Num tempo em que muitos jogadores faziam carreira num mesmo clube, ele rodou por mais de uma dezena de gigantes do Brasil e do exterior, tornando-se ídolo em clubes de massa, como Flamengo, Vasco e Corinthians. Jogou ainda uma Copa do Mundo com a Seleção e foi, em seu tempo, aclamado como craque. Silva, o “Batuta”, completa 80 anos nesta quinta como uma relíquia de uma era de ouro do futebol brasileiro entre o fim dos anos 50 e início dos 70.

O atacante de estilo elegante, ótimo domínio de bola e cabeçadas perfeitas conseguiu se destacar num Corinthians que começava a sofrer com o jejum. Deu ao Flamengo um prestigioso título de campeão carioca no ano do Quarto Centenário da cidade do Rio de Janeiro. Tirou o Vasco de uma fila de 12 anos no Estadual. Tabelou com Zizinho no São Paulo e Pelé no Santos. Foi ainda um raríssimo artilheiro brasileiro no futebol argentino. Até o Barcelona chegou a defender.

Nascido no bairro da Liberdade, de pais mineiros (ele, funcionário do Mercado Municipal e ela, da fábrica de cigarros Souza Cruz), Walter Machado da Silva tinha o futebol apenas como diversão na infância. Não era torcedor fanático, nem sonhava em ser jogador. Batia sua bolinha porque gostava, num time de amigos que jogava no Éden, clube próximo de sua casa. Mas de lá, aos 15 anos, foi levado para um teste no São Paulo e agradou. Corria o ano de 1955.

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Profissionalizado aos 17 anos, em julho de 1957, Silva participaria como ponta-de-lança de oito jogos da campanha tricolor rumo ao título paulista daquele ano. Difícil, porém, era o garoto recém-promovido dos juvenis conquistar seu espaço em meio a uma equipe são-paulina recheada de grandes craques, todos muito experientes, como Dino Sani, Gino, Maurinho, Canhoteiro, além de um Zizinho já em fim de carreira, mas ainda brilhante.

Diante disso, e apesar do insistente pedido do técnico Bela Guttmann após vê-lo em ação pelos aspirantes (“Jamais cometam a loucura de vender este jogador”, teria dito o húngaro), Silva acabou primeiro emprestado ao Batatais, da segunda divisão paulista – para onde foi contrariado e sob a alegação de “ganhar experiência” – em março de 1958, e mais tarde vendido em definitivo ao Botafogo de Ribeirão Preto, em maio de 1959.

Após uma boa primeira temporada defendendo a Pantera, na qual chegaria a marcar o gol da vitória no clássico Come-Fogo pelo Paulistão disputado em 18 de outubro, Silva seria obrigado a cumprir tardiamente o serviço militar em Pirassununga, no 17º Regimento de Cavalaria do Exército, atuando poucas vezes pelo Botafogo no primeiro semestre de 1960. Já no segundo, voltou à ativa e marcou gols importantes.

Seu grande momento com o clube de Ribeirão Preto viria no início de 1962, quando a equipe embarcou para excursão de 14 partidas pela Argentina, enfrentando adversários como Quilmes, Estudiantes, Ferro Carril, Newell’s Old Boys, Colón e Boca Juniors. O bom futebol exibido por alguns jogadores – entre eles Silva – colocou os brasileiros no radar nos clubes argentinos. Mas o destino do atacante seria, por enquanto, ficar por São Paulo.

Um ídolo para a Fiel

O Corinthians tinha vivido um desastroso ano de 1961, no qual chegou a acumular 11 partidas sem vitória com uma equipe que ganharia o apelido de “Faz-me rir”, inspirado numa música de sucesso da cantora Edith Veiga. Assim, em meio a uma grande reformulação para voltar a brigar pelo título paulista, o qual não conquistava desde 1954, o Alvinegro venceu a disputa com o Boca Juniors e levou Silva de Ribeirão Preto para o Parque São Jorge.

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A recuperação foi imediata: entre abril e junho de 1962, enquanto a Seleção se preparava à Copa do Mundo do Chile, foi disputada a Taça São Paulo, torneio eliminatório com jogos de ida e volta entre os clubes do estado, e a qual o Corinthians acabou levantando, com grandes atuações de Silva e de seu novo parceiro de ataque, o prata-da-casa Nei. Após superar a Portuguesa Santista e o Taubaté, o adversário nas quartas seria o São Paulo.

No jogo de ida, os tricolores levaram a melhor e venceram por 2 a 0. Na volta, no Parque São Jorge, o Corinthians se impôs e goleou por 5 a 1, com Silva abrindo o placar e sendo considerado pela crônica da Folha de São Paulo o melhor do Alvinegro. Após devolver a derrota por 2 a 0 para a Ferroviária em Araraquara pela semifinal com outra goleada (4 a 0) na capital, o Timão, então dirigido pelo paraguaio Manuel Fleitas Solich, decidiria a taça com o Santos.

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Mesmo desfalcado de Pelé, Coutinho, Zito e outros nomes de Seleção, o Peixe ainda contava com craques do quilate de Lima, Dorval e Pagão. Mas o Corinthians levaria a melhor no primeiro jogo, vencendo por 3 a 1 no Parque São Jorge. Na volta, na Vila Belmiro, em 21 de junho, Silva marcaria seu sétimo gol no torneio ao abrir o placar para o Timão. E, após uma série de reviravoltas, o empate em 3 a 3 confirmaria o título para a equipe da capital.

No segundo semestre, graças aos gols da dupla Silva e Nei, o Corinthians empreenderia uma de suas melhores campanhas no Paulistão na longa era do jejum, chegando em vários momentos a ter chances reais de brigar pelo título com o Santos. Alguns tropeços na reta final, porém, fizeram com que a desvantagem para o Peixe aumentasse, e o Timão terminou em segundo, 11 pontos atrás do campeão, mas três à frente do São Paulo e nove do Palmeiras.

Silva, por sua vez, teve um ótimo desempenho individual, marcando 28 gols em 28 jogos no Paulistão (no ano, foram 40 tentos em 46 partidas). Destacado pela imprensa de São Paulo pelas precisas cabeçadas, pela potência dos chutes com ambos os pés e pela maior agressividade que imprimira ao ataque do Corinthians, era apontado como um candidato à Seleção Brasileira para o Mundial de 1966, caso mantivesse o alto nível das atuações.

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Na temporada 1963, o Corinthians apresentaria um surpreendente declínio no Paulistão, após a saída de Fleitas Solich em maio, antes do início do torneio. O Alvinegro ficaria apenas na nona posição, com 11 derrotas nas 30 partidas. Mas enquanto Nei passava a ser contestado e até perseguido pelos torcedores, o prestígio de Silva permanecia intacto: com 16 gols, ele seria o artilheiro do time, ficando a apenas seis de Pelé, artilheiro do campeonato.

Tanto que, numa matéria em que apresentava os possíveis parceiros de Pelé na Seleção, a Revista do Esporte comentava sobre Silva: “É emérito fabricante de gols e disso tem dado provas no Corinthians, figurando entre os grandes artilheiros do futebol paulista. Tem 23 anos de idade e conhece o segredo para romper as defesas adversárias. É valente, incansável, cabeceia bem e sabe envolver o adversário com Inteligência. Sua cotação está bem elevada”.

Sem ter engrenado com os dois treinadores que passaram pelo comando durante o Paulistão de 1963 – os velhos ídolos Antonio Castelli, o Rato, e Armando Del Debbio – o Corinthians apostou no carioca Paulo Amaral, preparador físico da Seleção e técnico linha dura, para a temporada 1964. No mesmo ano, em março, chegava o atacante Flávio “Minuano”, destaque do Internacional e cobiçado por vários clubes do Rio e São Paulo. Seria o novo parceiro de Silva.

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No começo de agosto, porém, Paulo Amaral deixaria o clube para treinar o Genoa. Seu bom trabalho foi mantido por algum tempo pelo ex-meia Roberto Belangero. Em 18 de novembro, a quatro rodadas do fim do campeonato, o time bate o Noroeste no Pacaembu (2 a 1) e é líder com 38 pontos, contra 32 de Santos e Portuguesa e 31 do Palmeiras – os três, no entanto, com jogos a menos. Foi quando caldo começou a entornar.

No jogo seguinte, o time perde por 4 a 2 para a Lusa. Uma semana depois, desfalcado de Silva, seria goleado pelo Palmeiras por 4 a 1. Com os dirigentes de ânimos exaltados, Belangero seria demitido, dando lugar a Oswaldo Brandão, que dirigia o Botafogo de Ribeirão Preto e vinha de uma pesada derrota de 11 a 0 para o Santos. Por ironia, o Peixe era o próximo adversário do Corinthians, na tarde de 6 de dezembro no Pacaembu.

No primeiro tempo, um equilibrado empate em 2 a 2. Na etapa final, porém, Pelé desencantaria: anotaria quatro gols e decretaria a goleada por 7 a 4. Silva anotou dois pelo Corinthians, mas não pôde evitar o revés que tirou as chances do time do Parque São Jorge na competição. E, de quebra, ainda ganharia um desafeto no novo treinador corintiano, e que acabaria sendo o pivô de sua saída do clube, logo após o Torneio Rio-São Paulo de 1965.

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Nesse interim, a relação entre os dois foi tumultuada. Treinador com histórico de convivência difícil com os astros dos times os quais dirigia, Brandão sistematicamente sacava Silva durante os jogos até, por fim, passar a deixá-lo na reserva. Com a queda do rendimento da equipe, o treinador apontou Silva como responsável, a fim de incompatibilizá-lo com a torcida. E como tinha muitos amigos na imprensa em São Paulo, suas críticas eram reverberadas.

Brandão e Silva chegaram a discutir asperamente, quase indo às vias de fato. Sem ambiente, acabaria deixando o clube pelo qual marcou 90 gols em 141 jogos. Mudando de ares, seguiria para o futebol carioca. O Botafogo era o destino inicial, mas não houve acordo. Em maio, enfim, aportaria no Flamengo. Enquanto isso, em São Paulo, Oswaldo Brandão dispensava vários nomes no Corinthians – coincidentemente, todos jogadores negros como Silva.

No Flamengo, o auge da carreira

O atacante chegou ao Flamengo por empréstimo até o fim da temporada, podendo ficar por mais um ano, com o clube tendo ainda a preferência de adquirí-lo em definitivo. Na Gávea, vivia-se um momento de transição. Havia ainda a carência de um grande ídolo desde as saídas de Dida e Gerson ainda durante à campanha do título carioca de 1963. Novo dono da camisa 10, Silva trataria de preencher a lacuna em grande estilo.

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O veterano Flávio Costa, técnico que se desentendera com Dida e Gerson e provocaria a saída dos dois, também vivia seus últimos dias no comando do Fla, antes de aceitar uma proposta do Porto. Após uma passagem do ex-zagueiro Newton Canegal como interino pelo posto, o clube trouxe em agosto o argentino Armando Renganeschi, referendado por bons trabalhos no interior paulista. Pouco antes, também chegara o experiente e polêmico atacante Almir.

Com o “Pernambuquinho”, que aos 27 para 28 anos já havia rodado por Sport, Vasco, Corinthians, Boca Juniors, Fiorentina, Genoa e Santos, Silva formaria uma dupla que marcaria época entre os torcedores rubro-negros. Depois de participação discreta na primeira edição da Taça Guanabara, criada naquele ano como um torneio separado, o time de Renganeschi começou a dar liga no enxuto Campeonato Carioca daquele ano, disputado por apenas oito clubes.

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E Silva começou a marcar gols decisivos. Na estreia, anotou o segundo no triunfo por 2 a 1 sobre o America. Na quarta rodada, diante do Vasco, seu chute forte após jogada individual no começo do segundo tempo também deu a vitória aos rubro-negros por 2 a 1. E na última rodada do turno, seria o dono do placar nos 2 a 0 sobre o Botafogo. Primeiro aproveitando-se da indecisão entre Rildo e Manga e depois enchendo o pé em cobrança de falta que parou no ângulo.

No returno, o camisa 10 balançaria as redes pela primeira vez no reencontro com o Vasco. Em jogo muito disputado, com as defesas prevalecendo sobre os ataques, seria dele o único gol, num chute violento da intermediária, aos 27 minutos da etapa final, que surpreendeu o incrédulo goleiro Gainete, manteve o Flamengo no caminho do título (no qual tinha o Bangu como maior adversário) e renderia comentário de Nelson Rodrigues.

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“Foi um tiro mortífero, tão inapelável, que o goleiro não esboçou um gesto, não exalou um suspiro, não piscou um olho. A bola já saíra dos pés de Silva com a predestinação das redes. O gol foi trabalho dele, intuição dele, imaginação dele”, escreveu o dramaturgo em sua coluna no Jornal dos Sports. O atacante também decidiria o jogo seguinte, marcando de cabeça o gol da vitória sobre o Bonsucesso em tarde de calor intenso no Maracanã.

No dia 12 de dezembro, uma vitória no Fla-Flu deixaria os rubro-negros bem perto do título. E o time começaria com tudo: teria, logo de início, um gol legal de João Daniel (o substituto de Almir) anulado por Armando Marques, mas balançaria as redes de novo com o ponta Neves. Mas os tricolores empatariam em jogada individual de sua revelação do ano, o atacante Samarone. E na etapa final, Silva apareceria para decidir, como fizera em tantos jogos do certame.

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Aos 36 minutos, o lateral Murilo cobrou falta levantando para a área. Silva dominou no peito com classe, ganhou a disputa com o zagueiro Valdez e, de virada, soltou a bomba indefensável para o goleiro Edson. Um golaço que manteve o Flamengo dois pontos à frente do Bangu às vésperas da última rodada. E o título acabaria vindo sem entrar em campo: na noite de sábado, o Fluminense bateu os alvirrubros por 1 a 0 e deu de bandeja o caneco ao Fla. Nem mesmo a derrota para o Botafogo no último jogo impediu a intensa e ruidosa comemoração rubro-negra.

Silva terminaria como o artilheiro do Fla, com sete gols em 14 partidas (das quais o time venceu dez, empatou duas e perdeu outras duas). E seria incluído na seleção do campeonato feita pela imprensa carioca, além de eleito quase por unanimidade o craque do torneio – apenas o jornal O Globo preferiu o lateral-direito Murilo, então vivendo o auge de sua longa carreira no Flamengo, em fase técnica e física excelente e que o levaria à Seleção.

Na Seleção: passagem curta, mas com vaga na Copa

Silva também teria sua oportunidade na Seleção em 1966 como um dos quatro jogadores rubro-negros incluídos no listão de 47 atletas convocados para a fase de preparação visando ao Mundial da Inglaterra (além dele e de Murilo, também foram chamados o lateral-esquerdo Paulo Henrique e o zagueiro Ditão, sem falar no meia Fefeu, outro campeão carioca com o Fla no ano anterior, mas que em janeiro havia sido negociado com o São Paulo).

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Silva era um dos oito candidatos a “parceiro de Pelé” no ataque da Seleção, dos quais três seriam confirmados no Mundial. Nos amistosos, quando foi testado, correspondeu: marcou em todos os que entrou como titular. Abriu o placar nas vitórias por 3 a 1 sobre o País de Gales e 2 a 1 sobre a Polônia, ambos no Maracanã. Mais tarde, na Suécia, marcou três vezes na goleada de 8 a 2 sobre o Atvidaberg. Acabaria incluído entre os 22 da lista final.

Na Inglaterra, porém, só entraria em campo no último jogo da primeira fase, contra Portugal, em meio ao desespero que bateu na equipe de Vicente Feola pela classificação quase improvável. Com a lesão de Pelé, retirado de campo aos pontapés pelos beques lusos, Silva teria de jogar por ele e pelo camisa 10. No fim, ele próprio sofreria: levou uma joelhada não intencional do goleiro José Pereira em disputa pelo alto que resultou na fratura de duas costelas.

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De volta ao Flamengo, ele outra vez seria decisivo em vários jogos do Carioca, marcando inclusive nos 2 a 0 sobre o Vasco em São Januário no returno. O time chegaria invicto à última rodada, mas colecionara alguns empates pelo caminho e estava a dois pontos do Bangu, a quem havia batido no turno por 2 a 1, com um gol de Silva (expulso de forma polêmica em seguida) e um antológico de Almir, arrastando-se na lama para empurrar a bola para as redes.

Dois dias após este jogo, o Fla foi a Buenos Aires para enfrentar a seleção argentina, que fizera bom papel na Copa do Mundo. A partida foi no estádio do Independiente em Avellaneda, e a Albiceleste abriu o placar com Bernao apanhando um rebote na pequena área. Mas os rubro-negros empatariam no segundo tempo: o ponta Gildo cobrou escanteio pela direita, Almir fez o corta-luz e Silva entrou num peixinho espetacular para decretar o 1 a 1 final.

Na decisão do Carioca contra o Bangu, o árbitro seria o mesmo Aírton Vieira de Moraes, o “Sansão”, que expulsara Silva no jogo do turno. O Fla arriscara ao entrara em campo com o ponta-direita Carlos Alberto sem as melhores condições. E ele ficaria fora de ação de vez logo aos cinco minutos, ao sofrer entrada violenta de Ari Clemente. Mais tarde, aos 20 minutos, seria a vez de perder Nelsinho, que sofreu entorse do ligamento do joelho num choque.

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Quando o Bangu abriu o placar aos 23 minutos do primeiro tempo, o Flamengo já tinha apenas nove jogadores em campo. Havia ainda a suspeita de que o goleiro rubro-negro Valdomiro tivesse se vendido. Assim, na metade do segundo tempo, quando o banguense Ladeira acertou um tapa em Paulo Henrique após uma falta, foi a gota d’água para Almir, que partiu para cima do adversário, iniciando uma batalha campal que entrou para a história do Maracanã.

Aquela partida marcaria o fim da primeira passagem de Silva pelo Flamengo, onde se fizera ídolo. O clube não tinha como arcar com a quantia pedida pelo Corinthians por seu passe, valorizado pelas atuações no próprio Fla e pela Seleção, que o haviam colocado até mesmo na mira de clubes estrangeiros. E seu destino seria um deles: o Barcelona, que pagaria Cr$ 600 milhões para contar com o atacante já em janeiro de 1967, meio de temporada na Europa.

Do Camp Nou à Gávea, via Vila Belmiro

A contratação era vista como uma pressão do presidente do Barcelona, Enric Llaudet, sobre a federação espanhola para forçar a flexibilização da contratação e inscrição de atletas estrangeiros (o Barça – como os demais clubes espanhóis – tinha forasteiros em seu elenco, mas estes possuíam dupla nacionalidade). No fim das contas, sem poder ser oficialmente registrado, Silva atuaria apenas em 15 amistosos pelos azulgranas, marcando nove gols.

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No início de julho, o atacante acertaria seu retorno ao Brasil, emprestado ao Santos. Atuando por vezes no lugar de Pelé e em outras na vaga de Toninho Guerreiro, faria parte do elenco campeão paulista daquele ano. Marcaria inclusive o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Guarani na Vila Belmiro em sua estreia e chegaria a ser incluído na seleção do primeiro turno do campeonato. Ao todo, faria 19 partidas e balançaria as redes 11 vezes em sua passagem pelo clube.

Silva tinha contrato de empréstimo com o Santos até julho de 1968, mas não desejava ficar. O Barcelona, dono de seu passe, pretendia vende-lo. E o destino do atacante quase foi o Bangu, que chegou a mandar o técnico Martim Francisco à Espanha para negociar pessoalmente com Enric Llaudet, sem sucesso. Por fim, numa transação um tanto complicada, o Flamengo acertaria a repatriação de seu ídolo por novo empréstimo.

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O time rubro-negro vivera um dos piores anos de sua história em 1967 e precisava ser reforçado. Daí o empenho do sueco Gunnar Goransson, diretor de futebol do Flamengo desde a primeira passagem de Silva pelo clube, em contar de novo com o atacante. E ele reestrearia no dia 3 de março, em amistoso contra o Cruzeiro que marcava a reabertura do Maracanã para a temporada e também a entrega das faixas de campeão mineiro ao adversário.

Foi uma das partidas inesquecíveis para o jogador em sua carreira. Aclamado pelos mais de 90 mil torcedores presentes, que entoavam o samba “Voltei”, de Osvaldo Nunes (sucesso daquele Carnaval), Silva comandaria a goleada rubro-negra por 5 a 1 sobre o time de Tostão e Dirceu Lopes balançando as redes duas vezes no primeiro tempo. O restante da temporada, no entanto, seria bastante irregular para o clube e o jogador.

Houve outros momentos de brilho, como a conquista do Torneio de Casablanca, no Marrocos, com participação decisiva de Silva na vitória sobre o Racing (então campeão mundial) e o gol de bicicleta do atacante no 1 a 0 sobre o Athletic Bilbao no Camp Nou pelo Troféu Joan Gamper. Mas o camisa 10 passaria parte do ano às voltas com a lesão sofrida em maio, ao pisar num buraco do gramado do Maracanã na vitória por 2 a 1 sobre o Vasco pelo Carioca.

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Enfrentando dificuldades financeiras de longa data, o Flamengo não tinha condições de continuar a arcar com o empréstimo de Silva, e ele partiria para uma segunda experiência no exterior, agora bem-sucedida: em fevereiro de 1969, ele se transferiria para o futebol argentino (que tinha dele uma boa impressão dos confrontos contra clubes e seleção) para defender o Racing. A passagem por Avellaneda duraria apenas um ano, mas bastaria para ficar na história.

“Machado da Silva”, artilheiro na Argentina

No primeiro semestre era disputado o Campeonato Metropolitano, com 22 equipes divididas em dois grupos, com os dois primeiros avançando às semifinais. Ao fim da primeira fase, o Racing terminou como líder de sua chave, à frente de River Plate e Estudiantes, e com a maior pontuação geral (35, quatro a mais que os Millonarios). Porém, na semifinal jogada no campo neutro de La Bombonera, cairia diante do surpreendente Chacarita Juniors por 1 a 0.

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Se a eliminação seria frustrante para um Racing ainda muito forte, com jogadores como Cejas no gol e Perfumo na zaga, o desempenho individual de Silva mereceu extenso destaque na imprensa argentina. Não era para menos: com seus 14 gols, muitos deles cruciais para vitórias ou em jogos grandes, o atacante que ficou conhecido por lá como “Machado da Silva” se tornaria o primeiro – e ainda hoje único – brasileiro artilheiro de um Campeonato Argentino.

Em edição especial de 2011 da revista El Gráfico, Silva era incluído entre os 100 maiores ídolos da Academia. Sobre ele, a publicação comentou: “Era delicioso vê-lo jogar: tinha um grande domínio da bola, um drible vistoso, uma pegada de outro planeta e um soberbo cabeceio”. Já a revista oficial do clube também não poupou elogios ao falar do atacante, antes de encerrar assim o comentário: “Veio, brilhou e foi embora para que sentissem sua falta”.

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Silva também sentia falta, mas do Brasil. Gostava do carinho dos torcedores argentinos e se sentia valorizado pelos elogios da imprensa. Mas acreditava que seu lugar era mesmo aqui. Por isso ficou exultante quando surgiu a proposta do Vasco, em janeiro de 1970. Curiosamente, em São Januário ele reencontraria o técnico Tim, outro com história no futebol argentino, e que no ano anterior havia aberto mão de seu futebol ao chegar para dirigir o Flamengo.

O fim do sofrimento vascaíno

O Vasco enfrentava um jejum de títulos cariocas que atravessara os anos 60. A última conquista havia sido o chamado “supersupercampeonato” de 1958. Nesses 12 anos, só chegara a decidir o título uma vez, em 1968, quando acabou goleado pelo Botafogo por 4 a 0. Além disso, vinha com moral baixo após terminar o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969 na lanterna entre 17 participantes. E não entrava bem cotado na nova temporada.

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O Botafogo desfilava seus craques de Seleção. O Fluminense, atual campeão carioca, tinha uma equipe sólida e que mais tarde naquele ano venceria o Robertão. O Flamengo, agora dirigido pelo polêmico Yustrich, vinha embalado com as conquistas do Torneio de Verão e da Taça Guanabara, que se estendeu por quase todo o primeiro semestre. Até o America, com um time jovem e técnico dirigido pelo estrategista Oto Glória, parecia mais candidato.

O Campeonato Carioca começaria logo após o tri da Seleção no México, sendo disputado até setembro. O regulamento era o mesmo desde 1966, com 12 times no turno e os oito melhores no returno, em pontos corridos. O Vasco, que fizera campanha discreta na Taça Guanabara, tinha um time considerado limitado, embora com bons jogadores, como o goleiro argentino Andrada, o lateral Fidélis, os meias Alcir e Buglê e o ponta Luís Carlos.

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E agora tinha Silva, seu camisa 10 e líder em campo. “Era o homem de que eu precisava. Atacante de choque, inteligente, bom chutador e excelente cabeceador”, afirmava o técnico Tim. Mesmo já trintão e atuando um pouco mais recuado, aproveitando para armar o jogo, o atacante seguia balançando as redes com a mesma frequência de antes. Nos dois primeiros jogos – 2 a 1 no Bonsucesso e no Madureira – ele anotou os gols da vitória.

O time aos poucos pegava liga, mas os resultados nos clássicos – empates com Fluminense (1 a 1) e Botafogo (0 a 0), mais a derrota por 3 a 1 para o America – faziam com que a torcida seguisse cética. Até que viria o jogo contra o Flamengo, pela penúltima rodada do turno. O jogo seguiu com placar em branco até os 40 minutos da etapa final, quando o atacante Valfrido cruzou da direita, Buglê deixou passar e Silva, livre, escorou para dar a vitória ao Vasco.

Foi o divisor de águas na campanha. Dali em diante, a equipe venceria todos os jogos até ser coroada campeã com uma rodada de antecipação. Bateu de novo o Flamengo por 1 a 0; vingou-se do Campo Grande, que tirara um ponto seu no turno, goleando por 4 a 0; derrotou o America na raça por 3 a 2 com dois de Silva; e enfim, no dia 17 de setembro, a agonia da torcida chegava ao fim com a vitória por 2 a 1 sobre o Botafogo que valeu o caneco.

O Vasco quebrava o jejum com campanha coesa: 13 vitórias em 18 partidas, com três empates e duas derrotas (por ironia, como o Flamengo de 1965, perderia o jogo das faixas, batido pelo Fluminense por 2 a 0). Silva – que na partida decisiva saiu carregado nos ombros pelos torcedores que invadiram o gramado do Maracanã, sendo o jogador mais festejado – atuou em todos os jogos e terminou como o artilheiro da equipe, com nove gols.

Infelizmente, para os vascaínos, o bom momento se perdeu logo depois. A crise política que parecia ter sido contornada no início do ano voltou com tudo, culminando na saída do supervisor José Bonetti. Além disso, salários e premiações estavam em atraso. O time naufragou no Robertão, terminando de novo na última colocação, com um único momento de brilho: a goleada de 5 a 1 sobre o Santos de Pelé no Maracanã, com dois gols de Silva.

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O mau momento adentrou 1971 mesmo com a chegada de Paulo Amaral, campeão nacional com o Fluminense, para o lugar de Tim. Os cruzmaltinos ficaram num decepcionante sétimo lugar no Carioca, fechando a campanha com oito derrotas seguidas. No segundo semestre, Silva deixaria o Vasco, emprestado ao Botafogo para o Campeonato Brasileiro, tendo discreta participação na campanha que levou o clube de General Severiano ao triangular final.

O Vasco ganharia uma “injeção de ânimo”, nas palavras de seu presidente Agathyrno da Silva Gomes, com a contratação de Tostão, que parou o Rio de Janeiro em abril de 1972. E Silva, que retornava após a passagem pelo Botafogo, reeditava com o mineiro a dupla que chegou a formar uma vez na Seleção, além de ganhar também um outro companheiro de ataque, um ex-juvenil do clube que despontara no ano anterior chamado Roberto.

Com isso, o veterano de 32 anos voltou a demonstrar um bom futebol, chegando a anotar os dois gols do Vasco num empate com o Flamengo pelo segundo turno do Carioca. Os cruzmaltinos fizeram boa campanha tanto no Estadual quanto no Brasileiro, mas não levantaram títulos. E Silva já se encaminhava para o fim da carreira: no ano seguinte seguiria para a Colômbia, defendendo o Atlético Junior, voltando no segundo semestre para disputar o Brasileiro pelo Rio Negro.

Seu último clube seria o Tiquire Flores, da Venezuela. Desapontado com a falta de organização do futebol no país vizinho, pendurou as chuteiras discretamente aos 34 anos e voltou ao Rio e, tempos depois, ao Flamengo, trabalhando na base do clube. Chegou a se formar em Direito, mas exerceu a profissão por pouco tempo. Sua identificação com o Rubro-Negro o levou de volta à Gávea, trabalhando até hoje na administração social.

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Nos anos 80 e 90, seus filhos Valtinho e Wallace também chegariam a defender o Flamengo, além de outros clubes brasileiros e estrangeiros. Por fim, em 2014, sua vida e carreira foram retratadas numa extensa biografia escrita por Marcelo Schwob (“Silva, o Batuta – O craque e o futebol de seu tempo”), com mais de 600 páginas repletas de valiosas histórias e curiosidades do jogo naquele período em que o atacante atuou profissionalmente.

E o apelido “Batuta”? Nasceu por obra do lendário Jorge Curi, um dos gigantes do rádio esportivo carioca em todos os tempos, ao ver o atacante regendo como um maestro a torcida rubro-negra do banco de reservas em um Flamengo x Vasco, após ter sido substituído por se lesionar. Mas poderia perfeitamente ser pela liderança exercida em campo nas equipes em que jogou e pelo respeito que seu futebol de arte, inteligência e eficiência impunha aos adversários.

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Como extra, vale conferir a crônica completa de Nelson Rodrigues, no Jornal dos Sports, sobre a atuação de Silva contra o Vasco em 1965:

Silva explodiu

“O caso presente de Silva não me deixa mentir. Hoje, qualquer paralelepípedo da Boca do Mato ou qualquer cabra vadia de Lins de Vasconcellos sabe que o Silva é um craque. No jogo Flamengo x Vasco ele explodiu. Simplesmente explodiu. E passou a ser, e só então, um fato de manchete, de primeira página, de oito colunas. Mas como o marido da ópera bufa, a crônica foi a última a saber.

E há ainda os que duvidam e mesmo os que negam. Mas os mitos, volto a dizer, nasceram nas arquibancadas, nas esquinas e nos botequins. O crioulo ainda não estreara e já a torcida sonhara com seu futebol. Eis a verdade que os idiotas da objetividade ainda não descobriram: a multidão, e sobretudo a multidão rubro-negra, tem espasmos, arrancos mediúnicos. Silva ainda não dera sua primeira botinada e já a massa flamenga profetizava o craque integral.

Dei a entender que a multidão é sempre médium vidente. Mas ela ainda possui outros dons abundantíssimos. Por exemplo: sabe admirar e gosta de admirar. Ao passo que, na maioria dos casos, o cronista é um impotente da admiração. É como compreender sem admirar. Só tarde, muito tarde, é que descobrimos Silva.

Mas justiça se lhe faça: foi o povo que criou o mito e o impôs à crônica. Digo “mito” porque ninguém é grande em futebol sem a dimensão mitológica. E nós temos por Silva o que eu chamaria de admiração induzida. Induzida pelo simples e luminoso homem de arquibancada.

Claro que não estou nivelando todos os colegas. Há os que são lúcidos, sensíveis, como Mário Filho, João Saldanha, Fernando Horácio, Achilles Chirol e poucos outros. Esses vêem o futebol brasileiro através de uma ótica monumental, homérica. 

É essa também a visão da torcida. Peguem um crioulão qualquer da massa rubro-negra. Sua fala é cálida e larga como um canto. Ele nunca terá do Flamengo uma imagem liliputiana. Não. Aos seus olhos, um Silva é uma gigantesca figura de Michelangelo”.

(Nelson Rodrigues)

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Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

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