A Espanha é a melhor seleção do mundo. Não só pelos 29 jogos oficiais sem perder, nem por ser a atual campeã mundial e bicampeã europeia, mas pela consistência que apresenta nos últimos anos, conseguindo resultados, apresentando um futebol de imposição ao adversário e jogadores de alta classe. Só que, historicamente, a Espanha tem desvantagem no confronto com o Brasil. Além de ter mais vitórias no confronto direto, a Seleção Brasileira venceu os confrontos mais importantes entre as duas equipes, incluindo três decisões de título em categorias de base.

Elegemos os cinco jogos mais importantes entre as duas seleções que fazem a final da Copa das Confederações no domingo:

5. Brasil 1×0 Espanha

Mundial sub-17
Helsinki, 30/08/2003

O Brasil campeão Mundial sub-17 em 2003
O Brasil campeão Mundial sub-17 em 2003

A decisão daquele Mundial sub-20 tinha dois jogadores da seleção espanhola que estão na seleção espanhola até hoje. Cesc Fàbregas e David Silva foram titulares da seleção espanhola de então, que ainda tinha Jurado (ex-Atlético de Madrid e Schalke 04). Os espanhóis foram derrotados pelo Brasil que tinha o volante Arouca, o jogador que mais conseguiu sucesso na carreira. Mas ainda tinha o lateral direito Jonathan, atualmente encostado na Internazionale, que na época era meio-campista, o meia Ederson, atualmente na Lazio. O gol do título na vitória por 1 a 0 foi do zagueiro Leonardo, na época no Santos, que atualmente defende o Criciúma. O Brasil levou o título, mas a bola de ouro quem ganhou foi Fàbregas. Não por acaso, o melhor jogador e o artilheiro do torneio.

4. Espanha 0x1 Brasil

Mundial sub-20
Abu Dhabi, 19/12/2003

Brasil, campeão mundial sub-20 de 2003
Brasil, campeão mundial sub-20 de 2003

A Espanha chegou à final daquele Mundial sub-20 com um craque no elenco: Andrés Iniesta era o principal nome do time, que tinha Sergio Garcia, atacante atualmente no Espanyol, Manu del Moral, hoje no Sevilla, Gabi, atualmente no Atlético de Madrid, Ángel Arizmendi, que defende o Mallorca, e Juanfran, lateral que joga pelo Atlético de Madrid. Só mesmo Iniesta vingou a ponto de estar na atual seleção espanhola. E não foi suficiente.

A Espanha acabou derrotada pelo Brasil com o lateral direito Daniel Alves e o goleiro Jefferson, ambos ainda na Seleção Brasileira. Mas tinha outros jogadores que fizeram sucesso: Daniel Carvalho, então do Internacional, Dudu Cearense, Andrézinho, Nilmar, Dagoberto, Kléber, atualmente no Grêmio, Adriano, lateral hoje do Barcelona, e Fernandinho, meia do Atlético Parananese, ex-Shakhtar Donetsk, e recém contratado pelo Manchester City. Este último, aliás, fez o gol do título, já no final do jogo.

3. Espanha 3×1 Brasil

Copa do Mundo de 1934
Genoa, 27/05/1934

Brasil e Espanha na Copa do Mundo de 1934
Brasil e Espanha na Copa do Mundo de 1934

O Brasil foi com uma seleção amadora para a Copa. Bom, na prática todos eram profissionais, mas havia uma disputa no Brasil. A CBD era amadora e brigava para continuar assim, o que levou à criação da Federação Brasileira de Futebol (FBF), em 1933, onde os principais times se filiaram. Só que a FBF não era filiada à Fifa, portanto, só jogadores da CBD podiam ir à Copa.

A CBD aliciou os jogadores profissionais e saiu pelo Brasil “contratando”. O Palestra Itália escondeu seus jogadores para não perdê-los. O São Paulo acabou perdendo Luisinho, Armandinho, Sílvio Hoffman e Valdemar de Britto. Luís Luz e Patesko foram trazidos do Sul. Leônidas deixou o Vasco. A seleção se armou com “amadores” para ir até a Itália.

Os jogadores viajaram 13 dias de navio até chegar a Gênova. No dia seguinte à chegada, entraram em campo contra a Espanha. Há relatos que o Brasil foi prejudicado pela arbitragem, mas difícil de dizer. Os brasileiros reclamam de um chute de Leônidas salvo em cima da linha por Quincoces que teria sido com a mão. Reclama também do pênalti marcado para a Espanha, que Irarogorri converteu. Há quem diga que o toque de mão de Martim marcado pelo árbitro foi bola na mão. Lángara marcou o segundo gol espanhol, mas o pior ainda estava por vir.

O terceiro gol veio em uma lambança. O goleiro Pedrosa saiu do gol para defender uma bola fácil, mas escorregou, caiu, e viu Lángara marcar o terceiro. No segundo tempo, o Brasil até diminuiu o placar, em um chute de Patesko que o goleiro espalmou e Leônidas aproveitou para mandar para as redes. Depois, Luizinho acabou tendo um gol anulado por impedimento – novamente um lance discutido pelos brasileiros. Por fim, o árbitro Alfred Birlem ainda marcou um pênalti.  Valdemar de Britto bateu e perdeu. A Espanha avançou às quartas de final, onde seria eliminada pela anfitriã, Itália, em dois jogos (empate por 1 a 1 e derrota por 1 a 0). O Brasil ficou excursionando pela Europa – e tomaria um 8 a 4 da Iugoslávia, seis dias depois da eliminação.

2. Brasil 2×1 Espanha

Copa do Mundo de 1962
Viña del Mar, 06/06/1962

Nilton Santos dá um carrinho em Puskas, que na época defendia a Espanha, na Copa de 1962  (AP Photo, File)
Nilton Santos dá um carrinho em Puskas, que na época defendia a Espanha, na Copa de 1962 (AP Photo, File)

Um dos jogos mais importantes da campanha do Brasil na Copa de 1962. Na fase de grupos, o Brasil precisava vencer para avançar. E sem Pelé, machucado, o time teve que contar com mais do que a própria competência: a sorte e a arbitragem. O time era histórico, como todos sabem, com craques em várias posições. Só que isso não foi suficiente. Adelardo abriu o placar para a Espanha aos 35 minutos do primeiro tempo. A vantagem seria maior, se o árbitro não tivesse sido enganado por Nilton Santos. O lateral brasileiro fez falta em Enrique Collar, cpaitão da Espanha, dentro da área. O brasileiro deu um passo adianta, para dar a impressão que a falta foi fora da área. E o árbitro engoliu. A falta foi marcada fora da área.

Em outro lance absurdo, o atacante espanhol marcou um golaço de bicicleta, livre dentro da área. O árbitro marcou falta para o Brasil, em um tipo de marcação que poderia facilmente ser chamada de perigo de gol. Com dois erros capitais do árbitro, o Brasil conseguiria virar o jogo no segundo tempo com gols de Amarildo, aos 27 e aos 41 minutos. O Brasil avançou, a Espanha foi eliminada. A Seleção Brasileira conquistaria o seu segundo título mundial, mas não se pode esquecer que esse jogo, com muita ajuda da arbitragem, foi fundamental na campanha.

1. Brasil 6×1 Espanha

Copa do Mundo de 1950
Rio de Janeiro, 17/07/1950

Ademir de Menezes observa a bola entrar contra a Espanha, na goleada de 1950
Ademir de Menezes observa a bola entrar contra a Espanha, na goleada de 1950

O jogo mais importante já disputado entre Brasil e Espanha foi no mesmo palco da final da Copa das Confederações. Na Copa do Mundo de 1950, Brasil e Espanha se enfrentaram pela fase final, na segunda rodada. O Brasil, que tinha vencido o primeiro jogo desta fase, contra a Suécia, por 7 a 1, atropelou os espanhóis com um sonoro 6 a 1. Comandados por Zizinho, o time que tinha ainda Friaça e Chico enfiou uma sacolada na Espanha de César Rodríguez, atacante do Barcelona e um dos maiores artilheiros da história do clube catalão com 232 gols, e Telmo Zarra, maior artilheiro do Athletic Bilbao na história com 333 gols marcados.

O Brasil, jogando de forma encantadora, fez uma das melhores partidas da sua história. A Espanha estava invicta e tinha uma campanha até então – vinha de três vitórias e um empate –, mas não teve em campo Maneca, jogador importante para o time. O Brasil foi soberano no jogo. Atacou com ímpeto, fazendo a Espanha se defender como podia. O trio Zizinho, Ademir e Jair fez estragos na defesa espanhola, além da boa participação de Chico. Ademir abriu o placar, em chute que desviou em Parra. O gol foi atribuído a Parra, contra, mas foi claramente de Ademir. Jair marcou o segundo em um chute forte, que era sua característica. Chico fez a jogada do terceiro gol, depois de passar pelo marcador e deixar para Friaça chutar. O goleiro defendeu, mas o próprio Chico aproveitou para marcar. Na comemoração enlouquecida do jogador, ele foi atingido por um foguete, um desses fogos de artifício que estava no estádio. Teve que ser medicado.

No segundo tempo, o espetáculo brasileiro continuava. Os brasileiros fizeram com a Espanha aquilo que a Espanha atual costuma fazer com os adversários: tocou a bola por algum tempo. Zizinho, Jair e Ademir trocavam passes até que Ademir ameaçou chutar diante do goleiro Ramallets, mas passou para Jair encher o pé. Gol e a essa altura já era goleada, 4 a 0. Zizinho fez uma jogada de mestre no quinto gol. Passou pelos marcados driblando, fingiu que ia chutar e passou para Ademir completar. O placar era 5 a 0 e ainda restava metade do segundo tempo. Zizinho continuou sendo o dono do jogo. Matou a bola com o bico da chuteira, viu Ramallets deslocado e bateu com categoria para cravar 6 a 0 no placar do Maracanã. Eram apenas 28 minutos. A torcida delirava.

Os gritos de “olé” tomaram o estádio. No livro “Todos os jogos do Brasil”, de Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dannis Woods e Valmir Storti (Ed. Abril, São Paulo, 2006), o relato mostra o êxtase dos torcedores.

“Era uma festa como nunca se viu em um campo de futebol num encontro dessa envergadura. Basora centrou e Igoa foi feliz no sem-pulo, fazendo o gol espanhol. A torcida, alegre, aplaudiu. O jogo ia para o fim quando aconteceu o momento mais maravilhoso proporcionado por uma torcida na história do futebol. Emenadando o ‘olé’, um coro de 150 mil vozes, puxado pela charanga de Jaime de Carvalho, começou a entoar ‘Touradas em Madri’, de João de Barro (Braguinha), um ingênuo sucesso do carnaval de 1938 na voz de Almirante”.

Os 152.772 pagantes daquele jogo (mais alguns milhares que entraram gratuitamente) viram uma exibição de classe da seleção que jogava toda de branco. O Brasil dava a sensação que seria campeão tranquilamente, depois de duas goleadas acachapantes sobre os rivais. Não por acaso, a decepção pela derrota para o Uruguai foi tão grande. Aquele time talvez tivesse entrado para a história como um dos maiores times do Brasil da história. O jogo com o Uruguai, três dias depois, impediria isso.