Texto publicado originalmente em dezembro de 2012

Oscar Niemeyer foi o maior arquiteto do Brasil. Ponto. Pode você gostar ou não das curvas de seus edifícios, pode você gostar ou não da paisagem concretada que ele propunha, pode você gostar ou não do urbanismo de Brasília – é obra do Lúcio Costa, mas muita gente acha que é do Oscar. Eu mesmo estou entre os que contestam alguns de seus trabalhos (sim, o Memorial da América Latina me passa pela cabeça nessa hora), mas ele foi o maior. Isso é um fato. Niemeyer foi o mais importante, influente e conhecido. E, para o bem do futebol, isso não pesou na escolha do projeto do Maracanã.

Em 1947, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que construiria um grande estádio em uma área inicialmente destinada a um hipódromo. Foi aberto um concurso, e Oscar Niemeyer apresentou o seu projeto. Mas perdeu para o de Miguel Feldman, Waldir Ramos, Raphael Galvão, Oscar Valdetaro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Antônio Dias Carneiro. Ainda bem.

O projeto de Niemeyer carregava sua personalidade. A cobertura era uma grande superfície de concreto lisa e branca, com curvas desenhadas para dar um sentido fluido e sensual. Outro elemento que saltava aos olhos era o grande arco, que ajudava a sustentar a parte mais pesada da cobertura por meio de tirantes. Veja abaixo.

É bonito e chamativo. E, batendo o olho, lembra o novo Wembley. Até o jornal Daily Mail percebeu tal semelhança, mas o arquiteto inglês Norman Foster (um dos mais importantes da atualidade) negou ter usado o Maracanã de Niemeyer como inspiração: “Apesar de o arco parecer superficialmente similar, há diferenças significativas entre o projeto de Wembley e os esboços de Niemeyer”. O brasileiro concordou, disse que a semelhança não o incomodava e que provavelmente se trataria de uma coincidência.

Pode ser. Um grande arco com tirantes para sustentar uma estrutura não chega a ser a uma solução arquitetônica inédita. E, de fato, a concepção é bem diferente em um aspecto: o modo de dispor o público em volta do gramado.

 

O grande pecado do projeto de Niemeyer era prever arquibancada apenas em uma lateral do campo e atrás dos gols. A outra lateral seria reservada para a tribuna. Na sociedade da época, fazia sentido dar tanto espaço para autoridades e convidados VIPs. Hoje, a ideia seria considerada elitista, além de inutilizar uma área que teria excelente visão do campo.

Niemeyer sabia disso. E reconhecia. Em entrevista a Geneton Moraes Neto em 2004, o arquiteto falou sobre sua proposta de Maracanã: “O meu estádio seria pior. Naquele tempo, a ideia que tínhamos de arquitetura de estádio de futebol era fazer uma única arquibancada do lado em que o sol não batesse na cara do espectador. Depois, ao começar a frequentar estádios, vi como era importante existir arquibancada também do outro lado. O sujeito vê o campo, vê o jogo, mas precisa ver também a alegria do estádio! Então, um estádio circular, como o Maracanã, é a solução melhor.”

Hoje, o comentário do arquiteto parece óbvio. Mas é notável como ele identificou o problema filosófico de seu projeto, algo que nem todo arquiteto faz (arquitetos, não fiquem bravos comigo! Reconheço que jornalistas têm o mesmo defeito). Ele ainda contou a Geneton que seu Maracanã esteve realmente perto de ganhar o concurso. “Passaram-se alguns anos, eu estava na casa de Maria Martins, em Petrópolis, quando chegou Getúlio Vargas, a quem eu nunca tinha encontrado. O Getúlio olhou para mim e disse: ‘Se eu tivesse ficado no governo, teria feito o seu estádio’. Tive vontade de dizer: ‘Era ruim. O outro projeto era melhor’.”

Bom para o futebol. O Maracanã se tornou um símbolo do Rio de Janeiro pelo modo como integra o jogador com o público mesmo sem deixar de ser gigante. Suas arquibancadas ovais se tornaram parâmetro para futuros estádios brasileiros, como Mineirão, Morumbi, Castelão e Fonte Nova.

Se a vontade de Getúlio prevalecesse, talvez esses estádios tivessem arquibancadas só de um lado e arcos metálicos. E alguém lembraria o estádio de Niemeyer para criticar seu trabalho neste momento de retrospectiva. Uma crítica com a qual ele mesmo concordaria.