuna aberta por Kopa. Já entre as compras “domésticas” estavam o volante José María Vidal, que rodara por equipes menores da Espanha, e o defensor Pachín, então uma revelação do Osasuna.

O Real Madrid deixou uma ótima impressão na pré-temporada, ao derrotar o Barcelona por 4 a 3 na decisão do Troféu Ramón de Carranza – com grandes atuações de Didi no torneio amistoso. E os merengues pareciam capazes de desbancar também o Barça em La Liga. As duas equipes se alternaram na liderança durante o primeiro turno, até que os merengues se estabelecessem na ponta a partir de dezembro. A vitória por 2 a 0 no confronto direto, dentro do Estádio Santiago Bernabéu, ajudou os madridistas. 

A trajetória em busca do pentacampeonato europeu, ao mesmo tempo, começou sem sobressaltos. O sorteio deu sua ajudinha e o Real Madrid pegou o Jeunesse d’Esch nas oitavas de final, sua fase de entrada. Os merengues não tiveram piedade dos luxemburgueses e primeiro golearam por 7 a 0 em casa, antes de atropelarem por 5 a 2 fora. Já nas quartas de final, o Nice representava um perigo bem maior, em década de muito sucesso na Ligue 1. De virada, as Águias ganharam a partida de ida por 3 a 2, em incrível reação na qual o luxemburguês Victor Nuremberg anotou os três gols. Na volta, ao menos, o Real evitou qualquer surpresa no Bernabéu. Os blancos golearam por 4 a 0, com grande atuação de Di Stéfano, mas também arbitragem confusa, em que os excessivos acréscimos durante o primeiro tempo foram decisivos à reviravolta dos espanhóis.

O problema do Real Madrid era olhar ao lado, com um Barcelona que começava a crescer. Os rivais fizeram barulho nas fases iniciais da Champions. Os blaugranas entraram nos 16-avos de final, avançando com uma goleada por 6 a 2 sobre o CSKA Sofia. Nas oitavas, os catalães também não deram chances a um tarimbado time do Milan, com dois triunfos e 7 a 1 no placar agregado. Já outro sinal de que o time de Helenio Herrera poderia sonhar com a taça continental ocorreu nas quartas de final. O Wolverhampton vivia uma década gloriosa, mas tomou de 4 a 0 no Camp Nou e de 5 a 2 no Estádio Molineux. O Barça servia como uma sombra.

Neste momento, também surgia uma possibilidade de reviravolta no Campeonato Espanhol. O Real Madrid ia bem, com um tropeço ou outro. Só que o Barcelona ganhou impulso e, em janeiro, iniciou uma sequência de vitórias. Quando o confronto direto aconteceu, a cinco rodadas do final da Liga, os blaugranas haviam acabado de destroçar o Wolverhampton e chegaram babando para o clássico no Camp Nou. Dois pontos à frente, os merengues tinham sofrido uma goleada por 4 a 1 para o Sevilla duas semanas antes e precisavam ao menos do empate para que a liderança não escapasse. Não foi possível. Os madridistas tentaram jogar de maneira mais resguardada e não evitaram a derrota por 3 a 1 na Catalunha, com um início de segundo tempo voraz dos anfitriões.

Graças àquele triunfo, com o mesmo número de pontos, o Barcelona assumiu a liderança de La Liga pelo “goal average” – a divisão dos gols anotados pelos gols sofridos. Restavam mais quatro rodadas e, por mais que os merengues tenham vencido todos os seus compromissos a partir de então, também viram os rivais manterem a dianteira. Em 17 de abril de 1960, com uma goleada por 5 a 0 sobre o Zaragoza, o time de Helenio Herrera se sagrou bicampeão espanhol pelos critérios de desempate. Parecia possível uma troca de reis também na Europa, já que quatro dias depois aconteceria o primeiro Real x Barça pelas semifinais da Champions, dentro do Bernabéu.

Apesar da vantagem de atuar em casa, o Real Madrid deixava desconfianças. A situação era turbulenta, e não apenas pelo título nacional dos rivais. Fleitas Solich apresentou seu pedido de demissão antes da última rodada de La Liga. O paraguaio justificava as dificuldades para lidar com as lideranças nos bastidores. “El Brujo” não implementou com sucesso o 4-2-4, entre a maneira como a defesa se expunha e o rendimento mais baixo de Di Stéfano. Além disso, a imprensa questionava a carga de treinos dos merengues, afirmando que a equipe não estava tão bem fisicamente quanto o Barcelona e que a “concepção sul-americana” do treinador era incompatível com a Europa, por “confiar mais no talento natural que na preparação física”. Solich receberia elogios pelo cavalheirismo no adeus, mas também críticas públicas – inclusive de Puskás, que o tratou como um “sessentão ultrapassado”.

Da mesma maneira, Didi não permaneceu em Chamartín. O craque teve inúmeros problemas no novo clube, sem se aclimatar à Espanha. Seu próprio estilo de jogo não se encaixou tão bem à velocidade proposta pelos merengues e o carioca não era alguém que se curvava ao gênio de Di Stéfano, gerando atritos com o dono dos vestiários, que se incomodava por dividir os holofotes com o novo “galáctico”. O armador enfrentou ainda problemas físicos e passou três meses sem atuar no início de 1960. Voltou apenas para a última rodada do Campeonato Espanhol, em sua despedida com a camisa branca. Seu nome seria especulado por Santos e Boca Juniors, antes de acertar o retorno ao Botafogo.

O Real Madrid buscou uma solução caseira para o comando técnico. A equipe seria assumida por Miguel Múñoz, antiga bandeira merengue e capitão nos dois primeiros títulos da Champions. O meio-campista foi cotado para dirigir o time antes da chegada de Luis Carniglia e chegou a substituir o argentino por alguns meses no primeiro semestre de 1959. Depois disso, passou à frente do Plus Ultra (nome da filial madridista na época) e se tornou uma escolha natural para ocupar a lacuna deixada por Fleitas Solich. Não evitou que a taça escapasse na última rodada do Campeonato Espanhol, mas tentaria reerguer o grupo na semifinal europeia. Para tanto, recebeu também o reforço de Luis del Sol, armador que vinha de boas temporadas com o Betis e ficaria com a vaga de Didi.

O Barcelona podia vir em um momento mais confiante, com uma invencibilidade de 17 partidas, incluindo 15 vitórias. Do outro lado, de qualquer maneira, estava um Real Madrid experiente e também mordido para dar a volta por cima. Foi o que aconteceu no Bernabéu, durante a primeira batalha pelas semifinais da Champions. Num duelo que começou nervoso e com arbitragem confusa, os merengues se encontraram antes e abriram o caminho à vitória desde o primeiro tempo. Puskás faria a diferença, primeiro em cruzamento para Di Stéfano inaugurar o placar, depois em chute colocado que ampliou a vantagem. Antes do intervalo, o Barça voltou ao jogo com um tento de Eulogio Martínez. Mas, a cinco minutos do apito final, Di Stéfano definiu o triunfo por 3 a 1 dos blancos.

Se aquela não foi a vitória mais impressionante do Real Madrid, embora merecida, os tetracampeões europeus encheriam os olhos em pleno Camp Nou. O Barcelona não perdia um jogo oficial em seu estádio desde fevereiro de 1958. Independentemente disso, os merengues repetiram o placar de 3 a 1, diante de 80 mil catalães. Por mais que os blaugranas tenham começado bem, o primeiro gol de Puskás passou a definir a história aos 25 minutos. Paco Gento ampliou no segundo tempo e Puskás faria o terceiro, quando o goleiro Antoni Ramallets já se desdobrava para evitar um estrago maior. Apenas nos últimos instantes é que Sándor Kocsis descontou aos anfitriões. A esta altura, porém, a torcida da casa já aplaudia as jogadas de Di Stéfano e se despediu dos rivais com uma ovação em reconhecimento. Apesar do bicampeonato espanhol, aquela derrota abreviaria a passagem de Helenio Herrera pela Catalunha.

O Real Madrid cresceu na hora certa. Miguel Muñoz tinha ótima relação com seus antigos companheiros e era uma voz respeitada nos vestiários, o que fazia toda a diferença. Dentro de campo, os merengues voltaram a exibir mais solidez defensiva com seu 3-2-5 e o ataque recuperava o seu dinamismo. Era um time competitivo e objetivo, mas sem perder o refinamento. Di Stéfano, apontado como um craque em declínio aos 33 anos, provava que poderia fazer muito mais. E a própria entrada de Del Sol surtiu um efeito imediato, entendendo-se muito bem com os novos companheiros, em especial com Canário pelo lado direito. Passado o fantasma do Barcelona, o pentacampeonato europeu seguia possível. Mas nada aconteceria de mão beijada, com o Eintracht Frankfurt a caminho de Glasgow.

Em tempos nos quais o Campeonato Alemão Ocidental ainda se dividia em ligas regionais, o Eintracht Frankfurt sobrou na temporada 1958/59. As Águias faturaram a Oberliga Süd com certa tranquilidade, até voarem na fase final. Durante o quadrangular semifinal, o time venceu seus seis jogos e anotou 26 gols. Já na decisão, o resultado dentro do Estádio Olímpico de Berlim foi mais apertado diante do Kickers Offenbach, seu rival regional. O duelo terminou empatado em 2 a 2 durante os 90 minutos, antes que o Frankfurt vencesse por 5 a 3 na prorrogação. Era a primeira taça nacional da agremiação. Destaques na final, os atacantes István Sztáni e Eckehard Feigenspan acabaram saindo do time nos meses seguintes. Apesar disso, a equipe era jovem e coletivamente forte, com outras ótimas peças ofensivas. Paul Osswald, o técnico, tinha uma vasta experiência e muito rigor em seu trabalho.

Mesmo sem lutar pelo bicampeonato alemão-ocidental em 1959/60, o Eintracht Frankfurt impôs respeito na Champions. Iniciou sua trajetória eliminando Young Boys e Wiener Sport-Club, sem sofrer derrotas. Mas nada equivalente ao massacre nas semifinais contra o Rangers, incensado como um dos times mais fortes do Reino Unido. As Águias ganharam por 6 a 1 no Waldstadion e, não contentes, ainda emplacaram um 6 a 3 dentro de Ibrox. O ponta esquerda Erich Meier e o centroavante Erwin Stein, contratados para os lugares de Sztáni e Feigenspan, estiveram justamente entre os destaques daqueles duelos. Seria um oponente duro ao Real Madrid.

Miguel Muñoz não teve muito tempo para trabalhar, mas encontrou sua formação ideal ao Real Madrid logo de cara. O goleiro era Rogelio Domínguez, argentino que tinha colocado o antigo capitão Juan Alonso no banco. A defesa era liderada por Pepe Santamaría, um zagueiro muito seguro e de qualidade, acompanhado pelo novato Pachín e por Marquitos – o avô de Marcos Alonso, que atuava pelo lado direito da zaga e iria à sua quarta decisão europeia como titular. Já na cabeça de área, José María Zárraga era o antigo companheiro de Muñoz no setor e, cria da base, herdou a braçadeira. Atuava por ali ao lado de José María Vidal, uma das novidades daquela temporada.

Os holofotes, entretanto, ficavam mesmo ao ataque. Canário pouco tinha jogado até então, preterido por Jesús Herrera na ponta direita, mas ganhou a posição na volta da semifinal contra o Barcelona e seguiu também para a decisão. Já na ponta esquerda, Paco Gento era intocável. Dono de enorme habilidade, o espanhol ia para a sua quinta final como titular – um dos únicos, ao lado de Zárraga e Di Stéfano. Del Sol chegara pouco antes, mas vestia a camisa 8 que havia sido de Didi sem sentir o peso da responsabilidade. A 9 ficava com Di Stéfano, teoricamente o centroavante da equipe, mas livre para transitar por onde bem entendesse e praticar seu protótipo do “futebol total”. Já a 10 ornava as costas de Puskás, homem de poucos toques e muito poder de definição.

O Eintracht Frankfurt não era um time que costumava ceder muitos jogadores à seleção alemã-ocidental na época, mas tinha bons nomes. O capitão Hans Weilbächer era o destaque do sistema defensivo, ocupando a cabeça de área. Não desistia dos combates e também era o responsável por fazer os lançamentos ao ataque. Já na frente, aparecia o quinteto que brilhava na Champions. A camisa 10 ficava com Alfred Pfaff, reserva no título mundial de 1954, com um jogo mais classudo e qualidade nos passes. O armador se posicionava à esquerda, onde Erich Meier surgia como um ponta arisco. O lado direito parecia ainda mais forte, com as combinações entre o meia Dieter Lindner e o ponta Richard Kress, que alternavam suas posições. Já o centroavante Erwin Stein tinha presença de área, mas se movimentava bastante e dava opções aos companheiros.

Em Glasgow, as expectativas eram grandes antes da decisão. O histórico Hampden Park não apresentava condições tão boas mesmo para a época, mas teria lotação máxima, com todas as 135 mil entradas vendidas. Segundo o jornal ABC, os preços eram “altíssimos”, mas ainda assim os ingressos se esgotaram: a organização da partida cobrou de £0,25 a £2,5 pelas entradas – valores que, corrigidos, ficam entre £5,8 e £58 hoje em dia. As bilheterias quebraram o recorde de arrecadação na Europa até então. Já na televisão, a transmissão atingiu um público de 70 milhões de pessoas. Através da Eurovision, uma rede de colaboração reunindo emissoras de diferentes países, as imagens da BBC se espalharam pelo continente.

O Real Madrid despertava natural curiosidade entre os espectadores, por todo o seu poderio no período e por seus craques renomados. Mesmo assim, a imprensa local apontava a preferência dos torcedores escoceses pelo Eintracht Frankfurt, não apenas por serem os azarões, mas também por terem batido o representante do país nas semifinais. Já os jornais alemães-ocidentais, por mais que não negassem a força merengue, tratavam como possível um “milagre igual ao de Berna” – comparando o clube com a Mannschaft que desbancou a favoritíssima Hungria na final da Copa em 1954.

Puskás era o elemento em comum entre as duas finais. E o atacante estaria no centro das atenções em Glasgow. Após fugir da Hungria e conseguir asilo na Espanha, muitos achavam que o velho craque não atuaria mais em alto nível – inclusive ele mesmo. O Major Galopante tinha passado dos 30 anos e, com propensão a engordar desde o auge, apresentava uma exuberante pança. O presidente Santiago Bernabéu, no entanto, confiou em seu talento e não demorou a ver sua aposta se pagar. Puskás empilhava gols, sem perder o poder de sua canhota. Mas, barrado na decisão de 1959, esperaria sedento pela oportunidade em 1960.

Antes de entrar em campo, contudo, Puskás precisou resolver um entrave diplomático. Após a derrota na final de 1954, o craque da Hungria fez acusações pesadas contra a Alemanha Ocidental, sobretudo ao afirmar que os jogadores adversários estavam dopados. A partir de então, a federação alemã-ocidental passou a proibir que seus clubes enfrentassem qualquer equipe que incluísse o atacante em campo. Para evitar um incidente antes do jogo em Glasgow, o veterano escreveu uma carta à federação pedindo desculpas, selando as pazes e fazendo cair o veto.

Com Puskás no ataque, o Real Madrid poderia se sentir mais confiante. E por mais que os merengues não fossem de menosprezar qualquer adversário, jogando em máxima intensidade todos os seus compromissos, a equipe pareceu meio anestesiada no Hampden Park. O estádio estava completamente abarrotado, também com policiais e jornalistas tomando a beirada do campo. Naquele clima surreal, os madridistas até foram responsáveis pelo primeiro ataque, mas o Eintracht Frankfurt começou bem melhor a final.

Os primeiros 20 minutos da decisão nem parecem relativos a um jogo que terminou com o placar de 7 a 3 ao Real Madrid. O Frankfurt fazia uma excelente partida, encarando de frente os tetracampeões continentais. Logo no primeiro minuto, o ponta Meier cruzou uma bola venenosa e o goleiro Domínguez se desdobrou para salvar, com o tiro batendo depois no travessão. Os espanhóis apresentavam um jogo de bola no chão, alinhando seus cinco atacantes para construir as jogadas e romper a defesa adversária. Os alemães-ocidentais confiavam bem mais na ligação direta, com correria e investidas pelas pontas.

Num duelo em que os dois times jogavam sempre para frente, o Eintracht Frankfurt desequilibrava pelas ações com sua dupla no lado direito – o meia Lindner e o ponta Kress. Marquitos precisou cortar uma bola na pequena área, enquanto Domínguez seguia sobrecarregado. Meier faria outra linda jogada pela esquerda, arrancando com tudo e criando alvoroço na marcação. Por mais que a qualidade técnica do Real Madrid ficasse evidente a cada vez que o time pegava a bola, o Frankfurt merecia mais o resultado. Assim aconteceu, aos 18 minutos. O lance do primeiro gol dependeu de uma dividida de Kress no campo de ataque. Lindner recebeu e o centroavante Stein abriu na direita, feito um ponta. Cruzaria para a passagem de Kress, que correu ao meio da área e completou.

O gol provava a capacidade do Eintracht Frankfurt. Em compensação, também seria a perdição das Águias, depois que o Real Madrid acordou para a partida. Di Stéfano se dispunha a mostrar que seu fim ainda estava distante. A Flecha Loira já não era mais flecha em sua velocidade, mas transitava por todo o campo, servindo de fio condutor ao jogo merengue. Voltava para buscar a bola na defesa, abria espaço por toda a intermediária, dava passes aos quatro companheiros de frente. Por vezes o craque era um tanto quanto egoísta, a ponto de roubar a bola de um colega ou se recusar a tocar ao avanço de um defensor. Mas não se negava a habilidade, especialmente em seus dribles de corpo, passando os pés sobre a pelota e enganando os adversários se sua próxima ação aconteceria com a direita ou com a esquerda.

O Real Madrid cresceu e empatou aos 27 minutos. Puskás fez uma boa inversão, da esquerda para a direita, em direção a Canário. O brasileiro não vinha bem no jogo e errou alguns lances nos primeiros minutos, mas despertou naquele instante e decidiu quando a equipe mais precisava. Partiu para cima da marcação, entortou o adversário e fez o cruzamento. Ninguém interceptou e Di Stéfano completou no segundo pau. A partir daquele tento, os merengues se encheram de segurança. Del Sol nem parecia em sua quarta partida oficial, muito habilidoso, driblando e coordenando o ataque. Já a confiança em Gento era expressa, com o ponta muito procurado para criar as jogadas nos arredores da área. O estilo abusado falava por si.

O ponta esquerda contribuiu à virada do Real Madrid, aos 30. Seu cruzamento acabou afastado pela zaga, mas a sobra caiu nos pés de Del Sol. O reforço dominou e passou a Canário a seu lado. O brasileiro chutou de três dedos, de primeira. O tiro surpreendeu o goleiro Loy, que não conseguiu segurar a bola e soltou o rebote na pequena área. Di Stéfano, o onipresente, também estava ali e não perdoou. Os merengues traziam outros ares à final. Estavam mais acesos, mais imponentes, mais impetuosos. Colocavam-se no campo de ataque e mal deixavam o Frankfurt respirar, ganhando as sobras.

Neste momento, ainda que não desse para imaginar a goleada, a vitória categórica do Real Madrid se desenhava. Di Stéfano fazia sua reconhecida função de todo-campista, virando um cabeça de área a mais para defender, ditando o ritmo do jogo desde a zaga. O Eintracht Frankfurt até voltaria a apertar seu passo, chegando com perigo no ataque, mas finalizava mal. Não exibia o encantamento do Real Madrid. Gento era ousado em cada gesto, sobretudo no um contra um. Puskás fazia um jogo de espaços curtos, de domínio e toque, mas extremamente plástico por seus passes de canhota.

O terceiro gol parecia questão de tempo. Quase veio num contra-ataque puxado por Del Sol e Canário, com batida do brasileiro para fora. Depois, Gento deu um lindo toque de calcanhar no alto, em lance que gerou um chute desviado de Vidal que só parou na trave. E a comemoração viria já nos acréscimos, quando um escanteio do Frankfurt permitiu uma reposição longa de Domínguez. Puskás mandou uma bola cheia de categoria para Del Sol, que tentou o drible na área, mas foi travado. A pelota viria ao próprio Puskás, que tirou o marcador de sua frente e soltou um canhotaço no canto aberto do goleiro Loy. Era o primeiro do camisa 10, que mandava a bola onde bem entendesse em seus chutes teleguiados.

O segundo tempo voltou equilibrado. O Eintracht Frankfurt apostava suas fichas em um gol rápido e de novo veria Domínguez estragar seus planos, com uma defesaça em bomba de Meier. Puskás também arriscava de qualquer posição do outro lado. E os merengues acabariam presenteados com o quarto gol neste momento acirrado, aos 11 minutos. Puskás deu a enfiada e Gento tentava invadir a área quando o árbitro escocês Jack Mowat apitou o inexplicável pênalti, numa disputa ombro a ombro. Não era a primeira decisão discutível do juizão, que picotava demais a partida e invertia faltas. De qualquer forma, ele se superou ao assinalar o lance de mínimo contato, que deixava dúvidas também se acontecera dentro da área. Após longa conversa com o bandeirinha, ele confirmou a marcação.

Puskás não quis nem saber e ampliou a contagem com uma cobrança firme, sob muitas vaias do público no Hampden Park. O lance injusto não tirou o gás do Eintracht Frankfurt, que logo exigiria outra intervenção de Domínguez em boa jogada de Kress. Mas a chave do massacre tinha virado e o quinto gol já saiu quatro minutos depois, aos 15, quando as Águias pressionavam. Santamaría, um gigante no miolo da zaga, fez um desarme cirúrgico na área. O contragolpe nasceu a partir de então, puxado por Del Sol e Gento. Dono de enorme capacidade física, o ponta disparou até a linha de fundo e cruzou com força. Puskás estava na pequena área e nem precisou saltar para concluir de cabeça.

Tratado geralmente como um desconhecido sparring por esta goleada, aquele Eintracht Frankfurt precisa ser mais valorizado. Não só pela boa exibição de seu ataque, como também por sua postura, de nunca desistir e manter sempre sua honra. Mesmo o quinto gol não apequenou os alemães-ocidentais, que permaneciam em cima e teriam uma sequência de chances após lindo lance de Kress, culminando com uma bola no travessão. Só que aquela não era a noite dos alvirrubros. Aos 26, saiu o sexto gol do Real Madrid. Depois de um primeiro cruzamento afastado pela defesa, a bola veio a Puskás no meio da área. Fatal, o Major Galopante dominou e mandou o arremate cirúrgico no ângulo, como se fosse fácil.

O placar de 6 a 1 era injusto com o Frankfurt naquela altura. Não reconhecia o empenho ou mesmo as boas aparições de nomes como Erwin Stein, incansável na linha de frente. O centroavante assinalou seu merecido gol no minuto seguinte, em ótima trama. Stein fez um pivô inteligente e tabelou com Meier. Quando recebeu de volta, deixou o marcador no chão e bateu longe do alcance de Domínguez. Inebriadas pela breve alegria, as Águias abriram alas para o sétimo. Di Stéfano fez sua jogada característica e foi carregando pelo meio, pavimentando a avenida. Na entrada da área, o craque soltou o míssil e acertou o canto do goleiro Loy, que sequer reagiu. E na trocação incessante, o próximo ataque dos alemães-ocidentais renderia seu terceiro tento, o décimo da final. Lindner arrancou e passou. Vidal até pegou a bola, mas recuou mal e permitiu que Stein chegasse batendo por baixo de Domínguez.

E engana-se (muito) quem pensa que os 15 minutos finais no Hampden Park seriam apenas protocolares. Pelo contrário, a exibição de gala do Real Madrid realmente tomou forma na reta final, mesmo sem novos gols. Os merengues incorporaram um espírito de Harlem Globetrotters, para demonstrar o suprassumo da qualidade técnica no futebol. Foi um show: dribles curtos, linhas de passes, toques de efeito. “Aquele povo certamente apreciava o jogo. Foi um daqueles momentos felizes, em que todo o time parecia jogar brilhantemente e nós quase alcançamos um tipo de perfeição no futebol”, diria Puskás, ao repórter Syd Lowe, anos depois. A equipe de Miguel Muñoz ainda queria o oitavo.

Puskás quase marcou seu quinto gol, com uma cobrança de falta fechada que triscou na trave, antes de parar em defesa de Loy. Di Stéfano tentou uma bicicleta na área, sem pegar em cheio na bola. Na sobra, Gento conseguiu emendar um sem-pulo e quase fez seu golaço, acertando a base do poste. O Frankfurt ainda arriscava uma jogada ou outra, mas a defesa merengue permanecia muito atenta, chegando junto a cada combate. Zárraga liderava na cabeça de área. Pelo lado direito da zaga, Marquitos estava igualmente perfeito. E o grand finale madridista seria maldosamente negado pela trave – de novo. Lançado em velocidade, Di Stéfano saiu de frente para o gol e deu um toquinho por elevação para superar Loy. A Flecha Loira já tinha levantado os braços na comemoração, para só então perceber como faltariam centímetros à pintura. Se os sete gols no placar não traduzem a qualidade do Frankfurt, também são insuficientes para medir o poderio do Real.

Ao apito final, um barulho ensurdecedor tomou as arquibancadas. Os 135 mil presentes aplaudiam clamorosamente uma das maiores atuações da história do futebol. Não tinha como ser diferente. Puskás, com quatro gols, fez valer sua estreia na decisão da Champions. Di Stéfano não ficou atrás com sua tripleta, único merengue a balançar as redes em cada uma das cinco decisões durante o penta. Mas, ainda que tenham passado em branco, também mereciam um 10 os outros que engrandeceram o baile: Gento, Del Sol, Canário, Zárraga, Santamaría, Marquitos e até o goleiro Domínguez – que, afinal,  foi preponderante por suas defesas ao longo da noite. Sem vaidades, os jogadores do Frankfurt formaram um corredor para aplaudir os campeões na saída aos vestiários, depois que o capitão Zárraga ergueu a taça.

“Enquanto o triunfante Real Madrid dava a volta olímpica em campo, carregando o troféu que eles monopolizaram desde o início, um estranho emocionalismo transbordou da multidão, mostrando que o público não estava simplesmente entretido. Eles estavam comovidos pela experiência de ver o esporte praticado no mais alto nível. Os escoceses no estádio não conseguiam esconder como ficaram impressionados pela glória exibida diante deles. Na noite passada, o Real ostentou tudo o que o tornou incomparável. A liderança inabalável de Di Stéfano, a perfeição técnica de Puskás, a engenhosidade de Del Sol, a velocidade mortal de Gento, a objetividade fulminante de Canário. Escalar o Real é registrar a grandeza”, escreveu Hugh McIlvanney, um dos maiores cronistas de futebol no Reino Unido, ao jornal The Scotsman.

O técnico Miguel Muñoz avaliaria durante a saída do jogo: “Pouco tenho a dizer. O Madrid explicou com clareza sobre o campo como se realiza um grande futebol, apesar das circunstâncias adversas no começo. O moral conta muito, mas o moral é pouco se não vai acompanhado de grande classe, como a que têm os jogadores do Real Madrid”. Uma visão complementada por Pfaff, capitão do Frankfurt: “Temos que reconhecer a superioridade dos campeões da Europa. Resistimos ao máximo contra uma equipe formidável e os três gols que conseguimos provam isso. Não pudemos fazer mais, apesar de lutar até o final. Ao fim do encontro, rendemos a merecida homenagem a um digno vencedor. Ser batido por uma equipe como o Real Madrid não é nenhuma desonra”. Milhares de torcedores receberiam os campeões em Madri e veriam a exibição dos cinco troféus.

Vice-campeão da Copa do Rei um mês depois, derrotado pelo Atlético na decisão, o Real Madrid ampliaria o simbolismo daquela Champions ao conquistar também a primeira edição do Mundial Interclubes. Em setembro de 1960, após o empate em Montevidéu, os merengues golearam o Peñarol (o primeiro campeão da Libertadores) por 5 a 1 no Bernabéu e levaram o troféu inédito. Puskás e Di Stéfano novamente comandaram o triunfo, com dois gols do húngaro e um do argentino antes dos oito minutos. Seria também um adeus daquela geração aos grandes feitos internacionais.

A dinastia na Champions seria interrompida exatamente pelo Barcelona. Em novembro de 1960, o famoso gol de peixinho anotado por Evaristo de Macedo eliminou os merengues nas oitavas de final da competição europeia. Os blaugranas chegariam à final daquela edição, derrotados pelo Benfica. Já os merengues levaram um tempo para se recuperar. Sob as ordens de Miguel Muñoz, a equipe emendou o pentacampeonato espanhol, mas não repetiria a conquista continental de imediato. Os madridistas foram finalistas em 1962 e 1964, superados respectivamente por Benfica e Internazionale. A volta ao topo da Copa dos Campeões ocorreu em 1966. Após bater a Inter de Helenio Herrera nas semifinais, o Real levou a taça na decisão contra o Partizan. Gento e Pachín, além de Muñoz, eram os remanescentes de Glasgow.

A goleada por 7 a 3 no Hampden Park, ainda assim, ecoaria de diferentes formas nas décadas seguintes. Alex Ferguson era um dos garotos nas arquibancadas influenciados pela exibição histórica. A partida seria tratada como um tesouro na Escócia, exibida pela BBC a cada Natal, e também inspiraria os Leões de Lisboa campeões com o Celtic em 1967. O futebol do Real Madrid era parâmetro de ofensividade, que de certa forma respingaria na criação do Futebol Total. Além disso, não eram poucos os craques que tiveram Di Stéfano e Puskás como seus maiores ídolos. A noite mágica em Glasgow perdurou no imaginário de outros tantos triunfos dentro de campo. E ainda hoje vive como uma das maiores partidas de todos os tempos.