A Copa do Mundo de 1978 possui uma história cercada de controvérsias. O que não se contesta é o posto de Ubaldo Fillol como protagonista do título inédito da Argentina. Beneficiada ou não, a Albiceleste precisou contar com um goleiraço para garantir vários triunfos, especialmente na reta final da competição. Se a goleada contra o Peru nem precisava de arqueiro, El Pato operou diversos milagres nos embates decisivos contra Brasil e Polônia no mesmo quadrangular semifinal, além de sair como um dos melhores em campo na decisão contra a Holanda. Foi o apogeu daquele que é considerado por muitos como o melhor goleiro argentino de todos os tempos, e que justificou tal fama no maior dos palcos. Um craque que completou 70 anos nesta terça-feira, com todas as honras.

Fillol combinava todos os predicados que se esperava de um grande goleiro na época. Com uma ótima envergadura e muita agilidade sob os paus, cobria o gol completamente. O arqueiro conseguia se deslocar de uma trave a outra no tempo de um estalo, para executar defesas espetaculares e evitar os gols. Pato também possuía uma excelente impulsão, perceptível em seus arrojados saltos e nas saídas para interceptar os cruzamentos. Além do mais, contava com uma dose de coragem que sempre o permitia correr aos pés dos atacantes e abafá-los na hora do chute, ou até mesmo sair da área para interceptar lançamentos longos.

Por ter jogado na juventude como meio-campista, Fillol apresentava certa habilidade com os pés. Não era tão insano quanto Hugo Gatti, seu grande concorrente na época, para se aventurar além da grande área em todas as horas. Em compensação, o Pato se mostrava imbatível quando o assunto era proteger a pequena área e salvar tentos que pareciam certos. Os milagres fizeram a sua fama, assim como as dezenas de pênaltis que defendeu ao longo de sua carreira. O rapaz de San Miguel del Monte crescia nos maiores momentos e fazia a diferença por seus times. Por isso mesmo, se tornou inesquecível.

Levado ao Quilmes ainda nas categorias de base e revelado pelo clube no Campeonato Argentino, Fillol não viveria grandes momentos com os cerveceros e até amargaria um rebaixamento. Mas foi lá que se projetou para atuar pelo Racing, onde começou a se colocar entre os melhores goleiros do país e ganhou as primeiras convocações à seleção no início dos anos 1970. Pato ficou pouco tempo em Avellaneda, ao aceitar uma proposta feita pelo River Plate em 1973. Não era uma época vitoriosa dos Millonarios, que amargavam seu jejum desde os anos 1950. O arqueiro seria fundamental para transformar esta história.

Como goleiro do River Plate, Fillol disputou sua primeira Copa do Mundo em 1974. Permaneceu na reserva, mas ganhou uma chance de entrar em campo quando a Albiceleste estava eliminada, encarando a Alemanha Oriental na última rodada do quadrangular semifinal. Estava claro que Pato seria o futuro da seleção. E isso ficaria mais evidente pela afirmação em Núñez. Fillol iniciava a escalação de um timaço que passou a enfileirar taças a partir de 1975. Seriam sete títulos do Campeonato Argentino (a maioria semestrais) faturados até 1981. O camisa 1 atravessava a melhor fase de sua carreira e apresentava o auge da forma física.

Não seria isso, porém, que garantiria sua titularidade na seleção da Argentina rumo à Copa do Mundo de 1978. César Luis Menotti tinha dúvidas entre Fillol e Gatti, então ídolo do Boca Juniors. Em teoria, os dois se revezariam, mas um desentendimento de Pato com o treinador o deixou de fora durante toda a preparação. Se havia orgulho do comandante, a forma de Fillol acabaria por quebrá-lo, eleito o melhor jogador em atividade no país em 1977. Seria o pretexto à reconciliação, que se combinaria com uma lesão de Gatti no joelho. Com isso, o titular do River Plate terminaria convocado ao Mundial e tomaria a posição, sem que o boquense sequer aparecesse na lista final. “Cheguei ao grupo com o diálogo rompido com Menotti, mas a seleção está acima dos homens. Focando no objetivo se deu o diálogo que precisávamos ter para esse tipo de empreitada”, contaria Fillol, em 2006, à revista El Gráfico.

Faltava rodagem a Fillol na seleção: antes da Copa de 1978, ele só havia entrado em campo uma vez pelo time principal da Argentina, naquela oportunidade recebida durante o Mundial de 1974. Mas isso não impedia que, nas prévias do torneio, ele fosse apontado como um dos melhores goleiros à disposição e também como um dos principais jogadores da Albiceleste. O que fazia no River Plate falava por si e realmente acabou se refletindo ao longo do certame. Durante a fase de grupos, a participação de Pato foi discreta. Quase saiu do time por lesão, após se chocar com Dominique Bathenay durante a vitória contra a França, e não evitou a derrota para a Itália. Com os anfitriões classificados, o camisa 5 (numerado assim por causa da ordem alfabética vigente) se agigantou na segunda fase.

A vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, na estreia do quadrangular semifinal, teve dois gols do artilheiro Mario Kempes. De qualquer maneira, o triunfo não teria vindo sem Fillol. Durante o primeiro tempo, o goleiro pegou um pênalti fraco cobrado por Kazimierz Deyna sem nem dar rebote. Já no segundo tempo, o camisa 5 voou para buscar uma cobrança de falta de Bohdan Masztaler que tinha endereço certo – em defesa até mais difícil do que a operada no penal. Saía elogiadíssimo antes do embate contra o Brasil.

O clássico sul-americano terminou sem gols. E, na melhor atuação dos brasileiros na Copa, o melhor em campo seria Fillol. O goleiro foi bastante testado pelo ataque canarinho, mas estava impecável naquela noite. Durante o primeiro tempo, realizaria ao menos três boas defesas. Na principal delas, fechou o ângulo de Gil e pegou um chute rasante. Já na segunda etapa faria sua intervenção mais lembrada, crescendo para cima de Roberto Dinamite dentro da área, quando só o goleiro poderia impedir o tento do artilheiro. Pato espalmou fantasticamente e garantiu a igualdade à Albiceleste, restando 15 minutos para o final.

No dia seguinte, o Jornal do Brasil assim avaliaria a atuação de Fillol, colocando-o ao lado de Daniel Passarella como melhores jogadores argentinos: “Um dos principais responsáveis pelo empate. No primeiro tempo, evitou dois gols certos, ao sair com precisão, antecipando-se a Roberto e defendendo com firmeza um chute à queima-roupa de Gil. No segundo, voltou a brilhar, ao mandar para córner uma conclusão de Roberto, totalmente livre pela esquerda. Um goleiro como os melhores da famosa escola argentina”.

A classificação da Argentina à decisão aconteceu graças à infame goleada por 6 a 0 sobre o Peru, quando precisava de uma vitória por quatro gols de diferença para superar o Brasil na tabela do quadrangular. Fillol seria um mero espectador naquela noite, embora os peruanos tivessem assustado com dois lances muito perigosos enquanto o placar estava zerado – inclusive carimbando a trave da Albiceleste. Mas nada que reduzisse toda a controvérsia ao redor daquele placar, construído sobretudo durante o segundo tempo.

A decisão contra a Holanda seria bastante difícil à Argentina. A vitória por 3 a 1 entrou na conta de Fillol. Aos 26 minutos, o goleiro realizou aquela que pode ser considerada a grande defesa de sua carreira. Johnny Rep teve espaço para dominar e soltar um balaço de dentro da área, sem deixar a bola cair. Pato se esticou todo para desviar o tiro com a ponta dos dedos e evitar que os holandeses abrissem o placar. “É a defesa que mais recordo na minha carreira. No estádio do River, na meta que dá para o Rio da Prata. Imaginem: final da Copa do Mundo, com 0 a 0 no marcador. São coisas que acontecem poucas vezes na vida…”, diria.

Kempes deixou a Argentina em vantagem aos 38 minutos. E a Holanda só não empatou, novamente, graças a Fillol. Rob Resenbrink recebeu uma bola na linha da pequena área e chutou de primeira. O goleiro esticou a perna e evitou o tento que parecia certo. Em vez do tradicional “Argentina, Argentina”, os gritos nas arquibancadas do Monumental de Núñez eram de “Fillol, Fillol” durante a saída ao intervalo.

Na segunda etapa, a Holanda finalmente venceu Fillol, depois de algumas defesas seguras. A igualdade saiu aos 37, com o substituto Dick Nanninga, em cabeçada firme que não deu qualquer chance ao Pato. E o bom goleiro também teria sua dose de sorte aos 45 minutos. Quando Resenbrink passou livre pela esquerda, o arqueiro tentou abafá-lo, mas não chegou a tempo. Viu apenas a bola estalar a trave. Com isso, a Argentina ganharia sobrevida na prorrogação. Foi quando se sagrou campeã, com mais um gol de Kempes e outro de Daniel Bertoni. “Depois de Kempes, Fillol foi o grande nome do jogo, fazendo quatro defesas realmente milagrosas. Um dos melhores goleiros do Mundial”, escreveria o Jornal dos Sports.

A conquista da Copa de 1978 seria usada amplamente como propaganda política pela ditadura militar no país. Segundo Fillol, ele não tinha noção da realidade, conforme contaria em entrevista recente à Telefé: “Respeito o que as pessoas pensam ou pensaram de nós, temos orgulho dessa conquista, demos a vida dentro de campo. Mas sentimos também uma grande dor, porque com o tempo nos demos conta que se usou esta conquista maravilhosa para que continuassem sequestrando. Esse é o perdão que queremos pedir às mães e às avós da Plaza de Mayo. Hoje, 40 anos depois, seguimos descobrindo coisas. Fomos todos enganados, os argentinos éramos direitos e humanos. Essa foi a grande mentira que o país comprou”. Em 2018, Pato se encontrou com familiares de desaparecidos para pedir desculpas e dizer que tem vergonha pela felicidade que sentiu em 1978, sem saber da verdade.

Em 1979, o próprio Fillol acabaria ameaçado pelos militares, ao entrar em litígio com o River Plate por conta de salários atrasados. “No meu melhor momento, éramos campeões do mundo. Havia um militar que fazia e desfazia dentro de seu âmbito, e se meteu na discussão do meu contrato com o River. Ele me chamou um dia e primeiro tirou a arma da cintura, colocando sobre a mesa. Depois me disse: ‘Assine o contrato porque, se eu quiser, você desaparece em 30 segundos e não te encontram nunca mais’. Foi em 1979, eu era muito jovem, estava rindo, não tinha medo de nada. Então aconteceu o que aconteceu, caíram os militares, veio a democracia e começamos a aprender o horror que aconteceu. Comecei a ter medo, muito medo”, contaria. Seu pai também seria golpeado na rua em meio a este episódio.

Fillol seria eleito por diversos especialistas como o melhor goleiro da Copa de 1978, inclusive pela Fifa. Receberia a aclamação em todo país, aplaudido até mesmo durante a visita do River Plate à Bombonera para o clássico contra o Boca Juniors. E seguiu como o melhor goleiro argentino, mantendo a titularidade também no Mundial de 1982. Apesar de todas as expectativas sobre a Albiceleste, com a ascensão de Maradona, não seria uma boa campanha do time. O Brasil se vingaria na segunda fase, muito embora a classificação no triangular tenha ficado com a Itália. Fillol não evitaria o estrago, mas teve boas atuações em ambas as partidas, mesmo que não repetisse a forma vista quatro anos antes.

Após deixar o River Plate em 1983, Fillol teve uma rápida passagem pelo Argentinos Juniors e também atuou no Flamengo. Pela seleção, seguiria presente nas Eliminatórias de 1986 e seria importante na sofrida classificação da Albiceleste ao México. Todavia, o então arqueiro do Atlético de Madrid se tornaria uma das ausências mais contestáveis na lista final de Carlos Bilardo rumo ao bicampeonato mundial. Encerraria-se ali a participação do Pato pela equipe nacional, com 56 partidas disputadas e 58 gols sofridos. Nos clubes, em contrapartida, permaneceria em boa forma. Seria campeão na volta ao Racing e encerraria a carreira com belos momentos na meta do Vélez Sarsfield. Chegaria a pegar um pênalti que negaria o título ao River Plate no último jogo de sua carreira, já aos 40 anos.

Fillol seria preparador de goleiros da seleção argentina durante a excelente campanha nas Eliminatórias à Copa de 2002, mas não participaria da frustração no Mundial, ao romper com Marcelo Bielsa. Nada que reduzisse sua aura como uma lenda da Albiceleste. Por clubes, Pato pôde colher a idolatria em vários cantos. Já na equipe nacional, protagonizou uma história inigualável – e que permanece lembrada especialmente pelos milagres que produziu durante o título de 1978.

Como complemento à leitura, fica também a sugestão da homenagem feita pelo amigo Caio Brandão no Futebol Portenho, com mais detalhes da trajetória de Fillol pelos clubes.