O sorteio da Copa de 1970 guardou um confronto digno de final logo para a segunda rodada. O Brasil tinha a sua constelação que em semanas se consagraria com o tricampeonato mundial. Porém, enfrentaria a Inglaterra, então dona da Taça Jules Rimet, ainda repleta dos vencedores de quatro anos antes em seu elenco. O jogo no Estádio Jalisco foi acirrado. E, apesar da grande partida defensiva dos ingleses, a genialidade de Tostão quebrou a muralha adversária para garantir o gol de Jairzinho, aos 14 minutos do segundo tempo. Era a vírgula na atuação praticamente perfeita de Bobby Moore até ali. Cabeça erguida, o elegante zagueiro parava o Brasil na bola. Não à toa, era elogiado por Pelé como o maior marcador que enfrentou.

Aquela partida serve de resumo para a classe de Bobby Moore, embora a derrota não seja condizente com a carreira brilhante do defensor. Se é considerado por muitos como o maior jogador inglês de todos os tempos, as credenciais do veterano se justificam, especialmente com a seleção. Moore disputou três Copas do Mundo e 108 jogos pela equipe nacional. Símbolo de liderança, vestiu a braçadeira de capitão pela primeira vez aos 22 anos. E teve o seu ápice com ela justamente ao receber a Jules Rimet em 1966, após a contestada vitória sobre a Alemanha Ocidental na decisão em Wembley. Quatro anos depois, as boas atuações no México o levaram a terminar a votação da Bola de Ouro em segundo, atrás apenas do artilheiro Gerd Müller. Máximo respeito por sua efetividade em campo.

Absoluto na Inglaterra, Bobby Moore também surge como o maior ídolo da história do West Ham. Criado na base dos Hammers, o zagueiro atuou por 16 temporadas na equipe principal. Conquistou uma Copa da Inglaterra, uma Recopa Europeia e a International Soccer League – notável torneio com clubes europeus e sul-americanos realizado nos Estados Unidos durante a década de 1960. As glórias até podem não ter sido muito numerosas. Mas a representatividade do capitão dentro de campo é inquestionável. Somou 642 partidas pelo clube londrino, antes de se despedir da torcida, em 1974. Depois disso, ganhou uma estátua nos arredores Upton Park com os outros jogadores da equipe campeões em 1966, assim como batiza um dos setores das arquibancadas do estádio. Sua camisa 6 está imortalizada.

O final de carreira pode não ter sido muito pródigo com Bobby Moore. Durante as Eliminatórias da Copa de 1974, a má atuação fora de casa contra a Polônia acabou responsabilizada como uma das razões para a ausência naquele Mundial. Depois, passou quatro temporadas na segunda divisão, defendendo o Fulham. Ainda tentaria a sorte na NASL, vestindo as camisas de San Antonio Thunder e Seattle Sounders, até pendurar as chuteiras em 1978. Quando voltou à Inglaterra, a reverência ao capitão permanecia intacta.

Em um país que costuma valorizar tanto as suas tradições, Bobby Moore servia de emblema. A lealdade dentro de campo era exemplo, especialmente por não recorrer à violência para intimidar os atacantes adversários. Trazia consigo as principais qualidades para um zagueiro, especialmente pelo tempo de bola. Só que não se limitava a isso, ajudando na saída de bola com muita precisão. Isso quando também não resolvia se lançar ao ataque com potência, ameaçando com a bomba de direita. Justo no jogo mais importante de sua vida, a final do Mundial, teve grande papel ofensivo – ao cruzar a bola para o primeiro gol inglês e fazer o lançamento para o tento que fechou a vitória por 4 a 2.

A morte precoce ajudou a eternizá-lo com o status de lenda. Sofrendo com câncer no fígado e no intestino, Bobby Moore faleceu em 1993, aos 51 anos. Recorrentemente ganha homenagens na Inglaterra. Inclusive em Wembley, palco onde se consagrou e figura em uma estátua de bronze para celebrar os campeões de 1966. Nada mais digno.

Vale a lembrança, no dia em que o zagueiro completaria 75 anos: