Com a decisão em 2020, o Paris Saint-Germain entra para a história do futebol francês: é apenas o quinto clube da liga local a alcançar uma final de Champions. Stade de Reims, Saint-Étienne e Monaco fizeram campanhas marcantes por diferentes motivos, mas sucumbiram no jogo que valia a taça. O objetivo dos parisienses será repetir o Olympique de Marseille, seu maior rival, único representante da França a erguer a Orelhuda. Abaixo, relembramos os craques e as trajetórias de todos esses antepassados franceses na final continental.

Stade de Reims (1956 e 1959)

Não seria surpreendente se a França assegurasse seu primeiro título de Champions ainda na década de 1950, durante os primórdios da competição. O Stade de Reims, afinal, estava reconhecidamente entre as equipes mais fortes do continente. Os anos áureos dos alvirrubros começaram em 1949, com a conquista do Campeonato Francês pela primeira vez. A partir de então, o clube da região de Champagne se transformaria na grande potência nacional, com seis troféus da Ligue 1 e mais dois da Copa da França até 1962. Ainda mais importante foi o sucesso que fizeram além das fronteiras, batendo na trave por duas vezes dentro da recém-criada Copa Europeia de Clubes Campeões.

Os primeiros sinais da força internacional do Stade de Reims vieram às vésperas da organização da edição inaugural da Champions. Em 1953 e 1955, o clube chegou à decisão da Copa Latina, uma competição que serviu de embrião ao torneio da Uefa, reunindo os vencedores das ligas nacionais de Portugal, Espanha, Itália e França. Os alvirrubros faturaram o título em 1953, com direito a uma incontestável vitória por 3 a 0 sobre o Milan do trio sueco Gre-No-Li. Dois anos depois, repetiram a final, mas foram derrotados por 2 a 0 pelo Real Madrid. E aí estaria apresentado o algoz do passo além: os merengues pentacampeões continentais foram imbatíveis, por mais que tivessem no Reims uma grande ameaça.

Diferentemente do Real Madrid, o Stade de Reims chegou invicto à decisão da Copa dos Campeões de 1955/56. A estreia continental da equipe aconteceu na Dinamarca, derrotando o AGF Aarhus por 2 a 0. Já na primeira partida dentro do Auguste Delaune, 5,8 mil torcedores viram o empate por 2 a 2 – um resultado cedido aos dinamarqueses no fim, mas suficiente à classificação. Era o primeiro sinal de que o campeão francês tinha condições de sonhar com o inédito troféu.

O Stade de Reims voltaria a campo nas quartas de final para encarar o Vörös Lobogó (atual MTK Hungria), uma das bases da seleção húngara na Copa de 1954 e grande concorrente do Honvéd naqueles tempos. Com quatro gols anotados num primeiro tempo avassalador, os franceses saíram em vantagem na ida com o triunfo por 4 a 2, atuando no Parc des Princes. A volta guardou um dos maiores jogos daquela primeira edição da Champions, com o empate por 4 a 4 – Mihály Lantos e Péter Palotas, dois dos membros da seleção vice-campeã mundial, fizeram os gols aos magiares. De qualquer maneira, os alvirrubros nunca estiveram atrás no placar durante aquela ocasião em Budapeste, chegando a fazer 4 a 1 no início do segundo tempo. Por fim, a semifinal seria mais tranquila, ante o Hibernian. O Reims ganhou dos escoceses na França por 2 a 0 e arrematou o serviço em Edimburgo por 1 a 0.

Pelo envolvimento da França na própria idealização da Champions, a primeira final aconteceu no Parc des Princes. O adversário seria o Real Madrid, reconhecidamente mais forte por ter a qualidade de Alfredo Di Stéfano, mas também potencializado por Paco Gento, Héctor Rial, Miguel Muñoz e outros grandes nomes da história merengue. Mas não que o Reims fosse um adversário qualquer, com seu próprio esquadrão à disposição do técnico Albert Batteux – meio-campista histórico do clube que virou treinador tão logo pendurou as chuteiras, em 1950, e que a partir de 1955 passou a acumular o comando da seleção.

Batteux pode ser considerado o grande arquiteto do Stade de Reims. Que o clube viesse da primeira glória quando ele ainda estava em campo, como técnico potencializou o período, com contratações cirúrgicas e métodos revolucionários para desenvolver uma equipe bastante refinada. A pedra angular desse sucesso chamava-se Raymond Kopa. Destaque na segunda divisão francesa, o prodígio foi insistência de Batteux, convencendo os patrões a bancarem os altos valores pedidos pelo Angers. Ganharam um craque, que unia drible desconcertante e muita criatividade para definir as partidas. Atuava como um falso 9 na época, recuando e abrindo espaços aos companheiros.

O estilo de jogo do Reims seria batizado como “futebol champagne” – não apenas uma referência à região onde o clube estava localizado, mas também um elogio ao padrão de dribles e passes curtos da equipe. Naqueles anos, Kopa formava uma linha de frente mítica com Michel Hidalgo, Léon Glowacki, René Bliard e Jean Templin. Exceção feita a Templin, todos passariam pela seleção francesa, com Glowacki já presente na Copa de 1954. No WM usado por Batteux, Robert Siatka e Michel Leblond eram outros dois representantes dos Bleus no meio-campo. De qualquer maneira, o esteio mais atrás era o experiente Robert Jonquet, capitão dos alvirrubros e um dos melhores defensores da história do futebol francês. Tinha a companhia de Raoul Giraudo e Simon Zimmy na primeira linha, além do goleiro René-Jean Jacquet.

Quando a bola rolou para a primeira decisão da Champions, o Stade Reims fez os torcedores acreditarem que a taça poderia ficar na França. Leblond abriu o placar aos seis minutos e Templin ampliou aos dez, enquanto Kopa ainda viu o terceiro ser salvo em cima da linha pela zaga espanhola. O Real Madrid, porém, buscaria o empate antes de meia hora. Di Stéfano e Rial recolocaram os merengues na partida. Hidalgo ainda retomou a vantagem dos alvirrubros aos 17 do segundo tempo, mas uma surpreendente aparição de Marquitos no ataque gerou o empate. E o gol do título, na vitória madridista por 4 a 3, seria assinalado por Rial a 11 minutos do fim.

Não foi apenas o troféu que o Stade de Reims perdeu, já que o Real Madrid reforçaria seu esquadrão com a contratação de Kopa. Batteux aproveitaria o dinheiro para trazer uma reposição tão fantástica quanto o antigo camisa 9, ao tirar o jovem Just Fontaine do Nice, onde o marroquino já empilhava gols. Os alvirrubros passariam por uma pequena renovação, mas teriam outros tantos jogadores lendários à disposição na sequência da década, com Jean Vincent e Roger Piantoni também se somando ao ataque, além de Dominique Colonna tomando conta do gol – todos os três referências na seleção francesa.

Um sucesso indireto do Reims, aliás, seria a campanha da França até as semifinais da Copa do Mundo de 1958 – que contribuiu para que Kopa faturasse a Bola de Ouro. Pois quis o destino que a final da Champions de 1956 se repetisse em 1959, com o reencontro diante do Real Madrid na partida sediada em Stuttgart. Nas fases iniciais, o Reims pulverizou os norte-irlandeses do Ards e os finlandeses do HPS, com quatro vitórias amplas. Os riscos maiores vieram nas quartas de final, com a vitória do Standard de Liège por 2 a 0 na Bélgica, até que Fontaine comandasse a reação e a virada por 3 a 0 no Auguste Delaune. Por fim, que o Young Boys também tenha vencido a primeira por 1 a 0 em Berna, o Reims respondeu com outro 3 a 0 na semifinal. Piantoni foi a estrela no duelo realizado no Parc des Princes.

O Real Madrid estava ainda mais forte, com contratações internacionais que incluíam o zagueiro José Santamaría e o goleiro Rogelio Domínguez, além do titularíssimo Kopa – na época, deslocado ao lado direito do ataque. E desta vez não houve tanta emoção no embate. Enrique Mateos marcou o primeiro gol logo no minuto inaugural da decisão no Neckarstadion. Caberia a Di Stéfano concluir a vitória por 2 a 0, que transformou os merengues em tetracampeões europeus. O Reims voltaria a três edições da Champions no início dos anos 1960, mas no máximo alcançou as quartas de final.

Saint-Étienne (1976)

O Saint-Étienne vice-campeão (STAFF/AFP via Getty Images/One Football)

A França precisou esperar quase duas décadas até que outro clube se tornasse apto a alcançar a decisão da Champions. E o Saint-Étienne realmente havia se transformado no grande time do país após o ostracismo do Reims, ainda que tenha demorado a brilhar no certame. Os Verts conquistaram seu primeiro título em 1957 e foram tetracampeões no final da década de 1960 (sob as ordens justamente de Albert Batteux), mas nunca passaram das oitavas de final em suas primeiras sete participações na Copa dos Campeões. Um sinal da mudança viria no tricampeonato nacional emendado entre 1974 e 1976. A equipe melhoraria seu desempenho na caminhada até a semifinal continental de 1974/75. Acabou eliminada pelo Bayern de Munique, seu grande algoz naqueles anos.

O Saint-Étienne de então era treinado por Robert Herbin, lenda do clube em seus tempos de jogador e que, capitão com Batteux, virou comandante após a saída do treinador em 1972. Os Verts não praticavam o futebol champagne do Reims. Com treinamentos bastante duros sob a tutela de Herbin, era um time muito forte fisicamente e bem montado taticamente, reconhecido pela solidariedade entre seus jogadores. Seria esta a fórmula que levaria ao sucesso doméstico e à competitividade além das fronteiras, contra adversários reconhecidamente mais fortes.

Dentro de campo, a força do Saint-Étienne começava com Ivan Curkovic, goleiro da seleção iugoslava que chegou ao clube após anos de serviços prestados no Partizan – com o qual foi vice-campeão europeu em 1966. O sistema defensivo era encabeçado pelo argentino Osvaldo Piazza, referência do time naqueles tempos, combinando qualidade e muita entrega. Figurinhas carimbadas na seleção francesa, Gérard Janvion e Christian López ocupavam as laterais, enquanto Pierre Repellini era o outro zagueiro.

O meio-campo tinha a proteção de Dominique Bathenay, embora o talento ficasse aos meias Jacques Santini e Jean-Michel Larqué – este último, também o capitão e equilíbrio técnico daquele Saint-Étienne. Já o ataque tinha os irmãos Patrick e Henry Revelli como principais estrelas, o segundo cumprindo o papel de artilheiro, além de Christian Sarramagna e a opção do ascendente Dominique Rocheteau, que também já despontava na seleção. Em tempos nos quais os Bleus retomavam seu prestígio, aquele conjunto de Herbin daria sua contribuição.

A campanha do Saint-Étienne na Champions seria impecável. Os Verts venceram as duas contra o KB na primeira fase e passaram pelo Rangers nas oitavas. O triunfo por 2 a 0 no Geoffroy Guichard seria complementado pela histórica vitória por 2 a 1 no Hampden Park. Já o grande resultado viria nas quartas de final, contra o Dynamo Kiev, que vinha do título na Recopa Europeia durante a temporada anterior e tinha Oleg Blokhin recém-coroado como Bola de Ouro. Os soviéticos venceram por 2 a 0 em Simferopol, mas os franceses buscariam a reviravolta por 3 a 0 em casa, garantida por um tento de Rocheteau já na prorrogação. Por fim, Larqué anotou o tento que valeu a vaga na final. O ASSE bateu o PSV por 1 a 0 em casa, antes de se garantir com o 0 a 0 em Eindhoven.

A final em Glasgow guardou o reencontro com o Bayern de Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier. O fim de ciclo nos bávaros se indicava e o Saint-Étienne teve chances reais de evitar o tricampeonato continental dos alemães. Os bávaros veriam um tento anulado nos primeiros minutos, mas o Saint-Étienne também carimbou o travessão por duas vezes antes do intervalo. O gol na vitória do Bayern por 1 a 0 saiu aos 12 do segundo tempo, em cobrança de falta que Beckenbauer rolou para Franz Roth soltar o canudo. Depois disso, os Verts impuseram uma pressão, sem arrancar o empate. Houve uma noção de que os franceses foram até melhores naquela final. E, sinal de reconhecimento, o time desfilaria em carro aberto na volta ao país, recepcionado por milhares de torcedores mesmo com o vice.

Olympique de Marseille (1991 e 1993)

O Olympique alinhado em Munique (GEORGES GOBET/AFP via Getty Images/One Football)

A França montou uma das seleções mais fortes do mundo na década de 1980, mas o sucesso não se reproduziu diretamente na Champions. Parte dos craques estava no Bordeaux, que seria o mais próximo de repetir a decisão. O timaço de Jean Tigana e Alain Giresse, treinado por Aimé Jacquet, alcançaria a semifinal em 1984/85. Curiosamente, acabaria eliminado pela Juventus estrelada por Michel Platini – na temporada que garantiu o principal título europeu ao esquadrão que dominava a Serie A.

Assim, os franceses precisaram esperar mais um pouco até que a alegria viesse na competição continental. E ela ressurgiu com o time que colocou a França pela primeira vez no topo da Champions. O Olympique de Marseille era um projeto endinheirado de Bernard Tapie, magnata que virou personalidade como apresentador de televisão e já tinha acumulado títulos no ciclismo, antes de aportar no Vélodrome em 1986. Em tempos nos quais a Serie A era a liga mais poderosa da Europa, o empresário conseguiu montar um time que competia financeiramente e esportivamente contra os melhores do continente. Assim, a Copa dos Campeões era o caminho natural a se provar.

Obviamente, em Marselha, Tapie também encontrava ótimas condições para seu clube prosperar, com uma torcida apaixonada e uma agremiação cheia de tradição. O primeiro sinal promissor veio em 1987/88, quando o Olympique alcançou as semifinais da Recopa Europeia, eliminado pelo Ajax. A partir da temporada seguinte, os marselheses emendariam um tetracampeonato nacional. E a Champions era a clara ambição para confirmar o peso histórico que aparecia naquele momento.

Na reestreia do Olympique de Marseille no torneio em 1989/90, após 17 anos de ausência, o time eliminou Brondby, AEK Atenas e CSKA Sofia. Sucumbiu apenas na semifinal diante do Benfica, por conta do gol sofrido fora de casa. A volta por cima aconteceria logo na temporada seguinte, em 1990/91. O OM não deu muitas chances a Dinamo Tirana e Lech Poznan nas fases iniciais, com goleadas no Vélodrome, apesar dos tropeços fora. De qualquer maneira, nada se compararia ao feito nas quartas de final, quando os franceses bateram de frente com o Milan de Arrigo Sacchi. Ali, os bicampeões europeus veriam sua hegemonia se encerrar.

O resultado em Milão havia sido satisfatório ao Olympique, ao arrancar o empate por 1 a 1. Já no Vélodrome em chamas, a equipe era superior e conseguiu abrir o placar na reta final do compromisso, num belo chute cruzado de Chris Waddle. Pouco depois, os refletores do estádio se apagariam e os milanistas se recusaram a voltar ao gramado, acusando que tudo aquilo havia sido armado. Ainda assim, parecia improvável evitarem a eliminação àquela altura. A Uefa ainda concedeu o triunfo por 3 a 0 aos marselheses nos tribunais. E a vida seria bem mais tranquila nas semifinais diante do surpreendente Spartak Moscou, que eliminara Real Madrid e Napoli nas fases anteriores. Os franceses passaram com duas vitórias, por 3 a 1 e 2 a 1.

O adversário na decisão seria o Estrela Vermelha, uma equipe bastante jovem e que quase eliminara o Milan em 1988/89. Só que o antigo craque iugoslavo era apenas reserva no Vélodrome: Dragan Stojkovic, levado à Côte d’Azur após fazer barulho na Copa de 1990. Somente este fato já basta para constatar a qualidade do Olympique de Marseille. Pascal Olmeta era o goleiro na época, com um sistema defensivo encabeçado pelos tarimbados Manuel Amoros e Carlos Mozer, em setor que ainda contava com o novato Basile Boli. Nomes como Bruno Germain, Éric Di Meco e Laurent Fournier davam consistência nas transições. Tudo para que a linha de frente brilhasse com seu trio principal.

Chris Waddle era mais um badalado na Copa de 1990, embora trazido já antes pelo Olympique. O ponta direita figurava entre os melhores jogadores ingleses do momento. Pela esquerda, quem causava estrago era Abedi Pelé, com sua fusão entre habilidade e velocidade. Mas ninguém com a aura do artilheiro Jean-Pierre Papin, capitão dos marselheses e figura principal daquela ascensão. O craque destruía defesas e empilhava gols com uma qualidade técnica enorme, artilheiro da Champions em três temporadas consecutivas. No banco, o veterano Jean Tigana faria companhia a Stojkovic naquela final. Já o técnico era o belga Raymond Goethals, que pegara o bonde andando ao suceder Franz Beckenbauer no meio da temporada.

Não seria uma final vistosa. O Estrela Vermelha tinha craques em ascensão como Dejan Savicevic, Darko Pancev, Robert Prosinecki, Vladimir Jugovic e Sinisa Mihajlovic, mas preferiu ser pragmático. A zaga liderada pelo goleiro Stevan Stojanovic e pelo zagueiro Miodrag Belodedici segurou o empate sem gols por 120 minutos. Já na disputa por pênaltis, Amoros parou em Stojanovic logo na primeira cobrança dos marselheses e os iugoslavos foram precisos, confirmando o triunfo por 5 a 3. Levaria mais um tempo até que a ambição se cumprisse no Vélodrome. Basile Boli virou símbolo daquela decisão, ao se dirigir às lágrimas para as arquibancadas e aplaudir os 30 mil torcedores franceses no Estádio San Nicola.

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O Olympique de Marseille voltaria à Champions em 1991/92, mas cairia na segunda fase diante do Sparta Praga. A conquista continental ocorreria em 1992/93, primeiro ano da recém-remodelada Liga dos Campeões. Os celestes amassaram Glentoran e Dinamo Bucareste nas primeiras fases eliminatórias. Na etapa seguinte, havia um quadrangular semifinal. O time de Raymond Goethals manteve a invencibilidade nesta fase, mas passou apertado. O líder avançaria à decisão e os marselheses ficaram um ponto acima do Rangers – único adversário que não foi derrotado naquela etapa, com dois empates. Os franceses, em compensação, ganharam as duas do Club Brugge e chegaram a enfiar um 6 a 0 sobre o CSKA Moscou. Por fim, a decisão guardava o encontro com um velho conhecido: o Milan.

O Olympique de Marseille era bastante diferente em relação ao vice de 1991. Di Meco, Boli e Abedi Pelé eram os únicos remanescentes no time titular. A zaga tinha mais solidez com as chegadas de Marcel Desailly e Jocelyn Angloma, além de Fabien Barthez no gol. Didier Deschamps se afirmara no meio-campo, ao lado de Franck Sauzée. E o ataque se valia da experiência de Rudi Völler, um campeão do mundo com a seleção alemã, além dos muitos gols do jovem Alen Boksic. Papin havia se despedido do Vélodrome naquela temporada e, ironia do destino, se transferira justamente ao Milan após faturar a Bola de Ouro em 1991. Chegou por conta dos muitos problemas de lesão de Marco van Basten, mas ficou no banco em Munique, diante da plena forma do holandês. Já treinados por Fabio Capello, os rossoneri ainda traziam Frank Rijkaard, Paolo Maldini, Franco Baresi e grande elenco.

Num jogo aberto, os dois goleiros faziam grandes defesas, embora Barthez se visse mais sobrecarregado. O alívio do Olympique veio aos 43 minutos, naquele que seria o gol da vitória por 1 a 0. O escanteio cobrado por Abedi Pelé veio perfeito à cabeçada de Boli, um herói inesperado, já que quase tinha sido substituído ainda no primeiro tempo da partida no Estádio Olímpico. Durante a segunda etapa, os marselheses contiveram a pressão e houve tempo até para uma confusão com Papin, que saíra do banco e não se provou contra os antigos companheiros. No duelo de magnatas, Tapie superava Silvio Berlusconi. A Orelhuda parou nas mãos de Deschamps, o capitão de tantos marcos ao futebol francês.

O problema é que o reinado do Olympique não duraria. No Campeonato Francês, o clube havia armado o resultado contra o Valenciennes pouco antes da final da Champions. A intenção da direção era evitar a pressão sobre o time rumo ao pentacampeonato nacional para que, assim, os jogadores entrassem menos desgastados contra o Milan. Mas a maracutaia logo seria descoberta pelas autoridades. Os marselheses sequer puderam defender seu título na Champions 1993/94, suspensos pela Uefa, e acabaram rebaixados para a segundona francesa na sequência da temporada. O timaço se desmancharia em meses, enquanto Tapie também deixaria a direção por conta do escândalo de manipulação.

Monaco (2004)

O Monaco da decisão em Gelsenkirchen (FRANCK FIFE/AFP via Getty Images)

Apesar do fim de ciclo abrupto ao Olympique de Marseille, a França permaneceu competitiva nos anos 1990. Paris Saint-Germain e Nantes chegaram às semifinais da Champions com equipes muito fortes, embora o grande representante da Ligue 1 neste período fosse o Monaco. Os monegascos alcançaram as semifinais logo em 1993/94, quando substituíram os marselheses no torneio, e sucumbiram na semifinal contra o Milan. Já em 1997/98, repetiriam o desempenho. Os alvirrubros eliminaram o Manchester United nas quartas, embora não tenham sido páreos à Juventus na semifinal.

Ainda assim, o Monaco finalista de 2003/04 é um ponto fora da curva. O clube havia perdido muitos destaques com o passar dos anos, especialmente com o poderio financeiro de ligas vizinhas. Entretanto, seguia montando equipes interessantes a partir de bons talentos descobertos. Não havia um Thierry Henry ou um David Trezeguet no elenco que surpreenderia até a decisão em Gelsenkirchen. Em compensação, as circunstâncias também ajudaram, numa edição da Champions repleta de surpresas.

O melhor time da França naquele momento era o Lyon, que acabara de conquistar seu segundo título nacional consecutivo – num total de sete, na dinastia que se seguiria naquela década. O Monaco havia sido vice em 2002/03, mas deixando a taça escapar por apenas um ponto, após sua queda de rendimento na reta final. Para achar o caminho das pedras na Champions, os monegascos contavam com um treinador jovem, mas que conhecia muito bem a competição: Didier Deschamps, capaz de formar uma equipe organizada e com atacantes bastante decisivos.

Flavio Roma ocupava a meta daquele Monaco, em defesa que via a eclosão de Patrice Evra – além da presença de jogadores interessantes como Hugo Ibarra, Gaël Givet e Julien Rodriguez, bem como reserva Sébastien Squillaci. O meio tinha o argentino Lucas Bernardi limpando os trilhos, além do grego Akis Zikos e do francês Edouard Cissé. Jaroslav Plasil era um jovem organizador naqueles tempos, mas ficaria apenas no banco durante a decisão da Champions. Apesar disso, os nomes mais reconhecidos se concentravam no ataque – e nem tinha como todos se alinharem ao mesmo tempo.

Jérôme Rothen e Ludovic Giuly ocupavam as pontas, com o camisa 8 se tornando uma das grandes figuras da campanha e fazendo seu nome internacionalmente. Já para o centro da área, as opções eram muitas. Mais jovens, Emmanuel Adebayor e Shabani Nonda ficavam como alternativas. Os nomes principais eram Dado Prso e Fernando Morientes, que carregaram o time em momentos essenciais da caminhada europeia. O espanhol, já campeão continental nos tempos de Real Madrid, terminaria como artilheiro da Champions, autor de nove gols – e o croata seria justamente o vice, com sete.

Os placares elásticos foram uma constante na campanha do Monaco, desde a fase de grupos. O time avançou com a liderança na chave que tinha PSV, AEK Atenas e Deportivo de La Coruña, com direito a uma histórica goleada por 8 a 3 sobre o forte time dos galegos no Estádio Louis II. O Lokomotiv Moscou foi o desafio nas oitavas e, apesar da derrota por 1 a 0 na Rússia, os monegascos avançaram com o triunfo por 1 a 0 no principado. Só um aperitivo diante do que os alvirrubros viveriam nas quartas de final, diante do galáctico Real Madrid, então treinado por Carlos Queiroz.

Zidane, Ronaldo e Figo balançaram as redes na confortável vitória por 4 a 2 no Bernabéu, em que o gol de Morientes no final dava um mínimo de esperanças ao Monaco. E a Lei do Ex voltaria a preponderar nos 3 a 1 do Louis II, com um tento de Morientes, embora o nome da noite tenha sido Giuly. Foram dois gols do capitão, buscando uma heroica virada no início do segundo tempo. Já nas semifinais, o favoritismo poderia recair ao novo rico Chelsea, que tinha Claudio Ranieri à frente do primeiro ano de projeto de Roman Abramovich. Prso e Morientes abriram caminho com os 3 a 1 no principado. E apesar do susto em Stamford Bridge, depois que os Blues abriram dois gols de vantagem, Morientes também selaria a classificação buscando o empate por 2 a 2.

A final contra o Porto era um encontro de surpresas, em que ficava difícil cravar qualquer resultado. Gelsenkirchen, todavia, consagrou a capacidade de José Mourinho em formar equipes campeãs. O time de Deco, Carlos Alberto, Derlei, Maniche, Vítor Baía, Ricardo Carvalho e outros bons nomes dominaria a partida na Arena AufSchalke. Venceu por 3 a 0, sem que o Monaco conseguisse fazer muito para levar a Orelhuda. Depois de um primeiro tempo mais travado, em que os portistas saíram em vantagem, os alviazuis mataram o jogo entre a precisão de seus contragolpes e a falta de pontaria dos oponentes. Com o imaginado desmanche, parte daquela base dos alvirrubros ainda chegaria às oitavas da Champions em 2004/05, eliminada pelo PSV, mas os jogadores renderiam mais frutos em voos solo – sobretudo Giuly e Evra, que terminariam por faturar a Champions na sequência da década.