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Primeira e até agora única grande liga europeia a anunciar seu fim antecipado devido à crise do novo Coronavírus, a Ligue 1 teve uma temporada de algumas surpresas, para o bem ou para o mal, apesar da disputa pelo título ter seguido o script de sempre, com o PSG campeão. Com algum distanciamento e melhor perspectiva, a coluna Tout le Foot retorna para fazer um balanço da campanha 2019/20 do Francesão.

Para ter um panorama geral, nossos destaques incluirão a seleção da temporada, o melhor jogador, o melhor treinador, o time que mais surpreendeu e aquele que mais decepcionou, os rankings das principais estatísticas individuais, uma lista com os 10 gols mais bonitos e, por fim,  histórias paralelas ao terreno de jogo que ajudaram a escrever o capítulo mais recente da elite do futebol francês.

Seleção da Ligue 1 2019/20

Nossa seleção da Ligue 1 2019/20 não é teimosa no esquema. De acordo com as peças disponíveis, adaptamos para encaixar e potencializar os grandes destaques individuais da campanha e, portanto, chegamos a um 3-5-2.

No gol, um velho conhecido: Steve Mandanda, do Olympique de Marseille, viveu sua melhor temporada depois do fracasso na Premier League, na qual se aventurou pelo Crystal Palace. A defesa tem o veterano Thiago Silva, que, em sua possível temporada final em Paris, mostrou por que deverá ser lembrado como uma lenda do clube e um dos melhores defensores do mundo em sua geração.

Outro brasileiro figura no esquema com três zagueiros. Gabriel, do Lille, tem apenas 22 anos e, três anos depois de sua chegada ao clube do norte da França, explodiu de vez, atraindo interesse de clubes da Premier League, como Chelsea e Everton, e do Napoli, na Itália, entre outros.

Eduardo Camavinga tinha apenas 16 anos quando, no começo da temporada, fez um jogo de gente grande contra o PSG, dando assistência e mostrando uma segurança e uma postura incomuns para alguém tão jovem. Ao longo da temporada, reforçou as expectativas sobre seu futebol, e não é surpresa alguma que esteja sendo tão fortemente ligado a uma transferência para o Real Madrid.

No setor ofensivo, Di María seguiu desempenhando com excelência seu papel de coadjuvante de brilho. Termina a temporada como maior assistente da liga, anotando belos gols no meio do caminho e sendo mais uma vez essencial ao jogo parisiense. Neymar, mesmo perdendo parte da temporada por lesão, teve atuações à altura de seu renome e ganha a vaga mais central no tridente que fica atrás dos atacantes. Dimitri Payet, veterano, foi peça fundamental na surpreendente campanha de vice-campeonato do Marseille, com golaços, assistências e o requinte único que tem com a bola nos pés, e fecha o trio de ligação ao lado dos parisienses.

Para encerrar, o ataque traz simplesmente os dois artilheiros da competição: Kylian Mbappé, que mesmo não estando em seu melhor nível já apresentado, balançou as redes com frequência, e Ben Yedder, que retornou à França depois de três anos no Sevilla, e deixou claro o forte impacto que pode ter não só com seu faro de gols, mas também com seu ritmo e habilidade destacáveis.

A seleção da Ligue 1 2019/20, em um 3-5-2: Steve Mandanda (Olympique de Marseille); Gabriel (Lille), Yunis Abdelhamid (Reims) e Thiago Silva (PSG); Eduardo Camavinga (Rennes) e Marco Verratti (PSG); Ángel Di María (PSG), Neymar (PSG) e Dimitri Payet (Olympique de Marseille); Kylian Mbappé (PSG) e Wissam Ben Yedder (Monaco).

Melhor jogador

Neymar (PSG)

Neymar, do PSG (Getty Images)

Depois de um verão europeu agitado, em que quase voltou para o Barcelona, Neymar se viu forçado a ficar no PSG e a mudar sua perspectiva. Depois de um começo longe de seu melhor, voltando de lesão, ainda assim deixou seus gols, contribuindo para vitórias importantes do PSG. Em outubro, mais uma contusão atrapalhou sua retomada, mas, de novembro em diante, seu melhor futebol aflorou.

Especialmente entre o fim de novembro de 2019 e os primeiros meses de 2020, Neymar mostrou nível suficiente para ser, com justiça, especulado como um forte candidato ao título de melhor do mundo. Em um intervalo específico de dez jogos, teve participação direta em 19 gols, com 11 tentos e oito assistências em todas as competições. Os números gerais na Ligue 1 foram de 13 gols e seis passes para tentos dos companheiros em apenas 15 jogos. Uma amostragem pequena, mas tão potente que o tornam a escolha mais racional para o topo do pódio no Campeonato Francês.

Melhor treinador

André Villas-Boas (Olympique de Marseille)

André Villas-Boas, do Olympique Marseille (Foto: Getty Images)

O português surgiu no Porto como um dos grandes técnicos para o futuro, mas fracassou no Chelsea e no Tottenham e, evidentemente, não foi em Zenit ou Shanghai SIPG que recuperou sua reputação construída ainda no início dos anos 2010. Depois de quase dois anos afastado do futebol, incluindo no período uma participação no Rally Dakar em 2018, assumiu o Olympique de Marseille para um objetivo ambicioso de chacoalhar sua trajetória e também a história recente do gigante francês. O sucesso foi imediato e, mesmo com limitações financeiras, que causaram, por exemplo, a saída de Balotelli antes do início da campanha, conseguiu levar os Phocéens a um excelente segundo lugar e à consequente classificação para a Champions League depois de sete anos.

Time surpresa

Olympique de Marseille

Nada indicava que o Marseille viria para esta temporada como uma das equipes a brigar pelo “título” de segundo colocado da Ligue 1. A campanha passada mostrava uma equipe sem identidade de jogo, que frequentemente se adaptava ao adversário e jogava em transições rápidas. A perda de peças sem a devida reposição piorava o panorama. Entretanto, Villas-Boas chegou para mostrar a diferença que um bom treinador faz a uma equipe.

O português deu ao OM suas próprias ferramentas para as partidas, e o time deixou de ser apenas reativo. As contratações foram pouquíssimas no início da campanha, apenas duas (além da chegada por empréstimo de González), mas a colheita foi precisa. Rongier e Benedetto tiveram impacto imediato e, ao lado de Mandanda, Payet e Kamara, formaram a espinha dorsal da equipe. No fim, a classificação à primeira Champions League em sete anos veio de forma confortável. Segundo colocado, o Marseille teve distância de seis pontos para o terceiro colocado, o Rennes, com 28 rodadas, quando a competição foi declarada encerrada devido à crise do Coronavírus.

Time decepção

Lyon

Sylvinho, ex-técnico do Lyon (Getty Images)

É verdade que, após as vendas de Fekir, Ndombélé e Ferland Mendy, o Lyon precisaria se adaptar para encontrar seu melhor futebol. Além do mais, vinha em uma transição importante no comando do futebol, com Juninho assumindo o cargo de diretor técnico e contratando o inexperiente Sylvinho como treinador. As expectativas eram grandes, diante da estatura que o Reizinho alcançou ainda como jogador no OL, mas na prática os primeiros meses foram de bastante dificuldade. Sylvinho pouco durou no comando, foi substituído por Rudi Garcia, e este demorou para encontrar a melhor cara para o time. O Lyon ainda sofreu com as lesões de Memphis Depay e Jeff Reine-Adelaïde e, justamente quando parecia começar a se encontrar, com a chegada de Bruno Guimarães tendo seu peso nisso, o futebol teve que ser paralisado. Com o elenco que tem em mãos, uma torcida apaixonada e numerosa e investimento maior que a média do campeonato, o sétimo lugar na classificação foi uma grande decepção ao time lyonnais.

Destaques nos números

Gols

Kylian Mbappé (PSG) – 18

Wissam Ben Yedder (Monaco) – 18

Moussa Dembélé (Lyon) – 16

Victor Osimhen (Lille) – 13

Neymar (PSG) – 13

Assistências

Ángel Di María (PSG) – 14

Islam Slimani (Monaco) – 8

Yoann Court (Brest) – 7

Pierre Lees-Melou (Nice) – 6

Neymar (PSG) – 6

Jogos sem sofrer gols

Predrag Rajkovic (Reims) – 12

Steve Mandanda (Olympique de Marseille) – 12

Mike Maignan (Lille) – 12

Keylor Navas (PSG) – 11

Ludovic Butelle (Angers) – 11

Gols mais bonitos

Arnaud Souquet (Montpellier) x Lyon

Neymar (PSG) x Strasbourg

Luiz Araújo (Lille) x Nice

Di María (PSG) x Nice

Paul Lasne (Brest) x Dijon

Hianga’a Mbock (Brest) x Toulouse

Neymar (PSG) x Lille

Dimitri Payet (Olympique de Marseille) x Saint-Étienne

Ibrahima Niane (Metz) x Bordeaux

Rubén Pardo (Bordeaux) x PSG

Histórias paralelas

Partidas paralisadas por cantos homofóbicos

Bandeira LGBT de escanteio (Foto: Getty Images)

Antes do início da temporada europeia, a Fifa reforçou suas recomendações para que partidas fossem paralisadas em casos de cantos homofóbicos vindos das arquibancadas. Um dos lugares que melhor empregaram as novas medidas foi a França, e as primeiras rodadas da Ligue 1 foram marcadas por finais de semana seguidos de jogos sendo paralisados até que os insultos discriminatórios parassem. Parte das torcidas francesas se incomodou com as paralisações, enquanto outras, como os ultras do Bordeaux, apoiaram as decisões, cada lado levantando suas faixas para expressar seu posicionamento.

Por fim, uma reunião liderada pela LFP, organizadora do campeonato, com representantes das torcidas colocou os pingos nos is, e os episódios cessaram – ou ao menos deixaram de ser tão rigorosamente vigiados por árbitros e opinião pública.

Protesto dos torcedores do Bordeaux à beira do gramado

Se dentro de campo a temporada do Bordeaux não teve nada de notável, fora dele, a coisa pegou fogo – ao ponto de transbordar justamente para o próprio campo. Em conflito com a direção ao longo de toda a campanha, os ultras girondinos intensificaram seus protestos em dezembro de 2019, culminando em uma cena incomum: durante a partida contra o Nîmes no Estádio Matmut Atlantique, um grupo de alguns torcedores invadiu a beira do gramado para expressar seu descontentamento com a confusa liderança do clube, dividida entre diferentes acionistas e imbuída por um desejo comercial para a instituição que não foi nada bem recebido pelos torcedores.

Com a recusa dos invasores em deixar o gramado, o capitão do Bordeaux, Benoît Costil, foi até eles, como representante dos girondinos, e chegou a entrar em um dos corredores do estádio com um par de torcedores para resolver a situação. A partida ficou paralisada por 30 minutos pelo incidente.

O alvo principal era Frédéric Longuépée, hoje presidente e líder único da direção, depois de resolvida a questão entre os acionistas com a venda por parte de um dos grupos. A cisão, no entanto, continua. Longuépée representa o fundo de investimentos King Street, que não parece muito interessado no crescimento esportivo da equipe, ainda sem um plano claro de desenvolvimento para os próximos anos. Com vazamentos de áudios de reuniões da direção entre dezembro e março, feitos pelos próprios ultras, essa briga ainda será tópico de conversa no futebol francês por pelo menos mais uma temporada, com o presidente afirmando no início desta semana que iria prestar queixa contra o grupo de torcedores.

Relação entre Neymar e a torcida do PSG

Além de seus feitos dentro de campo, Neymar foi história na Ligue 1 também por sua relação com a torcida do PSG. Evidentemente, sua vontade expressa de deixar o clube irritou os torcedores, sobretudo os membros de grupos de ultras, e a tensão era palpável no início da temporada. Com faixas, cantos e publicações, os parisienses insultaram constantemente o brasileiro durante as primeiras semanas da campanha 2019/20. Neymar sabia que apenas seu futebol poderia reverter isso, aliado com uma mudança de estratégia de comunicação de sua própria parte.

Resignado em ficar em Paris e vendo que morar na capital francesa não é lá tão ruim, o brasileiro lentamente reconquistou o torcedor. Fora de campo, nada de grandes polêmicas. Dentro dele, liderança e, sobretudo, futebol de altíssimo nível. O craque entendeu que a melhor estratégia seria o foco completo no esporte. Essa passagem acabou, por fim, ritualizada na nova comemoração de gols de Neymar, abaixando a cabeça, silenciando os ruídos e buscando equilíbrio.

Neymar, do PSG

Em meados de janeiro, ficou claro que a ruptura anterior estava superada. Depois de uma vitória por 4 a 1 sobre o Amiens no Parque dos Príncipes, comemorando um dos gols do jogo, Neymar foi aclamado por quase todo o estádio, incluindo parte significativa dos ultras. O próximo capítulo desta relação, mais do que nunca, está nas mãos do brasileiro.

Turbulência política do Olympique de Marseille

Paralelamente à campanha esportiva positiva, o Olympique de Marseille viveu momentos de turbulência em seus corredores, e as repercussões parecem estar apenas começando. Em janeiro, o clube contratou o inglês Paul Aldridge, de experiência no futebol de seu país, como conselheiro especial, com o objetivo de facilitar a negociação de jogadores para a Premier League, um escape financeiro a um clube que busca equilibrar suas contas.

A chegada de Aldridge gerou problemas imediatos. André Villas-Boas, técnico responsável pela transformação dentro de campo, deixou clara sua insatisfação com a situação, evocando sobretudo o que isso significaria para Andoni Zubizarreta, diretor de futebol que o convenceu de se juntar ao projeto phocéen.

“Vim para cá, primeiro, pela grandeza do clube. Segundo, pelo Zubi. Eu disse que meu futuro estava intimamente ligado ao futuro dele”, alertou Villas-Boas à época.

Zubizarreta, Villas-Boas e Eyraud (Getty Images)

Na semana passada, Zubizarreta teve, por fim, sua saída anunciada pelo OM, o que coloca em dúvida a continuidade de Villas-Boas. A imprensa portuguesa já escreve que ele deverá se mandar, o que seria um grande golpe às pretensões esportivas do clube.

É complicado comentar a situação com o olhar de fora, mas ambos os lados nesta luta têm sua razão. Villas-Boas por ter se juntado a um projeto que tinha como líder Zubizarreta e ser surpreendido com a chegada de um novo dirigente para borrar as linhas da hierarquia do clube, e Jacques-Henri Eyraud por procurar priorizar o lado financeiro de uma instituição que vinha quase quebrada e que caminha sobre gelo fino para não violar o Fair Play Financeiro.

Pressão de Jean-Michel Aulas contra o fim antecipado da Ligue 1

Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon (Divulgação)

As histórias paralelas da temporada francesa não poderiam deixar de fora Jean-Michel Aulas, icônico presidente do Lyon, e o dirigente fez questão de cavar seu espaço com estilo. Diante da decisão do governo francês, anunciada pelo primeiro-ministro Édouard Philippe, de proibir todos os esportes profissionais até 1º de setembro, a Ligue 1 foi encerrada após apenas 28 rodadas, e Aulas liderou a resistência – pequena e cada vez mais enfraquecida.

Sentindo-se prejudicado, já que o Lyon acabou ficando de fora das competições europeias por seu sétimo lugar no campeonato, Aulas fez sugestões e mais sugestões de formatos para se finalizar a temporada, mas se viu derrotado. Ele não é um homem de largar o osso fácil, então entrou com recurso contra o encerramento da Ligue 1, ao lado de Toulouse e Amiens, os dois clubes rebaixados à Ligue 2.

O Tribunal Administrativo de Paris, em decisão anunciada nesta sexta-feira (22), recusou a apelação, e agora resta aos clubes apenas uma instância: o Conselho de Estado, responsável pela regulação de entidades com jurisdição nacional. Uma batalha cada vez mais improvável, mas que estende os capítulos da Ligue 1 2019/20.

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