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O título não foi necessário para que a Copa de 2006 se perpetuasse no imaginário do torcedor alemão. Um certo orgulho rodeou o Mundial, que serviu para renovar a imagem da Alemanha ao redor do mundo – e não apenas dentro de campo. O país ganhou uma ótima oportunidade para se mostrar aberto e receptivo, assim como aproveitou o clima festivo para promover uma integração maior da identidade nacional. O ápice da comunhão popular, de qualquer maneira, se materializou com a Mannschaft. Era uma equipe envolvente e cheia de energia, que quebrava os próprios padrões do futebol local. O terceiro lugar não interrompeu a festa. E a face do mês mágico, incontornavelmente, acabava representada pelo treinador Jürgen Klinsmann.

Havia um certo sebastianismo ao redor de Klinsmann naquele momento. Como atacante, o veterano havia encabeçado os últimos momentos de glória da Alemanha. Em meio à reunificação do país, foi um dos craques que protagonizou o tricampeonato mundial em 1990. Já em 1996, tornou-se o capitão a erguer o troféu da Eurocopa dentro de Wembley. Apesar de intempestivo, era um ídolo na melhor acepção das palavras. E, como treinador da Alemanha, embora tenha chegado de repente após o fracasso na Euro 2004, liderou toda a verve do Nationalelf durante a Copa de 2006.

Olhando do presente, bem se nota como o Mundial de 2006 serviu de marco inicial a uma nova glória da Mannschaft. A seleção precisou aprender com os erros e curar as feridas, mas o desfecho daquela geração forjada por Klinsmann culminou no tetracampeonato em 2014. Até por isso, com o tempo, a imagem de 2006 como o começo de um processo se solidificou. O mesmo não dá para dizer sobre Klinsi. O velho ídolo, na realidade, hoje parece muito mais ter caído de paraquedas no lugar certo. Sem dúvidas sua história e sua intensidade contribuíram na campanha rumo às semifinais de 2006. Porém, o técnico promissor nunca desabrochou como se previu após aquele impacto inicial.

A personalidade de Klinsmann, era sabido, serviria de obstáculo ao seu desenvolvimento como treinador. Os atritos ficaram evidentes logo em sua primeira experiência na Bundesliga, com os meses frustrados à frente do Bayern de Munique. Depois, na seleção americana, com carta branca dos dirigentes, o alemão terminou um tanto quanto protegido das instabilidades. Teve seus instantes de brilho, como na Copa de 2014, mas também não criou um processo duradouro, que fracassou rumo a 2018. Por fim, bastou se expor um pouco mais no Hertha Berlim para que seus sentimentos aflorados minassem outra vez a trajetória.

Em teoria, Klinsmann se mudou ao Hertha para ocupar uma posição acima do futebol. O veterano tinha ligações intrínsecas com o clube berlinense, do qual o pai é torcedor e no qual o filho atuou. Abraçou um projeto no qual faria parte do conselho administrativo, mergulhando nas transformações oferecidas pelo empresário Lars Windhorst – que virou novo dono de 49,9% das ações alviazuis e injetou milhões nos cofres. Klinsi exerceria basicamente um cargo de conselheiro, no qual aplicaria sua tarimba para conduzir as ambições do magnata (sem muito trato com o esporte) em formar uma potência na capital.

A princípio, o novo emprego era ótimo a Klinsmann. Pouparia-se do desgaste cotidiano com o time de futebol, teria poder de decisão em questões administrativas mais amplas e talvez se alçasse como um salvador da pátria ao Hertha Berlim, caso os planos realmente vingassem. Uma mudança no percurso, todavia, recolocou Klinsi à beira do campo. O desempenho da equipe não vinha bem, os berlinenses se aproximavam da zona de rebaixamento e escolha de Ante Covic como treinador, após anos nas categorias formativas, não se mostrou a mais acertada. “Por que não chamar Klinsmann para o lugar?”, pensou o novo acionista majoritário. Mas o convite de Windhorst, no fim das contas, abriu uma caixa de pandora.

Não que Klinsmann tenha ido mal neste período. Conseguiu afastar um pouco o Hertha Berlim da zona de rebaixamento, com um bom início à frente do time, ainda que o nível do futebol apresentado não satisfizesse. Também pôde agir de maneira mais direta na montagem do elenco e fez o dinheiro de Windhorst pesar, em uma abastada janela de transferências. Que brigar pelas competições europeias parecesse um objetivo distante aos alviazuis neste momento, dava muito bem para aproveitar os próximos meses na formação do time – com a chegada de Santiago Ascacíbar, Krzysztof Piatek e Matheus Cunha. No entanto, o médio prazo se encurtou rapidamente. A experiência de Klinsi não duraria mais que 76 dias.

O gênio de Klinsmann, é lógico, criou seus atritos. Sua gestão era bastante agressiva e parte da administração não aprovou os investimentos altíssimos feitos neste inverno, torrando parte do orçamento previsto por Windhorst – como relata Raphael Honigstein, em artigo ao site The Athletic. Dentro do próprio elenco, alguns jogadores se sentiram desprestigiados e escanteados, logo manifestando o desejo de uma transferência. Salomon Kalou bradou contra o desrespeito à sua história, enquanto o prodígio Arne Maier temia pela falta de chances em meio aos reforços badalados. Klinsi torceria o nariz ao próprio Windhorst. Durante a intertemporada na Flórida, segundo a imprensa alemã, o convite do empresário para que os jogadores conhecessem seu iate desagradou o treinador.

Klinsmann também era acusado de protecionismo. Durante as negociações de seu contrato como treinador, tentou incluir a volta de seu filho Jonathan ao elenco – algo barrado pelo presidente. O jovem goleiro deixara o Hertha no início da temporada, rumo ao St. Gallen, após conflitos com o preparador de goleiros Zsolt Petry. Como consequência, um dos primeiros atos de Klinsi em sua efetivação como técnico foi justamente se vingar e demitir Petry de seu posto. Ele quebrava a hierarquia da agremiação, na qual muitos dos funcionários seguiam em suas funções mesmo com as mudanças no comando. E, diante de tantas tensões, uma semana ruim dentro de campo serviu para que tudo estourasse.

Se a Copa da Alemanha era o objetivo mais palpável ao Hertha Berlim em 2019/20, o clube naufragou logo na retomada da competição. Após abrir dois gols de vantagem em Gelsenkirchen, permitiu a virada do Schalke 04 na prorrogação. Não seria uma noite fácil aos berlinenses, também pelas manifestações racistas contra o zagueiro Jordan Torunarigha. E, com o time ainda sentindo o baque, o Mainz 05 se aproveitou na Bundesliga dias depois. A vitória dos alvirrubros por 3 a 1 no Estádio Olímpico de Berlim, durante o sábado seguinte, tornou os temores pelo rebaixamento novamente incômodos. Klinsmann, de qualquer maneira, atribuiu a queda de rendimento ao desgaste físico e mental após o ocorrido na Veltins Arena.

O anúncio da saída de Klinsmann, na terça-feira da semana passada, seria dramático – nada muito surpreendente ao seu gênio intempestivo. Quem seria pega de surpresa foi a própria diretoria, que não sabia de nada. Se desde o início de seu trabalho o treinador estabeleceu diálogo com os torcedores através de vídeos no Facebook, foi assim que ele também anunciou sua despedida, com ares de dramalhão mexicano e sem nem conversar internamente. O ambiente podia não estar dos melhores, mas estourar uma bomba repentina fez com que Klinsi piorasse ainda mais as coisas.

No fim, Klinsmann achou que poderia retomar seu cargo anterior no conselho, que estaria tudo bem. Passou o bastão ao auxiliar Alexander Nouri, com experiência prévia na Bundesliga, e voltaria a observar os jogos de seu camarote. Windhorst, em contrapartida, não aceitaria tão fácil a situação. Sem mais uma relação de confiança, o empresário preferiu romper o contrato com o ex-treinador e demiti-lo. E, com sua dose de razão, também criticou publicamente o impulsivo funcionário. “Foi inaceitável. Acho que explodiu um fusível em sua mente. Isso pode acontecer se você é adolescente, mas não deveria ocorrer no mundo dos negócios, quando sérios acordos entre adultos estão em vigor”, afirmou, em coletiva ao lado do diretor de futebol e do presidente do Hertha – dois que se opuseram aos desmandos de Klinsi nestes 76 dias.

O Hertha Berlim vai bem, na medida do possível, mesmo perdendo um patrocinador por conta do imbróglio. Após a saída de Klinsmann, o time deu sua resposta em campo e derrotou o Paderborn por 2 a 1, fora de casa. O jogo difícil contra o adversário fácil ao menos serviu para demarcar a importância dos novos contratados, com influência direta de Matheus Cunha e Ascacíbar no resultado. É bem possível que Nouri consiga gerir melhor o elenco, sem tantos choques desnecessários. Não à toa, o próprio Zsolt Petry acabou levado de volta à preparação de goleiros. Conduzir a manutenção dos berlinenses na elite, a nove pontos da zona de rebaixamento, não parece uma missão complicada. Mais difícil será mesmo preparar a transição a um projeto que pretende se firmar na Champions League.

As dúvidas sobre quem seria o treinador do Hertha durante a próxima temporada já existiam com Klinsmann. Até por isso, o comandante se incomodou e preferiu sair de cena. Não sentia-se confortável na posição de interino e, já que era para retornar à beira do campo, queria um contrato mais longo. Também pedia poderes mais amplos, sem responder a um diretor de futebol, e um salário astronômico. Todavia, seus superiores preferiram colocar um freio e tratar o segundo turno da Bundesliga como um mero período probatório. Na linha tênue entre seguir na casamata ou voltar à mesa do conselho, Klinsi preferiu explodir e ficar sem emprego. Leva o Hertha a também pensar o tamanho de seus passos.

E, enquanto o clube vê um longo caminho para se acertar, Klinsmann talvez tenha colocado um ponto final em sua carreira como treinador. Difícil encontrar outro clube tradicional ou mesmo uma seleção de primeira linha que se entregue aos humores do alemão. Os resultados não o bancam, assim como suas melhores histórias já ficaram para trás faz tempo. A passagem pelo Hertha indica uma dor de cabeça quase certa à presidência que o contratar – mas sem qualquer garantia de resultados. Não vale a pena. Em Berlim, ele tentou se colocar como alguém acima da própria instituição.

Aos 55 anos, Klinsmann deveria desfrutar de sua história no futebol em outras posições. As lembranças do craque em campo se preservam. Da mesma forma, com o passar dos anos, o carinho pelo que aconteceu em 2006 deve perdurar. Mas a construção de relações interpessoais, definitivamente, não é mais para o veterano. Está na hora de admitir que, a ele, o futuro promissor apontado no Mundial da Alemanha não se concretizou. Das decepções como técnico, sem dúvidas, a vivenciada no Hertha é a que mais prejudicou a própria imagem da lenda. As críticas praticamente unânimes na Alemanha à sua postura enfatizam como o passado já não oferece qualquer blindagem a Klinsmann.