A mística de algumas seleções depende de partidas transformadoras, e também de jogadores que permitiram que a história mudasse de curso dentro de campo. À Alemanha, a reputação vitoriosa se fundamentou a partir do “Milagre de Berna”. Independentemente das acusações e das suspeitas ao redor da final da Copa do Mundo de 1954, foi a vitória inesperada sobre o esquadrão da Hungria que consolidou a lenda sobre um time que, de alguma forma, dará o seu jeito de triunfar. E aquela decisão também possui os seus heróis, com papel essencial a Helmut Rahn, o homem que concretizou o que parecia impossível. Entre a liderança e o talento, o ponta direita anotou dois gols no Estádio Wankdorf, inclusive o que determinou os 3 a 2 no placar a seis minutos do fim. “Der Boss” podia reivindicar a paternidade sobre a grandeza do Nationalelf e estabeleceu uma carreira que foi além. Um dos maiores do país em todos os tempos, que mereceu as devidas reverências na última sexta, quando completaria 90 anos de idade.

Rahn, assim como outros companheiros de seleção, cresceu em um contexto delicado na Alemanha. O atacante nasceu em 1929, na cidade de Essen, um centro urbano importante no Vale do Ruhr. No entanto, ainda era muito jovem para lutar durante a Segunda Guerra Mundial e permaneceu relativamente alheio aos conflitos que culminaram na queda do Terceiro Reich. O jovem chegou a morar na Tchecoslováquia, enquanto o pai trabalhava em uma mina de carvão para garantir suprimentos durante a guerra. Já nesta época, o prodígio começou a desenvolver o seu talento nas equipes menores do Altenessen 1912. Seguiria por lá até pouco depois do final das batalhas, em 1946.

Em tempos nos quais o futebol alemão ainda era semi-profissional, Rahn paralelamente trabalhou como mecânico e mineiro, antes de concluir sua formação como eletricista. No entanto, não demoraria a prosperar através da bola. Atuou por Oelde 1919 e Sportfreunde Katernberg, até ganhar sua primeira grande chance no principal time de sua cidade natal. O Rot-Weiss Essen pode não ter grande projeção nas últimas décadas, atualmente limitado à quarta divisão do Campeonato Alemão. Todavia, ascendeu como uma potência nacional durante os anos 1950, muito graças ao talentoso ponta direita que surgiu entre os titulares a partir de 1951.

O sucesso imediato de Rahn no Rot-Weiss Essen foi concomitante às suas primeiras aparições na seleção alemã ocidental. Que iniciasse sua segunda temporada na então chamada Oberliga West, a forte divisão regional do Campeonato Alemão, a falta de experiência não o impediu de estrear pelo Nationalelf em novembro de 1951, durante um amistoso contra a Turquia. Semanas depois, o rapaz de 22 anos já anotou o seu primeiro gol pela equipe nacional, durante uma goleada sobre Luxemburgo. E assim, com as realizações acontecendo muito depressa, o atacante se firmou como um craque meteórico nos estádios alemães.

Sua primeira temporada com o Rot-Weiss Essen já seria histórica. O ponta anotou 20 gols na Oberliga West e liderou os alvirrubros à fase final do Campeonato Alemão. Seriam mais cinco tentos na etapa decisiva que, se não valeram a vaga na final, o confirmaram como um dos mais letais atacantes do país. Os louros não demorariam a vir. Em 1953, o jovem lideraria seu clube à inédita conquista da Copa da Alemanha. Seria dele o gol decisivo na final contra o Alemannia Aachen, definindo o placar de 2 a 1 dentro do Rheinstadion, em Düsseldorf. Parecia apenas uma prévia do que aconteceria meses depois, em Berna, quando auxiliou os alemães a registrarem seu primeiro grande feito nos gramados, após participações medianas nos Mundiais anteriores.

Rahn veio de uma temporada muito boa às vésperas da Copa de 1954, em que anotou 18 gols na Oberliga West. Entretanto, só confirmou sua vaga no torneio após arrebentar em uma turnê pela América do Sul com seu clube, na qual sua fama se espalhou além das fronteiras. O camisa 12 era o único representante do Rot-Weiss Essen no elenco convocado por Sepp Herberger. Àquela altura, apesar de algumas críticas pelas apresentações recentes com a seleção, já somava dez partidas e três gols pelo Nationalelf. E a presença no Mundial seria transformadora à sua própria trajetória, a começar pela nova parceria que firmou na Suíça. Herberger optou por escolher os companheiros que dividiriam os quartos no Hotel Belvedere, uma bela construção às margens do Lago Thun. Para controlar os nervos do capitão Fritz Walter, que nem sempre exibia a confiança aguardada a alguém em sua posição, optou justamente pelo gênio distinto de Rahn. Ali, juntaria dois protagonistas do torneio.

Aos 24 anos, Rahn era um rapaz bastante alegre e um tanto quanto intempestivo. Transformou-se em distração para Walter, nove anos mais velho, que possuía uma história bem mais dolorosa. Chegou a lutar na Segunda Guerra Mundial como para-quedista e, prisioneiro ao final do conflito, se livrou do risco de ser enviado aos gulags soviéticos graças ao auxílio de soldados húngaros que reconheceram seu talento no futebol. O garoto extrovertido de Essen fazia o novo amigo chorar de tanto rir e o capitão não tinha mais tempo para suas desconfianças. Cresceram juntos ao longo da competição.

Rahn, afinal, não se destacaria logo de cara naquela Copa do Mundo. Durante a fase de grupos, ele disputou apenas a malfadada goleada da Hungria por 8 a 3, na qual Herberger não usou todos os seus titulares. O jovem anotou um gol e, após ver do banco a classificação no jogo-desempate contra a Turquia, ganhou a posição a partir dos mata-matas. Anotou um dos gols na vitória por 2 a 0 sobre a Iugoslávia nas quartas de final e também ajudaria a criação de seu time na goleada por 6 a 1 sobre a Áustria nas semifinais. Classificado à decisão, o Nationalelf reencontraria-se com os Mágicos Magiares muito mais motivado para a revanche. Tinha no camisa 12 um ponto de desequilíbrio, craque de improvisações e um faro apurado ao gol, além de muita explosão física.

Depois que a Hungria abriu dois gols de vantagem em Berna, foi a parceria entre Fritz Walter e Rahn que iniciou a reação da Alemanha Ocidental na finalíssima. O capitão acionou o seu parceiro na ponta e o cruzamento baixo permitiu, após desvio na zaga, que Max Morlock descontasse aos dez minutos. Já aos 18, Rahn se encarregou de garantir o empate. Walter cobrou o escanteio e, em um lance no qual os magiares ainda hoje reclamam de falta sobre o goleiro Gyula Grosics, o camisa 12 apareceu dentro da área para estufar as redes. Era uma decisão aberta no Wankdorf, em que os dois times criavam suas chances, embora os húngaros fossem mais ávidos pelo gol. Rahn até poderia ter resolvido antes, com direito a uma bola salva em cima da linha pela zaga e uma defesa de Grosics. De qualquer forma, o Milagre de Berna dependeria de pés decisivos para se tornar real. O ponta direita alemão seria o escolhido para resgatar uma ponta de orgulho aos germânicos, após a derrota e a barbárie da Segunda Guerra. A reconstrução da identidade nacional contou com aquela vitória.

O lance decisivo aconteceu a seis minutos do fim. Rahn aproveitou uma sobra de bola na entrada da área, fintou a marcação com um corte seco e viu o caminho aberto rumo às redes. Desferiu um chute rasteiro, no canto da meta de Grosics. Mortal. A pintura determinou a vitória da Alemanha Ocidental por 3 a 2, ainda que a Hungria tenha incomodado nos últimos minutos. Os Mágicos Magiares tiveram um gol anulado, assim como o goleiro Toni Turek salvou o que seria o empate nos instantes finais. Ao apito final, o placar ofereceu ao Nationalelf o seu primeiro título mundial. Os alemães ocidentais lidariam com acusações de doping e de benefícios da arbitragem, que de fato tornam aquela conquista um tanto quanto nebulosa. O que não diminui o protagonismo de Rahn no gramado encharcado de Wankdorf. Também foi o talento do atacante que derrubou um dos maiores favoritos da história das Copas.

O maior jogo da carreira de Helmut Rahn seria seguido pela maior temporada do Rot-Weiss Essen. Os alvirrubros voltaram a conquistar a Oberliga West em 1954/55, com cinco gols do craque durante a campanha irrepreensível. E a equipe do Vale do Ruhr conseguiu se superar na fase decisiva do Campeonato Alemão. Terminou na liderança de seu grupo no quadrangular semifinal, para encarar o poderoso Kaiserslautern na definição do título. Rahn reencontrou-se com vários amigos de seleção na decisão disputada dentro do Niedersachsenstadion, de Hannover. Passaria em branco, mas daria sua ajuda em outra vitória heroica. O triunfo por 4 a 3, de virada, se consumou apenas aos 40 do segundo tempo. O RWE abriu 3 a 1 ao final da primeira etapa, mas cedeu o empate a 20 minutos do fim. Franz Islacker terminou como a grande figura da tarde, ao completar sua tripleta e dar a taça inédita ao Essen.

Paralelamente à idolatria em seu clube, Rahn tornou-se uma referência na Alemanha Ocidental que defenderia o título mundial na Copa de 1958. Mesmo acusado de estar fora de forma, foi um dos quatro remanescentes do Milagre de Berna que viajaram à Suécia. E outra vez o ponta faria uma campanha excepcional, ao carregar o time de Sepp Herberger rumo à semifinal. O camisa 8 foi excelente durante a fase de grupos. Anotou quatro gols, sendo dois contra a Argentina, um contra a Tchecoslováquia e um contra a Irlanda do Norte. Também desequilibrou nas quartas de final, ao garantir o tento decisivo no triunfo por 1 a 0 sobre a Iugoslávia, num chute espírita executado praticamente da linha de fundo. A maestria de Rahn não seria suficiente para evitar a eliminação contra os suecos nas semifinais. Ainda assim, ele voltaria a campo na decisão do terceiro lugar e deixaria sua marca na derrota por 6 a 3 contra a França. Com seis gols, terminou como vice-artilheiro da Copa, ao lado de Pelé. Também foi reconhecido com o segundo lugar na Bola de Ouro de 1958, atrás apenas de Raymond Kopa.

Rahn tornou-se o primeiro jogador da história das Copas a anotar ao menos quatro gols em duas edições distintas do torneio. Também foi o terceiro a alcançar a marca dos dois dígitos, encerrando sua história nos Mundiais com 10 tentos. Mais de seis décadas depois, permanece como o oitavo na lista geral de artilheiros da competição e o quarto entre os alemães, atrás apenas de Miroslav Klose, Gerd Müller e Jürgen Klinsmann. Sua média de um gol por jogo, mesmo atuando como ponta, o referenda entre os grandes. O veterano seguiria defendendo o Nationalelf até 1960, entrando em campo pela última vez durante um amistoso contra Portugal. Em nove anos com a equipe, acumulou 40 partidas e 21 gols.

A virada da década de 1950 também marcou o declínio de Rahn em sua trajetória por clubes. O ponta defendeu o Rot-Weiss Essen até 1959 e segue ainda hoje como o maior ídolo do clube, autor de 88 gols em 201 partidas pelo Campeonato Alemão. Já em 1959/60, o veterano teve um breve destaque pelo Colônia. Aos 31 anos, anotou 15 gols pela equipe que terminaria com o vice-campeonato nacional, derrotada apenas pelo forte Hamburgo de Uwe Seeler na decisão.

A despedida de Rahn da seleção coincidiu com sua mudança para a Holanda, em tempos nos quais os jogadores em atividade fora do país não eram convocados. Jogou por três anos pelo SC Enschede, deixando suas marcas na Eredivisie, mas sem ampliar a sua sala de troféus. Por fim, ainda retornou à Alemanha Ocidental para encerrar a carreira no Meidericher SV, o atual Duisburg, e não fez feio. Na temporada inaugural da Bundesliga, em 1963/64, o ponta auxiliou as Zebras a terminarem com o vice, atrás apenas do Colônia. Anotou oito gols em 18 partidas, naquele que seria o seu último ano regular como jogador. Disputou apenas uma partida na campanha seguinte, antes de pendurar as chuteiras por conta de uma lesão.

Rahn aposentou-se em 1965 e seguiu sua vida em Essen, administrando uma loja de automóveis. Não seria tão bem sucedido assim nos negócios, em uma vida um tanto quanto tumultuada pelo alcoolismo. Enquanto ainda jogava, o ponta chegou a ser preso duas vezes por dirigir embriagado e se atracar com policiais. Aos poucos, acabaria se afastando do futebol, enfadado com a vida pública. Até chegou a organizar partidas beneficentes nos anos 1970, mas no geral evitava aparições e sequer gostava de atender os telefonemas dos velhos amigos. Recluso, passou os últimos anos de sua vida limitado ao seu apartamento, ao bar que frequentava e à igreja em que fazia suas orações. Faleceu aos 74 anos, em agosto de 2003, após lutar contra sérios problemas de saúde nos meses anteriores.

A memória de Rahn, ao menos, permaneceu exaltada antes e depois de sua morte. O gol decisivo contra a Hungria rendeu reverencias ao longo das décadas, o que se tornou evidente durante o funeral do herói. A despedida foi transmitida em rede nacional pela TV estatal, com centenas de pessoas presentes. Além do mais, uma estátua de bronze em tamanho real do artilheiro seria inaugurada no estádio do Rot-Weiss Essen, onde se preserva um memorial a Rahn. A gratidão não poderia ser menor àquele que abriu caminhos ao Nationalelf. Há uma estrela no peito que brilha muito graças ao ímpeto e à habilidade do antigo ponta. Sua história continuará sendo contada e recontada durante muito tempo. Seu pé esquerdo providenciou um dos maiores milagres já vividos no futebol.