Jogador de estilo clássico, elegante, e de técnica refinada, o volante Dequinha, que completaria 90 anos nesta terça-feira, marcou época no Flamengo por exatamente uma década e foi um dos símbolos maiores do timaço tricampeão carioca em 1953/54/55. Embora tímido e calado fora dos gramados, o potiguar foi também o grande capitão da equipe em duas daquelas conquistas e se fez muito respeitado inclusive pelos rivais. E ainda se tornou referência de estilo na posição para o clube, tendo herdeiros como Carlinhos “Violino” e Andrade.

As origens

“Comecei a jogar futebol logo que aprendi a andar, creio”, relembrou Dequinha em seu perfil para a série “Ídolos do Futebol Brasileiro” publicada pela revista Manchete nos anos 50. Nascido José Mendonça dos Santos na cidade potiguar de Mossoró em 19 de março de 1929, quando garoto chegou a trabalhar como torneiro mecânico, ajudando seu pai, mas logo seria incentivado pelo mesmo a tentar carreira no futebol, ao perceber o talento do filho com a bola nas peladas locais. Em 1945, já jogava na base do Atlético de sua cidade natal.

No ano seguinte, passaria ao rival Potiguar e de lá seguiria para Natal, onde defenderia o ABC, clube em que se tornaria profissional e conquistaria um título estadual. Mas logo chamaria a atenção do América do Recife, na época ainda um clube de certa força no futebol pernambucano, que o trouxe em 1949. No começo do ano seguinte, já era convocado para o escrete estadual que participaria do Campeonato Brasileiro de Seleções, no qual se destacaria.

Ponta-esquerda no início da carreira em Mossoró, logo seria adaptado na posição em que se consagraria: a de centromédio, o atual volante. Nesta função, seu futebol técnico e disciplinado chamaria a atenção do Flamengo, mas os torcedores e dirigentes do América relutavam em deixar Dequinha sair. Acontece, porém, que o presidente do clube, Rubem Moreira, era rubro-negro fanático e acabou aceitando a proposta e liberando o jogador.

A chegada a um Flamengo em turbulência

Aos 21 anos, Dequinha chegou ao Flamengo, então dirigido por Gentil Cardoso, em meados de 1950 para fazer testes. Agradou e foi contratado em junho. Uma lesão, porém, adiou sua estreia até 17 de setembro, quando esteve entre os titulares – embora fora de posição, deslocado para a meia-esquerda – no empate em 2 a 2 com o America pelo Campeonato Carioca, quando a equipe já era dirigida pelo português Cândido de Oliveira.

Naquele ano, o clube viveu a pior temporada de seu prolongado declínio após o tricampeonato carioca conquistado em 1942-43-44. Após vender o ídolo Zizinho (um dos últimos remanescentes do time do tri) ao Bangu e passar por várias trocas de treinadores, com jogadores também entrando e saindo a todo momento, terminou o Carioca apenas na sétima colocação. Muito havia de ser mudado, mas alguns nomes já apontavam para o futuro.

Dequinha era um deles. Introvertido, sofreu um pouco para se adaptar no início, em meio ao momento conturbado do clube e aos problemas físicos. Mas já dava mostras de seu talento. No ano seguinte, com o novo presidente Gilberto Cardoso empossado e o técnico Flávio Costa de volta após comandar o Vasco (e a Seleção), o Flamengo começou aos poucos a se reerguer. E o começo da recuperação do orgulho veio em sua primeira excursão europeia.

Entre maio e junho de 1951, o Flamengo fez dez jogos no Velho Continente, atuando na Suécia, Dinamarca, França e Portugal. Venceu os dez, com destaques para os dois triunfos diante do Malmö (1 a 0 e 2 a 0), as goleadas sobre o AIK (6 a 1) e o Racing Paris (5 a 1) e a vitória categórica sobre o Belenenses, então um dos times mais fortes de Portugal (3 a 0). Dequinha começou como reserva, mas ganhou a posição e se tornou o grande destaque da viagem.

A afirmação viria no Campeonato Carioca daquele ano, quando o potiguar ganhou de vez uma vaga no time titular, fazendo a dupla de médios com o paraguaio Modesto Bria, um dos veteranos do último título carioca. Seu futebol técnico e disciplinado atraía cada vez mais a atenção dos cronistas. E o Flamengo fez campanha bem superior à do ano anterior, inclusive quebrando um longo jejum de vitórias sobre o Vasco (derrotado, aliás, nos dois turnos).

A revolução com Solich
Jadir, Dequinha e Jordan

No ano seguinte, o Fla fez campanha ainda melhor, terminando na segunda colocação ao lado do Fluminense. Mas o grande salto seria dado em 1953, com a chegada do técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich, que havia acabado de levar a seleção de seu país a um inédito título sul-americano, derrotando duas vezes o Brasil. Aproveitando a base deixada por Flávio Costa (que retornou ao Vasco), Solich faria alterações táticas que revolucionariam o futebol rubro-negro.

Na Gávea, o treinador seria um dos introdutores do 4-2-4 no futebol carioca e brasileiro, cinco anos antes de a Seleção apresentar o esquema para o mundo na Copa da Suécia. E no Flamengo, Dequinha exercia papel fundamental nesse sistema, operando com muita eficiência toda a ligação da defesa com o ataque. Desafogava a retaguarda rubro-negra e iniciava as jogadas ofensivas de uma equipe que, naquele tempo, primava pela objetividade e intensidade.

Na época, os jornais ainda imprimiam as escalações no velho sistema 2-3-5, ou “pirâmide”, um equívoco que criava as famosas “linhas médias” de jogadores nas equipes, mas que na verdade não representava o real posicionamento deles em campo. Em todo caso, esse processo acabou por popularizar – até eternizar – o trio rubro-negro formado por Jadir, Dequinha e Jordan, embora o centromédio atuasse mais próximo de outro ídolo do time, o meia Rubens.

Símbolo de elegância

Dequinha e Rubens formaram uma das maiores duplas de meio-campo da história do Flamengo. O potiguar era a classe e o paulistano, a malícia. Ambos muito técnicos. Embora combativo, o centromédio jogava um futebol limpo e disciplinado, desarmava com maestria e sem recorrer a pontapés (Didi chegou a aponta-lo várias vezes como seu melhor marcador). E ao apoiar, distribuía a bola com extrema precisão nos passes e lançamentos.

Em seu livro “Nação Rubro-Negra”, o escritor paraibano Edilberto Coutinho relembra a classe do domínio de bola de Dequinha. “Quem viu, não esquece. Fernando Calazans descreve com propriedade: ‘Seus pés tocavam só de leve o gramado, como que para não magoá-lo’. A bola vinha alta, arremessada com força pelo goleiro em tiro de meta; Dequinha erguia o pé à altura da cabeça, amortecia a bola como se fosse com a mão e a trazia, submissa, murcha, ao chão, juntinha ao outro pé. Quantas vezes o Maracanã encantado não viu esse lance?”.

Edilberto também relembra um lance de efeito do qual o meia se utilizava não para humilhar o oponente, mas como simples recurso técnico: os lençóis (ou chapéus). “Outra marca registrada de Dequinha. Conseguia manobrar a bola de um lado para o outro, cobrindo a vítima, sem deixar a bola tocar no chão. Assim Dequinha será sempre lembrado: o artista, o atleta das belas expressões corporais, o estilista, digno de figurar numa galeria de grandes virtuoses”, afirmou.

Carlinhos, o “Violino”, que antes de ser treinador várias vezes campeão com o clube, também foi referência rubro-negra de futebol elegante na posição ao longo dos anos 60, relembrou com reverência aquele que foi seu mestre: “Foi o jogador em que me espelhei. Ele jogava bonito e a bola não fugia de seus pés. Tive um bom instrutor”. Mais adiante, a tradição seria retomada com Andrade, a partir do fim dos anos 70 e por quase toda a década seguinte.

Homem tímido, educado e quieto, embora se portasse fora de campo com a mesma elegância exibida nos jogos, Dequinha era um líder em campo – ainda que de outro estilo, sem gritar, às vezes orientando mais com gestos e exemplos do que com palavras. Feito capitão do time a partir de 1954, quando o veterano ponta Esquerdinha foi barrado por Solich para dar lugar ao jovem Zagallo, Dequinha entrava em campo sempre com a bola debaixo do braço.

Além de tudo isso, Dequinha era o nordestino capitão de um Flamengo repleto de nordestinos no elenco. Além dele, potiguar, o elenco abrigava o centroavante paraibano Índio; o ponta-esquerda cearense Babá; o meia-direita Duca e o zagueiro Cido, ambos pernambucanos; além de um trio de alagoanos formado pelo lateral-direito Tomires, o ponta-de-lança Dida e o ponta-esquerda Zagallo (este, no entanto, criado no Rio de Janeiro desde pequeno).

As passagens pela Seleção
Brasil x Áustria de 1956

Naquele mesmo ano, após as ótimas exibições no Carioca, Dequinha chegaria à Seleção, com vista à Copa do Mundo da Suíça. Analisando os convocados, o jornalista David Nasser assim o definiu na revista O Cruzeiro: “Emérito passador. Ótimo controlador de bola. Estranhou o sistema de Zezé Moreira, possivelmente, mas suas qualidades o recomendam para reaparecer em qualquer emergência. Para jogos mais leves é um centromédio ideal”.

Embora integrasse os 22 da lista final, o médio fez apenas uma partida pelo Brasil naquele ciclo, um amistoso contra o colombiano Millonários no Maracanã, vencido por 2 a 0. No Mundial suíço, acabou preterido por Brandãozinho, da Portuguesa, jogador menos técnico que ele, mas de maior vigor físico. No entanto, as portas da Seleção continuariam abertas a Dequinha, que retornaria a vestir a camisa canarinho nos dois anos seguintes.

Em 1955, ele atuaria nas partidas contra Chile e Paraguai, ambas no Maracanã, válidas pelas taças Bernardo O’Higgins e Oswaldo Cruz, respectivamente. E no ano seguinte, seria titular em cinco das sete partidas da excursão europeia na qual o escrete comandado por Flávio Costa colheu exibições e resultados irregulares. Com isso, volante rubro-negro totalizaria sete jogos oficiais e um não-oficial vestindo a camisa da Seleção.

Intocável no tri
O Flamengo de 1953

O tricampeonato carioca dos rubro-negros teve suas peculiaridades. O regulamento previa uma primeira etapa com os 12 clubes se enfrentando em turno e returno e pontos corridos, na qual o vencedor se classificaria para as finais, e outra com um turno extra, disputado apenas pelos seis melhores colocados da fase anterior, com pontuação zerada e apontando o outro finalista. Este formato vigorou única e exclusivamente por aqueles três anos.

Nos dois primeiros títulos, não houve necessidade de finais. O Flamengo venceu todas as etapas e se sagrou campeão direto, com uma rodada de antecipação em ambos. Nos 54 jogos das duas campanhas somadas, o time de Fleitas Solich obteve 41 vitórias, nove empates e apenas quatro derrotas, além de chegar a acumular uma série invicta de 34 jogos entre um torneio e outro. Já no terceiro, jogando no limite, o time venceu a etapa inicial, mas caiu de rendimento no turno extra, vencido pelo America. O título seria decidido numa melhor de três.

Foi um campeonato extenso, iniciado em agosto de 1955 e encerrado apenas em abril de 1956. Contando as finais, seriam 30 partidas disputadas. E no meio da campanha, ainda houve o luto: em novembro, o presidente Gilberto Cardoso falecera de infarto após assistir ao time de basquete rubro-negro vencer o Sírio Libanês com uma cesta no último segundo numa das partidas decisivas do Carioca da modalidade. O título no futebol seria a ele dedicado.

O time venceu o primeiro jogo pelo placar mínimo, gol de Evaristo. No segundo, com os rubros em dia de graça, foi goleado por 5 a 1 num resultado que surpreendeu a cidade. Mas na terceira e decisiva partida, deu o troco vencendo por 4 a 1 (mesmo placar que havia aplicado ao rival no returno), com Dida anotando os quatro. A Dequinha, além da honra de ostentar a braçadeira nos dois últimos títulos, coube outro destaque especial: ele foi o único, em todo o elenco, a disputar todos os 84 jogos da campanha do tri. Um fenômeno de regularidade.

Em algumas partidas, Dequinha veio a ser mais do que um jogador eficiente e o dono do meio-campo. Ele foi decisivo. Contra o Botafogo, pela quinta rodada do primeiro turno do campeonato de 1955, foi dele o gol espetacular da vitória por 1 a 0, no fim de uma partida em que o Flamengo havia ficado com dez devido à lesão do centroavante Índio logo aos 13 minutos de jogo. Um gol de sem-pulo, que valeu ponto precioso para o desfecho da primeira etapa.

“A coroa de louros pertence a Dequinha. Dentro da sua sobriedade costumeira, de repente, vendo as coisas escuras e as trincheiras alvinegras cobertas, achou de resolver a questão por si. Aí chutou. Determinadamente, Obstinadamente na direção do arco. A pelota saiu como uma bala. Numa fração de segundo, metade do estádio ficou de pé, tomada pela justa alucinação”, escreveu o renomado cronista Geraldo Romualdo da Silva para o Jornal dos Sports.

Os últimos anos

O tetra carioca não viria em 1956, com o time ainda sofrendo da extenuante maratona do tri e mostrando certa autossuficiência. Mas as lesões também atrapalharam. A de Dequinha, ausente em momento crucial do primeiro turno, fez um Flamengo desorientado perder pontos que seriam decisivos na briga com o Vasco, que se sagraria o campeão – embora os rubro-negros tenham somado uma vitória e um empate em seus dois jogos diante dos cruzmaltinos.

O Flamengo também esteve perto do título em 1957 e 1958 – neste, após os dois triangulares finais com Botafogo e Vasco, que seriam eternizados como o chamado “supersupercampeonato”. Também fez campanha muito boa no Torneio Rio-São Paulo em ambos os anos e conquistou, no início de 1959, o prestigioso Torneio Hexagonal de Lima enfrentando na capital peruana o River Plate, o Peñarol, o Colo Colo e os locais Alianza e Universitário.

Infelizmente, o ano de 1959 também foi marcado pela tristeza. Em setembro, durante um treino na Gávea, um choque numa dividida com o centroavante Henrique Frade provocou gravíssima fratura em sua perna esquerda. A previsão inicial era de inatividade por nove meses. Mas mesmo depois de voltar aos treinos, a confiança em sua plena recuperação não era a mesma, até porque seu substituto, o jovem Carlinhos, promovido dos juvenis, já se firmara.

Sentindo que não poderia mais oferecer ao clube o que se esperava dele, Dequinha pediu rescisão do contrato que recentemente renovara e cogitou pendurar as chuteiras. Era início de 1961. Porém, um convite do ex-colega de Flamengo Marinho Rodrigues levou o potiguar a treinar no Botafogo. Embora bem recebido (afinal, sempre fora um jogador admirado inclusive pelos rivais), sua passagem por General Severiano foi rápida, atuando apenas no time de aspirantes.

Em janeiro do ano seguinte, seguiria para o pequeno Campo Grande, que recrutara alguns veteranos como o goleiro Barbosa (ex-Vasco e Seleção) e o meia Décio Esteves (ex-Bangu) para sua campanha de estreia no Campeonato Carioca. Na primeira partida, o time surpreenderia ao bater o Botafogo (detentor do título e que chegaria ao bi no fim do ano) por 1 a 0 no Maracanã, mas o restante da campanha foi um tanto irregular, ainda que bom para um debutante.

Em 1963, por fim, Dequinha retornaria ao América do Recife após 12 anos no futebol carioca, dividindo brevemente os postos de jogador e técnico, antes de se retirar de vez dos gramados com festa na capital pernambucana. Iniciaria ali uma carreira de 30 anos como treinador, na qual passaria por clubes de vários estados brasileiros, especialmente os nordestinos. Aposentado, morreu de cirrose hepática em Aracaju no dia 30 de julho de 1997, aos 68 anos.

Lenda rubro-negra

Na galeria de ídolos rubro-negros, porém, Dequinha é imortal. Nas duas primeiras votações feitas pela revista “Placar” para apontar o Flamengo de todos os tempos, em 1982 e 1994, Dequinha marca presença, superando Andrade, Carlinhos e Bria. Em seu tempo, foi homenageado em músicas como o famoso “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista (“O Mais Querido / Tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra São Jorge / Pro Mengo ser campeão”).

Nas notas de edição do livro “Flamengo é Puro Amor”, do escritor paraibano e rubro-negro José Lins do Rego, o jornalista Marcos de Castro relembra uma história curiosa: nos primeiros anos após sua inauguração, em meados dos anos 1950, o Monumento aos Pracinhas, no Aterro da Glória, no Rio, recebeu um apelido diferente: o soldado, o marinheiro e o aviador esculpidos em pedra eram chamados popularmente de “Jadir, Dequinha e Jordan”.

Em julho de 1975, ele voltou a vestir a camisa do clube no Maracanã, num jogo de veteranos dos (até ali) dois tris cariocas rubro-negros, reencontrando velhos companheiros na preliminar de um amistoso em que o Fla dos garotos Zico, Júnior e Geraldo derrotou a Juventus de Zoff, Scirea, Gentile, Causio e Bettega por 2 a 1. Naquele dia do encontro do Flamengo com sua história, mais de uma geração de torcedores teve a chance de matar as saudades ou de conhecer para não mais esquecer a categoria de um dos jogadores mais elegantes da história do clube.