Os craques e a Copa de 50 segundo José Lins do Rego, um romancista apaixonado por futebol

Um dos principais escritores brasileiros na primeira metade do Século XX, José Lins do Rego também foi colunista do Jornal dos Sports, de Mário Filho

“Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um pobre-diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver o meu clube campeão de tudo”.

As definições autobiográficas foram escritas por José Lins do Rego em 1947. E o breve trecho serve para explicitar a paixão do autor pelo futebol. Zé Lins, como costumava ser chamado, deixou uma obra riquíssima à literatura brasileira na primeira metade do Século XX. Os livros do paraibano retratam a brasilidade em um país que ainda lidava com os entraves da transição entre o Império e a República. Descreveu como poucos a realidade de seu Nordeste, entre a decadência do Ciclo da Cana e o início do Ciclo do Cangaço. Seus romances, como ‘Menino de engenho’ e ‘Fogo morto’, se tornaram verdadeiros clássicos. Embora tivesse uma base cultural imensa, o menino criado no engenho sabia valorizar as raízes locais e as lutas sociais que presenciou ao longo da vida. E até levou o futebol à literatura. ‘Água mãe’, de 1941, traz como protagonista Joca, um garoto pobre que foge da miséria ao se tornar jogador de futebol, defendendo grandes clubes e a Seleção, mas interrompe a carreira repentinamente. De certa maneira, o paraibano anteviu uma história que começava a ser real com o início do profissionalismo e se repetiria muitas vezes no futebol brasileiro.

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Em 1935, José Lins do Rego se mudou ao Rio de Janeiro, após ter vivido em diversas cidades do Nordeste – como João Pessoa, Recife e Maceió. E na então capital federal, pôde viver de maneira mais intensa sua relação com o futebol. Zé Lins era rubro-negro doente. Vivia próximo à sede do clube, onde costumava jogar suas partidas de tênis e assistir aos treinos do time de futebol. No entanto, o envolvimento do paraibano com o esporte era ainda maior. Chegou a ser membro da diretoria rubro-negra, foi condecorado como sócio-proprietário do clube e fazia parte de um grupo influente nos bastidores, os Dragões Negros, que se reuniam na tradicional Confeitaria Colombo. Além disso, em 1943, o escritor acabou eleito ao cargo de secretário-geral da CBD, no qual permaneceu até 1954, chefiando inclusive delegações da Seleção em competições internacionais.

E, como era de se esperar, o envolvimento de José Lins do Rego com o futebol também se enveredou pelas letras. De março de 1945 a julho de 1957 atuou como cronista do Jornal dos Sports, o periódico de Mário Filho. Assinando uma coluna diária sobre o esporte, o paraibano deixou um legado de mais de 1,5 mil textos. Só abandonou a função quando uma grave enfermidade no fígado já comprometera a sua saúde, falecendo semanas depois, em setembro de 1957. Em seu enterro, como era de se esperar, o caixão foi coberto por uma bandeira do Flamengo.

A obra de Zé Lins no jornalismo esportivo carrega muitos traços de seus romances literários. A paixão sempre acompanhou as suas linhas, assim como o escritor valorizava o mais puro de brasilidade nos traços culturais. Os personagens de seus textos, além dos próprios ídolos do esporte, também eram seus amigos. Outros autores e dirigentes, mas também gente humilde de seu cotidiano. A rivalidade era retratada de maneira leve, a partir dos diálogos com o garçom vascaíno ou com o livreiro tricolor.

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Obviamente, José Lins do Rego não escondia o seu fervor pelo Flamengo nas crônicas. Mais do que torcer, ele exaltava o caráter popular da torcida rubro-negra e a mistura que se dava na massa. No entanto, os textos do paraibano não eram de interesse apenas de flamenguistas. Por isso, o escritor não deixava de reconhecer a grandeza dos outros clubes, celebrar os seus protagonistas, aplaudir as conquistas. Ainda que também desse as suas alfinetadas de maneira leve, como bem se esperava de um torcedor. Nada que atrapalhasse a qualidade de suas colunas no âmbito geral.

zé lins

Ao longo de sua passagem pelo Jornal dos Sports, Zé Lins viveu à plenitude anos áureos do futebol do Rio de Janeiro. Botafogo, Flamengo, Vasco e Fluminense, todos, contaram com esquadrões históricos no período. O escritor ainda presenciou a ascensão de uma grande seleção brasileira, embora frustrada de maneira tão eloquente na Copa do Mundo de 1950. Também discutiu a construção do Maracanã e a interferência política do governo sobre o esporte, por mais que estivesse inserido na estrutura do poder. O cargo não era prerrogativa para que o colunista aliviasse nas críticas.

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Além disso, chama a atenção as posições firmes de José Lins do Rego sobre o futebol além das quatro linhas. O autor se posicionava contra o passe que tornava o jogador “escravo” de um clube, mas também reconhecia a fidelidade a uma camisa. Denunciava o racismo e outros tantos preconceitos que se davam na cancha ou nas ruas. Enquanto isso, não deixava de enfatizar a personalidade de seus retratados.

Nesta sexta, José Lins do Rego completaria 115 anos, se ainda estivesse vivo. Para homenagear o romancista e cronista esportivo, reproduzimos sete de suas crônicas no Jornal dos Sports, reunidas no livro ‘José Lins do Rego: Flamengo é puro amor’. Em quatro delas fala sobre alguns dos maiores craques da época. Nas três últimas, escreve sobre o antes e o depois da derrota para o Uruguai no Maracanazo. Agradecimentos especiais ao amigo e jornalista Emmanuel do Valle, pela generosidade com a obra.

O Caso Jair, de 05/02/1947

O Caso Jair

O Mestre Domingos, de 21/03/1947

O Mestre Domingos

Zizinho, de 23/04/1947

Zizinho

O Caso Ademir, de 01/08/1948

O Caso Ademir

Agora, os mais duros, de 15/07/1950

Agora, os mais duros

Hoje, de 16/07/1950

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A derrota, de 18/07/1950

A derrota