Ele deu um título histórico, o de “supersupercampeão” carioca, ao Vasco em 1958. Brilhou no subúrbio do Rio pelo Bangu, e mais tarde, num time lendário do Olaria. Conquistou título também no Fluminense e deixou seu nome marcado no interior paulista, onde transformou a Ponte Preta na sensação do futebol brasileiro em 1970. Sobrinho de Jair Rosa Pinto, um dos meias mais elegantes do futebol brasileiro, Roberto Pinto levava adiante a tradição do estilo refinado. Gostava de tratar bem a bola e desprezava o chute de bico. Tinha muita visão de jogo e fazia uma equipe girar em torno dele. Era, também a exemplo do tio, um exímio cobrador de faltas e pênaltis. Magrinho, baixo e de pernas finas, tinha, porém, um chute fortíssimo. Se estivesse vivo, o talentoso meia completaria 80 anos neste domingo.

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Nascido em Mendes, na época distrito de Barra do Piraí, interior do estado do Rio (próxima a Barra Mansa, que deu ao futebol brasileiro seu tio Jair), tinha o jogo no sangue: seu pai e alguns dos demais tios também haviam sido profissionais. Havia inclusive morado em várias cidades interioranas do antigo estado do Rio, de São Paulo e de Minas Gerais acompanhando a carreira paterna. Quando decidiu ele mesmo se tornar jogador, foi levado ao Palmeiras, onde não foi muito aproveitado. Seguiu para o Rio, onde tentaria a sorte no clube de seu coração, o Vasco.

Os primeiros passos na Colina

Nos juvenis cruzmaltinos, seria campeão e vice-artilheiro do time no Carioca da categoria em 1954, na mesma equipe que revelou o zagueiro Orlando Peçanha, futuro bicampeão mundial com a Seleção. Dois anos depois, assinaria o primeiro contrato profissional e estrearia no time de cima, aparecendo brevemente na campanha do título carioca daquele ano, disputando três partidas como ponta-de-lança (duas ao lado de Vavá e outra ao lado do reserva Artoff) e marcando um gol na vitória por 4 a 0 sobre o Canto do Rio em Caio Martins.

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Após algumas aparições bem esporádicas na equipe ao longo do ano de 1957 e primeiro semestre de 1958, surgiu uma nova oportunidade na metade do returno do Campeonato Carioca. O Vasco havia negociado Vavá com o Atlético de Madrid logo no começo do torneio e, em meados de novembro, vinha sofrendo com lesões frequentes de seus homens de frente. Para o clássico diante do Fluminense, no dia 16 daquele mês, veria-se desfalcado de Almir Pernambuquinho e do meia Rubens (o “Doutor Rúbis”, antigo ídolo do Flamengo). Foi buscar nas categorias inferiores o garoto Roberto Pinto, que teve boa atuação no empate em 1 a 1 e se manteve no time, sempre no lugar de um dos dois, ou ainda do centroavante Delém.

vasco 1959 - 01

A duas rodadas do fim, ao bater o Olaria por 4 a 0 (com um dos gols de Roberto Pinto), o Vasco abria quatro pontos de vantagem sobre Flamengo e Botafogo – vale lembrar que a vitória na época valia dois pontos. Curiosamente, seus dois últimos jogos seriam justamente contra seus perseguidores. Bastava um empate contra qualquer um de ambos para confirmar a conquista. Porém o Vasco perdeu para o Botafogo por 2 a 0 e para o Flamengo por 3 a 1. Como alvinegros e rubro-negros também venceram suas demais partidas, o campeonato terminou num incrível empate triplo (numa mostra de equilíbrio total, o Fluminense terminou em quarto apenas um ponto atrás).

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A igualdade provocou a realização de um triangular extra, o “Supercampeonato”, que viraria o ano, para tentar apontar o campeão. Em 21 de dezembro, na abertura, o Vasco teve sua revanche contra o Flamengo, vencendo por 2 a 0, gols de Pinga e Almir Pernambuquinho. No dia 28, foi a vez de os rubro-negros baterem o Botafogo por 2 a 1 de virada: Paulinho Valentim abriu o placar, mas Dida e Luís Carlos viraram para o Fla ainda no primeiro tempo. Na última rodada, em 3 de janeiro, bastava aos cruzmaltinos um empate diante dos alvinegros. Mas o Botafogo venceu por 1 a 0, com novo gol de Paulinho Valentim, embolando tudo outra vez.

Supersupercampeão

O jeito foi realizar um segundo triangular, chamado de “Supersupercampeonato”, que começaria com a tabela invertida, no dia 10 de janeiro. Foi a vez de o Vasco ter sua vingança contra o Botafogo, derrotado por dois gols de Pinga, com Quarentinha descontando. No dia 14, Flamengo e Botafogo voltariam a campo e empatariam em 2 a 2: Dida abriu o placar para os rubro-negros no primeiro tempo, antes de Quarentinha marcar duas vezes para virar na etapa final e de Luís Carlos tornar a empatar, tirando os alvinegros da briga.

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No terceiro jogo, em 18 de janeiro de 1959, não havia mais escapatória: o título seria decidido de qualquer maneira. E foi o garoto Roberto Pinto quem abriu o caminho para o Vasco – que jogava pelo empate – recebendo livre um cruzamento de Sabará para encher o pé e bater o goleiro Fernando aos 13 minutos da etapa final. O Flamengo igualaria a contagem aos 25 com um belo gol de fora da área do ponteiro Babá e pressionaria até o fim, mas os cruzmaltinos segurariam o resultado para conquistar o título que já estivera tão perto e quase escapara, mas agora iria inapelavelmente para São Januário.

vasco - capa da revista do esporte

O bom futebol mostrado naquela reta final da campanha vitoriosa fez com que o jovem se firmasse no time titular pela temporada 1959, ora como ponta de lança, ora como centroavante, no lugar que era de Vavá. Ainda que o bicampeonato não tenha vindo, Roberto Pinto correspondeu com boas atuações e alguns gols. Quando estes começaram a rarear, no entanto, vieram as primeiras críticas. Seu estilo era bem diferente do perfil rompedor e raçudo do “Peito de Aço”. Mais franzino, Roberto jogava mais com a posse da bola, com toques curtos, num jeito mais malicioso.

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No começo de 1960, seu tio Jair queria leva-lo de qualquer maneira para o Santos, mas o Vasco recusava a liberá-lo. Porém, ao longo da temporada, na qual o clube faria campanha fraca e teria quatro treinadores, o meia começou a ser criticado por torcedores e cartolas. Foi acusado de displicente, de não se esforçar e de prender demais a bola. Sua “punição” foi ser relegado ao time de aspirantes, sendo fundamental na conquista do título carioca daquele ano na categoria – hoje extinta, mas que na época servia de intermediária entre os juvenis (atuais juniores) e os profissionais, além de receber os atletas que não vinham atuando pelo time de cima.

vasco time 1961

Após uma cirurgia no menisco, seria levado de volta ao time titular pelo técnico Martim Francisco, agora numa função mais de criação, na qual se sentia mais à vontade. Retornou na reta final do Torneio Rio-São Paulo de 1961 e chegou a marcar os dois gols na vitória por 2 a 0 diante do Corinthians no Pacaembu, mas sem conseguir levar o título outra vez para a Colina. No segundo semestre, com o antigo ídolo cruzmaltino Eli do Amparo temporariamente no comando, permaneceria no time inclusive balançando as redes. Mas com a chegada de Paulo Amaral, iria para o banco, de onde seria resgatado às pressas devido à piora no rendimento da equipe. Mas era tarde demais para tentar alcançar o Botafogo na liderança mais do que isolada, e que acabaria em título.

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Naquele início dos anos 60 o Vasco vivia momento bastante atribulado, de crise técnica e financeira. O time que vencera o Supersuper em 1958 já vinha sendo desmanchado, com jogadores envelhecendo ou sendo negociados. Além disso, faltava ao clube a estabilidade e a tranquilidade para que as gerações mais novas se firmassem. É nesse contexto que, após o Torneio Rio-São Paulo de 1962, no qual os cruzmaltinos não conseguiram se classificar para o quadrangular decisivo, Roberto Pinto acabaria deixando o clube, com o estigma de promessa não concretizada.

Reinventado no Bangu, mas sem títulos

Seu destino seria o Bangu, em troca por um jovem e promissor ponteiro alvirrubro chamado Tiriça. Mas dentro de pouco tempo era nítido quem tinha levado a melhor na troca: Tiriça pouco fez em São Januário, enquanto Roberto Pinto se firmaria como titular no clube da Zona Oeste. Disputou todos os jogos do time no Carioca de 1962, ainda que a equipe treinada por Gradim não tivesse feito campanha notável, terminando em quinto, bem longe da briga pelo título. No ano seguinte, porém, com Tim no comando, os alvirrubros brilhariam na competição. E o meia teria papel fundamental naquele ótimo desempenho, dentro do novo esquema, que seria apelidado de “Raposa” pelo cronista Jacinto de Thormes.

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O time se fechava fazendo um forte bloqueio no setor de meio-campo, deixando à frente, bem abertos, os pontas Paulo Borges e Mateus. Quando a bola era recuperada, era passada imediatamente para Roberto Pinto, que atuava bem recuado, logo à frente da área, e municiava os ponteiros com lançamentos precisos para que eles avançassem em velocidade na diagonal às costas da defesa para finalizar ou servir a dupla do miolo do ataque, Bianchini e Parada. Assim, o Bangu terminou com o melhor ataque da competição (58 gols em 24 jogos), mas o título acabaria escapando na reta final.

bangu - com zózimo

Faltando quatro rodadas para o fim da competição, o Bangu liderava isolado, três pontos à frente da dupla Fla-Flu. Mas começou a desmoronar após perder para o Flamengo por 3 a 1. Depois de um empate em 2 a 2 com o America, veio nova derrota – esta decisiva para o fim das esperanças de título – para o Fluminense também por 3 a 1. E na última rodada, tricolores e rubro-negros decidiriam o campeonato no jogo que entraria para a história como o maior público de partidas entre clubes do futebol brasileiro. Como era comum acontecer nessas ocasiões no futebol brasileiro da época, alguém precisava ser apontado como culpado pela derrocada alvirrubra. Tim acusou o meia de “vedetismo” e também responsabilizou o bicampeão mundial Zózimo pela queda de rendimento.

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Ambos foram afastados temporariamente. Roberto Pinto seria excluído de uma excursão do clube pela Argentina, Uruguai e Peru no início do ano seguinte, mas não demoraria a reconquistar a titularidade quando da saída do treinador. Com o Bangu ainda buscando reencontrar seu jogo, o time e o meia fizeram um Torneio Rio-São Paulo discreto, assim como o primeiro turno do Campeonato Carioca. No returno, porém, o Bangu reagiu de maneira espetacular. Nem mesmo uma troca inesperada de técnicos (Martim Francisco, velho conhecido do meia, deixou o cargo, substituído por Plácido Monsores) freou a excelente campanha de nove vitórias e três empates nos 12 jogos.

A campanha teve um certo sabor de vingança para Roberto Pinto, que marcou os dois gols do Bangu – um deles, de cabeça, do alto de seu 1,65 m – no empate em 2 a 2 com o Vasco em São Januário. Os alvirrubros terminaram empatados na liderança com o Fluminense, e foi necessária uma decisão em dois jogos para apontar o campeão. No primeiro jogo, os tricolores venceram por 1 a 0, gol de pênalti de Amoroso. No segundo, Bianchini abriu o placar na etapa inicial e recolocou os banguenses no páreo. Mas o Flu virou para 3 a 1 no segundo tempo e levou a taça.

bangu ataque 1964

Preterido para a disputa do Torneio Rio-São Paulo do ano seguinte, restou ao Bangu excursionar pelo país enquanto se preparava para novamente brigar pelo título estadual. Roberto Pinto seria titular absoluto na equipe dirigida pelo velho ídolo banguense Zizinho e que, durante a competição, seria apontada como a grande favorita ao título, mas outra vez tropeçaria nos momentos mais impróprios da reta final e assistiria ao Flamengo entrar já campeão na última rodada. Em abril de 1966, após o Torneio Rio-São Paulo, o meia deixaria o Bangu – que, ironicamente, ao fim daquele ano finalmente conquistaria o Carioca após bater na trave nos três anos anteriores – seguindo para o Fluminense.

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Logo ao chegar às Laranjeiras, onde reencontraria Tim, integrou a equipe titular na primeira conquista tricolor da Taça Guanabara – na época um torneio separado do Carioca, disputado em agosto e setembro daquele ano. Ficou de fora, entretanto, justamente da partida decisiva, um jogo extra com o Flamengo, vencido por 3 a 1. Porém o time não aproveitou o embalo, fazendo campanhas discretas tanto no Carioca de 1966 quanto no Torneio Roberto Gomes Pedrosa disputado no começo do ano seguinte.

Recomeçando no interior paulista

Dispensado e tido como decadente, Roberto Pinto sairia pela primeira vez do Rio, com destino ao interior paulista, onde também deixaria seu nome marcado. A primeira parada seria em Ribeirão Preto, vestindo a camisa de outro tricolor, o Botafogo. Nas duas temporadas, o meia ajudou a Pantera a escapar do rebaixamento, com destaque para a segunda, na qual a equipe engrenou uma sequência de sete jogos sem perder na reta final, iniciada por uma vitória de 2 a 1 diante do Guarani com um gol seu.

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De Ribeirão Preto iria para Campinas contratado pela Ponte Preta, fazendo a equipe alçar voos antes inimagináveis. Quando chegou, em 1969, a Macaca disputava a segunda divisão do futebol paulista e tentava há quase dez anos retornar à elite. O acesso veio logo na primeira temporada, com campanha brilhante (um empate e uma derrota em 15 partidas). O passo seguinte foi conquistar uma das vagas do torneio classificatório para a fase final do Paulistão de 1970, no qual também teve sucesso.

ponte preta 1970

O time campineiro era dirigido por Cilinho, famoso por preferir trabalhar com jogadores jovens, mas que não abriu mão da experiência de Roberto Pinto, 33 anos completados durante aquela temporada. Valeu a pena. Com sua experiência, malícia e a precisão nos passes e lançamentos, o meia brilhou e fez brilhar outros jovens talentos, como Teodoro, Dicá e Manfrini. “No Brasil, há Pelé e Tostão. O resto é japonês: tudo igual. E além deles só há três jogadores que decidem partidas: Gerson, Rivelino e Roberto Pinto”, dizia o treinador do clube campineiro.

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A Macaca foi a sensação não só do Paulistão mas entre todos os estaduais no país naquele ano. Chegou a liderar invicta por várias rodadas. No primeiro turno venceu o Santos em plena Vila Belmiro, arrancou empates com Corinthians e Palmeiras na capital, bateu o eterno rival Guarani e só perdeu o fôlego na reta final do returno, superada pelo São Paulo. Mesmo assim acabou num honroso vice-campeonato, empatada em pontos com a Academia palmeirense.

A grande campanha – juntamente com as fabulosas rendas obtidas no Moisés Lucarelli – motivou o convite para participar do Torneio Roberto Gomes Pedrosa naquele ano, no lugar da Portuguesa. A campanha não foi tão boa em termos de resultados, mas a equipe manteve a boa impressão no resto do país. Roberto Pinto, porém, não continuaria. Alegando que sua esposa não se adaptara ao clima de Campinas, pediu para retornar ao Rio no começo do ano seguinte. Lá, seu tio Jair lhe esperava com outra missão semelhante.

No milagre do Olaria: jogador, técnico, líder

Presidido pelo rico empresário Álvaro da Costa Mello, o Olaria era um clube ambicioso no começo daquela década. Conseguindo por empréstimo jogadores dos grandes clubes de Rio e São Paulo e pagando gordos “bichos” por bons resultados, buscava assumir o lugar do Bangu (então amargando declínio) como a grande força futebolística do subúrbio carioca. Em 1970, já havia aparecido bem no Campeonato Carioca sob o comando de Paulinho de Almeida, revelando alguns bons jogadores, como o zagueiro Miguel e o lateral Alfinete. Contava também, a princípio por empréstimo e depois em caráter definitivo, com o brilhante futebol do meia Afonsinho, vindo do Botafogo.

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E foi justamente para fazer com que o garoto barbudo que estudava Medicina tivesse alguém com quem dialogar na meia-cancha do clube da Leopoldina que o novo treinador Jair Rosa Pinto prontamente indicou seu sobrinho. Estava formada uma das mais talentosas duplas de meio-campo em atividade no futebol carioca daquele tempo. Afonsinho conduzia a bola, “limpava” os marcadores, articulava jogadas e passava com muita inteligência. Roberto Pinto protegia a frente da área, catimbava, distribuía o jogo e, nos contra-ataques, lançava magistralmente os velozes atacantes alvianis.

Com eles, o Olaria cumpriu no Carioca de 1971 campanha tão histórica quanto a da Ponte no Paulistão de 1970. A equipe terminou na terceira posição, apenas quatro pontos atrás do campeão Fluminense e com a defesa menos vazada, depois de sustentar uma invencibilidade de dez jogos (seis deles contra os grandes da época) até a metade da competição. Não foi o suficiente, porém, para merecer da CBD um convite para disputar o Campeonato Brasileiro. Mas ajudou a angariar respeito e simpatia pelo clube.

olaria 1971

No ano seguinte, depois de o Olaria ter negociado vários de seus destaques e feito uma aposta arriscada em veteranos como Garrincha (então já no ocaso de sua carreira), Roberto Pinto viveria uma nova experiência, acumulando as funções de jogador e técnico do time. Embora em princípio o meia entendesse a dupla tarefa apenas como provisória, os bons resultados e o apoio do time e da diretoria o convenceram a ficar.

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Mesmo com o velho Mané longe da boa forma e com o patrono Álvaro da Costa Mello temporariamente afastado do clube, Roberto Pinto levaria o Olaria a um bom sexto lugar no Carioca, atrás apenas dos grandes. Mas, de novo, não havia espaço para o clube bariri no Brasileiro. Para escapar da inatividade, retornou rapidamente ao interior paulista cedido ao Marília, onde também acumulou funções, mas não teve sucesso no “Paulistinha”, o torneio classificatório para o estadual do ano seguinte.

Em 1973, com dois anos de atraso, finalmente veio o convite da CBD. De início, o time – agora novamente dirigido por Paulinho de Almeida – não pôde contar com Roberto Pinto, lesionado. Depois de um mês longe dos gramados, ele retornou em forma excepcional, mesmo ostentando, aos 36 anos, a marca de jogador mais velho em atividade na competição. Levou o Olaria a uma incrível – embora tardia – reação no campeonato.

Em sua reestreia, comandaria uma vitória por 2 a 0 diante do Atlético-PR em Curitiba. Mais tarde, venceria o Santos na Vila Belmiro, o Vasco em São Januário, o Remo em Belém e o América em Natal, além de Fluminense e America do Rio no Maracanã. Arrancaria ainda bons empates com Atlético-MG, Náutico e Figueirense, sempre como visitante. Infelizmente, a péssima campanha do início – quando o franzino e experiente meia estava de fora – pesou para que o time alvianil não ficasse entre os 20 classificados.

Olaria 1971 - Roberto Pinto Jair Álvaro Melo e Afonsinho

Por outro lado, para se ter uma ideia da bola que jogou naquele torneio, quando da desclassificação do clube o meia ocupava o topo da lista da “Bola de Prata” da revista Placar para a posição de meia-armador, ao lado de Rivelino e à frente de nomes como Pedro Rocha e Ademir da Guia. Mas como não podia mais completar o número mínimo de 25 jogos, acabou excluído do prêmio. Na mesma época, Nelson Rodrigues escreveu em sua coluna no Jornal dos Sports: “A bola é maravilhosamente dócil ao seu toque. (…) Eu diria que Roberto tem 36 anos de idade e seis mil anos de sabedoria futebolística”.

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Depois dos 30 anos, com a chegada da maturidade, brilhando pela Ponte e pelo Olaria, Roberto Pinto finalmente recebia a consagração tardia por parte da imprensa e dos torcedores. Continuava mostrando seu jogo refinado, que norteava as ações ofensivas e defensivas dos times nos quais atuava. Mas já havia enterrado de vez as acusações de lentidão ou de máscara. Agora era bem melhor compreendido. “Amigo, a bola não tem fogo. Quem diz que a bola queima é porque a trata na base do bico. E no bico não dá pé”, repetia, ao defender seu estilo sempre clássico.

Novamente incluído no Brasileiro no ano seguinte, o Olaria fez campanha mais discreta, embora beliscasse alguns pontos dos rivais cariocas (venceu o Flu e empatou com Fla, Vasco e Bota). No segundo semestre, porém, a campanha no Estadual seria decepcionante, com o Alvianil terminando na penúltima colocação da Taça Guanabara, com oito derrotas e apenas cinco pontos ganhos em 11 jogos, e sendo eliminado dos dois turnos restantes. Com o clube em declínio técnico e financeiro, agravado com o afastamento definitivo do patrono Álvaro da Costa Mello, Roberto Pinto preferiu não aceitar um novo contrato e decidiu pendurar de vez as chuteiras no início de 1975, aos 37 anos.

Não conseguiu, porém, ficar muito tempo longe da bola: logo em seguida acertou com o Americano de Campos, mas agora só como técnico. Com o tempo, retornaria na mesma função a três dos clubes pelos quais havia passado como jogador: primeiro ao Vasco, nas categorias de base e como auxiliar técnico. Mais tarde ao Olaria, no Estadual de 1984. E depois ao Fluminense, no maior desafio de sua carreira de treinador, dirigindo o Tricolor no Campeonato Brasileiro e na Taça Libertadores da América em 1985. No fim de novembro de 1998, sofreu um acidente de carro em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Dias depois, não resistiu aos ferimentos e faleceu aos 61 anos.